Entre os poucos legionarios do exercito de Nigidio que escaparam não
appareceu o general; fôra uma victima da tremenda catastrophe. Os chefes
do exercito de Viriatho resolveram prestar uma homenagem á Deusa-Mãe, do
culto chtoniano, _I-Ana_, ou _Anah_, levando em um carro puchado por
vaccas brancas, até as lesirias da margem do rio Pavia, a Pedra focal,
com que ella era representada na religião lunar da Lusitania. D'esse
culto primitivo, ficou a superstição de _revolver penedos_, junto dos
lameiros ou charcos, e a crença nas _Jans_ ou fadas, e nos juncaes
chamados _Omomi_, de que o povo fez a entidade do _Bom Homem_. A Pedra
focal foi conduzida com o respeito de quem via n'ella o symbolo da
fundação da familia, e no pleni-lunio dansava-se diante d'ella ao som de
sistros e adufes, tal como usavam as familias religiosas dos Cabiras,
Telchines e Dactylos. A Pedra focal era entre as tribus dos Germanos
tambem levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago.
No meio da festa apparatosa da Deusa-Mãe, todos os guerreiros do
exercito de Viriatho se approximaram da Pedra focal e collocando a mão
sobre ella fôram proferindo um juramento inquebrantavel:
--Nós combatemos pela liberdade da Lusitania, fonte da paz e da
segurança das nossas familias. E emquanto a Lusitania fôr pisada pelo
invasor romano, nós juramos combatel-o sempre, sem regressarmos a nossos
lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos
filhos até ao final triumpho, em que todos estamos empenhados.
A confiança na audacia e intelligencia de Viriatho é que motivava estas
resoluções extremas, que, se fosse necessario, seriam levadas até ao
suicidio. Viriatho começava a apparecer como um vulto maravilhoso, e
corriam vozes de que o toque das suas mãos dava saude. E quando o carro
era levado para a beira do rio com a Pedra focal, trouxeram ao encontro
de Viriatho um pobre homem hydropico, em extrema deformação, para que o
soccorresse com o seu poder e o livrasse de tanto soffrimento. Viriatho
attendeu o desgraçado doente:
--Para o teu mal ha um remedio infalivel nas aguas da Fonte de Ouguella.
Segue para lá quanto antes, e fica certo de que te curas.
--Senhor! disse o hydropico: Eu sou Bovecio; e prometto, quando voltar
curado, ser teu soldurio, acompanhar-te nos perigos e ainda além da morte.
Viriatho, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou:
--Não tem essas aguas sómente virtudes medicinaes; o pão amassado com
agua da Fonte velha de Ouguella fica mais leve e saboroso do que o
melhor pão de Avintes.
Um dos soldurios interveiu:
--Conheceis bem todas as riquezas d'esta nossa terra, porque a tendes
percorrido de norte a sul.
--Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas
fadigas da Mésta, quantas vezes fui eu ás aguas afamadas de Aljustrel,
lá no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por lá
encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes,
de sarna e até da lepra. O que sei dizer, é que de lá voltavam sempre
curados.
--São aguas santas!
--Santas, sim, mas é preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais...
Os banhos, esses são milagrosos.
--Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional
do Monte do Castello?
--Se conheço! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que
até se diz que não ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos
se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas
Thermas.
--Toda esta nossa Lusitania é rica de aguas milagrosas.
E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho
completou o seu pensamento:
--Como as aguas do Tagus não ha outras no mundo mais acerosas; nem as de
Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora
na Cava.