XXXIII

No segundo dia em que Viriatho passou na ilha sagrada de _Achale_, o

velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre redonda, e ahi

ambos a sós, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento

mysterioso; fallava Idevor:

--«Tens a força material, n'essa Espada _Gaizus_, que te torna

invencivel: a força moral é a que não se extingue e mais se communica.

Já que o teu braço serve com lealdade a causa da Lusitania, é preciso

que o teu espirito seja apoiado pela Tradição da nossa raça; que a

conheças, por que a tua memoria sobreviverá n'ella, e que com ella

ligues em um vinculo affectivo todos os companheiros de armas que seguem

o teu commando. A tradição do passado é dolorosa, mas sublime; nós os

Lusos sômos um ramo d'essa grande raça navegadora que desceu do Norte

pela borda occidental da Europa, occupou as ilhas Britanicas, a orla

atlantica das Gallias, da Aquitania, e espalhando-se na Hispania, chegou

ás ilhas Mediterraneas e á alta Italia.

«Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os

amphibios, tirou d'esta qualidade os nomes de muitas das suas tribus,

que fórmam Ligas hanseaticas para protegerem a sua actividade mercantil,

vendendo os blocos de Ambar amarello que iam buscar aos mares do Norte.

Esse grande Povo, d'onde proviemos, encetou as audaciosas navegações do

Oceano atlantico, descobrindo ahi as Ilhas Afortunadas, tocando em um

ignorado continente que fica lá para as bandas do Oéste ou a terra dos

_Aymaras_, a quem communicou a sua civilisação e conhecimentos de

astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo persico,

e depois de estacionar na ilha de Dilmun, occupou a baixa Chaldêa,

dirigido por Oannes ou _Huan_, que na velha lingua designava o Sol, que

era o guia certo d'esses navegadores primeiros.

«Perdeu-se a noticia d'estas largas navegações; a raça foi atacada por

outras raças fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas,

armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que só conheciam

espadas de bronze; e essa raça corpulenta e loura, irrequieta e inculta,

bateu os Ligures, escravisou-os ou misturou-se com elles desnaturando-os

da sua pureza primitiva. Por mar os Phenicios e os Jonios do

Mediterraneo lançaram-se no esteiro das suas navegações e mettiam a

pique todos os baixeis liguricos que encontravam. N'esta longa lucta é

que os Ligures foram succumbindo; sobretudo na Hespanha, quando os

Iberos, vindos do norte da Africa, aqui entraram e monopolisaram o

commercio do estanho que iam buscar ás Ilhas Cassitérides.

«Outras raças vieram successivamente á occupação da Hespanha, e aqui

foram comprimindo a raça de _Lez_, o generoso povo da Lusonia,

empurrando-o para a faixa occidental, e como que procurando arrojal-o ao

mar Oceano. É no conflicto d'estas raças invasoras que a Lusitania tem

diminuido de territorio, e as suas tribus vão sendo desmembradas. Os

Romanos acharam-os já enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na

faixa que hoje occupâmos, á antiga invasão dos Celtas, e até agora nunca

confundidos nem incorporados pelos Iberos. É com esta força de

resistencia immanente na possa raça que deves contar; ella vale mais do

que muitos exercitos disciplinados, estes morrem mas esse sentimento é

inextinguivel. A Lusitania não é somente um territorio maior ou menor,

que nos aggrega; é uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jonios

roubaram-nos as nossas tradições poeticas, transportando para as

cabotagens do mar Mediterraneo as nossas aventuras temerosas passadas no

Atlantico, que se tornou para os seus geographos o _Mar Tenebroso_. Os

Phenicios afundaram os nossos baixeis e apoderaram-se dos nossos

Periplos e do nosso commercio. E depois de tanta devastação do

estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa

Roma votar-nos ao exterminio para assim firmar a sua posse pacifica da

Hespanha, segura de que o Ibero se considera honrado com a expoliação do

seu dominio. Hoje, Roma conta com a antipathia do Ibero para subjugar a

Lusitania: com o odio do Ibero contará mais tarde qualquer outra

potencia estrangeira para submetter a Lusitania, dando-se como

protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o véo do futuro?...»

Idevor explicára longamente este quadro do passado da raça dos Ligures,

e a situação sempre combatida das tribus da Lusonia, quando ella tocava

quasi os Pyrenneos, e mesmo as margens do Mediterraneo. Mostrára a

Viriatho as moedas autonomas das antigas cidades peninsulares, as armas

dos seus heroes, os collares do commando, por onde o Chefe ficou

conhecendo todos aquelles povos agora desmembrados entre os Celtiberos,

que pertenciam á unidade da Patria lusitana. Por este conhecimento

precioso Viriatho adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos

elles na defeza contra o Romano.

No terceiro e ultimo dia em que Viriatho se conservou na Ilha sagrada de

_Achale_, o velho endre subiu com elle ao terceiro andar da Torre

redonda, para _aventar_ rapidamente alguns traços do futuro:

--«Vês esse Mar immenso! esse Atlantico, que os baixeis liguricos

sulcaram destemidos outr'ora, e hoje o Phenicio monopolisa? Quando o

Luso se vir comprimido entre as raças que avançam de léste e o mar, que

hoje lhe serve de barreira defensiva, elle terá consciencia da sua

missão no mundo, sentirá em si renascer a antiga energia da raça, e

restabelecendo as grandes Navegações antigas fundará novos Imperios em

vastos continentes agora ignorados. É este o destino da Lusitania: será

a primeira das Nações, emquanto ella servir esta tradição, emquanto um

fiel alliado estrangeiro a não espoliar das suas descobertas...»

O endre não era bem comprehendido; o praso chegára, e a barca de couro

já fluctuava junto da lingueta de areia no porto de _Achale_. Viriatho

desceu da Torre redonda, acompanhado pelo endre e pelo côro das Virgens

á frente das quaes vinha Lisia; embarcou, chegando em breve á costa de

Cetobriga onde o esperavam com anciedade.

Lisia dissera-lhe á despedida:

--Agora tens o teu espirito iniciado para ires á _Pedra Virgem_, e lá

tomares conhecimento do antigo Poema de seis mil versos, gravados nos

Bastões dos Poetas. Não basta dar unidade ás tribus lusitanas pelo poder

da Espada: a Tradição conservada na Arvore d'Ogham, de que o ramo

inicial e mais caracteristico se denomina _Luis_, bem revela que os

destinos da _Lusonia_ se eternisarão pelo perstigio do seu Canto

nacional. Eu pedirei a Idevor, que te guie á Caverna das Inscripções

oghmicas, junto á margem do Durius, e lá te descubra o grande Poema da

raça, esse Pregão eterno do genio luso.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 43 / 81 题