XLIX

A malvadez com que o Consul Cepio procedia contra as povoações inermes,

chegando a mandar expôr nas praças pregados em cruzes os lusitanos que

lembravam o Tratado da Paz violada, fez reflectir Viriatho, forçando-o a

um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros:

--Aos estragos que Cepio está praticando, não sendo possivel oppôr-lhe

já uma força armada, que ainda leva seu tempo a reunir, cumpre

oppôr-se-lhe n'este momento a força moral.

--A força moral? Objectou Minouro.--Em que consiste n'este transe a

força moral?

--Quero lembrar a Quinto Servilio Cepio, que temos um Tratado de Paz

assignado por seu irmão Serviliano, e ratificado pelo Senado e pelo

Povo. Que pela nossa parte ainda o não infringimos, e que acreditamos na

fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ella a si se decreta. Que

tres dos meus mais leaes Companheiros vão d'aqui ao acampamento de Cepio

mostrar-lhe o Tratado de Paz, e declarar-lhe que á magestade d'elle

entregamos a nossa defeza.

E voltando-se para Ditálcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam

silenciosos, disse-lhes com voz firme:

--A vós, como os meus maiores e mais leaes amigos, encarrego de irem ao

arraial de Quinto Servilio Cepio appresentar-lhe a respeitosa homenagem

dos Lusitanos; e em seguida ás declarações de confiança no Tratado de

Paz ratificado pelo Senado, mostrae-lhe esse diploma authentico, trocado

entre Roma e a Lusitania.

E entregou as laminas de cobre em que estava gravado o Tratado a

Ditálcon, o mais velho dos tres Companheiros, que partiram rapidos para

o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho,

por servirem de parlamentarios que pediam paz, ou que iam com intenções

pacificas. Os tres companheiros iam conversando:

--Viriatho, com certeza, não sabe quem é Cepio, um dos maiores devassos

de Roma? E é com um sujeito d'estes que Viriatho se fia em força moral!

--O Consul não perde esta occasião; e bem tolo será se a não aproveitar

para vingar seu irmão Serviliano, forçado por Viriatho a assignar esta Paz.

--São passadas perdidas, estas; por que Cepio sabe que não temos gente,

e carrega sobre nós a valer. Oh, se carrega! Nem fôra elle tão estupido

como general para cobrir a sua inepcia com este lance.

--Póde ser que as passadas não sejam perdidas! Porque Cepio é homem para

entrar em negocio...

--Em negocio?

--Ha ás vezes combinações imprevistas, que dão novo rumo aos

acontecimentos.

--E esta occasião é asada para isso.

--O ponto está em sabel-a approveitar habilmente.

O dialogo entrecruzava-se, quando Ditálcon, Andaca e Minouro chegaram ao

acampamento romano. As vedetas e guardas avançadas avisaram de prompto;

Cepio mandou alguns Cavalleiros para acompanharem até á sua barraca os

parlamentarios enviados por Viriatho, imaginando que vinham

annunciar-lhe a rendição do Caudilho lusitano, ou em peior hypothese,

que Viriatho achando esta hostilidade incompativel com a dignidade

militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em

campo aberto. Porém Cepio afastando da mente esta conjectura que não

lisongeava a sua covardia, reflectiu tacitamente:

--Se me apresentarem um tal doésto, recusarei dizendo: Que deixo esses

combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para espectaculo do

povo, sempre ávido de divertimentos.

E mandando entrar á sua presença os tres parlamentarios, divisou-lhes

uma expressão de quem antes de fallar já se entendia.

L

Na ideia em que Cepio os achava, mostrou aos tres parlamentarios um

sorriso de affabilidade, e um trato verdadeiramente urbano:

--Direis a que vindes.

--Envia-nos Viriatho.--Assim começou Ditálcon, o mais velho e

auctorisado dos companheiros.

--Ouvirei attentamente.

--Envia-nos Viriatho a dizer-vos, que tendo recebido da grande e

generosa Roma o titulo extremamente honorifico de Amigo, é-lhe

moralmente impossivel, sem pécha de traição, o pegar em armas contra a

poderosa Republica. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de

estar dissolvido o Exercito lusitano, e ter deposto as armas

confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vós,

vendo como viestes talando a Lusitania, queimando cidades pacificas, e

ainda agora atacaes violentamente os Vettões e Gallaicos, lembra que

existe o Tratado assignado por vosso irmão e ratificado pelo Senado e

pelo Povo romano, no qual está garantida a paz e tranquillidade da

Lusitania. Pedia pois...

Cepio, mal podendo encobrir a colera:

--Não posso ouvir fallar n'esse Tratado _assignado por meu irmão_, sem

que o sangue se me revolva. Perco a cabeça. Ha certas occasiões em que a

honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingança. Esta é uma

das taes.

--Mas, senhor, aqui trazemos o proprio Tratado authentico, para vêres...

Cepio tomou nas mãos o Tratado, olhando-o com desdem, e disse para os

tres com um sorriso acanalhado:

--Quando eu acompanhei á Hespanha o Consul Quinto Pompeu Rufo, que está

combatendo diante de Numancia, não foi para vir tomar os bellos áres da

Lusitania! Esse Tratado nada vale para mim.

--Violaes então a auctoridade da grande e generosa Roma!?

--Quem vos auctorisa a tão monstruosa suspeita?--redarguiu Cepio.

--A letra...

--Qual letra, ou qual careta! volveu Cepio com o seu ár pulha, que

combinava de vez em quando com a philaucia de Consul romano. E com ár

insolente e confiado continuou, affectando segredo de importancia:

--Os Tratados só têm a força que lhes dão as Espadas. Bem vejo que

Viriatho não está bem munido n'este momento, porque me manda lembrar o

Tratado. Mas o Tratado... o Tratado já não existe. Quereis saber? Aqui á

puridade, e só para nós...

Os tres parlamentarios aproximaram-se de Cepio, sentindo-se lisonjeados

pela confidencia que iria fazer-lhes:

--O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmão, assignando esse

Tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente a

faculdade de hostilisar Viriatho, mas sómente hostilisal-o...

Minouro fitava o Consul com o maximo interesse; Ditálcon parecia

abatido, e Andaca meditava. O Consul, olhando para elles, e pondo-lhes

as mãos pelos hombros, continuava:

--Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me, que vem pelo

caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitania.

Quereis vêl-as?

--Basta-nos a vossa palavra! disseram os tres.

--Nem podia deixar de ser assim,--proseguiu Cepio com enfatuado

desdem.--Accusarão os vindouros Roma de desleal nos seus Tratados, mas

nunca de um governo estupido! Pois era lá possivel que sustentassemos

uma guerra desesperada em Numancia, que pertence á primitiva unidade

lusitana, e que estivessemos de mãos atadas na parte occidental da

Hespanha pelo pacto imposto por um cabecilha, que para nós os romanos

nunca deixou de ser o _Dux latronum_!

--Com que, Roma decreta que se continue a Guerra da Lusitania? inquiriu

com assombro Ditálcon.

--Como acabaes de o ouvir.

--A nossa missão parece terminada,--disse Ditálcon, quebrantado o animo.

--Não a considereis terminada,--interrompeu Cepio, tornando a approximar

de si os tres emissarios.--Alguma cousa bem combinada se poderá fazer

ainda, e depende da vossa intelligencia. Quereis a paz da Lusitania?

--Queremos! accudiram os tres.

--A Paz da Lusitania, mas não a Paz de Viriatho! disse o Consul com

orgulho. D'essa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriatho é o unico

embaraço d'ella, e que emquanto elle viver nunca Roma considerará a Paz

da Lusitania senão como uma affrontosa derrota.

--Mas Viriatho é querido do Povo, que o acompanha cegamente.

--É por isso que Viriatho é um perturbador. A sua obra é uma loucura!

Quer fazer uma Lusitania restaurada pela unificação de elementos de

raças ha tantos seculos extinctas, imaginando _Lusonios_, com quem nada

têm as gerações actuaes.

Ditálcon acenou com a cabeça, em signal de adhesão áquella ideia. E o

Consul, vendo que estava sendo comprehendido, voltou-se para Minouro:

--Nós não podemos andar aqui em balanços ao grado dos sonhos de

Viriatho; quer fazer uma Patria Lusitana, com um individualismo e

autonomia propria, quando entre Lusitanos e Iberos não existem

fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios. É tempo de acabar

com estas utopias, tornando a Hespanha uma Iberia unida para acceitar a

civilisação de Roma e continuar no occidente a sua obra dominadora.

Minouro regosijava-se com aquellas vistas do Consul, que eram tambem as

suas. E Cepio, voltando-se para Andaca, e já com ár determinado a quasi

imperativo:

--Para attingir este grande ideal da civilisação romana, do direito, da

administração, da ordem publica, é de força que renegueis a Patria

lusitana.

E como Cepio notava que os tres estavam entre si de accordo, disse para

elles:

--Roma carece das capacidades e energias dos homens de Hespanha. Eu

vol-o garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o titulo de Cidadãos

romanos, e as honras do Patriciado, com accesso aos altos cargos da

Republica, e uma somma correspondente de sestercios, se...

Os tres entreolharam-se, e querendo penetrar nas intenções de Cepio,

comprehenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspensão silenciosa do

Consul:

--Effectivamente, Viriatho está-se tornando um embaraço.

--Quando se chega a certo gráo de popularidade, em dados homens torna-se

isso um perigo.

--Um acto decisivo vale por annos de lucta.

O Consul volveu então com frieza:

--Mantenho as propostas em nome da Republica romana: Impõe-se n'este

momento a necessidade da morte de Viriatho. Roma dá-vos o titulo de

Cidadãos romanos...

--Qual de nós ha-de...

--Dá-vos as honras do Patriciado.

--A morte de Viriatho impõe-se...

--Dá-vos o accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma de

sestercios.

--Tiremos á sorte quem hade matar Viriatho.

O Consul estendeu o seu capacete, lançando dentro d'elle tres pequenos

seixos, sobre um dos quaes escrevera==Morte==. Cada um dos tres tirou a

sua pedra. A Minouro caiu aquella em que estava inscripto: ==Morte.==

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 60 / 81 题