Esperando o momento azado para recomeçar as operações militares, Quinto
Fabio Maximo passára o inverno no seu quartel estabelecido na cidade de
Corduba, vendo que a espantosa revolução que irrompia entre as tribus
lusitanas chegava á maior intensidade quando justamente estava a
terminar o periodo do seu consulado. Elle presentia, que em Roma a sua
pretendida victoria era motivo de facecias; por que as noticias do
levantamento de tantos povos á voz de Viriatho, desde o Anas e Betis até
ao Promontorio Trileuco, patenteava que o chefe lusitano redobrára de
força e de prestigio depois da sua retirada para Bécor. Quinto Fabio,
sob a incerteza se seria chamado a Roma, se continuaria no commando da
Guerra viriathina, ou se outro Consul o viria substituir, passava os
dias em uma agitação moral que o perturbava profundamente, obrigando-o
ao esforço de occultar o seu estado de espirito, diante dos que o
rodeavam. Na inacção forçada da estação hyberna, ordenou certos
divertimentos, que os Consules, na sumptuosidade de vida que usavam na
Peninsula, tornavam uma caracteristica da grandeza romana.
A melhor parte do dia passava-se em um lautissimo e grandioso banquete,
em que á parte as iguarias, em que predominava o salmão cosido em vinho
branco, deliciava os convivas a parte espectaculosa, que se continuava
pela noite adiante. Durante o banquete resoavam as musicas proprias
chamadas _acroamata_, em que grupos de moços e raparigas ao som de
flautas e lyras cantavam desenvoltamente em meneios de dansas e
pantomimas, imitando situações dos mythos religiosos e das lendas
homericas. Eram sobretudo jovens syrias e gaditanas, que, ao som dos
cantos licenciosos mais fascinavam pelas dansas lascivas os convivas de
Quinto Fabio. E para fazer contraste com a belleza das fórmas,
appareciam de repente os _anões_ e _aleijados_, que em contorsões
violentas, procurando imitar os _equilibristas_, que formavam pyramides
e torres ambulantes, dando cambalhotas e guinchos estridentes,
suscitavam as mais estridulosas gargalhadas. Á variedade e profusão das
iguarias, correspondia a mudança dos divertimentos, destacando-se, pelo
seu poder hilariante, os _Imitadores_, que reproduziam o canto dos
gallos, e o dos rouxinoes, os zurros do jumento, o miar dos gatos
assanhados, macaqueando os gestos e a falla dos typos mais conhecidos da
cidade de Corduba e mesmo de alguns Centurios.
Quando Fabio estava cansado de rir de todas essas manifestações da
indignidade humana, das disformidades physicas e degradações moraes,
então mandava que se fizessem as recitações poeticas, e appareciam com
ramos de louro nas mãos os _Homeristas_, que ao som das lyras de sete
cordas e de cytharas declamavam episodios dos poemas do Cyclo homerico.
Já estavam os candelabros accesos na sala do banquete, quando entraram
os _Homeristas_, para recitarem alternadamente os cantos de um Poema, a
que deram o titulo de _Os Piratas tyrrhenos_; e em quanto declamavam,
figuras mudas em um intermedio dramatico iam representando todas as
situações descriptas:
«A bella e joven Neéra banhava-se descuidada nas ribas de Naxos.
«Apparecem subitamente os piratas do mar Tyrrheno e arrebatam-na, para a
venderem para algum gyneceo real.
* * * * *
«Menéclida, seu velho pae, deplora a perda do encanto da sua velhice.
«O namorado de Neéra, encontra-o chorando, e persuade o velho para irem
consultar o Oraculo. Partem ambos com anciedade.
* * * * *
«No mar os Piratas disputam entre si a posse de Neéra; e não se
entendendo no meio da sua lucta ameaçam de metterem o baixel a pique, e
morrerem todos.
«O piloto impõe-se aos remeiros, dizendo,--que é melhor ir offerecer a
cativa ao Rei de Coryntho, porque assim alcançavam um porto de refugio e
abrigo, quando fossem perseguidos ou batidos pelas tempestades do mar.
* * * * *
«Neéra é offerecida ao monarcha: a formosura da cativa deslumbra-o.
«Coryntho está em uma grande desolação por uma terrivel peste asiatica e
a mortandade é enorme. O Rei consulta o Oraculo;--que responde: Que o
seu Estado ficará livre da peste logo que elle despose uma prisioneira.
* * * * *
«Quando se faz o banquete das nupcias de Neéra, apparecem dois
forasteiros, o pae e o namorado de Neéra, desfigurados pelas fadigas das
jornadas, e por isso desconhecidos.
«Sentam os dois forasteiros á meza, e dão ao velho Menéclida uma lyra
para entoar um cantico. Como bom rhapsodo, desenvolveu em uma canção
saudosa o verso de uma tragedia de Sophocles:
--_É preciso para ser feliz--viver no seu lar..._
«A cativa, agora rainha, conhece pelo canto a voz do pae, e vê na
physionomia do moço que o acompanha a expressão do namorado, dos seus
primeiros amores, Alcimo.
* * * * *
«O moço diz ao rei que é esculptor, e que fizera as estatuas mais bellas
de Aphrodite para os templos de Héllade; e que se promptifica a fazer a
estatua de Neéra.
«O Rei quer a estatua da esposa, mas com uma condição: Que o artista
contemplando-a núa, logo que fôr terminada a obra elle morrerá, sendo
assim a sua morte o véo do pudôr.
«O moço acceita a condição resoluto: Neéra pasma, receiosa. Começa o
estudo das fórmas, das posições...
* * * * *
«E quando os dois amantes sentiam mais ardente a paixão primeira, e
Alcimo achava impossivel reproduzir no marmore tanta belleza,
presentindo que a morte os separará para sempre, em um longo beijo assim
lhe segreda:
--Que a mesma morte nos una!
* * * * *
«E de noite fugiram ambos do palacio, entrando em uma barca, das que
estavam varadas no porto de Coryntho: foram mar em fóra ao som da agua,
fallando dos seus amores, vogando perdidos, e ja muito longe, aos
primeiros alvores da alvorada, Alcimo cantava:
Sobre o horisonte, quanto a vista alcança,
Reluz vaga esperança:
Branca vela! da salvação signal:
--É o _Sonho do Ideal_.
Succede á calmaria a viração,
--Do Amor a aspiração,
Que as nuvens da borrasca longe espalha!
A vela branca assoalha.
Nas auras fluctuando--esse estandarte
Nos leva ás _regiões da Arte_.
Que importa Syrtes ou parceis? agora
Resplandece outra aurora,
Um céo azul n'esses teus olhos! Vêl-o,
E certo rumo--o _Bello_!
Como busca outro clima uma andorinha,
Que o calor adivinha,
Fugimos! Crente, á prôa
A alma para ti vôa...
Pelo mar largo assim vamos os dois
Devaneando... Depois,
N'este enlevo sem fim, perdido o norte,
Que seja o porto a morte!»
Apenas acabára a recitação dos _Homeristas_, já appareciam na sala os
Parasitos para dizerem chascos e graçolas; mas o Consul Quinto Fabio deu
ordem para que se retirassem.
--O que desejará agora o Consul? diziam uns para os outros. Talvez
alguma Tragedia? Que venha já immediatamente o Graeculo.
Quinto Fabio ouvira fallar n'uma crença que os Povos da Lusitania tinham
sobre os poderes maravilhosos de uma _Cerva branca_; constava-lhe que um
velho poema barbaro celebrava esse mysterio, pelo qual se explicava o
prestigio dos homens politicos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que
se lembrava de numerosas estrophes do Poema.
Disse-lhe o Consul:
--Tens a liberdade, se me recitares o Poema da _Cerva branca_.
--É o Poema de _Abidis_, do Principe fadado por _invencivel diante de
todos os perigos, e sempre subjugado pelo Amor_. N'esse poema está
symbolisado o genio da nossa raça lusitana: luctando indomavel até á
morte, mas deixando-se morrer de amor.
--Canta ou recita esse poema; e terás a liberdade.
O prisioneiro sentiu uma immensa alegria quando lhe tiraram as algêmas;
e começou em uma melopêa estranha, que absorveu a attenção dos convivas:
*Rimo de Abidis*
Ouviu negro vaticinio
O rei Górgoris um dia:
Que do seu throno dourado
Um neto o despenharia!
Mandou fechar n'uma torre
Distante, redonda, esguia,
A Princeza sua filha,
Unica herdeira que havia.
Triste, cativa a Princeza,
Cantava de noite e dia,
Para encher a soledade
Nas angustias que soffria.
Passa um Cavalleiro perto,
A doce musica ouvia;
Mas, como subir á Torre?
Tão alta! quem poderia?
Deixára soltar as tranças,
E até á terra descia
Seu fino e lindo cabello
Por onde o moço subia.
As noites eram auroras
Da mais intima alegria,
E as ausencias tornavam
Cada vez mais negro o dia;
Até que d'esses amores,
Que ninguem suspeitaria,
Ao cabo de nove mezes
Formoso Infante nascia.
Boas Fadas o fadaram,
A qual mais dons lhe daria:
--_Invencivel aos perigos_
_Serà!_ uma fada dizia.
_De amores sempre vencido_,
Outra fada retorquia.
Toma o rei Górgoris conta
Do Infante apenas nado,
Que traz o nome de Abidis
No cinto em que é enfaixado.
Sempre o negro vaticinio
Ao velho rei é lembrado;
Só pensa em salvar o throno,
Leva ao crime tal cuidado.
Em uma estreita azinhaga
Deixa o neto abandonado,
Por onde passa correndo
Sua boiada, seu gado.
Pelo poder do destino
Não foi o Infante calcado!
O velho rei recrudesce
No odio ao neto votado,
E manda lançal-o ao monte
Certo de ser devorado
Por algum lobo faminto
Ou serpente do vallado.
Foram dar com elle rindo
Na relva fresca do prado,
Lá por uma _Cerva branca_
Com carinho amamentado!
O velho rei mais raivoso
Mandou arrojal-o ao mar,
Crendo que as aguas profundas
Hão de a criança afogar.
A onda a que a arremeçaram
Á praia a vem entregar!
Então Górgoris conhece
Que a Deusa Hertha o quiz salvar.
_Estrella do Mar_ se chama
A essa diva lunar,
Que traz por sagrado emblema
Uma _Cerva branca_ a par.
Por causa da _Cerva branca_
Veiu tanto odio a acabar.
O rei Górgoris tem gloria
De Abidis seu reino herdar:
Como o neto, resistente
Seu Imperio hade ficar,
Annunciando-lhe a grandeza
Aquella _Estrella do Mar_!
Aproveitando-se de uma pausa ou hesitação de memoria do prisioneiro,
disse-lhe o Consul Quinto Fabio:
--Já faço ideia do poder da _Cerva branca_; conta agora algum lance
d'esse invencivel Abidis, _sempre vencido de amores_.
--Ah! toda a historia de Abidis ou Amadis, é quasi inteiramente de
amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripecias
sempre de encantar. Começo por uma
*Declaração de amor*
Apalpando o lado esquerdo
Não achei o coração!
Na repentina surpreza,
Com tamanha inquietação,
Conheci que m'o furtaram,
Não sei bem a occasião...
Fui logo á procura d'elle
Buscando o rasto no chão,
Escutando attentamente,
Se lhe ouvia a pulsação!
Talvez esteja perdido
Em remota solidão?
Quando já sem esperança
Cahia na decepção,
Fui dar com elle fechado
Em nevada, fina mão!
Não me atrevi a exigil-o,
E eu mesmo, sorrindo então,
A quem assim m'o levára
Tive de pedir perdão,
Porque ha no amor a furto
O philtro da tentação.
O Consul, como homem culto, estava interessado pelas rimas do
prisioneiro lusitano, que lhe pareciam barbaras mas impressionantes; e
disse-lhe:
--Prometti-te a liberdade; para que a obtenhas de vez, é preciso que
proclames em voz alta: «Viva o poder da grande e generosa Roma!»
O prisioneiro olhou desdenhosamente para Quinto Fabio, devolvendo com
secura, e como em um arranco de morte:
--Volto para o ergástulo.
E murmurando entre dentes com entranhado rancor, ao retomar as algemas:
--A _Cerva branca_ ainda hade dar bastante que fazer aos Romanos! Oh, se
hade!
A festa dos Acroamata era poucos instantes depois interrompida; chegára
uma ordem cathegorica chamando a Roma Quinto Fabio Maximo Emiliano, e
determinando-lhe a entrega immediata do commando do exercito consular ao
novo general Quinto Cecilio Metello.