XXXII

Para que a inactividade passageira em que se via não prejudicasse o

perstigio que exercia sobre os seus homens de armas, resolveu Viriatho

ir consultar o velho Idevor á ilha sagrada de _Achale_, junto do

promontorio Cepressico, aonde se conservavam as tradições cultuaes

trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus Mil Soldurios, e

transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetobriga, aonde

o Sado desemboca no Oceano, deu ordem aos companheiros que alli o

esperassem durante tres dias.

D'alli, d'aquella bahia do Sado, partiu Viriatho em uma barca de couro,

com os trez Cavalleiros que sempre o custodiavam, em direcção ao

promontorio Cepressico de traz do qual parecia occultar-se a ilha de

_Achale_. Um d'esses companheiros, Ditálcon, dizia:

--Foi n'essa ilha que se refugiaram as familias lusitanas assombradas

pelo morticinio de Galba; junto do templo do Deus innominato,

encontraram alento para resistirem á calamidade que os aniquilava.

Minouro, ancioso por pisar aquella ilha mysteriosa de _Achale_, avivava

tambem as suas reminiscencias:

--Conta-se que outr'ora um Collegio sacerdotal de Druidas estava na ilha

Pelagia, situada ao norte, fronteira á costa de Ophiusa, chamada d'antes

Oestrymnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os Bardos, que

doutrinaram as tribus de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar Tenebroso

indo buscar o estanho ás ilhas Cassitérides, e voltavam confiados no

afamado pharol da torre de Brigantia. Mas, quem sabe onde está hoje essa

ilha Pelagia?

Andaca observou:

--Desappareceu, ou por mysterio ou força da natureza. O mar desfez essa

ilha, e aonde ella existiu é hoje um vastuo estuario coberto de _moliço_

e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prevêr que a Lusonia

tem tambem de desapparecer como a sua Ilha encantada. Aqui a nossa raça

foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os

Phenicios e Jonios, destruindo a nossa navegação no Oceano, mettendo a

pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu commercio os

Carthaginezes, que attrahiram sobre nós a pilhagem dos Romanos, que hoje

temos vencido, mas que não largam a prêza.

Emquanto a barca de couro seguia para a ilha de _Achale_, ia Viriatho

reconcentrado e silencioso, como absorto na alta missão da sua vida; ao

ouvir aquellas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso intimo da sua

intuição quasi prophetica, exclamou para os trez companheiros:

--Não serão sómente os Romanos que hão de pensar em submetter ao jugo as

tribus da Lusonia; outros povos ou outras raças virão do norte e do sul,

e se espalharão sobre este territorio julgando possuil-o pela força da

conquista. A Lusonia póde ser temporariamente vencida, mas _nunca

d'outrem subjugada_; não se extingue, porque a sua liberdade subsistirá

nas almas, e cedo ou tarde manifesta-se em espirito e renasce em

restauração gloriosa.

As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o

promontorio Cepressico, e appareceu repentinamente á vista a Ilha

sagrada de _Achale_.

--É alli, é alli que se guardam os thesouros salvos ás devastações e

rapinas dos Romanos; outros povos lançam os seus thezouros aos lagos

escuros, como melhor meio de defeza. Mas quem saberá da existencia

d'esta ilha mysteriosa? Ninguem; ninguem.

Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preoccupação que

desde aquella hora sabia aonde se guardava o chamado _Thesouro do Luso_.

A mesma ideia tornou-se uma obsessão para Ditálcon. A barca chegava já

ás rochas escarpadas da ilha de _Achale_, sobre a qual se erguia uma

Torre redonda de trez andares, como sentinella do Oceano tenebroso.

Erecta sobre o pequeno promontorio, a Torre redonda de uma

surprehendente elegancia, era construida de fortes blocos apparelhados

de pedra sêcca, tendo no cocuruto um tecto tambem de pedra em fórma

conica. Dos seus tres andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol

formadas em pequenas torres lateraes que terminam em ameias.

O interior é alumiado por seteiras geminadas, e a porta unica da entrada

está a uma altura do chão para a qual se sobe por uma escada movel que

se faz baixar quando é necessario. Como logar de refugio alli estão

depositadas as folhas plumbeas que têm impressos os titulos das

familias, e relações dos successos memoraveis, Crescentes e Virias de

ouro, Fibulas mamilares, Tiaras e Bastões de prata, insignias do

commando dos patriarchas. Alli na Torre redonda se conserva o Fogo

perpetuo consagrado a _Samham_, o _Julgador dos mortos_, cujos ritos se

celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos

Antepassados ahi residem as Gemmades (de _Genmaidh_, puro e casto)

mulheres formando uma como classe de Vestalato ou _Lucae dominicae_; e

alli comparecem os tocadores das Harpas triplices ou de tres cordas,

chamadas _Telyne_, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente

acompanhando os canticos de uma inspiração divina expressa pela palavra

_Awen_.

E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca:

--Não tem porto _Achale_?

N'isto roçou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando

em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de

communicação do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma

extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos,

que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.

Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com

um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao

seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram

conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre

redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos

Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos

nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava á cabeceira da

meza, como se fosse um _Brenn_ ou _Hegmon_ das tribus.

E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove

donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raça, cingidos os

cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas

ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e

cantando em unisono um côro que repetiam, foi o seu canto interrompido

por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra.

Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o

penetrou com uma vibração seductora e dominativa, e viu lentamente

descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graça e

frescura sobrehumana.

Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da

raça, e guarda das tradições mais augustas das tribus lusonias. Estava

vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os

Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de

ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o

alto da cabeça e vinha ás pontas das orelhas. Era uma Semnothêa, cercada

por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda

celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo

escadorio, e atravessando por entre o Côro das donzellas, que a foram

seguindo, tomou de uma ára a taça de ouro destinada ás symposias, e

chegando em frente de Viriatho, estendeu o braço desnudado, alvissimo e

de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taça de ouro:

--Bem vindo! Viriatho. Só para ti, e com a minha felicidade.

Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela belleza extrema que

alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taça da branca mão de Lisia e

extactico, paralysado no seu movimento, não a levou logo aos labios. No

rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria

desattendida a sua escolha? não a amaria o guerreiro de que tanto lhe

fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?

Tudo o amor adivinha; lê nas almas, e o silencio é a linguagem mais

expressiva da emoção ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de

tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo á hesitação

involuntaria de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos labios:

--Á tua saude! e _para sempre_.

Entrega em seguida a taça a Lisia, que com um rubor fascinante a levou

aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia,

murmurando com suavidade:

--Para sempre!

E emquanto se entreolhavam em um invencivel enlêvo, Idevor ergueu ambas

as mãos abençoando-os, lembrando-se de que aquella criança bella perdera

toda a sua familia na mortandade de Galba, e de que aquelle homem forte

surgira como o vingador e o libertador da Lusitania. Essas duas almas

fugiam uma para a outra. As nove donzellas que acompanhavam Lisia como

uma fórma não organisada do Vestalato, mas que poderiam ser comparadas

ás _Senae_ ou _Barrigenes_ gaulezas, cantaram um hymno de amor, ao som

de tetracordes, sobre a phrase que Viriatho e Lisia tinham trocado:

Para sempre--no espaço

A estrella

Erma, bella,

Fulgor vivo derrama:

De paixão nunca lasso,

O que fará quem ama?

Para sempre--o sol flavo

Solta a flux

Vida, luz,

Que o seu calor inflamma;

Da attracção pura escravo

O que fará quem ama?

Para sempre--o Oceano

Tudo alaga

Com a vaga

Que plangente rebrama;

Da alma no doce engano,

O que fará quem ama?

Para sempre--sereno

O luar

Faz scismar,

E mil saudades chama;

No enlêvo mais ameno,

O que fará quem ama?

Para sempre,--e sem calma

A paixão

Na attracção

Do enlêvo augmenta a chamma;

E embala o engano da alma

Para sempre em quem ama!

O hymno de amor desdobrava-se em um coral unisono no retornello--O que

fará quem ama?--deixando uma impressão mais que humana. Emquanto os

eccos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre redonda,

Lisia, de mãos dadas com Viriatho, foi percorrendo a sala á volta,

cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com sympathia. D'alli

subiram os dois para o terceiro e ultimo andar da Torre d'onde se

alcançava a extensão immensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um

céo sereno e sem nuvens.

--Como as nossas almas!--disse-lhe Lisia, apontando todo aquelle ambiente.

Alli, n'aquelle retiro ignorado do mundo e até aonde sómente Lisia tinha

accesso pela sua qualidade de Semnothêa, alli, de pé, junto de Viriatho,

e contemplando o Oceano profundamente placido n'aquelle dia,

confessou-lhe a noiva ingenua:

--Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como és. Como

Semnothêa e para que te entregue completamente a minha vontade, só me

falta uma prova de ti. Tens de responder a um Enigma.

--O coração que ama tudo adivinha.

Então Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:

Vive sem ter corpo,

No valle ou em gruta;

Falla sem ter bocca,

Sem ouvido escuta?

--Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando

pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo _Ecco_.

--Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei

que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.

E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriatho, e

atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:

--Para sempre!

E Viriatho, tomando-lhe as mãos ambas:

--Eu ouvia fallar de ti como uma apparição celeste, mas não tinha

esperança de chegar a vêr-te. N'esta vida de combates que levo, para a

independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como

consequencia da lucta, e então... morreria sem vêr-te.

--Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a

amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e

Virgem Semnothêa do Collegio sacerdotal, que através de todas as

perseguições e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada

de _Achale_, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida

com a independencia da Lusitania.

--É para mim muito mais do que a corôa de rei a escolha que de mim

fizeste para teu esposo.--Disse Viriatho, tomando as mãos de Lisia e

beijando-as trémulo.

Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou

com emoção e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo não

um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo,

fitando o mar como esquecido de si.

Lisia, com ternura e graça, perguntou-lhe:

--Quando te entreguei a taça de ouro, por que hesitaste em leval-a aos

labios?

--Dominou-me o espasmo de uma impressão divina.

--Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse

momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o

meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro

aos labios acceitando a minha escôlha; mas... só virei a ser a tua

Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado _quando um General romano te

pedir a Paz_.

--Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me á tua vontade,--para

sempre. A condição que revelas é um impossivel, por ventura para não te

destituires da hierarchia de Semnothêa? Virgem dos mysterios cultuaes,

nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura, e tirando

d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo

eu? deixa-me delirar um instante, para forçar um Pretor, um Consul a

_pedir-me a Paz_. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal não ter familia em

quanto não expulsar os Romanos da Lusitania.

Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibração de confiança em si,

para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a

condição quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a

presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que

trazia, metteu-o no dedo da mão esquerda de Viriatho, n'aquelle em que

se diz passar a vena-percordial.

E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se

tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho

d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o não

deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de

Lisia, que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguivel

raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as

vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no _Terçado_ e no

_Annel_ os Talismans que pelo poder da tradição formariam o Thezouro do

Luso.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 42 / 81 题