XLIV

Viriatho, regressando da ilha sagrada de _Achale_ para a companhia dos

Mil Soldurios, vinha alegre pela novidade que acabava de saber poucos

momentos antes:

--O Senado e o Povo romano ratificaram a Paz assignada por Serviliano! A

Lusitania está livre de hoje em diante. Não disputaremos nunca a Roma o

seu dominio entre os Povos ibericos; disfructe ahi á vontade as suas

conquistas e as suas exacções fiscaes. Que os seus Proconsules e

Pretores se enriqueçam rapidamente, e venham ahi remir-se pelo seu

governo das garras dos crédores que os empobreceram em Roma. A Lusitania

só quer que a deixem no seu trabalho, que é a sua festa permanente. Na

fé do Tratado depômos as armas; vou communicar esta resolução, que é da

parte dos Lusitanos o começo do cumprimento do glorioso Tratado, ao

Conselho armado, para que em seguida todos os Têrços e Companhias, que

andam ha nove annos empenhados n'esta campanha de libertação, voltem ás

suas terras.

Foram dadas e transmittidas todas as ordens necessarias para que o

Conselho armado se reunisse junto da Mamôa mais proxima. Quando Viriatho

fallou em dissolver o exercito, ouviu-se uma voz de entre os do

Conselho, observando:

--Tenho por perigoso esse desarmamento; porque Roma não cessa de mandar

tropas para a Hespanha, e está sustentando uma guerra sangrenta em volta

de Numancia. Ahi estão dois Consules temerarios Quinto Pompeu Rufo, e

Quinto Servilio Cepio, sustentando essa campanha. Nada mais facil do

que, sabendo esses generaes que o nosso exercito se licenceou, voltando

os Têrços a seus lares, um d'elles se lembre de vir fazer uma incursão á

Lusitania e nos apanhe isolados.

Viriatho ouviu attentamente a observação, e não foi immediatamente de

encontro a ella, antes parecia corroboral-a:

--É uma supposição plausivel, e tanto mais para recear, que um d'esses

Consules, Quinto Servilio Cepio hade querer vingar o irmão Serviliano

por ter assignado o Tratado de Paz; e além de tudo Cepio, segundo a voz

que corre, é considerado em Roma como um devasso, capaz de todas as

deslealdades pelo seu caracter perfido. Mas, Cepio tem de obedecer ao

Senado e Povo romano, e por isso estamos livres de qualquer traição,

como a que ha doze annos praticou Servio Galba contra a Lusitania. Hoje

não tratamos com Consul algum pessoalmente; é com Roma representada pelo

seu mais alto poder politico. Não temos direito a duvidar d'ella; o

Tratado aqui está escripto e assignado.

E em seguida passou as laminas de cobre em que o Tratado de Paz com os

Lusitanos estava assignado por Lellio e Servilio, os dois Consules

n'esse anno de DCXIV da Fundação de Roma; e cada um dos membros do

Conselho armado foi lendo detidamente e approvando:

--É a garantia de uma paz duradoura.

--Para que esse Tratado seja effectivo, continuou Viriatho, temos de

mostrar a Roma que confiamos na seriedade das suas Leis, e que pelo

nosso lado cumprimos o Tratado depondo as armas e voltando aos nossos

labores quotidianos.

--É assim mesmo! assim mesmo.

E approvada a resolução, foram enviados mensageiros para todos os povos

e terras que tinham luctado pela independencia da Lusitania; para os

Vettões, para os Vacceos e Callaicos; outros foram levar traslados do

Tratado de Paz para que fôsse lido na Celtiberia, na Carpetania e na

Oretania, na Betica e até ao Paiz dos Cuneos.

Ao saír do Conselho armado, disse ainda a mesma voz suspeitosa:

--Bem sei que a noticia do Tratado vae causar por todas essas terras uma

alegria immensa! É legitima. Porém vendo o exercito licenciado, e

sabendo quanto é difficil pôl-o de repente em pé de guerra, continuarei

dizendo, e oxalá me engane: Tenho por perigoso este desarmamento.

Quem assim fallava era o bravo Tantalo, que em toda aquella campanha

nunca hesitou em cumprir uma ordem de Viriatho.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 54 / 81 题