«Um grande Mar glacial cobriu a Europa, a partir do pólo até ao Ural,
estendendo-se pelos territorios hoje occupados por nações, que
levantaram dolmens e construiram muralhas e cidades com os blocos
erraticos arrastados pelas neves, que deslisavam das altas montanhas.
«As neves eternas, descendo dos montes da Europa occidental, foram
espalhando em uma marcha lenta, que durou seculos, essas morenas, que
bordam as margens dos lagos, as costas do Oceano atlantico, onde se
desaggregaram das geleiras. Todos os grandes valles foram atulhados de
gelos, trasbordando sobre as planicies. Dos montes da Europa central se
estenderam esses enormes geleiros, alastrando-se, destruindo as especies
vegetaes, e repellindo diante de si os animaes gigantescos, que se
refugiavam nas cavernas ou procuravam outros climas. Nas clareiras, não
cobertas pelos gelos, conseguiram viver alguns animaes e pequenos grupos
humanos, em uma lucta com a intemperie da natureza; apparecem estações
humanas nas Gallias, Britania, Italia e Germania, e n'essas zonas
exundadas é que se foram creando as raças da Europa, que se iam
constituindo em Nações poderosas, com as suas linguas diversas, seus
costumes, religiões e sociedades differentes: taes os Hyperboreos,
formados pelos Proto-Scythas, Scythas, Sarmatas, Parthas, Germanos,
Gaulezes e Bretãos. Elles conheceram a grande Constellação austral da
_Ursa_, e iniciaram os trabalhos da Agricultura e da Navegação.
«As Estrellas da Grande Ursa, em numero de sete, assim como os bois que
pucham os carros pesados chamados _Teriones_, foram designadas
_Septemtriones_. O homem representou no céo os actos da sua vida
terrestre: o Sol fecundante da estação estival foi representado como o
_Touro_, ou o Deus Thor das gentes germanicas, e o mugido do trovão
_Tarana_, como do touro que berra. E a navegação, que se fazia de uns
para outros lagos, era tambem completada transportando os _Teriones_ as
barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa fórma dupla
de Navegação a esse povo aventureiro os _Gansos_, ou _Liguses_, os patos
dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raça de
Navegadores, os _Liguses_, ou Ligures, que constituiram Ligas ou Hansas
maritimas, protectoras das suas remotissimas viagens, transportando pelo
Atlantico e através da Europa os blocos de _Ambar_ amarello, e o estanho
das ilhas Cassitérides.
«Esses Povos da região septemtrional da Europa, que se chama a
Scandinavia, viveram longo tempo ás bordas do mar, e foram conhecidos
pelo nome dos _Homens da Agua_, que em suas linguas se exprimia pelas
palavras _Soma-lassed_, _Sabme-lassed_. Pela orla occidental da Europa
esse Povo veiu descendo para o sul, e occupou as regiões de Hibernia, da
Britania, e na Hispania esse Povo fundou o grande estado da _Lusonia_ ou
terras de Lez, que se denominaram Anda-_Lezia_, Cale-_lezia_ e _Lusi_tania.
«Pela sua audacia aventurando-se na exploração do Mar tenebroso, as
outras raças chamaram-lhes os _Atlantes_, de Atl, o nome da agua; e nas
suas rascas ou barcas de duas prôas, ajudadas a remos, a que chamaram
Kamares, estenderam as suas expedições pelas Ilhas perdidas no meio do
Atlantico, desceram ao longo da costa occidental da Africa, foram tocar
em um continente ou Mundo novo da Aymerica, penetraram o Mediterraneo
até ao Egypto, e subindo o Golpho persico, chegaram até á Chaldêa, e á
India.
«Esses Povos ribeirinhos, ou de _Lez_, e propriamente maritimos ou
Atlanticos, levaram os conhecimentos da Astronomia, fixados no seu
Zodiaco, ou Symbolismo zoomorpho das Constellações observadas no Anno
sideral, até esses Povos da America, do Egypto, da Chaldêa e da India.
Foi por isso que o Symbolo do _Touro_ é adorado no Egypto com o nome de
Ser-Apis, e na fórma _Shor_, o Bezerro de ouro, na Palestina; com o nome
de _Tauro_ o designaram os Chaldeos, os Syrios, e os Gregos. Por esse
Symbolo da Constellação do _Touro_ é que a Civilisação da raça
iniciadora dos Ligures se denominou _Turana_; todos esses Povos do
Oriente adoptaram o Zodiaco occidental, sem notarem que pela evolução
millenaria dos Equinocios, o Signo do _Touro_ deixou de coincidir com o
comêço do Anno estival.
«Contra a Raça ligurica veiu do Oriente a pressão de outros Povos. As
gentes do Iran, adorando o Fogo espiritual representado em Mithra,
reagiram contra a representação do Fogo terrestre ou o _Touro_, morto
por Mithra, ou contra o _Turan_. Na Europa, os Povos dos Celtas, e dos
Iberos, dos Jonios e dos Phenicios, dos Carthaginezes e dos Romanos,
foram gradativamente atacando a raça dos Ligures, e pelas invasões por
terra, e pela pirataria nos mares, quasi que apagaram o nome e a
Civilisação dos Ligures na Europa! Os Iberos, que atravessaram da Africa
quando a Europa ainda estava ligada a ella por um isthmo, repelliram-na
da vertente occidental dos Pyrenneos, em que se tinha apoiado na Edade
glaciaria, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas
louros e corpulentos atacaram-a nas Gallias trans-e-cisalpinas; os
Phenicios apoderaram-se dos Periplos das suas navegações atlanticas pela
pirataria; e os Jonios roubaram-lhe os seus Poemas em que celebravam as
temerosas Aventuras do Mar. As luctas guerreiras, e o imperio das
Civilisações militares fizeram esquecer a civilisação agricola e as
Navegações dos Povos liguricos. Entre o Occidente e o Oriente deu-se uma
separação, e esqueceram-se de que eram solidarios na História.
«Uma tréva immensa caíu sobre o mundo depois da Éra glaciaria; a força
bruta prevaleceu sobre a Sciencia, a Guerra de devastação e de conquista
sobre o trabalho pacifico da Agricultura. A Missão civilisadora dos
Ligures, iniciada na America, no Egypto, na Chaldêa, na India, ficará
interrompida para sempre?
«Diante da extensão e perstigio dos Imperios militares, parece que a
acção da força bruta é definitiva. Mas, a Rasão e a Paz hãode triumphar
um dia; o Occidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o
Oriente. É essa a missão e o futuro glorioso da Lusonia.
«Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da luctadora raça dos
Ligures, resistindo na Hispania contra os Iberos, contra os Celtas,
Persas, Phenicios, Carthaginezes e Romanos, hade um dia através de todas
as crises reorganisar-se outra vez como Nação, e o seu poder derivará do
regresso á primitiva capacidade da raça: Recomeçará as grandes
Navegações do Atlantico; hade reoccupar pelas suas colonias laboriosas a
America; fundará um vasto Imperio na India; dominará na Africa; e
primeiro que nenhum outro povo circumdará a Terra, affirmando outra vez
a supremacia pacifica como destino da Civilisação occidental. Sustentar
a autonomia da Lusitania é impellil-a para a realisação d'este
incomparavel destino,--alargando pela actividade pacifica a antiga Liga
hanseatica n'uma Confederação das Gentes, na solidariedade humana.»
Dentro da Caverna do Cachão da Rapa ia escurecendo; estava já terminada
a leitura ou exposição do Poema. Viriatho, cheio de esperança no futuro
da Lusitania, exclamou:
--Este ideal dá vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecivel.
Agora já posso morrer; e fosse esta Caverna, deposito de uma tradição
sagrada, a minha ignorada sepultura.
--Para que te deixas assaltar por presentimentos de morte? Eu ainda não
te desvendei todos os conhecimentos contidos n'esses Bastões dos Poetas,
ou _Sagitas_, que se arrojam ao ár, e conforme cáem voltadas para o
Oriente ou para o Occidente, assim nos dão os Pre-_Sagios_ venturosos ou
aziagos. Ha um conhecimento de incomparavel _sagacidade_: revela-o a
seta, que equilibrada sobre um ponto, trémula, oscilante, indica a linha
do Norte a Sul; mais poderosa do que aquellas que guardam as _Sagas_ das
Tradições dos Navegadores liguricos, ella os guiou seguros--por Mares
nunca de antes navegados!--Pela posse d'essa Vara chamada a _Seta de
Ouro_, realisará a Lusonia o seu alto destino.
E á medida que ambos se afastavam da Caverna, disse Viriatho, ao perder
de vista o penhasco das inscripções mysteriosas:
--Agora comprehendo eu o verso da saudação: «A Pedra sagrada da
esperança do povo.»