XXXI

A _Guerra viriathina_, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada

na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza

que lhe competia, preparando uma solução pratica. Usando de um direito

de negociar e concluir allianças com os povos estrangeiros, entendeu o

Senado que era tempo de propôr a Viriatho um tratado de mutuas

garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigações, e

designados sob o titulo de _Foedus aequum_. A lucta desesperada das

populações da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de

independencia local e pessoal, que Roma não podia apagar pela força das

suas legiões; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses

romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e

os individuos adquiriam o _Jus peregrinum_, gosando de uma protecção

legal em Roma sem dependencia de patronos.

Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a

difficuldade de poder submetter esta região hispanica ao regimen do

_Foedus iniquum_, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos

submettidos ao seu protectorado. A Lusitania não era um inimigo vencido,

nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto

desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na

Hispania Ulterior indicando a opportunidade do _Foedus aequum_.

Approveitava-se a occasião da partida de Quinto Fabio para a Lusitania:

elle seria o portador do tratado de alliança, ficando-lhe reservado o

arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso

o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A convenção

diplomatica não comprehendia sómente a segurança das pessoas e das

transacções entre os dois paizes; continha-se ahi um facto

capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro

da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou

rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execução do

tratado como soberano.

Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal

acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados

no governo sorriu-se com superioridade:

--Todas essas garantias estão apenas na letra; por que vós todos sabeis,

que embora pertença ao Senado a direcção das negociações com os

estrangeiros, nenhuma alliança poderá concluir-se sem que os Comicios

lhe prestem o seu assentimento ou ratificação.

A ideia diplomatica foi promptamente comprehendida. Na partida de Quinto

Fabio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteudo ignorava, e impondo-lhe a

clausula, que só o abrisse e cumprisse, quando e até aonde a marcha dos

acontecimentos o determinasse. Era ainda um habil modo do Senado

eximir-se a responsabilidades.

As forças que Lellio commandava em Hespanha estavam cansadas e

apavoradas; o Consul Quinto Fabio comprehendeu que era condição

impreterivel partir com algumas novas Legiões, para com ellas metter em

disciplina as que se consideravam exhaustas. Os exercitos romanos

estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grecia, da Macedonia, de

Carthago, achavam-se diminuidos e tambem debilitados por esforços

ininterruptos; os veteranos que regressavam á patria vinham semi-mortos,

e para nada se poderia contar com elles. De Pydna haviam chegado a Roma

as Legiões triumphantes; da destruição de Carthago regressava Scipião

com os seus bravos; mas nenhum legionario se quiz inscrever para

acompanhar Quinto Fabio para a guerra da Lusitania, justificando-se com

desdem que não desciam das altas façanhas contra nações grandes e

civilisadas, contra umas obscuras tribus miseraveis dos confins do

occidente e demais commandadas por um chefe de ladrões, (_Dux

latronum_). Por estes imprevistos embaraços, e pela situação apathica em

que se via Caio Lellio, a guerra lusitana afroixára; Viriatho, para não

cansar as suas Companhias e Terços aproveitou-se d'esta tregua forçada,

contando que nova epoca de lucta seria iniciada, cada vez mais

desesperada e cruenta da parte dos Romanos.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 41 / 81 题