--Isto não pode continuar assim, disse ella; é preciso que, de uma vez

por todas, façamos as pazes. Nossa familia está acabando; não havemos

de ficar como dous inimigos.

--Mas se eu não te peço outra cousa, mana! bradei eu estendendo-lhe os

braços.

E sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negocios,

de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido

viria mostrar-m'a, se eu consentissse.

--Ora essa! irei eu mesmo vel-a.

--Sim?

--Palavra.

--Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte annos,

e contava mais de trinta. Graciosa, affavel, nenhum acanhamento,

nenhum resentimento. Olhavamos um para o outro, com as mãos seguras,

falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era a minha infancia

que resurgia, fresca, travessa e loura; os annos iam caindo, como as

fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno,

e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa familia, as nossas festas.

Supportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da visinhança

lembrou-se de zangarrear na classica rabeca, e essa voz,--porque até

então a recordação era muda,--essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a

tal ponto me commoveu, que...

Os olhos della estavam seccos. Sabina não herdára a flor amarella e

mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha

mãe, e eu disse-lh'o com ternura, com sinceridade... Subito, ouço bater

á porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco annos.

--Entra, Sára, disse Sabina.

Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a

pequena, espantada, empurrava-me o hombro com a mãosinha, quebrando

o corpo para descer... Nisto, apparece-me á porta um chapéu, e logo

um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão commovido,

que deixei a filha e lancei-me aos braços do pae. Talvez essa effusão

o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples

prologo. Dahi a pouco falavamos como bons amigos velhos. Nenhuma

allusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em

casa um do outro; e não deixei de dizer que essa troca de jantares

podia ser que tivesse uma curta interrupção, por que eu andava com

idéas de uma viagem ao norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para

Sabina; ambos concordaram que essas idéas não tinham senso commum.

Que diacho podia eu achar no norte? Pois não era na côrte, em plena

côrte, que devia continuar a luzir, a metter n'um chinello os rapazes

do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; elle,

Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridicula,

teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triumphos. Ouvia o

que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de

louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns mezes na

provincia, sem necessidade, sem motivo serio? A menos que não fosse

politica...

--Justamente política, disse eu.

--Nem assim, replicou elle dahi a um instante--E depois de outro

silencio:--Seja como for, venha jantar hoje comnosco.

--Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar commigo.

--Não sei, não sei, objectou Sabina; casa de homem solteiro... Você

precisa casar, mano. Tambem eu quero uma sobrinha, ouviu?

O Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a

reconciliação de uma familia vale bem um gesto enigmatico.

CAPITULO LXXXII

Questão de botanica

Digam o que quizerem dizer os hypocondriacos: a vida é uma cousa

doce. Foi o que eu pensei commigo, ao ver Sabina, o marido e a filha

descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras affectuosas

para cima, onde eu ficava--no patamar,--a dizer-lhes outras tantas

para baixo. E continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me

uma mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretario de ambos, e

reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro

horas?

Nesse mesmo dia, tratando de apparelhar os animos, comecei a espalhar

que talvez fosse para o norte, como secretario de provincia, afim de

realizar certos designios politicos, que me eram pessoaes. Disse-o na

rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no theatro.

Alguns, ligando a minha nomeação á do Lobo Neves, que já andava em

boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no hombro. No theatro

disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da esculptura.

Referia-se ás bellas fórmas de Virgilia.

Mas a allusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tres

dias depois. Fel-a um certo Garcez, velho cirurgião, pequenino, trivial

e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos noventa annos,

sem adquirir jamais aquella compostura austera, que é a gentileza do

ancião. A velhice ridicula é, porventura, a mais triste e derradeira

sorpresa da natureza humana.

--Já sei, desta vez vae ler Cicero, disse-me elle, ao saber da viagem.

--Cicero! exclamou Sabina.

--Pois então? Seu mano é um grande latinista. Traduz Virgilio de

relance. Olhe que é Virgilio, e não Virgilia... não confunda...

E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e

olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu

sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me

com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que

não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava

mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso

curto, fugitivo e guloso,--palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia

era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava

ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos

amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e

linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o

das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que

explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento,

sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado;

andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do

proximo. Simples questão de botanica.

CAPITULO LXXXIII

13

O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.--Você quer que

lhe diga uma cousa? perguntou elle;--não faça essa viagem; é insensata,

é perigosa.

--Porque?

--Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito

perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente

e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de

personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição,

logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras,

e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas...

--Mas não entendo...

--Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me

negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito,

não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite

algum grande escandalo e maior desgosto...

Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no

lampião da esquina,--um antigo lampião de azeite,--triste, obscuro e

recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o

caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a.

Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O

lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos

ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez.

Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?

Sabina veiu ter commigo, e perguntou-me em que estava pensando.

Respondi que em cousa nenhuma, que tinha somno e ia para casa. Sabina

esteve um instante calada.--O que você precisa, sei eu; é uma noiva.

Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para você. Saí de lá oppresso,

desorientado. Tudo prompto para embarcar,--espirito e coração,--e eis

ahi me surge esse porteiro das conveniencias, que me pede o cartão de

ingresso. Dei ao diabo as conveniências, e com ellas a constituição, o

corpo legislativo, o ministerio, tudo.

No dia seguinte, abro uma folha politica e leio a noticia de que, por

decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretario da

provincia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi immediatamente a Virgilia,

e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Placida! Estava

cada vez mais afflicta; perguntou-me se esqueceriamos a nossa velha, se

a ausencia era grande e se a provincia ficava longe. Consolei-a; mas

eu proprio precisava de consolações; a objecção do Cotrim affligia-me

profundamente. Virgilia chegou dahi a pouco, lepida como uma andorinha;

mas, ao ver-me triste, ficou muito seria.

--Que aconteceu?

--Vacillo, disse eu; não sei se devo aceitar...

Virgilia deixou-se cair, no canapé, a rir.--Porque? disse ella.

--Não é conveniente, dá muito na vista...

--Mas nós já não vamos.

--Como assim?

Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só disse

a ella, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessal-o a ninguem

mais.--É pueril, observou elle, é ridiculo; mas em summa, é um motivo

poderoso para mim. E referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e

que esse numero significava para elle uma recordação funebre. O pae

morreu n'um dia 13, treze dias depois de um jantar, em que havia treze

pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et cætera. Era um

algarismo fatidico. Não podia allegar semelhante cousa ao ministro;

dir-lhe-hia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei

como ha de estar o leitor,--um pouco assombrado com esse sacrifício a

um numero; mas, sendo elle ambicioso, o sacrificio devia ser sincero...

E ficavamos. Para alguma cousa ha de servir a superstição dos homens.

CAPITULO LXXXIV

O conflicto

Numero fatidico, lembras-te que te abençoei muitas vezes? Assim tambem

as virgens ruivas de Thebas deviam abençoar a egua, de ruiva crina,

que as substituiu no sacrificio de Pelopidas,--uma donosa egua, que

lá morreu, coberta de flores, sem que ninguem lhe désse nunca uma

palavra de saudade. Pois dou-t'a eu, egua piedosa, não só pela morte

havida, como porque, entre as donzellas escapas, não é impossivel

que figurasse uma avó dos Cubas... Numero fatidico, tu foste a nossa

salvação. Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tambem

que eram negocios particulares, e o rosto serio, convencido, com que

eu o escutei, fez honra á dissimulação humana. Elle é que mal podia

encobrir a tristeza profunda que o minava; falava pouco, absorvia-se,

mettia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e então conversava e

ria muito, com estrepito e affectação. Opprimiam-n'o duas cousas,--a

ambição, que um escrupulo desazára, e logo depois a duvida, e talvez

o arrependimento,--mas um arrependimento, que viria outra vez, si se

repetisse a hypothese, porque o fundo supersticioso existia. Duvidava

da superstição, sem chegar a rejeital-a. Essa persistencia de um

sentimento, que repugna ao mesmo individuo, era um phenomeno digno de

alguma attenção. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Placida,

quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar.

--Que tem isso? perguntava-lhe eu.

--Faz mal, era a sua resposta.

Isto somente, esta unica resposta, que valia para ella o livro dos sete

sellos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação;

e ella contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma

cousa quando se falava de apontar uma estrella com o dedo; ahi sabia

perfeitamente que era caso de crear uma verruga.

Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem não perde uma

presidencia de provincia? Tolera-se uma superstição gratuita ou barata;

é insupportavel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo

Neves; com o accrescimo da duvida e do terror de haver sido ridiculo.

E mais este outro accrescimo, que o ministro não acreditou nos motivos

particulares; attribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos politicos,

illusão complicada de algumas apparencias; tratou-o mal, communicou a

desconfiança aos collegas; sobrevieram incidentes; emfim, com o tempo,

o presidente resignatario foi para a opposição.

CAPITULO LXXXV

O cimo da montanha

Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei

a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a

perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não

fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar,

com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos

primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a

dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro,

á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando

entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das

mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo,

apertando-nos com abraços.

--Minha boa Virgilia!

--Meu amor!

--Tu és minha, não?

--Tua, tua...

E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos

seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo

da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de

oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo,

começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a

descer, a descer...

CAPITULO LXXXVI

O mysterio

Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida

ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de

enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um

fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida,

singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das

mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza

de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a

cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um

gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de

decifrar este mysterio.

CAPITULO LXXXVII

Geologia

Succedeu por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou

ahi de relance, n'um capitulo, com os seus setenta annos, abafados

de asthma, desconjuntados de rheumatismo, e uma lesão de coração por

quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgilia

nutria grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um

sepulchro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se

o marido tinha eguaes pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os.

Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental,

uma camada de rocha, que resistia ao commercio dos homens. As outras,

as camadas de cima, terra solta e arêa, levou-lh'as a vida, que é

um enxurro perpetuo. Se o leitor ainda se lembra do cap. XXXIII,

observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um

enxurro; mas tambem ha de reparar que desta vez accrescento-lhe

um adjectivo--perpetuo. E Deus sabe a força de um adjectivo,

principalmente em paizes novos e cálidos.

O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e

provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas camadas

de caracter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a

resistencia dellas, essas camadas mereceriam um capitulo, que eu não

escrevo, por não alongar a narração. Digo apenas que o homem mais

probo que conheci em minha vida foi um certo Jacob Medeiros ou Jacob

Valladares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacob Rodrigues;

em summa, Jacob. Era a probidade mesma; podia ser rico, violentando um

pequenino escapulo, e não quiz; deixou ir pelas mãos fóra nada menos de

uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava

a ser miuda e cançativa. Um dia, como nos achassemos, a sós, em casa

delle, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um

sujeito enfadonho. O Jacob mandou dizer que não estava em casa.

--Não péga, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.

E, com effeito, era o Dr. B., que appareceu logo á porta da sala. O

Jacob foi recebel-o, affirmando que cuidava ser outra pessoa, e não

elle, e accrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos

rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque o Jacob tirou

o relogio; o Dr. B. pergutou-lhe então se ia sair.

--Com minha mulher, disse o Jacob.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao

Jacob que elle acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas:

a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do

importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, accrescentando

que com a mulher. O Jacob reflectiu um instante, depois confessou a

justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade

absoluta era incompativel com um estado social adiantado, e que a paz

das cidades só se podia obter á custa de embaçadellas reciprocas... Ah!

lembra-me agora: chamava-se Jacob Tavares.

CAPITULO LXXXVIII

O enfermo

Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais

elementares argumentos; mas elle estava tão vexado do meu reparo,

que resistiu até o fim, mostrando certo calor ficticio, talvez para

atordoar a consciencia.

O caso de Virgilia tinha alguma gravidade mais. Ella era menos

escrupulosa que o marido; manifestava claramente as esperanças que

trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortezias, attenções

e affagos que poderiam render, pelo menos, um codicillo. Propriamente,

adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma

cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se

com a affeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma

fraqueza physica dão á acção lisonjeira da mulher uma côr local, um

aspecto legitimo. Não importa a edade do adulado; a mulher ha de ter

sempre para elle uns ares de mãe ou de irmã,--ou ainda de enfermeira,

outro officio feminil, em que o mais habil dos homens carecerá sempre

de um _quid_, um fluido, alguma cousa.

Era o que eu pensava commigo, quando Virgilia se desfazia toda em

affagos ao velho parente. Ella ia recebel-o á porta, falando e rindo,

tirava-lhe o chapeu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o até uma

cadeira, ou até á cadeira, porque havia lá em casa a «cadeira do

Viegas», obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã.

Ia fechar a janella proxima, se havia alguma brisa, ou abril-a, se

estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não désse um

golpe de ar.

--Então? hoje está mais fortesinho...

--Qual! Passei mal a noite; o diabo da asthma não me deixa.

E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cançaço da entrada e

da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao lado, um pouco

mais para a frente, sentava-se Virgilia, n'uma banquinha, com as mãos

nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonhô chegava á sala, sem os

pulos do costume, mas discreto, meigo, serio. O Viegas gostava muito

delle.

--Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla

algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, mettia uma na boca o dava

outra ao pequeno. Pastilhas anti-asthmaticas. O pequeno dizia que eram

muito boas.

Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas,

Virgilia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as

pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na

chacara, dando-lhe ella o braço, que elle nem sempre aceitava, por

dizer-se rijo e capaz de andar uma legua. Iam, sentavam-se, tornavam

a ir, a falar de cousas varias, ora de um negocio de familia, ora de

uma bisbilhotice de alcova, ora emfim de uma casa que elle meditava

construir, para residencia propria, casa de feitio moderno, porque a

delle era das antigas, contemporânea de el-rei D. João VI, á maneira

de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S.

Christovão, com as suas grossas columnas na frente. Parecia-lhe que o

casarão em que morava podia ser substituido, e já tinha encommendado

o risco a um pedreiro de fama. Ah! então sim, então é que Virgilia

chegaria a ver o que era um velho de gosto.

Falava, como se póde suppôr, lentamente e a custo, intervallado de uma

arfagem incommoda para elle e para os outros. De quando em quando,

vinha um accesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço á boca, e

investigava-o; passado o accesso, tornava ao plano da casa, que devia

ter taes e taes quartos, um terraço, cocheira, um primor.

CAPITULO LXXXIX

In extremis

--Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ella uma vez.

Coitado! não tem ninguem...

O Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera

justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgilia ia lá

de quando em quando. Eu aproveitei a circumstancia para passar todo

aquelle dia ao pé della. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O

Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervallo

dos accessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O

sujeito offerecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador

instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas o

Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois

mais dous, depois mais tres, emfim teve um forte accesso, que lhe

tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito,

arranjou-lhe os travesseiros, offereceu-lhe trinta e seis contos.

--Nunca! gemeu o enfermo.

E mandou buscar um maço de papeis á escrivaninha; não tendo forças

para tirar a fita de borracha que prendia os papeis, pediu-me que os

deslaçasse: fil-o. Eram as contas das despezas com a construcção da

casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da

sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas

das ferragens; custo do terreno. Elle abria-as, uma por uma, com a mão

tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.

--Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças

francezas... Veja, é de graça, concluiu elle depois de lida a ultima

conta.

--Pois bem... mas...

--Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta

dos juros...

Vinham tossidas estas palavras, ás golfadas, ás syllabas, como se

fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas orbitas fundas rolavam os

olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob

o lençol desenhava-se a estructura ossea do corpo, pontudo em dous

lugares, nos joelhos e nos pés; a pelle amarellada, bamba, rugosa,

revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça de

algodão branco cobria-lhe o craneo rapado pelo tempo.

--Então? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe signal para que não insistisse, e elle calou-se por alguns

instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito;

Virgilia empallideceu, levantou-se, foi até á janella. Suspeitara a

morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro

contou uma anecdota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.

--Trinta e oito contos, disse elle.

--Am?... gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a

fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa,

se queria tomar um calice de vinho.

--Não... não... quar... quaren... quar... quar...

Teve um accesso de tosse, e foi o ultimo; dahi a pouco expirava elle,

com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a

disposição em que estava de offerecer os quarenta contos; mas era

tarde.

CAPITULO XC

O velho colloquio de Adão e Caim

E nada. Nenhuma lembrança testamentaria, uma pastilha que fosse, com

que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada. Virgilia

tragou raivosa esse mallogro, e disse-m'o com certa cautela, não pela

cousa em si, senão porque entendia com o filho, de quem sabia que eu

não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não devia pensar mais em

semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa,

um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por

exemplo.

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 9 / 15 段