A _Guerra viriathina_, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada
na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza
que lhe competia, preparando uma solução pratica. Usando de um direito
de negociar e concluir allianças com os povos estrangeiros, entendeu o
Senado que era tempo de propôr a Viriatho um tratado de mutuas
garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigações, e
designados sob o titulo de _Foedus aequum_. A lucta desesperada das
populações da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de
independencia local e pessoal, que Roma não podia apagar pela força das
suas legiões; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses
romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e
os individuos adquiriam o _Jus peregrinum_, gosando de uma protecção
legal em Roma sem dependencia de patronos.
Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a
difficuldade de poder submetter esta região hispanica ao regimen do
_Foedus iniquum_, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos
submettidos ao seu protectorado. A Lusitania não era um inimigo vencido,
nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto
desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na
Hispania Ulterior indicando a opportunidade do _Foedus aequum_.
Approveitava-se a occasião da partida de Quinto Fabio para a Lusitania:
elle seria o portador do tratado de alliança, ficando-lhe reservado o
arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso
o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A convenção
diplomatica não comprehendia sómente a segurança das pessoas e das
transacções entre os dois paizes; continha-se ahi um facto
capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro
da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou
rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execução do
tratado como soberano.
Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal
acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados
no governo sorriu-se com superioridade:
--Todas essas garantias estão apenas na letra; por que vós todos sabeis,
que embora pertença ao Senado a direcção das negociações com os
estrangeiros, nenhuma alliança poderá concluir-se sem que os Comicios
lhe prestem o seu assentimento ou ratificação.
A ideia diplomatica foi promptamente comprehendida. Na partida de Quinto
Fabio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteudo ignorava, e impondo-lhe a
clausula, que só o abrisse e cumprisse, quando e até aonde a marcha dos
acontecimentos o determinasse. Era ainda um habil modo do Senado
eximir-se a responsabilidades.
As forças que Lellio commandava em Hespanha estavam cansadas e
apavoradas; o Consul Quinto Fabio comprehendeu que era condição
impreterivel partir com algumas novas Legiões, para com ellas metter em
disciplina as que se consideravam exhaustas. Os exercitos romanos
estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grecia, da Macedonia, de
Carthago, achavam-se diminuidos e tambem debilitados por esforços
ininterruptos; os veteranos que regressavam á patria vinham semi-mortos,
e para nada se poderia contar com elles. De Pydna haviam chegado a Roma
as Legiões triumphantes; da destruição de Carthago regressava Scipião
com os seus bravos; mas nenhum legionario se quiz inscrever para
acompanhar Quinto Fabio para a guerra da Lusitania, justificando-se com
desdem que não desciam das altas façanhas contra nações grandes e
civilisadas, contra umas obscuras tribus miseraveis dos confins do
occidente e demais commandadas por um chefe de ladrões, (_Dux
latronum_). Por estes imprevistos embaraços, e pela situação apathica em
que se via Caio Lellio, a guerra lusitana afroixára; Viriatho, para não
cansar as suas Companhias e Terços aproveitou-se d'esta tregua forçada,
contando que nova epoca de lucta seria iniciada, cada vez mais
desesperada e cruenta da parte dos Romanos.