XXX

A _Guerra dos ladrões_, como chamavam em Roma á lucta heroica de um povo

defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia,

prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos

Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de

altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da

civilisação. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio

occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a

espalhar que Viriatho se rendera, que fôra agarrado; que seria trazido

para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade

cruenta irrompeu quando se viu que fôra encarregado Caio Lellio, que era

por todos cognominado o _prudente_, de partir rapidamente para a

Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se

desmoralisára. E tal era a importancia da missão, que Lellio partira

revestido da auctoridade de Proconsul. A situação era extremamente

grave; porque um dos generaes romanos, não se sabia se Unimano ou

Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira.

Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiança pela

clareza de intelligencia que possuia; não iria imprimir um impulso

decisivo ao _Bellum latronum_, mas ninguem como elle saberia informar o

Senado da situação da Lusitania e das condições que cedo ou tarde

conduziriam á victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato

eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas

qualidades não eram incompativeis com o espirito militar de um chefe

tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois

exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a

chegada de Gaio Lellio á Lusitania não produziu ruido; a sua obra

capital foi sustar promptamente o revês que se precipitava, reunindo os

dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o

provocava, com constantes escaramuças. Depois d'isto preparou as cousas

para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro

aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informações para o

Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por

outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber,

tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de

Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes,

escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados

pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul:

«Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania é habitada pela mais

poderosa das nações hispanicas; e que achando-se já subjugadas as

outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.

«Não provêm a sua força do numero dos seus habitantes, mas da sua

resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade

individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravidão.

«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram

com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e

conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não

aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta

invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo

vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o

trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas

para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no

intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que

votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes

e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros

ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes

eleitos apresentam-se na _entrada de Maio_ promptos para a campanha,

seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados,

soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem

incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho

me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma

guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o

exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição,

ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não

sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade

heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil

Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e

Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior

gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade

na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos

extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que

assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela

emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a

estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o

systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades

perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.

«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como

Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros,

adoptando para o seu exercito a _Espada hispanica_, que lhe tem

proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os

vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão

pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha

um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a

sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de

rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta

antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio;

muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico,

e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que

trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde.

O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe

titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles

ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero

para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que

empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a

união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão

primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha

revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que

acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta

credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por

aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em

um _Cavallo branco_, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro

invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha

prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando

ou a _Viria_, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um

guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto

este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento

de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma

representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que,

não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e

só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico.

Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general

romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual.

Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é

insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a

alcançar a gloria d'essa traição.»

Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas

passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas

romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as

Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica

romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos

anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio

Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate

dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos

uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.

O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os

acontecimentos atropellavam-se exigindo uma acção immediata. Para os

espiritos ambiciosos a missão de Lellio tambem fôra frustrada; era uma

derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu á corrente

da opinião: n'aquelle anno de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da

_Guerra dos Ladrões_, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo

Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmãos de afamadissimos

generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na

victoria de Pydna, e na destruição de Carthago. Fervia-lhes o sangue;

Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra

da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 40 / 81 题