Depois da sahida do Conselho armado disse Idevor para Viriatho:
--Não quizeste acceitar o titulo de _Rei da Lusitania_; o teu sentimento
puro revelou-te, que n'este solo lusitano não vegeta essa planta
parasitica da realeza. E demais, uma Realeza investida e sustentada por
uma potencia estrangeira! Só isso bastava para influir na degradação
moral de um povo. Em troca d'essa Corôa que renunciaste, ou que
desprezaste, mereceste que te seja entregue o _Thesouro do Luso_. Já
terás sabido que elle se guarda na Caverna das Inscripções ogmicas; a
rocha que domina essa Caverna é a _Pedra Virgem_, o penedo que falla,
porque tem na face lisa, ou _Peravana_, os sons _fan_, _phone_, ou
_vene_, que traduzem as Sagas venerandas das Edades passadas. Longa é a
jornada para a Caverna das Inscripções, lá na margem direita do Durio,
perto do Cachão da Rapa.
--Agora, que dei conta aos Chefes das Contrebias do Tratado de Paz com
Roma, podemos partir, ainda que seja para longe; vamos seguros e sós. Eu
sei todos os caminhos que nos levam ao Cachão da Rapa, e já vi com
assombro esses traços para mim incomprehensiveis gravados na Pedra
Virgem. Partamos.
E Idevor e Viriatho metteram-se a caminho. Já distantes e bem longe do
povoado, encontraram solitaria á beira de um caminho uma casa palhaça,
d'onde vinha o som rythmico do trabalho de um tear; de uma rocha que
estava perto manava um jacto de agua cristalina, que fazia gosto beber.
Emquanto matavam a sêde, escutaram a cantiga, que tomou para ambos o
valor de um vaticinio; cantava uma pobre mulher
*Ao tear*
Olha a tecedeira
Como tece bem,
Como a lançadeira
Vae e vem ligeira;
Sua mão certeira
Que presteza tem!
Lembra uma dansa
O som do tear,
De um sapatear
Que jámais se cansa;
Mas que é a bonança
De um ditoso lar.
Fosse eu a trama
Da sua urdidura;
Como o fio se acama,
A sua ventura
Seria segura;
Feliz de quem ama!
Cresce tanto a peça
D'este branco panno,
Que, com esta pressa,
Se me não engano,
Ainda este anno
Cumpre-se a promessa!
Viriatho sorriu-se para o velho endre, que o comprehendeu, e proseguindo
o caminho, acharam-se naturalmente fallando no casamento de Lisia.
Depois de alguns dias de jornada, os dois peregrinos entraram na região
do Durio; seguiram pela margem direita, até chegarem á povoação de
Linhares, aonde repousaram. Alli, na voz do povo, ouviram fallar dos
Thezouros encantados, que estavam escondidos no fundo de uma caverna
escura, coberta por um enorme penedo em que se viam insculpidos grande
numero de Quadrados magicos. Ai do que se atrever a penetrar na caverna!
Os que lá entram, se não ficam alli immediatamente paralysados com um
somno lethal, ou perdem a falla ou cáem-lhe os dentes!
Apesar de todos os terrores, Viriatho e Idevor, logo ao nascer do sol,
caminharam para a margem do Durio. D'ahi a meia legua, avistam,
sobranceiro de um precipicio a uns vinte passos do rio, o enorme
penhasco, que o vulgo saudava com o verso: «A Pedra sagrada da esperança
do povo.» Ninguem sabia o que significava uma tal saudação. Idevor era o
depositario d'esse mysterio do passado.
Perto já do penhasco, em grande parte coberto de musgo, Idevor dirigiu
Viriatho para a parte em que estava a face lisa, da altura de dez
covados, e de quatro de largura, e ahi contemplaram patentes os
Quadrados, formando como pequenas janellas, com traços encruzados, e
enxadrezados, agrupados diversamente. O povo acreditava que essas letras
se renovavam todos os annos, no comêço da quadra estival. É certo que os
Quadrados estavam agora bem visiveis, e até se lhes notavam côres.
Idevor, contemplando aquelles caracteres indecifraveis, disse para
Viriatho:
--Esses Quadrados que vês, são como as _Lettras runicas_, que os nossos
antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do norte. Chamaram
_Ogum_, nome que se aproxima dos _Kova_, ou os hieroglyphos de um povo
amarello do extremo Oriente. Com o movimento das raças, esses caracteres
gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de arvores, a que
chamaram os _Bastões dos Poetas_; muitas vezes porém, nas largas
narrativas historicas, esses bastões runicos baralhavam-se, e para
restabelecer a sua ordem chronologica, ou as séries das Triades, era
necessario ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a
disposição primitiva d'esses traços ou letras. É o que acontece com este
rochedo que está diante de nós; repara bem: esses Quadrados gravados na
pedra fixaram para sempre a ordem em que se devem dispôr os Bastões
runicos, nos quaes estão escriptas as tradições da Lusonia.
--E aonde estão depositados esses _Bastões dos Poetas_?
--Dentro da Caverna a que se sobrepõe este penhasco. Mas, antes de tudo,
repara para estes Quadrados: uma linha figura o tronco da Arvore de
Ogham, e como ramos d'ella, cruzam-se outras linhas, que se distinguem
umas das outras apenas pela posição e agrupamento: a primeira letra é
figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois
travessões, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado
opposto ao primeiro grupo, recomeça-se da mesma fórma os caracteres, do
segundo grupo de letras; no terceiro, os traços são prependiculares ao
tronco; e no quarto esses traços são transversaes ou obliquos.
Os nomes d'essas vinte letras é tomado da arvore cujo nome começa pelo
som d'essa letra; é por isso que o termo _Feadha_, a planta, a arvore, a
floresta, significa tambem o symbolismo alphabetico, a sciencia, e o
vate ou _Faethiste_. Se não fossem os caracteres que ahi vês inscriptos
n'esse penhasco, seria impossivel conservar a ordem dos _Bastões dos
Poetas_, em que está escripto o Poema de seis mil versos, que se guarda
ahi dentro da Caverna.
E Idevor mostrou a Viriatho a ordem alphabetica, ou _Beith-Luis_, na sua
successão ogmica: *b*, *l*, *f*, *s*, *n*, *h*, *d*, *t*, *c*, *q*, *m*,
*g*, *ng*, *st*, *r*, *a*, *o*, *u*, *e*, *i*.
Era n'esta ordem que deviam ser dispostos os Bastões runicos. Idevor
procurou a entrada da Caverna, que era um pequeno corredor de accesso,
na vertente do despenhadeiro, que ia dar a um recinto ou vasta camara
revestida nas paredes e tecto por infiltrações stalactilicas. Parecia um
hypogeo sepulchral, a que as concreções stalagmiticas davam o aspecto de
estatuas mortuarias, envolvidas em sudarios brancos. Á medida que os
dois peregrinos avançavam pela assombrosa camara, os rumores dos passos
resoavam por outras galerias que se succediam apenas separadas por
grandes pedras; de vez em quando sentia-se esvoaçarem aves das trevas,
que alli hibernavam, e que para os crédulos pareciam as almas dos
antepassados. Sobre o pavimento estavam espalhados estilhaços de silex,
machados de pedra, ossos de animaes que pertenceram ao clima glaciario.
Avançando com precaução, Idevor chegou á entrada de uma segunda camara,
mais vasta e esplendida, pela sua estructura trabalhada pelas
infiltrações das aguas; era allumiada por uma fresta aberta nas fendas
da rocha, e ahi existia ao centro um bloco despegado do tecto da
caverna, formando uma ampla meza aquella lagem de fórma arredondada. E
em volta, junto da parede natural, achavam-se dispostas seis pedras,
como se fossem assentos patriarchaes; sobre ellas estavam estendidos, á
maneira de feixes de setas, os Bastões runicos, a que Idevor por vezes
alludira. O velho endre fallou para Viriatho:
--É n'estas varas que está escripto o _Poema da Lusonia_.
E foi tirando pela ordem ogmica os Bastões e collocando-os
combinadamente sobre a grande meza central; todos esses feixes formaram
outros tantos Quadrados, como os que acabavam de contemplar na face lisa
do Penedo do Cachão da Rapa. E depois de se acharem todos dispostos
convenientemente, disse Idevor:
--Agora posso lêr o velho Poema da raça de que provimos, e em que se
encerra o destino da _Lusonia_.
Viriatho approximou-se respeitoso, exclamando com jubilo:
--Esse Poema nacional é o verdadeiro _Thesouro do Luso_. O conhecel-o
enche todas as minhas ambições.
E Idevor, percorrendo um a um, nos seis grupos de varas, os Bastões
runicos em que se continham os seis mil versos da _Epopêa da Lusonia_,
observou:
--Levaria muitas horas a leitura ou recitação pausada dos versos d'esta
Epopêa; para o caso que nos interessa n'este momento basta um resumo
claro e verdadeiro. Escuta pois o Argumento da