Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indecisão da
campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiára o
Senado. Era momento azado para negociar a alliança, por que não tinha
sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o
Cabecilha, para impôr condições vergonhosas. Mandou um emissario a
Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz
e alliança com Roma nas bases do _Foedum aequus_ era uma solução honrosa
em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da
Lusitania.
Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a
perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade,
reconhecendo-o como _Principe da Lusitania_. E na sua linguagem franca e
rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o
diploma que lhe fôra confiado:
--Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania é o
empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliança com Roma, n'essa
base de egualdade politica, será effectivamente uma garantia para a
autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe ha uma
phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rómulo,
que foi chefe de ladrões e que teve habilidade para dar á sua quadrilha
a cohesão de um Estado entre as Cidades italicas.
«A Lusitania é constituida por cidades livres e trabalhadoras,
subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fóros; e
muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de
Salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de fallar, e sem
mais valor do que banaes comparações; mas o que eu repillo com todas as
véras de alma é o titulo de _Principe da Lusitania_. Não é a simpleza
dura do meu caracter ou isempção que me leva a recusar esse titulo; é o
conhecimento da tradição d'esta terra livre por que combato.»
«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em
que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano,
começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu
interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia
irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a
Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar
esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes,
para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes
meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros
que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da
liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania,
desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se
impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o
entregue ao assalto dos invasores.
«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a
Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra,
vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima
dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o
glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas
federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e
francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em
condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado
visa a outros fins, tem outros intuitos.»
O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do
Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A
incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos
generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem
audaz, mas não com a grandeza do caracter.