Lá me escapou a decifração do mysterio, esse doce mysterio de algumas

semanas antes, quando Virgilia me pareceu um pouco differente do que

era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preoccupação

exclusiva daquelle tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do

Viegas, nada me interessava por então, nem conflictos politicos,

nem revoluções, nem terremotos, nem nada. En só pensava naquelle

embryão anonymo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia:

é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa

voluptuosidade indefinivel, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me

homem.

O melhor é que conversávamos os dous, o embryão e eu, falavamos

de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra

gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãosinhas gordas, ou

então traçava a beca de bacharel, porque elle havia de ser bacharel,

e fazia um discurso na camara dos deputados. E o pae a ouvil-o de uma

tribuna, com os olhos rasos de lagrimas. De bacharel passava outra vez

á escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou então caía no

berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava fixar no espirito

uma edade, uma attitude; esse embryão tinha a meus olhos todos os

tamanhos e gestos: elle mamava, elle escrevia, elle valsava, elle era

o interminável nos limites de um quarto de hora,--_baby_ e deputado,

collegial e pintalegrete. Ás vezes, ao pé de Virgilia, esquecia-me

della e de tudo; Virgilia sacudia-me, reprochava-me o silencio, dizia

que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em dialogo com

o embryão; era o velho colloquio de Adão e Caim, uma conversa sem

palavras entre a vida e a vida, o mysterio e o mysterio.

CAPITULO XCI

Uma carta extraordinaria

Por esse tempo recebi uma carta extraordinaria, acompanhada de um

objecto não menos extraordinario. Eis o que a carta dizia:

«Meu caro Braz Cubas.

«Ha tempos, no Passeio Publico, tomei-lhe de emprestimo

um relogio. Tenho a satisfação de restituir-lh'o com esta

carta. A differença é que não é o mesmo, porém outro, não

digo superior, mas egual ao primeiro. _Que voulez-vous,

monseigneur_,--como dizia Figaro,--_c'est la misère._ Muitas

cousas se deram depois do nosso encontro; irei contal-as

pelo miudo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago

aquellas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca

cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau

da escada de S. Francisco; finalmente, almóço.

«Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe

um trabalho, fructo de longo estudo, um novo systema de

philosophia, que não só explica e descreve a origem e a

consummação das cousas, como faz dar um grande passo adeante

de Zenon e Seneca, cujo stoicismo era um verdadeiro brinco

de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente

espantoso este meu systema; rectifica o espirito humano,

supprime a dor, assegura a felicidade, e enche de immensa

gloria o nosso paiz. Chamo-lhe humanitismo, de _Humanitas_,

principio das cousas. Minha primeira idéa revelava uma grande

enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação

vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia

menos. Verá, meu caro Braz Cubas, verá que é devéras um

monumento; e se alguma cousa ha que possa fazer-me esquecer

as amarguras da vida, é o gosto de haver emfim apanhado

a verdade e a felicidade. Eil-as na minha mão essas

duas esquivas; após tantos seculos de lutas, pesquizas,

descobertas, systemas e quédas, eil-as nas mãos do homem. Até

breve, meu caro Braz Cubas. Saudades do

Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.»

Li esta carta sem entendel-a. Vinha com ella uma boceta contendo

um bonito relogio com as minhas iniciaes gravadas, e esta phrase:

_Lembrança do velho Quincas._ Voltei á carta, reli-a com pausa, com

attenção. A restituição do relogio excluia toda a idéa de burla;

a lucidez, a serenidade, a convicção,--um pouco jactanciosa, é

certo,--pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente

o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a

abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; ha

cousas que se não podem rehaver integralmente; mas emfim a regeneração

não era impossivel. Guardei a carta e o relogio, e esperei a

philosophia.

CAPITULO XCII

Um homem extraordinario

Já agora acabo com as cousas extraordinarias. Vinha de guardar a

carta e o relogio, quando me procurou um homem magro e meão, com um

bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado

com uma irmã do Cotrim, chegára poucos dias antes do norte, chamava-se

Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi elle mesmo que me disse

isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio de Janeiro, por

desaccordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os

ministros que serviram com elle. De resto, a revolução estava outra

vez ás portas. Neste ponto, comquanto trouxesse as idéas politicas

um pouco baralhadas, consegui organisar e formular o governo de suas

preferencias: era um despotismo temperado,--não por cantigas, como

dizem alhures,--mas por pennachos da guarda nacional. Só não pude

alcançar se elle queria o despotismo de um, de tres, de trinta ou de

tresentos. Opinava por varias cousas, entre outras, o desenvolvimento

do trafico dos africanos e a expulsão dos inglezes. Gostava muito

de theatro; logo que chegou foi ao theatro de S. Pedro, onde viu um

drama soberbo, a _Maria Joanna_, e uma comedia muito interessante,

_Kettly, ou a volta á Suissa._ Tambem gostara muito da Deperini, na

_Sapho_, ou na _Anna Bolena_, não se lembrava bem. Mas a Candiani!

sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o _Ernani_, que a filha

delle cantava em casa, ao piano: _Ernani, Ernani, involami..._--E dizia

isto levantando-se e cantarolando a meia voz.--No norte essas cousas

chegavam como um echo. A filha morria por ouvir todas as operas. Tinha

uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! elle estava

ancioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda,

com umas saudades... Palavra! em alguns logares teve vontade de chorar.

Mas não embarcaria mais. Enjoára muito a bordo, como todos os outros

passageiros, excepto um inglez... Que os levasse o diabo os inglezes!

Isto não ficava direito sem irem todos elles barra fóra. Que é que a

Inglaterra podia fazer-nos? Se elle encontrasse algumas pessoas de

boa vontade, era obra de uma noite a expulsão dos taes _godemes_...

Graças a Deus, tinha patriotismo,--e batia no peito,--o que não

admirava porque era de familia; descendia de um antigo capitão-mór

muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse a occasião, e

elle havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas fazia-se tarde,

ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para

maior palestra.--Levei-o até á porta da sala; elle parou dizendo

que sympathisava muito commigo. Quando casára, estava eu na Europa.

Conheceu meu pae, um homem ás direitas, com quem dansára n'um celebre

baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se

tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a

porta... Uf!

CAPITULO XCIII

O jantar

Que supplicio que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé

da filha do Damasceno, uma D. Eulalia, ou mais familiarmente Nhã-lóló,

moça bem graciosa, um tanto acanhada a principio, mas só a principio.

Faltava-lhe elegancia, mas compensava-a com os olhos, que eram

soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, excepto

quando desciam ao prato; mas Nhã-lóló comia tão pouco, que quasi não

olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pae,

«muito mimosa». Não obstante, esquivei-me. Sabina veiu até á porta, e

perguntou-me que tal achára a filha do Damasceno.

--Assim, assim.

--Muito sympathica, não é? acudiu ella; falta-lhe um pouco mais de

corte. Mas que coração! é uma perola. Bem boa noiva para você.

--Não gosto de perolas.

--Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a

cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, ha

de casar com Nhã-lóló.

E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e

ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo

da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a idéa, mas uma voz

mysteriosa chamava-me á casa do Lobo Neves, disse adeus a Sabina e ás

suas ameaças.

CAPITULO XCIV

A causa secreta

--Como está a minha querida mamãe?

A esta palavra, Virgilia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma

janella, sosinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas

quando lhe falei no nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante

allusão, aborreciam-lhe as minhas anticipadas caricias paternaes.

E eu, para quem ella era já uma pessoa sagrada, uma ambula divina,

deixava-a estar quieta. Suppuz a principio que o embryão, esse perfil

do incognito, projectando-se na nossa aventura, lhe restituira a

consciência do mal. E enganava-me. Nunca Virgilia me parecera mais

expansiva, mais sem reservas, menos preoccupada dos outros e do marido.

Não eram remorsos. Imaginei tambem que a concepção seria um puro

invento, um modo de prender-me a ella, recurso sem longa efficacia, que

talvez começava de opprimil-a. Não era absurda esta hypothese; a minha

doce Virgilia mentia ás vezes, com tanta graça!

Naquella noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e

vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro

filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte,

dava-lhe já imaginariamente os calefrios do patibulo. Quanto ao

vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos habitos

da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lh'o a entender,

reprehendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pae. Virgilia

fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um geito incredulo.

CAPITULO XCV

Flores de antanho

Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas

de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes.

Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de

uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na

sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me

á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem

flores. Onde iam ellas as flores de antanho?

CAPITULO XCVI

A carta anonyma

Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns

instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos

a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma

carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula.

Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim;

mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias

seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo,

dahi a dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era

anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das

nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha

intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a

carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.

--Calumnia? perguntou o Lobo Neves.

--Infame.

O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della

lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a

indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais

fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o

famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha;

talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle

escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse

tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava

salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte

só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum

namorado sem ventura. E citou alguns,--um que a galanteára francamente,

durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda

outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando

os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á

calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.

Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação

que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente

da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela

falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia

notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava

então para o soalho, e disse-me com certa amargura:

--Você não merece os sacrifícios que lhe faço.

Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero

e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias;

mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e

artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse

nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e

beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.

CAPITULO XCVII

Entre a boca e a testa

Sinto que o leitor estremeceu,--ou devia estremecer. Naturalmente

a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o

quadro: n'uma casinha da Gambôa*, duas pessoas que se amam ha muito

tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a

outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver.

Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e

depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,--a contracção de

um resentimento,--a ruga da desconfiança,--ou emfim o nariz pallido e

somnolento da saciedade..

CAPITULO XCVIII

Supprimido

Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta

anonyma restituia á nossa aventura o sal do mysterio e a pimenta do

perigo; e afinal foi bem bom que Virgilia não perdesse naquella crise a

posse de si mesma. De noite fui ao theatro de S. Pedro; representava-se

uma grande peça, em que a Estella arrancava lagrimas. Entro; corro

os olhos pelos camarotes; vejo em um delles o Damasceno e a familia.

Trajava a filha com outra elegancia e certo apuro, cousa difficil de

explicar, porque o pae ganhava apenas o necessario para endividar-se; e

dahi, talvez fosse por isso mesmo.

No intervallo fui visital-os. O Damasceno recebeu-me com muitas

palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-lóló, não tirou

mais os olhos de mim; e realmente parecia-me agora mais bonita que

no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etherea casada ao polido

das fórmas terrenas:--expressão vaga, e condigna de um capitulo em

que tudo ha de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me

senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um

vestido que me dava cocegas de Tartuffo. Ao contemplal-o, cobrindo

casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a

saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessaria

ao desenvolvimento da nossa especie. A nudez habitual, dada a

multiplicação das obras e dos cuidados do individuo, tenderia a embotar

os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuario, negaceando

a natureza, aguça e attráe as vontades, activa-as, reprodul-as, e

conseguintemente faz andar a civilisação. Abençoado uso que nos deu

_Othello_ e os paquetes transatlânticos!

Estou com vontade de supprimir este capitulo. O declive é perigoso.

Mas emfim eu escrevo as minhas memorias e não as tuas, leitor pacato.

Ao pé da graciosa donzella, parecia-me tomado de uma sensação dupla

e indefinivel. Ella exprimia inteiramente a dualidade de Pascal,

_l'ange et la bête_, com a differença que o jansenista não admittia a

simultaneidade das duas naturezas, ao passo que ellas ahi estavam bem

juntinhas,--_l'ange_, que dizia algumas cousas do ceu,--e _la bête_,

que... Não; decididamente supprimo este capitulo.

CAPITULO XCIX

Na platéa

Na platéa achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falámos

por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervallo seguinte,

prestes a levantar o panno, encontramo-nos n'um dos corredores, em que

não havia ninguem. Elle veiu a mim, com muita affabilidade e riso,

puxou-me a um dos oculos do theatro, e falamos muito, principalmente

elle, que parecia o mais tranquillo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe

pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação

para assumptos geraes, expansivo, quasi risonho. Adivinhe quem quizera

causa da differença; eu fujo ao Damasceno que me espreita alli da porta

do camarote.

Não ouvi nada do seguinte acto, nem as palavras dos actores, nem

as palmas do publico. Reclinado na cadeira, apanhava de memoria os

retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras delle, e

concluia que era muito melhor a nova situaçao. Bastava-nos a Gamboa. A

frequencia da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podiamos

dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, mettia a saudade

de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta annos, e não

era nada, nem simples eleitor de parochia. Urgia fazer alguma cousa,

ainda por amor de Virgilia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o

meu nome... Creio que nessa occasião houve grandes applausos, mas não

juro; eu pensava em outra cousa.

Multidão, cujo amor cobicei até á morte, era assim que eu me vingava ás

vezes de ti; deixava borborinhar em volta do meu corpo a gente humana,

sem a ouvir, como o Prometheu de Eschylo fazia aos seus verdugos.

Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua

indifferença, ou da tua agitação? Frageis cadeias, amiga minha; eu

rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa é ir considerar no

ermo. O voluptuoso, o exquisito, é insular-se o homem no meio de um

mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheiado,

inaccessivel, ausente. O mais que podem dizer, quando elle torna a

si,--isto é, quando torna aos outros,--é que baixa do mundo da lua; mas

o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cerebro, que outra

cousa é senão a affirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?

Vive Deus! eis um bom fecho de capitulo.

CAPITULO C

O caso provavel

Se esse mundo não fosse uma região de espiritos desattentos, era

escusado lembrar ao leitor que eu só affirmo certas leis, quando

as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me á admissão da

probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitue o presente

capitulo, cuja leitura recommendo a todas as pessoas que amam o estudo

dos phenomenos sociaes. Segundo parece, e não é improvavel, existe

entre os factos da vida publica e os da vida particular uma certa acção

reciproca, regular, e talvez periodica,--ou, para usar de uma imagem,

ha alguma cousa semelhante ás marés da praia do Flamengo e de outras

egualmente marulhosas. Com effeito, quando a onda investe a praia,

alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma agua torna ao mar, com

variavel força, e vae engrossar a onda que ha de vir, e que terá de

tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a applicação.

Deixei dito n'outra pagina que o Lobo Neves, nomeado presidente de

provincia, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era

13; acto grave, cuja consequência foi separar do ministerio o marido de

Virgilia. Assim, o facto particular da ogerisa de um numero produziu o

phenomeno da dissidencia politica. Resta ver como, tempos depois, um

acto politico determinou na vida particular uma cessação de movimento.

Não convindo ao methodo deste livro descrever immediatamente esse outro

phenomeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro mezes

depois de nosso encontro no theatro, reconciliou-se com o ministerio;

facto que o leitor não deve perder de vista, se quizer penetrar a

subtileza do meu pensamento.

CAPITULO CI

A revolução dalmata

Foi Virgilia quem me deu noticia da vira-volta politica do marido,

certa manhã de outubro, entre onze e meio dia; falou-me de reuniões, de

conversas, de um discurso...

--De maneira que desta vez fica você baroneza, interrompi eu.

Ella derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado;

mas esse gesto de indifferença era desmentido por alguma cousa menos

definivel, menos clara, uma expressão de gosto e de esperança. E não

sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia attraíl-a á

virtude, não digo pela virtude em si mesma, mas por gratidão ao marido.

Que ella amava cordialmente a nobreza; e um dos maiores desgostos de

nossa vida foi o apparecimento de um certo pelintra de legação,--da

legação da Dalmacia, supponhamos,--o conde B. V., que a namorou durante

tres mezes.

Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça

de Virgilia, que, além do mais, possuia a vocação diplomatica. Não

chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmacia

uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi

sangrenta a revolução, dolorosa, formidavel; os jornaes, a cada navio

que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue,

contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e piedade...

Eu não; eu abençoava interiormente essa tragedia, que me tirára uma

pedrinha do sapato. E depois a Dalmacia era tão longe!

CAPITULO CII

De repouso

Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou

dahi a tempos... Não, não hei de contal-o nesta pagina; fique esse

capitulo para repouso do meu vexame. Uma acção grosseira, baixa, sem

explicação possivel... Repito, não contarei o caso nesta pagina.

CAPITULO CIII

Distracção

--Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.

Tinha razão D. Placida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde

ao logar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgilia

tinha ido embora. D. Placida contou-me que ella esperára muito, que

se irritara, que chorara, que jurára* votar-me ao desprezo, e outras

mais cousas que a nossa caseira dizia com lagrimas na voz, pedindo-me

que não desamparasse Yayá, que era ser muito injusto com uma moça que

me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um equivoco... E não era;

cuido que foi simples distração. Um dito, uma conversa, uma anecdota,

qualquer cousa; simples distracção.

Coitada de D. Placida! Estava afflicta deveras. Andava de um lado para

outro, abanando a cabeça, suspirando com estrepito, espiando pela

rotula. Coitada de D. Placida! Com que arte conchegava as roupas,

bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imaginação

fertil em tornar as horas mais apraziveis e breves! Flores, doces,--os

bons doces de outros dias,--e muito riso, muito affago, um riso e um

affago que cresciam com o tempo, como se ella quizesse fixar a nossa

aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa

confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia

suspiros e saudades que não presenciára; nada, nem a calumnia, porque

uma vez chegou a attribuir-me uma paixão nova.--Você sabe que não

posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virgilia me

falou em semelhante cousa. E esta só palavra, sem nenhum protesto ou

admoestação, dissipou o aleive-de D. Placida, que ficou triste.

--Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgilia hade

reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe uma carta

agora mesmo?

--Ella hade estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte

de ninguem; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Yayá,

então sim, é que hade ver o anjo que ella é!

Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recommendo

este gesto ás pessoas que não tiverem uma palavra prompta para

responder, ou ainda ás que receiarem encarar a pupilla do outros olhos.

Em taes casos, alguns preferem recitar uma oitava dos _Lusíadas_,

outros adoptam o recurso de assobiar a _Norma_; eu atenho-me ao gesto

indicado; é mais simples, exige menos esforço.

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 10 / 15 段