XXXV

Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indecisão da

campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiára o

Senado. Era momento azado para negociar a alliança, por que não tinha

sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o

Cabecilha, para impôr condições vergonhosas. Mandou um emissario a

Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz

e alliança com Roma nas bases do _Foedum aequus_ era uma solução honrosa

em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da

Lusitania.

Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a

perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade,

reconhecendo-o como _Principe da Lusitania_. E na sua linguagem franca e

rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o

diploma que lhe fôra confiado:

--Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania é o

empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliança com Roma, n'essa

base de egualdade politica, será effectivamente uma garantia para a

autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe ha uma

phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rómulo,

que foi chefe de ladrões e que teve habilidade para dar á sua quadrilha

a cohesão de um Estado entre as Cidades italicas.

«A Lusitania é constituida por cidades livres e trabalhadoras,

subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fóros; e

muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de

Salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de fallar, e sem

mais valor do que banaes comparações; mas o que eu repillo com todas as

véras de alma é o titulo de _Principe da Lusitania_. Não é a simpleza

dura do meu caracter ou isempção que me leva a recusar esse titulo; é o

conhecimento da tradição d'esta terra livre por que combato.»

«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em

que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano,

começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu

interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia

irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a

Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar

esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes,

para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes

meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros

que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da

liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania,

desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se

impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o

entregue ao assalto dos invasores.

«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a

Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra,

vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima

dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o

glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas

federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e

francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em

condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado

visa a outros fins, tem outros intuitos.»

O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do

Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A

incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos

generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem

audaz, mas não com a grandeza do caracter.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 45 / 81 题