Viriatho, regressando da ilha sagrada de _Achale_ para a companhia dos
Mil Soldurios, vinha alegre pela novidade que acabava de saber poucos
momentos antes:
--O Senado e o Povo romano ratificaram a Paz assignada por Serviliano! A
Lusitania está livre de hoje em diante. Não disputaremos nunca a Roma o
seu dominio entre os Povos ibericos; disfructe ahi á vontade as suas
conquistas e as suas exacções fiscaes. Que os seus Proconsules e
Pretores se enriqueçam rapidamente, e venham ahi remir-se pelo seu
governo das garras dos crédores que os empobreceram em Roma. A Lusitania
só quer que a deixem no seu trabalho, que é a sua festa permanente. Na
fé do Tratado depômos as armas; vou communicar esta resolução, que é da
parte dos Lusitanos o começo do cumprimento do glorioso Tratado, ao
Conselho armado, para que em seguida todos os Têrços e Companhias, que
andam ha nove annos empenhados n'esta campanha de libertação, voltem ás
suas terras.
Foram dadas e transmittidas todas as ordens necessarias para que o
Conselho armado se reunisse junto da Mamôa mais proxima. Quando Viriatho
fallou em dissolver o exercito, ouviu-se uma voz de entre os do
Conselho, observando:
--Tenho por perigoso esse desarmamento; porque Roma não cessa de mandar
tropas para a Hespanha, e está sustentando uma guerra sangrenta em volta
de Numancia. Ahi estão dois Consules temerarios Quinto Pompeu Rufo, e
Quinto Servilio Cepio, sustentando essa campanha. Nada mais facil do
que, sabendo esses generaes que o nosso exercito se licenceou, voltando
os Têrços a seus lares, um d'elles se lembre de vir fazer uma incursão á
Lusitania e nos apanhe isolados.
Viriatho ouviu attentamente a observação, e não foi immediatamente de
encontro a ella, antes parecia corroboral-a:
--É uma supposição plausivel, e tanto mais para recear, que um d'esses
Consules, Quinto Servilio Cepio hade querer vingar o irmão Serviliano
por ter assignado o Tratado de Paz; e além de tudo Cepio, segundo a voz
que corre, é considerado em Roma como um devasso, capaz de todas as
deslealdades pelo seu caracter perfido. Mas, Cepio tem de obedecer ao
Senado e Povo romano, e por isso estamos livres de qualquer traição,
como a que ha doze annos praticou Servio Galba contra a Lusitania. Hoje
não tratamos com Consul algum pessoalmente; é com Roma representada pelo
seu mais alto poder politico. Não temos direito a duvidar d'ella; o
Tratado aqui está escripto e assignado.
E em seguida passou as laminas de cobre em que o Tratado de Paz com os
Lusitanos estava assignado por Lellio e Servilio, os dois Consules
n'esse anno de DCXIV da Fundação de Roma; e cada um dos membros do
Conselho armado foi lendo detidamente e approvando:
--É a garantia de uma paz duradoura.
--Para que esse Tratado seja effectivo, continuou Viriatho, temos de
mostrar a Roma que confiamos na seriedade das suas Leis, e que pelo
nosso lado cumprimos o Tratado depondo as armas e voltando aos nossos
labores quotidianos.
--É assim mesmo! assim mesmo.
E approvada a resolução, foram enviados mensageiros para todos os povos
e terras que tinham luctado pela independencia da Lusitania; para os
Vettões, para os Vacceos e Callaicos; outros foram levar traslados do
Tratado de Paz para que fôsse lido na Celtiberia, na Carpetania e na
Oretania, na Betica e até ao Paiz dos Cuneos.
Ao saír do Conselho armado, disse ainda a mesma voz suspeitosa:
--Bem sei que a noticia do Tratado vae causar por todas essas terras uma
alegria immensa! É legitima. Porém vendo o exercito licenciado, e
sabendo quanto é difficil pôl-o de repente em pé de guerra, continuarei
dizendo, e oxalá me engane: Tenho por perigoso este desarmamento.
Quem assim fallava era o bravo Tantalo, que em toda aquella campanha
nunca hesitou em cumprir uma ordem de Viriatho.