Para que a inactividade passageira em que se via não prejudicasse o
perstigio que exercia sobre os seus homens de armas, resolveu Viriatho
ir consultar o velho Idevor á ilha sagrada de _Achale_, junto do
promontorio Cepressico, aonde se conservavam as tradições cultuaes
trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus Mil Soldurios, e
transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetobriga, aonde
o Sado desemboca no Oceano, deu ordem aos companheiros que alli o
esperassem durante tres dias.
D'alli, d'aquella bahia do Sado, partiu Viriatho em uma barca de couro,
com os trez Cavalleiros que sempre o custodiavam, em direcção ao
promontorio Cepressico de traz do qual parecia occultar-se a ilha de
_Achale_. Um d'esses companheiros, Ditálcon, dizia:
--Foi n'essa ilha que se refugiaram as familias lusitanas assombradas
pelo morticinio de Galba; junto do templo do Deus innominato,
encontraram alento para resistirem á calamidade que os aniquilava.
Minouro, ancioso por pisar aquella ilha mysteriosa de _Achale_, avivava
tambem as suas reminiscencias:
--Conta-se que outr'ora um Collegio sacerdotal de Druidas estava na ilha
Pelagia, situada ao norte, fronteira á costa de Ophiusa, chamada d'antes
Oestrymnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os Bardos, que
doutrinaram as tribus de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar Tenebroso
indo buscar o estanho ás ilhas Cassitérides, e voltavam confiados no
afamado pharol da torre de Brigantia. Mas, quem sabe onde está hoje essa
ilha Pelagia?
Andaca observou:
--Desappareceu, ou por mysterio ou força da natureza. O mar desfez essa
ilha, e aonde ella existiu é hoje um vastuo estuario coberto de _moliço_
e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prevêr que a Lusonia
tem tambem de desapparecer como a sua Ilha encantada. Aqui a nossa raça
foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os
Phenicios e Jonios, destruindo a nossa navegação no Oceano, mettendo a
pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu commercio os
Carthaginezes, que attrahiram sobre nós a pilhagem dos Romanos, que hoje
temos vencido, mas que não largam a prêza.
Emquanto a barca de couro seguia para a ilha de _Achale_, ia Viriatho
reconcentrado e silencioso, como absorto na alta missão da sua vida; ao
ouvir aquellas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso intimo da sua
intuição quasi prophetica, exclamou para os trez companheiros:
--Não serão sómente os Romanos que hão de pensar em submetter ao jugo as
tribus da Lusonia; outros povos ou outras raças virão do norte e do sul,
e se espalharão sobre este territorio julgando possuil-o pela força da
conquista. A Lusonia póde ser temporariamente vencida, mas _nunca
d'outrem subjugada_; não se extingue, porque a sua liberdade subsistirá
nas almas, e cedo ou tarde manifesta-se em espirito e renasce em
restauração gloriosa.
As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o
promontorio Cepressico, e appareceu repentinamente á vista a Ilha
sagrada de _Achale_.
--É alli, é alli que se guardam os thesouros salvos ás devastações e
rapinas dos Romanos; outros povos lançam os seus thezouros aos lagos
escuros, como melhor meio de defeza. Mas quem saberá da existencia
d'esta ilha mysteriosa? Ninguem; ninguem.
Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preoccupação que
desde aquella hora sabia aonde se guardava o chamado _Thesouro do Luso_.
A mesma ideia tornou-se uma obsessão para Ditálcon. A barca chegava já
ás rochas escarpadas da ilha de _Achale_, sobre a qual se erguia uma
Torre redonda de trez andares, como sentinella do Oceano tenebroso.
Erecta sobre o pequeno promontorio, a Torre redonda de uma
surprehendente elegancia, era construida de fortes blocos apparelhados
de pedra sêcca, tendo no cocuruto um tecto tambem de pedra em fórma
conica. Dos seus tres andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol
formadas em pequenas torres lateraes que terminam em ameias.
O interior é alumiado por seteiras geminadas, e a porta unica da entrada
está a uma altura do chão para a qual se sobe por uma escada movel que
se faz baixar quando é necessario. Como logar de refugio alli estão
depositadas as folhas plumbeas que têm impressos os titulos das
familias, e relações dos successos memoraveis, Crescentes e Virias de
ouro, Fibulas mamilares, Tiaras e Bastões de prata, insignias do
commando dos patriarchas. Alli na Torre redonda se conserva o Fogo
perpetuo consagrado a _Samham_, o _Julgador dos mortos_, cujos ritos se
celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos
Antepassados ahi residem as Gemmades (de _Genmaidh_, puro e casto)
mulheres formando uma como classe de Vestalato ou _Lucae dominicae_; e
alli comparecem os tocadores das Harpas triplices ou de tres cordas,
chamadas _Telyne_, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente
acompanhando os canticos de uma inspiração divina expressa pela palavra
_Awen_.
E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca:
--Não tem porto _Achale_?
N'isto roçou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando
em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de
communicação do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma
extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos,
que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.
Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com
um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao
seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram
conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre
redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos
Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos
nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava á cabeceira da
meza, como se fosse um _Brenn_ ou _Hegmon_ das tribus.
E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove
donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raça, cingidos os
cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas
ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e
cantando em unisono um côro que repetiam, foi o seu canto interrompido
por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra.
Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o
penetrou com uma vibração seductora e dominativa, e viu lentamente
descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graça e
frescura sobrehumana.
Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da
raça, e guarda das tradições mais augustas das tribus lusonias. Estava
vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os
Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de
ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o
alto da cabeça e vinha ás pontas das orelhas. Era uma Semnothêa, cercada
por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda
celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo
escadorio, e atravessando por entre o Côro das donzellas, que a foram
seguindo, tomou de uma ára a taça de ouro destinada ás symposias, e
chegando em frente de Viriatho, estendeu o braço desnudado, alvissimo e
de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taça de ouro:
--Bem vindo! Viriatho. Só para ti, e com a minha felicidade.
Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela belleza extrema que
alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taça da branca mão de Lisia e
extactico, paralysado no seu movimento, não a levou logo aos labios. No
rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria
desattendida a sua escolha? não a amaria o guerreiro de que tanto lhe
fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?
Tudo o amor adivinha; lê nas almas, e o silencio é a linguagem mais
expressiva da emoção ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de
tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo á hesitação
involuntaria de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos labios:
--Á tua saude! e _para sempre_.
Entrega em seguida a taça a Lisia, que com um rubor fascinante a levou
aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia,
murmurando com suavidade:
--Para sempre!
E emquanto se entreolhavam em um invencivel enlêvo, Idevor ergueu ambas
as mãos abençoando-os, lembrando-se de que aquella criança bella perdera
toda a sua familia na mortandade de Galba, e de que aquelle homem forte
surgira como o vingador e o libertador da Lusitania. Essas duas almas
fugiam uma para a outra. As nove donzellas que acompanhavam Lisia como
uma fórma não organisada do Vestalato, mas que poderiam ser comparadas
ás _Senae_ ou _Barrigenes_ gaulezas, cantaram um hymno de amor, ao som
de tetracordes, sobre a phrase que Viriatho e Lisia tinham trocado:
Para sempre--no espaço
A estrella
Erma, bella,
Fulgor vivo derrama:
De paixão nunca lasso,
O que fará quem ama?
Para sempre--o sol flavo
Solta a flux
Vida, luz,
Que o seu calor inflamma;
Da attracção pura escravo
O que fará quem ama?
Para sempre--o Oceano
Tudo alaga
Com a vaga
Que plangente rebrama;
Da alma no doce engano,
O que fará quem ama?
Para sempre--sereno
O luar
Faz scismar,
E mil saudades chama;
No enlêvo mais ameno,
O que fará quem ama?
Para sempre,--e sem calma
A paixão
Na attracção
Do enlêvo augmenta a chamma;
E embala o engano da alma
Para sempre em quem ama!
O hymno de amor desdobrava-se em um coral unisono no retornello--O que
fará quem ama?--deixando uma impressão mais que humana. Emquanto os
eccos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre redonda,
Lisia, de mãos dadas com Viriatho, foi percorrendo a sala á volta,
cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com sympathia. D'alli
subiram os dois para o terceiro e ultimo andar da Torre d'onde se
alcançava a extensão immensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um
céo sereno e sem nuvens.
--Como as nossas almas!--disse-lhe Lisia, apontando todo aquelle ambiente.
Alli, n'aquelle retiro ignorado do mundo e até aonde sómente Lisia tinha
accesso pela sua qualidade de Semnothêa, alli, de pé, junto de Viriatho,
e contemplando o Oceano profundamente placido n'aquelle dia,
confessou-lhe a noiva ingenua:
--Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como és. Como
Semnothêa e para que te entregue completamente a minha vontade, só me
falta uma prova de ti. Tens de responder a um Enigma.
--O coração que ama tudo adivinha.
Então Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:
Vive sem ter corpo,
No valle ou em gruta;
Falla sem ter bocca,
Sem ouvido escuta?
--Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando
pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo _Ecco_.
--Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei
que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.
E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriatho, e
atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:
--Para sempre!
E Viriatho, tomando-lhe as mãos ambas:
--Eu ouvia fallar de ti como uma apparição celeste, mas não tinha
esperança de chegar a vêr-te. N'esta vida de combates que levo, para a
independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como
consequencia da lucta, e então... morreria sem vêr-te.
--Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a
amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e
Virgem Semnothêa do Collegio sacerdotal, que através de todas as
perseguições e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada
de _Achale_, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida
com a independencia da Lusitania.
--É para mim muito mais do que a corôa de rei a escolha que de mim
fizeste para teu esposo.--Disse Viriatho, tomando as mãos de Lisia e
beijando-as trémulo.
Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou
com emoção e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo não
um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo,
fitando o mar como esquecido de si.
Lisia, com ternura e graça, perguntou-lhe:
--Quando te entreguei a taça de ouro, por que hesitaste em leval-a aos
labios?
--Dominou-me o espasmo de uma impressão divina.
--Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse
momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o
meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro
aos labios acceitando a minha escôlha; mas... só virei a ser a tua
Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado _quando um General romano te
pedir a Paz_.
--Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me á tua vontade,--para
sempre. A condição que revelas é um impossivel, por ventura para não te
destituires da hierarchia de Semnothêa? Virgem dos mysterios cultuaes,
nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura, e tirando
d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo
eu? deixa-me delirar um instante, para forçar um Pretor, um Consul a
_pedir-me a Paz_. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal não ter familia em
quanto não expulsar os Romanos da Lusitania.
Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibração de confiança em si,
para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a
condição quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a
presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que
trazia, metteu-o no dedo da mão esquerda de Viriatho, n'aquelle em que
se diz passar a vena-percordial.
E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se
tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho
d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o não
deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de
Lisia, que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguivel
raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as
vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no _Terçado_ e no
_Annel_ os Talismans que pelo poder da tradição formariam o Thezouro do
Luso.