XXIX

Entre os poucos legionarios do exercito de Nigidio que escaparam não

appareceu o general; fôra uma victima da tremenda catastrophe. Os chefes

do exercito de Viriatho resolveram prestar uma homenagem á Deusa-Mãe, do

culto chtoniano, _I-Ana_, ou _Anah_, levando em um carro puchado por

vaccas brancas, até as lesirias da margem do rio Pavia, a Pedra focal,

com que ella era representada na religião lunar da Lusitania. D'esse

culto primitivo, ficou a superstição de _revolver penedos_, junto dos

lameiros ou charcos, e a crença nas _Jans_ ou fadas, e nos juncaes

chamados _Omomi_, de que o povo fez a entidade do _Bom Homem_. A Pedra

focal foi conduzida com o respeito de quem via n'ella o symbolo da

fundação da familia, e no pleni-lunio dansava-se diante d'ella ao som de

sistros e adufes, tal como usavam as familias religiosas dos Cabiras,

Telchines e Dactylos. A Pedra focal era entre as tribus dos Germanos

tambem levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago.

No meio da festa apparatosa da Deusa-Mãe, todos os guerreiros do

exercito de Viriatho se approximaram da Pedra focal e collocando a mão

sobre ella fôram proferindo um juramento inquebrantavel:

--Nós combatemos pela liberdade da Lusitania, fonte da paz e da

segurança das nossas familias. E emquanto a Lusitania fôr pisada pelo

invasor romano, nós juramos combatel-o sempre, sem regressarmos a nossos

lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos

filhos até ao final triumpho, em que todos estamos empenhados.

A confiança na audacia e intelligencia de Viriatho é que motivava estas

resoluções extremas, que, se fosse necessario, seriam levadas até ao

suicidio. Viriatho começava a apparecer como um vulto maravilhoso, e

corriam vozes de que o toque das suas mãos dava saude. E quando o carro

era levado para a beira do rio com a Pedra focal, trouxeram ao encontro

de Viriatho um pobre homem hydropico, em extrema deformação, para que o

soccorresse com o seu poder e o livrasse de tanto soffrimento. Viriatho

attendeu o desgraçado doente:

--Para o teu mal ha um remedio infalivel nas aguas da Fonte de Ouguella.

Segue para lá quanto antes, e fica certo de que te curas.

--Senhor! disse o hydropico: Eu sou Bovecio; e prometto, quando voltar

curado, ser teu soldurio, acompanhar-te nos perigos e ainda além da morte.

Viriatho, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou:

--Não tem essas aguas sómente virtudes medicinaes; o pão amassado com

agua da Fonte velha de Ouguella fica mais leve e saboroso do que o

melhor pão de Avintes.

Um dos soldurios interveiu:

--Conheceis bem todas as riquezas d'esta nossa terra, porque a tendes

percorrido de norte a sul.

--Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas

fadigas da Mésta, quantas vezes fui eu ás aguas afamadas de Aljustrel,

lá no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por lá

encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes,

de sarna e até da lepra. O que sei dizer, é que de lá voltavam sempre

curados.

--São aguas santas!

--Santas, sim, mas é preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais...

Os banhos, esses são milagrosos.

--Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional

do Monte do Castello?

--Se conheço! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que

até se diz que não ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos

se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas

Thermas.

--Toda esta nossa Lusitania é rica de aguas milagrosas.

E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho

completou o seu pensamento:

--Como as aguas do Tagus não ha outras no mundo mais acerosas; nem as de

Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora

na Cava.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 39 / 81 题