XLVI

A cerimonia do casamento de Viriatho com Lisia estava determinada para

dia certo. O cabecilha era esperado na Torre redonda de _Achale_, e já

sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da familia

apoiada n'esses mysterios cultuaes da memoria dos Antepassados. Lisia

entretinha o fogo, quando chegou Viriatho; o guerreiro aproximou-se de

Idevor, e disse com uma dominadora serenidade:

--Agora, que já temos uma patria livre, tambem quero render culto aos

meus Antepassados, e venho rogar-vos por isso, para que Lisia, vossa

filha adoptiva, me acompanhe n'este acto comendo commigo do mesmo pão

diante do mesmo fogo.

Idevor ergueu-se d'onde estava assentado, aproximou-se da Pedra focal, e

chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre

Redonda, proferiu a fórmula sagrada:

--Eu vos entrego, oh mancebo, a minha filha Lisia, trocando este lar

paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperança.

E pegando em Lisia pela mão, conduziu-a para Viriatho, como desligando-a

da religião domestica, e entregando-lh'a para que a iniciasse em um novo

culto da familia a que de ora em diante pertencia. Os dois esposos

olharam-se com ternura; os canticos das donzellas que acompanhavam Lisia

resoavam com a magestade de um sacramento, e n'aquelle dia entre festas,

banquete e recitação de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial

consuetudinario do casamento.

No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido;

sahiram da Torre Redonda os tres Companheiros de Viriatho, e a luzida

cavalgada que tinha de conduzir a noiva pôz-se a caminho. Lisia, vestida

de branco e com a lunula de ouro na cabeça, coberta com um véo, ia em um

carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavalleiros da Trimarkisia. E

adiante caminhava um arauto levando um facho accêso, que como symbolo

nupcial dava á cavalgada o prestigio do sentido religioso. Em todo o

percurso ou pompa, modulavam-se hymnos consagrados; e de toda a parte

vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com

flôres para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabeça,

augurando felicidades.

Ao aproximar-se de Viseu, tres raparigas robustas e esbeltas, trajando

vestidos garridos, com suas arrecadas de ouro, vieram collocar-se diante

do carro de Lisia, e foram seguindo-a cantando-lhe uma Canção de marcha

nupcial. Pelas suas vozes, como excellentes cantadeiras, bem conhecidas,

espalhavam alegria em volta de si; eram Caenia, Aponia e Nilliata, de

que Viriatho se recordou com jubilo. Fôra ao subir da serra dos

Herminios que ellas lhe fallaram de Lisia, e é com o mesmo encanto que

agora entôam a

*Marcha nupcial*

Bem vindo o par ditoso

Para a nova morada!

Do amor o laço forte

Não o desata a morte.

Pelo braço do esposo

Lá vem a bem casada!

Laço que a união celebra,

Nem mesmo a morte o quebra.

Como ao tronco ramoso

A vide entrelaçada,

Que outro laço mais ata?

O filho que os retrata.

Que encontre infindo goso

N'esta união consagrada

O par, que vem sorrindo;

Par ditoso, bem vindo!

Estava a terminar o trajecto festivo, e começava a terceira parte da

cerimonia do casamento, em que a entrada da esposa em casa do marido se

fazia por um rapto, pelo qual este, sem que ella tocasse com os pés no

limiar da porta, a introduzia junto do lar, no novo culto domestico pela

sua auctoridade de chefe da familia, que assim a iniciava por sua

vontade. Era ahi que devia ser partido o pão entre ambos, diante do fogo

do lar, bebendo n'essa communhão para a vida e para a morte, unificando

as almas por um sacramento indissoluvel. Passou-se rapidamente este

acto, porque era immensa a multidão de gente de todas as terras da

Lusitania que esperavam os noivos na Cava de Viriatho aonde se formára

um esplendoroso arraial, em que se expozeram todas as riquezas naturaes

e industriaes da terra.

Alli se encontravam os Chefes das Contrebias, acompanhados dos seus

ambactes, com os presentes offerecidos aos noivos.

Conheciam-se logo entre a multidão jubilosa os principaes chefes dos

Castros e Citanias da Serra da Estrella; e diziam os curiosos:

--Olha o chefe do Cabêço do Crasto de Torvosello! E o do Crasto de

Tintinalho? O do castello de Reigoso!

--Não faltou o Chefe do Cabêço de Escarrigo; nem o de Videmonte; o de

Verdolhas, e de Tabeiró.

A gente de Traz os Montes tambem reconhecia os seus chefes:

--Lá está o de Castro de Avelãs. Olha o de Formil! Mais o de Fervença.

--Tambem o de Castro Samil! E o de Lambeiro branco! o de Soutello.

--Mais o de Rabal; e o de Alfaião.

A gente do Alemtejo mostrava certo orgulho ao apontar para os seus

chefes da Orca, de Castro Verde, da Colla, de Castris.

Do norte, da região callaica, viam-se os chefes das Citanias, como os

das de Briteiros, Tintinolho e Sabroso; o chefe da Corôa de Amonde; e o

do Môrro de Affife; o do Castrello de Neiva; o de Monte Ferroso; de

Laúndo, Guifães, da Roboreda. Era uma homenagem unanime de sympathia, de

reconhecimento a Viriatho pelo exito da violenta campanha de libertação

da patria commum.

Com as festas que por toda a Lusitania e Celtiberia se fizeram ao

conhecer-se o texto do Tratado de Paz, e ao regressarem a seus lares os

homens que ha tantos annos andavam na guerra da independencia, coincidiu

tambem a noticia de que em breves dias seria celebrado o casamento de

Viriatho com Lisia, a virgem semnothêa, aquella que sempre vaticinára a

liberdade da Lusitania.

Assim, cada uma das terras que contribuira com tantos sacrificios para

coadjuvar Viriatho no castigo da infamissima e sanguinaria perfidia de

Galba, resolveu mandar uma deputação para a representar nas festas

nupciaes do valente Caudilho. Essas deputações eram formadas de moços e

raparigas, vestidos com os trajos das suas provincias os mais vistosos e

caracteristicos, que iriam fazer os cortejos do esposo e da noiva, e

alegral-os com as suas dansas e cantares, durante os dias das bodas e

tornabodas; iam tambem os homens bons ou antigos com os presentes de

bois e novilhos, de vinho, cereaes, fructas e sequilhos, para que a nova

familia se iniciasse pela abundancia; e as mulheres, as mães, que fiavam

no lar, offertaram tambem as suas grandes têas de panno de linho e

bragal, meadas de linha alvissima e fina, boiões de mel, e aves sem

conto. Era uma homenagem com o sentido de uma contribuição nacional

espontanea áquelle que soubera unir as populações dispersas no mesmo

sentimento de uma Patria livre.

Para a cidade de _Vacca_, fundada pelos Turdulos, que está proxima das

fortes muralhas da Cava aonde Viriatho no anno DCVIII derrotára o Consul

Nigidio, é que se dirigiram todas as deputações para as festas do

casamento do Caudilho. Alli, n'aquella cidade, junto do rio Vaccua,

costumava Viriatho recolher-se temporariamente das fadigas da guerra;

era alli que tencionava viver tranquillamente o resto de seus dias no

remanso do lar com a adorada esposa, Lisia, que tanto o fortificára pelo

ascendente moral e confiança no futuro da Lusitania.

Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moços á frente de Viriatho, que

iam ao encontro da noiva, que vinha da Ilha sagrada de _Achale_,

acompanhada por seu pae Idevor e pelo grupo das donzellas de todas as

cidades lusitanas lá reunidas para essa marcha. Por onde Lisia passava

punham-lhe arcos de flôres e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos

e plantas aromaticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de

trigo, cantando seguidilhas de felicitação e augurando venturas.

Quando o cortejo chegou á margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se

mutuamente, e depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lisia

era concedida como esposa a Viriatho, o guerreiro passou o rio com

presteza, e como por encanto lançando o braço em volta da cinta de

Lisia, levantou-a do chão para cima do seu cavallo branco, partiu á

desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram

apoz elle, mas quando chegaram á cidade de Vacca já encontraram Viriatho

e Lisia juntos no balcão de pedra que dava entrada para a casa que fôra

construida para habitação dos noivos.

Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada, cheia de

dourados cachos de uvas, começaram os cantos e dansas; e depois da

chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho

endre, a quem beijaram a dextra, que alli diante de todos consagrou

aquelle consorcio unindo-lhes as mãos. Então, de braço dado, os dois

esposos dirigiram-se á Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam

expostos como em uma Feira franca todos os gados, cereaes, tecidos,

objectos de trem domestico e mais delicados presentes, que as populações

lusitanas offertavam a Viriatho como seu libertador. A vista d'essa

assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriatho era querido, e bem

explicava a confiança com que á sua bravura tinham ligado os seus

destinos aquellas terras, que elle conseguira libertar.

Viriatho e Lisia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos

os presentes, que representavam as riquezas das regiões lusitanas.

Reconhecia-se a região do Norte, entre Douro, Minho e Beira Alta, pela

abundancia dos seus milhos, pelo centeio da primavera e do verão, pelas

excellentes castanhas. A região montanhosa da Beira Baixa e

Traz-os-Montes, pelos seus nedios bois, carneiros e cabras das boas

pastagens das encostas e valles; e pelo seu trigo molle e centeio. A

região central da Extremadura até ao Tejo, mandava das suas extensas e

ferteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite

cordovil e vinhos generosos. A região do sul, Alemtejo e Algarve,

appresentava o trigo de inverno, os figos sêccos, tamaras, alfarrobas e

castanhas piladas, e porcos de uma creação afamada.

Viriatho, lembrado dos annos da campanha libertadora, não pôde olhar

para os cavallos em que vieram os chefes das Contrebias, sem confessar

quanto devia ás suas qualidades de resistencia excepcional. E

conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando:

--Este typo _galleziano_, de cavallos pouco corpulentos, e resistentes

ao trabalho, é commum ao Minho, ás Asturias, Vasconia e Navarra.

--E estes mais corpulentos, com grande aptidão para o trabalho de carga

e de tiro, fórmam uma _variedade castelhana_, que se encontra ahi pelo

Minho, Traz-os-Montes e Beira.

--Cá para mim, o typo da minha paixão é o betico-lusitano! Estes

cavallos das provincias do sul, são elegantes de fórmas e de postura. É

olhar para essa raça de Alter, das Lesirias do Tejo e do Alemtejo;

incomparaveis.

Em homenagem a ter Viriatho sido na sua mocidade pastor e chefe da

Mésta, grandes manadas de bois vieram á feira apparatosa, na

representação de cada provincia. Viriatho foi passando vagarosamente

diante das manadas, interrogando com enthusiasmo, e caracterisando com

os chefes das Contrebias as differentes raças.

--Estes bois vermelhos, amarellos e fulvos, isto é que é proprio para

trabalho! as vaccas são extremamente leiteiras. Quem não reconhece

n'este gado o Minho e a Galliza?

--Tambem pertence a esta raça galleziana, o barroso, lá do Gerez.

--Estes são da raça Maroneza, robustos, ligeiros, firmes no passo. São

ahi das regiões visinhas do Durio.

--Aqui agora os da raça mirandeza; é a que se acha mais espalhada, por

Traz-os-Montes, grande parte da Beira e da Extremadura. Tambem por aqui

se vêem as suas variedades, a _braganceza_, a mirandeza _ribeirinha_, a

_extremenha_. Isto sim, que é raça para trabalho violento!

--É por isso que se tem propagado tanto.

E proseguindo n'este passeio pela Cava, Viriatho e os chefes das

Contrebias foram notando os bois de _Arouca_, excellentes, soffredores,

de Lamego, Caramulo, predominando entre o Durio e o Vaccua. E elogiaram

a raça _ribatejana_, brava para campo e corridas; a _alemtejana_ e a

_algarvia_, docil, sobria, côr de castanho claro, e propria para

trabalho e engorda.

E na grandiosa feira em que se representava o genio de cada provincia,

viam-se tambem as raças ovinas, a _bordaleira_, que predomina do Minho

até ao Tagus; os _merinos_, de Campo Maior e Marvão, Moncorvo,

Mirandella e Villa Flôr; e as _estambrinas_. Estavam alli as cabras da

Serra da Estrella, do mais bello pêlo longo, e as de pêlo raro, todas

muito leiteiras. E os porcos _Bisare_, do Minho, Traz-os-Montes e Beira;

com os do Alemtejo, Extremadura, Algarve e margens do Tejo, chamados

_Romanice_.

Via-se alli representada a alfaia agricola, que estabelecia uma

transição para os productos industriaes. Era um encanto examinar a

perfeição dos arados, cangas, carros, engaços, sacholas, cêlhas, concas,

crivos. Destacavam-se mais adiante as louças de barro, de argilas

ocreas. Nos trabalhos textis, as linhas ou fios de cozer em meadas

alvissimas e novellos; rendas, cortinados, adamascados; as lãs de

Portalegre e da Guarda em cobertores; as estamenhas, cintas, pannos, de

trabalho domestico do Algarve: os bureis e baêtas listradas, da Covilhã

e de Viseu.

Mas o que mais attrahia a attenção de Lisia eram os trajos lusitanos,

que davam ao arraial um fulgor pittoresco, de côres e talhos: a Capa de

honra, de Miranda; o Gabinardo de Nisa; a Capinha de Barroso e Sobreira;

a Castreja de Laboreiro; a Jangadeira de Anha; a Camponeza de Perre,

Areosa, Meadella e Ovar; a Ceifeira alemtejana, maiata, poveira; era um

espectaculo commovente.

Grupos de mulheres vieram acercar-se de Lisia e offertaram-lhe com

alegria presentes especiaes: a roca de freixo ruge-ruge cheia de

ornatos; aventaes de Vianna; lenços bordados, segundo o costume, pelas

noivas de ao pé do rio Vaccua; rendas de malheiro, de Aveiro, Setubal e

Lagos, e rendas de bilro de Vianna, Villa do Conde, Peniche e Setubal.

As mulheres mais abastadas tambem lhe offertaram peças de ouro e prata

feitas pelos lavrantes de Gondomar e Fanzeres; eram argolas de beira

lisa, arrecadas, botões de amoras, brincos fusiformes, laças, corações

de filigrana de ouro.

Foi alli dentro da Cava que se armaram as mezas para o festim nupcial;

alli estavam as pipas do vinho palhete, e as fructas com abundancia. A

variedade dos trajos e as physionomias dos individuos que representavam

a nação desde os Gallaicos até aos Cuneos, davam uma impressão viva e

sympathica de um forte povo que tinha uma feição propria, e que queria

viver livre. As dansas eram continuadas, simulando combates, e saltos

espantosos. Homens e mulheres fórmam bandos, em frente uns dos outros,

alternando os versos da Canção, e um Côro dos homens antigos que as

presenceavam é que ia repetindo o refrem, em que soava o nome de Viriatho.

Foi á meza do banquete, que Viriatho se ergueu, junto de Lisia, e

tirando do seu pescôço a Viria ou Collar de ouro do commando, que até

áquelle dia trouxera, o collocou no pescoço da formosa esposa, abdicando

alli deante de todos do poder militar que lhe tinha sido confiado, e

confinando-se na vida pacifica do lar. D'alli em diante o symbolo da

guerra ficava uma joia, adorno da graça feminina; e a arma tornar-se-ia

utensilio de trabalho.

O banquete correu animado e sempre cordato, dentro das muralhas da Cava,

que era n'aquelle momento um arraial pacifico, nunca visto. Á medida que

os grupos se iam levantando da meza, na planura vasta da Cava

desenvolviam-se os jogos guerreiros, a vapulação, os saltos, os

sarilhos, as luctas athleticas, e ouviam-se brados acclamatorios:

--Viva a Callaecia!

--Viva a Vettonia!

--Vivam os Carpetanos!

--Vivam os Oretanos!

--Viva a Beturia!

--Viva a Cynesia!

N'aquelle momento Viriatho ergueu-se com uma taça de vinho rubro na mão,

e unificando todos aquelles gritos, que representavam o espirito

separatista das differentes terras, proferiu com a voz timbrada e sonora

acostumada ao commando:

--Viva a Lusitania!

A vibração d'aquella voz e d'aquelle nome produziu um delirio

indescriptivel; e d'entre aquelles gritos sinceros e fervorosos,

provocados por um intimo sentimento de Patria, destacou-se uma outra,

distincta e magestosa:

--Viva a Lusitania! e com ella Viriatho, symbolo da sua independencia.

As festas do casamento duraram outo dias, e n'esse decurso nunca

deixaram de chegar novas mensagens, e carinhosos presentes que se foram

accumulando na Cava. No meio d'aquella multidão alegre levantou-se um

rumor enthusiastico, vendo apparecer um formoso touro ladeado por cinco

campinos; seguia lento e magestoso, levando enfiadas nas pontas, brancas

regueifas de trigo, e em volta do pescoço grinaldas das mais

rescendentes flôres. Era o costume dos povos da Extremadura, nas suas

festas da entrada da primavera, que votavam a Viriatho esta sua

manifestação cultual. Por onde o touro passava, uns lançavam-lhe flôres,

outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de affecto, e a multidão

seguia atraz para presenciar a entrega d'aquella expressiva offerta a

Viriatho. Os chefes das Contrebias, que assistiam á apparatosa

cerimonia, approximaram-se de Idevor, insistindo com empenho:

--Explicae-nos o sentido religioso da _Festa do Touro_. Porque é que

encontramos por todo o territorio hispanico Touros de pedra, como esses

de Guisande? Que sentido historico terá a lenda do combate de Mithra com

o Touro atravessado pela sua espada, como se vê insculpido em tantas

rochas e monumentos?

Idevor accedeu promptamente ao empenho:

--«Um povo, que habita na latitude em que _o maior dia do anno é o dobro

do menor dia do inverno_, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos

trabalhos da Agricultura. Para elle o Sol representava-se-lhe á mente

como o Touro celeste: e no começo do Anno solar, na efflorescencia

estival, symbolisou essa Constellação pelo signo do _Touro_, a força

geradora, a potencia fecundante. Esse symbolo zodiacal do _Touro_,

conservou este nome entre todos os povos civilisados, como expressão de

um conhecimento astronomico; e foi tambem objecto de adoração. O nome de

_Thor_, o deus dos povos da Germania e da Scandinavia, designa o

_Touro_, tornado a propria imagem do deus. Os Cimbros e Teutonios, que

invadiram a Italia, juravam sobre o boi sagrado, que traziam comsigo.

_Thor_, o chefe de todos os deuses scandinavos, é representado com um

sceptro com cabeça de boi. Muitos nomes de povos e de logares foram

tomados d'este symbolo do _Touro_, como o monte Tauros, o _Darana_, ou

Atlas, os Tourisci e Taurini, e a região da Taurida. A Civilisação

d'este povo occidental foi propagada ao Oriente, e chamaram-lhe _Turan_,

pela representação do Touro, occupando o primeiro logar entre os quatro

Signos do Zodiaco, na casa em que marcam no Céo as Estações solsticiaes

e equinociaes.

«Contra esta civilisação do Occidente, que divinisára o Fogo material do

Sol, no _Touro_, combateu o Iran, symbolisando no joven Cavalleiro

cercado de raios luminosos, Mithra, o _Fogo vivente_ e espiritual. A

lucta do Iran e de Turan foi representada em um combate de Mithra

atravessando com a sua espada o Touro; era o antagonismo e o triumpho da

civilisação militar sobre a civilisação agricola, sacrificada diante das

invasões da força armada, da rapina organisada. A vinda dos Persas à

Hespanha foi uma consequencia d'essa lucta; Mithra tambem aqui venceu o

Touro, que representava as forças impetuosas da Natureza.

«Mas, apesar d'esse triumpho, podemos exaltar o Touro na sua morte, como

no velho hymno:==Do seu corpo nascem as plantas salutares que cobrem a

terra de verdura; do seu sangue vem o _vinho_, que produz a bebida

sagrada dos Mysterios, e dos seus tutanos o trigo que dá o alvo pão; do

seu espermen derramado provieram todos os animaes uteis.==O _Touro_ será

vencido pela _Espada_, mas esse triumpho só ficará effectivo quando os

vencedores por seu turno cultivarem a terra, levantarem cidades, abrirem

estradas e coadjuvarem pelo commercio a confraternidade dos Povos. Então

a _Espada_ desapparecerá, para que a _Cornucopia_, esse emblema da Força

do Touro, seja o symbolo da Abundancia e da riqueza inesgotavel,

restabelecendo no mundo a supremacia do Occidente.»

Mal acabára Idevor de esboçar o poema que se recíta em Hierna, do Touro

ou _Tarvos_, defendido pelas arvores cortadas para não ser agarrado,

quando se ouviram estrondosas gargalhadas a pouca distancia. Era um

desafio de bebedores:

«Ganhava a palma o que bebesse de um só folego um grande cangirão de

vinho.»

Só um vencera, sendo por isso acclamado com a gargalhada estrondosa.

Viriatho olhou, e reconheceu Bovecio.

--Bovecio! que eu vi hydropico, e que está agora são como um pêro, e faz

d'estas valentias!

Acenando-lhe com amisade, Bovecio veiu respeitoso, e murmurou submisso:

--Bebi na fonte de Ouguella. A vós, senhor, devo eu a saude e a vida.

Por vós a sacrificarei com orgulho.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 57 / 81 题