XLV

Depois da sahida do Conselho armado disse Idevor para Viriatho:

--Não quizeste acceitar o titulo de _Rei da Lusitania_; o teu sentimento

puro revelou-te, que n'este solo lusitano não vegeta essa planta

parasitica da realeza. E demais, uma Realeza investida e sustentada por

uma potencia estrangeira! Só isso bastava para influir na degradação

moral de um povo. Em troca d'essa Corôa que renunciaste, ou que

desprezaste, mereceste que te seja entregue o _Thesouro do Luso_. Já

terás sabido que elle se guarda na Caverna das Inscripções ogmicas; a

rocha que domina essa Caverna é a _Pedra Virgem_, o penedo que falla,

porque tem na face lisa, ou _Peravana_, os sons _fan_, _phone_, ou

_vene_, que traduzem as Sagas venerandas das Edades passadas. Longa é a

jornada para a Caverna das Inscripções, lá na margem direita do Durio,

perto do Cachão da Rapa.

--Agora, que dei conta aos Chefes das Contrebias do Tratado de Paz com

Roma, podemos partir, ainda que seja para longe; vamos seguros e sós. Eu

sei todos os caminhos que nos levam ao Cachão da Rapa, e já vi com

assombro esses traços para mim incomprehensiveis gravados na Pedra

Virgem. Partamos.

E Idevor e Viriatho metteram-se a caminho. Já distantes e bem longe do

povoado, encontraram solitaria á beira de um caminho uma casa palhaça,

d'onde vinha o som rythmico do trabalho de um tear; de uma rocha que

estava perto manava um jacto de agua cristalina, que fazia gosto beber.

Emquanto matavam a sêde, escutaram a cantiga, que tomou para ambos o

valor de um vaticinio; cantava uma pobre mulher

*Ao tear*

Olha a tecedeira

Como tece bem,

Como a lançadeira

Vae e vem ligeira;

Sua mão certeira

Que presteza tem!

Lembra uma dansa

O som do tear,

De um sapatear

Que jámais se cansa;

Mas que é a bonança

De um ditoso lar.

Fosse eu a trama

Da sua urdidura;

Como o fio se acama,

A sua ventura

Seria segura;

Feliz de quem ama!

Cresce tanto a peça

D'este branco panno,

Que, com esta pressa,

Se me não engano,

Ainda este anno

Cumpre-se a promessa!

Viriatho sorriu-se para o velho endre, que o comprehendeu, e proseguindo

o caminho, acharam-se naturalmente fallando no casamento de Lisia.

Depois de alguns dias de jornada, os dois peregrinos entraram na região

do Durio; seguiram pela margem direita, até chegarem á povoação de

Linhares, aonde repousaram. Alli, na voz do povo, ouviram fallar dos

Thezouros encantados, que estavam escondidos no fundo de uma caverna

escura, coberta por um enorme penedo em que se viam insculpidos grande

numero de Quadrados magicos. Ai do que se atrever a penetrar na caverna!

Os que lá entram, se não ficam alli immediatamente paralysados com um

somno lethal, ou perdem a falla ou cáem-lhe os dentes!

Apesar de todos os terrores, Viriatho e Idevor, logo ao nascer do sol,

caminharam para a margem do Durio. D'ahi a meia legua, avistam,

sobranceiro de um precipicio a uns vinte passos do rio, o enorme

penhasco, que o vulgo saudava com o verso: «A Pedra sagrada da esperança

do povo.» Ninguem sabia o que significava uma tal saudação. Idevor era o

depositario d'esse mysterio do passado.

Perto já do penhasco, em grande parte coberto de musgo, Idevor dirigiu

Viriatho para a parte em que estava a face lisa, da altura de dez

covados, e de quatro de largura, e ahi contemplaram patentes os

Quadrados, formando como pequenas janellas, com traços encruzados, e

enxadrezados, agrupados diversamente. O povo acreditava que essas letras

se renovavam todos os annos, no comêço da quadra estival. É certo que os

Quadrados estavam agora bem visiveis, e até se lhes notavam côres.

Idevor, contemplando aquelles caracteres indecifraveis, disse para

Viriatho:

--Esses Quadrados que vês, são como as _Lettras runicas_, que os nossos

antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do norte. Chamaram

_Ogum_, nome que se aproxima dos _Kova_, ou os hieroglyphos de um povo

amarello do extremo Oriente. Com o movimento das raças, esses caracteres

gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de arvores, a que

chamaram os _Bastões dos Poetas_; muitas vezes porém, nas largas

narrativas historicas, esses bastões runicos baralhavam-se, e para

restabelecer a sua ordem chronologica, ou as séries das Triades, era

necessario ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a

disposição primitiva d'esses traços ou letras. É o que acontece com este

rochedo que está diante de nós; repara bem: esses Quadrados gravados na

pedra fixaram para sempre a ordem em que se devem dispôr os Bastões

runicos, nos quaes estão escriptas as tradições da Lusonia.

--E aonde estão depositados esses _Bastões dos Poetas_?

--Dentro da Caverna a que se sobrepõe este penhasco. Mas, antes de tudo,

repara para estes Quadrados: uma linha figura o tronco da Arvore de

Ogham, e como ramos d'ella, cruzam-se outras linhas, que se distinguem

umas das outras apenas pela posição e agrupamento: a primeira letra é

figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois

travessões, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado

opposto ao primeiro grupo, recomeça-se da mesma fórma os caracteres, do

segundo grupo de letras; no terceiro, os traços são prependiculares ao

tronco; e no quarto esses traços são transversaes ou obliquos.

Os nomes d'essas vinte letras é tomado da arvore cujo nome começa pelo

som d'essa letra; é por isso que o termo _Feadha_, a planta, a arvore, a

floresta, significa tambem o symbolismo alphabetico, a sciencia, e o

vate ou _Faethiste_. Se não fossem os caracteres que ahi vês inscriptos

n'esse penhasco, seria impossivel conservar a ordem dos _Bastões dos

Poetas_, em que está escripto o Poema de seis mil versos, que se guarda

ahi dentro da Caverna.

E Idevor mostrou a Viriatho a ordem alphabetica, ou _Beith-Luis_, na sua

successão ogmica: *b*, *l*, *f*, *s*, *n*, *h*, *d*, *t*, *c*, *q*, *m*,

*g*, *ng*, *st*, *r*, *a*, *o*, *u*, *e*, *i*.

Era n'esta ordem que deviam ser dispostos os Bastões runicos. Idevor

procurou a entrada da Caverna, que era um pequeno corredor de accesso,

na vertente do despenhadeiro, que ia dar a um recinto ou vasta camara

revestida nas paredes e tecto por infiltrações stalactilicas. Parecia um

hypogeo sepulchral, a que as concreções stalagmiticas davam o aspecto de

estatuas mortuarias, envolvidas em sudarios brancos. Á medida que os

dois peregrinos avançavam pela assombrosa camara, os rumores dos passos

resoavam por outras galerias que se succediam apenas separadas por

grandes pedras; de vez em quando sentia-se esvoaçarem aves das trevas,

que alli hibernavam, e que para os crédulos pareciam as almas dos

antepassados. Sobre o pavimento estavam espalhados estilhaços de silex,

machados de pedra, ossos de animaes que pertenceram ao clima glaciario.

Avançando com precaução, Idevor chegou á entrada de uma segunda camara,

mais vasta e esplendida, pela sua estructura trabalhada pelas

infiltrações das aguas; era allumiada por uma fresta aberta nas fendas

da rocha, e ahi existia ao centro um bloco despegado do tecto da

caverna, formando uma ampla meza aquella lagem de fórma arredondada. E

em volta, junto da parede natural, achavam-se dispostas seis pedras,

como se fossem assentos patriarchaes; sobre ellas estavam estendidos, á

maneira de feixes de setas, os Bastões runicos, a que Idevor por vezes

alludira. O velho endre fallou para Viriatho:

--É n'estas varas que está escripto o _Poema da Lusonia_.

E foi tirando pela ordem ogmica os Bastões e collocando-os

combinadamente sobre a grande meza central; todos esses feixes formaram

outros tantos Quadrados, como os que acabavam de contemplar na face lisa

do Penedo do Cachão da Rapa. E depois de se acharem todos dispostos

convenientemente, disse Idevor:

--Agora posso lêr o velho Poema da raça de que provimos, e em que se

encerra o destino da _Lusonia_.

Viriatho approximou-se respeitoso, exclamando com jubilo:

--Esse Poema nacional é o verdadeiro _Thesouro do Luso_. O conhecel-o

enche todas as minhas ambições.

E Idevor, percorrendo um a um, nos seis grupos de varas, os Bastões

runicos em que se continham os seis mil versos da _Epopêa da Lusonia_,

observou:

--Levaria muitas horas a leitura ou recitação pausada dos versos d'esta

Epopêa; para o caso que nos interessa n'este momento basta um resumo

claro e verdadeiro. Escuta pois o Argumento da

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 55 / 81 题