A malvadez com que o Consul Cepio procedia contra as povoações inermes,
chegando a mandar expôr nas praças pregados em cruzes os lusitanos que
lembravam o Tratado da Paz violada, fez reflectir Viriatho, forçando-o a
um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros:
--Aos estragos que Cepio está praticando, não sendo possivel oppôr-lhe
já uma força armada, que ainda leva seu tempo a reunir, cumpre
oppôr-se-lhe n'este momento a força moral.
--A força moral? Objectou Minouro.--Em que consiste n'este transe a
força moral?
--Quero lembrar a Quinto Servilio Cepio, que temos um Tratado de Paz
assignado por seu irmão Serviliano, e ratificado pelo Senado e pelo
Povo. Que pela nossa parte ainda o não infringimos, e que acreditamos na
fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ella a si se decreta. Que
tres dos meus mais leaes Companheiros vão d'aqui ao acampamento de Cepio
mostrar-lhe o Tratado de Paz, e declarar-lhe que á magestade d'elle
entregamos a nossa defeza.
E voltando-se para Ditálcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam
silenciosos, disse-lhes com voz firme:
--A vós, como os meus maiores e mais leaes amigos, encarrego de irem ao
arraial de Quinto Servilio Cepio appresentar-lhe a respeitosa homenagem
dos Lusitanos; e em seguida ás declarações de confiança no Tratado de
Paz ratificado pelo Senado, mostrae-lhe esse diploma authentico, trocado
entre Roma e a Lusitania.
E entregou as laminas de cobre em que estava gravado o Tratado a
Ditálcon, o mais velho dos tres Companheiros, que partiram rapidos para
o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho,
por servirem de parlamentarios que pediam paz, ou que iam com intenções
pacificas. Os tres companheiros iam conversando:
--Viriatho, com certeza, não sabe quem é Cepio, um dos maiores devassos
de Roma? E é com um sujeito d'estes que Viriatho se fia em força moral!
--O Consul não perde esta occasião; e bem tolo será se a não aproveitar
para vingar seu irmão Serviliano, forçado por Viriatho a assignar esta Paz.
--São passadas perdidas, estas; por que Cepio sabe que não temos gente,
e carrega sobre nós a valer. Oh, se carrega! Nem fôra elle tão estupido
como general para cobrir a sua inepcia com este lance.
--Póde ser que as passadas não sejam perdidas! Porque Cepio é homem para
entrar em negocio...
--Em negocio?
--Ha ás vezes combinações imprevistas, que dão novo rumo aos
acontecimentos.
--E esta occasião é asada para isso.
--O ponto está em sabel-a approveitar habilmente.
O dialogo entrecruzava-se, quando Ditálcon, Andaca e Minouro chegaram ao
acampamento romano. As vedetas e guardas avançadas avisaram de prompto;
Cepio mandou alguns Cavalleiros para acompanharem até á sua barraca os
parlamentarios enviados por Viriatho, imaginando que vinham
annunciar-lhe a rendição do Caudilho lusitano, ou em peior hypothese,
que Viriatho achando esta hostilidade incompativel com a dignidade
militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em
campo aberto. Porém Cepio afastando da mente esta conjectura que não
lisongeava a sua covardia, reflectiu tacitamente:
--Se me apresentarem um tal doésto, recusarei dizendo: Que deixo esses
combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para espectaculo do
povo, sempre ávido de divertimentos.
E mandando entrar á sua presença os tres parlamentarios, divisou-lhes
uma expressão de quem antes de fallar já se entendia.
L
Na ideia em que Cepio os achava, mostrou aos tres parlamentarios um
sorriso de affabilidade, e um trato verdadeiramente urbano:
--Direis a que vindes.
--Envia-nos Viriatho.--Assim começou Ditálcon, o mais velho e
auctorisado dos companheiros.
--Ouvirei attentamente.
--Envia-nos Viriatho a dizer-vos, que tendo recebido da grande e
generosa Roma o titulo extremamente honorifico de Amigo, é-lhe
moralmente impossivel, sem pécha de traição, o pegar em armas contra a
poderosa Republica. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de
estar dissolvido o Exercito lusitano, e ter deposto as armas
confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vós,
vendo como viestes talando a Lusitania, queimando cidades pacificas, e
ainda agora atacaes violentamente os Vettões e Gallaicos, lembra que
existe o Tratado assignado por vosso irmão e ratificado pelo Senado e
pelo Povo romano, no qual está garantida a paz e tranquillidade da
Lusitania. Pedia pois...
Cepio, mal podendo encobrir a colera:
--Não posso ouvir fallar n'esse Tratado _assignado por meu irmão_, sem
que o sangue se me revolva. Perco a cabeça. Ha certas occasiões em que a
honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingança. Esta é uma
das taes.
--Mas, senhor, aqui trazemos o proprio Tratado authentico, para vêres...
Cepio tomou nas mãos o Tratado, olhando-o com desdem, e disse para os
tres com um sorriso acanalhado:
--Quando eu acompanhei á Hespanha o Consul Quinto Pompeu Rufo, que está
combatendo diante de Numancia, não foi para vir tomar os bellos áres da
Lusitania! Esse Tratado nada vale para mim.
--Violaes então a auctoridade da grande e generosa Roma!?
--Quem vos auctorisa a tão monstruosa suspeita?--redarguiu Cepio.
--A letra...
--Qual letra, ou qual careta! volveu Cepio com o seu ár pulha, que
combinava de vez em quando com a philaucia de Consul romano. E com ár
insolente e confiado continuou, affectando segredo de importancia:
--Os Tratados só têm a força que lhes dão as Espadas. Bem vejo que
Viriatho não está bem munido n'este momento, porque me manda lembrar o
Tratado. Mas o Tratado... o Tratado já não existe. Quereis saber? Aqui á
puridade, e só para nós...
Os tres parlamentarios aproximaram-se de Cepio, sentindo-se lisonjeados
pela confidencia que iria fazer-lhes:
--O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmão, assignando esse
Tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente a
faculdade de hostilisar Viriatho, mas sómente hostilisal-o...
Minouro fitava o Consul com o maximo interesse; Ditálcon parecia
abatido, e Andaca meditava. O Consul, olhando para elles, e pondo-lhes
as mãos pelos hombros, continuava:
--Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me, que vem pelo
caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitania.
Quereis vêl-as?
--Basta-nos a vossa palavra! disseram os tres.
--Nem podia deixar de ser assim,--proseguiu Cepio com enfatuado
desdem.--Accusarão os vindouros Roma de desleal nos seus Tratados, mas
nunca de um governo estupido! Pois era lá possivel que sustentassemos
uma guerra desesperada em Numancia, que pertence á primitiva unidade
lusitana, e que estivessemos de mãos atadas na parte occidental da
Hespanha pelo pacto imposto por um cabecilha, que para nós os romanos
nunca deixou de ser o _Dux latronum_!
--Com que, Roma decreta que se continue a Guerra da Lusitania? inquiriu
com assombro Ditálcon.
--Como acabaes de o ouvir.
--A nossa missão parece terminada,--disse Ditálcon, quebrantado o animo.
--Não a considereis terminada,--interrompeu Cepio, tornando a approximar
de si os tres emissarios.--Alguma cousa bem combinada se poderá fazer
ainda, e depende da vossa intelligencia. Quereis a paz da Lusitania?
--Queremos! accudiram os tres.
--A Paz da Lusitania, mas não a Paz de Viriatho! disse o Consul com
orgulho. D'essa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriatho é o unico
embaraço d'ella, e que emquanto elle viver nunca Roma considerará a Paz
da Lusitania senão como uma affrontosa derrota.
--Mas Viriatho é querido do Povo, que o acompanha cegamente.
--É por isso que Viriatho é um perturbador. A sua obra é uma loucura!
Quer fazer uma Lusitania restaurada pela unificação de elementos de
raças ha tantos seculos extinctas, imaginando _Lusonios_, com quem nada
têm as gerações actuaes.
Ditálcon acenou com a cabeça, em signal de adhesão áquella ideia. E o
Consul, vendo que estava sendo comprehendido, voltou-se para Minouro:
--Nós não podemos andar aqui em balanços ao grado dos sonhos de
Viriatho; quer fazer uma Patria Lusitana, com um individualismo e
autonomia propria, quando entre Lusitanos e Iberos não existem
fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios. É tempo de acabar
com estas utopias, tornando a Hespanha uma Iberia unida para acceitar a
civilisação de Roma e continuar no occidente a sua obra dominadora.
Minouro regosijava-se com aquellas vistas do Consul, que eram tambem as
suas. E Cepio, voltando-se para Andaca, e já com ár determinado a quasi
imperativo:
--Para attingir este grande ideal da civilisação romana, do direito, da
administração, da ordem publica, é de força que renegueis a Patria
lusitana.
E como Cepio notava que os tres estavam entre si de accordo, disse para
elles:
--Roma carece das capacidades e energias dos homens de Hespanha. Eu
vol-o garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o titulo de Cidadãos
romanos, e as honras do Patriciado, com accesso aos altos cargos da
Republica, e uma somma correspondente de sestercios, se...
Os tres entreolharam-se, e querendo penetrar nas intenções de Cepio,
comprehenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspensão silenciosa do
Consul:
--Effectivamente, Viriatho está-se tornando um embaraço.
--Quando se chega a certo gráo de popularidade, em dados homens torna-se
isso um perigo.
--Um acto decisivo vale por annos de lucta.
O Consul volveu então com frieza:
--Mantenho as propostas em nome da Republica romana: Impõe-se n'este
momento a necessidade da morte de Viriatho. Roma dá-vos o titulo de
Cidadãos romanos...
--Qual de nós ha-de...
--Dá-vos as honras do Patriciado.
--A morte de Viriatho impõe-se...
--Dá-vos o accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma de
sestercios.
--Tiremos á sorte quem hade matar Viriatho.
O Consul estendeu o seu capacete, lançando dentro d'elle tres pequenos
seixos, sobre um dos quaes escrevera==Morte==. Cada um dos tres tirou a
sua pedra. A Minouro caiu aquella em que estava inscripto: ==Morte.==