No segundo dia em que Viriatho passou na ilha sagrada de _Achale_, o
velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre redonda, e ahi
ambos a sós, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento
mysterioso; fallava Idevor:
--«Tens a força material, n'essa Espada _Gaizus_, que te torna
invencivel: a força moral é a que não se extingue e mais se communica.
Já que o teu braço serve com lealdade a causa da Lusitania, é preciso
que o teu espirito seja apoiado pela Tradição da nossa raça; que a
conheças, por que a tua memoria sobreviverá n'ella, e que com ella
ligues em um vinculo affectivo todos os companheiros de armas que seguem
o teu commando. A tradição do passado é dolorosa, mas sublime; nós os
Lusos sômos um ramo d'essa grande raça navegadora que desceu do Norte
pela borda occidental da Europa, occupou as ilhas Britanicas, a orla
atlantica das Gallias, da Aquitania, e espalhando-se na Hispania, chegou
ás ilhas Mediterraneas e á alta Italia.
«Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os
amphibios, tirou d'esta qualidade os nomes de muitas das suas tribus,
que fórmam Ligas hanseaticas para protegerem a sua actividade mercantil,
vendendo os blocos de Ambar amarello que iam buscar aos mares do Norte.
Esse grande Povo, d'onde proviemos, encetou as audaciosas navegações do
Oceano atlantico, descobrindo ahi as Ilhas Afortunadas, tocando em um
ignorado continente que fica lá para as bandas do Oéste ou a terra dos
_Aymaras_, a quem communicou a sua civilisação e conhecimentos de
astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo persico,
e depois de estacionar na ilha de Dilmun, occupou a baixa Chaldêa,
dirigido por Oannes ou _Huan_, que na velha lingua designava o Sol, que
era o guia certo d'esses navegadores primeiros.
«Perdeu-se a noticia d'estas largas navegações; a raça foi atacada por
outras raças fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas,
armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que só conheciam
espadas de bronze; e essa raça corpulenta e loura, irrequieta e inculta,
bateu os Ligures, escravisou-os ou misturou-se com elles desnaturando-os
da sua pureza primitiva. Por mar os Phenicios e os Jonios do
Mediterraneo lançaram-se no esteiro das suas navegações e mettiam a
pique todos os baixeis liguricos que encontravam. N'esta longa lucta é
que os Ligures foram succumbindo; sobretudo na Hespanha, quando os
Iberos, vindos do norte da Africa, aqui entraram e monopolisaram o
commercio do estanho que iam buscar ás Ilhas Cassitérides.
«Outras raças vieram successivamente á occupação da Hespanha, e aqui
foram comprimindo a raça de _Lez_, o generoso povo da Lusonia,
empurrando-o para a faixa occidental, e como que procurando arrojal-o ao
mar Oceano. É no conflicto d'estas raças invasoras que a Lusitania tem
diminuido de territorio, e as suas tribus vão sendo desmembradas. Os
Romanos acharam-os já enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na
faixa que hoje occupâmos, á antiga invasão dos Celtas, e até agora nunca
confundidos nem incorporados pelos Iberos. É com esta força de
resistencia immanente na possa raça que deves contar; ella vale mais do
que muitos exercitos disciplinados, estes morrem mas esse sentimento é
inextinguivel. A Lusitania não é somente um territorio maior ou menor,
que nos aggrega; é uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jonios
roubaram-nos as nossas tradições poeticas, transportando para as
cabotagens do mar Mediterraneo as nossas aventuras temerosas passadas no
Atlantico, que se tornou para os seus geographos o _Mar Tenebroso_. Os
Phenicios afundaram os nossos baixeis e apoderaram-se dos nossos
Periplos e do nosso commercio. E depois de tanta devastação do
estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa
Roma votar-nos ao exterminio para assim firmar a sua posse pacifica da
Hespanha, segura de que o Ibero se considera honrado com a expoliação do
seu dominio. Hoje, Roma conta com a antipathia do Ibero para subjugar a
Lusitania: com o odio do Ibero contará mais tarde qualquer outra
potencia estrangeira para submetter a Lusitania, dando-se como
protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o véo do futuro?...»
Idevor explicára longamente este quadro do passado da raça dos Ligures,
e a situação sempre combatida das tribus da Lusonia, quando ella tocava
quasi os Pyrenneos, e mesmo as margens do Mediterraneo. Mostrára a
Viriatho as moedas autonomas das antigas cidades peninsulares, as armas
dos seus heroes, os collares do commando, por onde o Chefe ficou
conhecendo todos aquelles povos agora desmembrados entre os Celtiberos,
que pertenciam á unidade da Patria lusitana. Por este conhecimento
precioso Viriatho adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos
elles na defeza contra o Romano.
No terceiro e ultimo dia em que Viriatho se conservou na Ilha sagrada de
_Achale_, o velho endre subiu com elle ao terceiro andar da Torre
redonda, para _aventar_ rapidamente alguns traços do futuro:
--«Vês esse Mar immenso! esse Atlantico, que os baixeis liguricos
sulcaram destemidos outr'ora, e hoje o Phenicio monopolisa? Quando o
Luso se vir comprimido entre as raças que avançam de léste e o mar, que
hoje lhe serve de barreira defensiva, elle terá consciencia da sua
missão no mundo, sentirá em si renascer a antiga energia da raça, e
restabelecendo as grandes Navegações antigas fundará novos Imperios em
vastos continentes agora ignorados. É este o destino da Lusitania: será
a primeira das Nações, emquanto ella servir esta tradição, emquanto um
fiel alliado estrangeiro a não espoliar das suas descobertas...»
O endre não era bem comprehendido; o praso chegára, e a barca de couro
já fluctuava junto da lingueta de areia no porto de _Achale_. Viriatho
desceu da Torre redonda, acompanhado pelo endre e pelo côro das Virgens
á frente das quaes vinha Lisia; embarcou, chegando em breve á costa de
Cetobriga onde o esperavam com anciedade.
Lisia dissera-lhe á despedida:
--Agora tens o teu espirito iniciado para ires á _Pedra Virgem_, e lá
tomares conhecimento do antigo Poema de seis mil versos, gravados nos
Bastões dos Poetas. Não basta dar unidade ás tribus lusitanas pelo poder
da Espada: a Tradição conservada na Arvore d'Ogham, de que o ramo
inicial e mais caracteristico se denomina _Luis_, bem revela que os
destinos da _Lusonia_ se eternisarão pelo perstigio do seu Canto
nacional. Eu pedirei a Idevor, que te guie á Caverna das Inscripções
oghmicas, junto á margem do Durius, e lá te descubra o grande Poema da
raça, esse Pregão eterno do genio luso.