A _Guerra dos ladrões_, como chamavam em Roma á lucta heroica de um povo
defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia,
prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos
Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de
altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da
civilisação. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio
occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a
espalhar que Viriatho se rendera, que fôra agarrado; que seria trazido
para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade
cruenta irrompeu quando se viu que fôra encarregado Caio Lellio, que era
por todos cognominado o _prudente_, de partir rapidamente para a
Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se
desmoralisára. E tal era a importancia da missão, que Lellio partira
revestido da auctoridade de Proconsul. A situação era extremamente
grave; porque um dos generaes romanos, não se sabia se Unimano ou
Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira.
Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiança pela
clareza de intelligencia que possuia; não iria imprimir um impulso
decisivo ao _Bellum latronum_, mas ninguem como elle saberia informar o
Senado da situação da Lusitania e das condições que cedo ou tarde
conduziriam á victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato
eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas
qualidades não eram incompativeis com o espirito militar de um chefe
tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois
exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a
chegada de Gaio Lellio á Lusitania não produziu ruido; a sua obra
capital foi sustar promptamente o revês que se precipitava, reunindo os
dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o
provocava, com constantes escaramuças. Depois d'isto preparou as cousas
para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro
aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informações para o
Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por
outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber,
tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de
Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes,
escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados
pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul:
«Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania é habitada pela mais
poderosa das nações hispanicas; e que achando-se já subjugadas as
outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.
«Não provêm a sua força do numero dos seus habitantes, mas da sua
resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade
individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravidão.
«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram
com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e
conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não
aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta
invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo
vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o
trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas
para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no
intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que
votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes
e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros
ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes
eleitos apresentam-se na _entrada de Maio_ promptos para a campanha,
seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados,
soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem
incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho
me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma
guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o
exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição,
ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não
sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade
heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil
Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e
Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior
gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade
na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos
extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que
assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela
emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a
estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o
systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades
perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.
«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como
Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros,
adoptando para o seu exercito a _Espada hispanica_, que lhe tem
proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os
vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão
pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha
um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a
sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de
rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta
antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio;
muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico,
e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que
trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde.
O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe
titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles
ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero
para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que
empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a
união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão
primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha
revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que
acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta
credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por
aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em
um _Cavallo branco_, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro
invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha
prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando
ou a _Viria_, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um
guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto
este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento
de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma
representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que,
não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e
só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico.
Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general
romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual.
Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é
insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a
alcançar a gloria d'essa traição.»
Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas
passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas
romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as
Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica
romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos
anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio
Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate
dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos
uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.
O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os
acontecimentos atropellavam-se exigindo uma acção immediata. Para os
espiritos ambiciosos a missão de Lellio tambem fôra frustrada; era uma
derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu á corrente
da opinião: n'aquelle anno de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da
_Guerra dos Ladrões_, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo
Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmãos de afamadissimos
generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na
victoria de Pydna, e na destruição de Carthago. Fervia-lhes o sangue;
Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra
da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.