--«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não

fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.

--Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!

--Meu senhor! gemia o outro.

--Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada

menos que o meu moleque Prudencio,--o que meu pae libertára alguns

annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção;

perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.

--E, sim, nhonhô.

--Fez-te alguma cousa?

--É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na

quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a

quitanda para ir na venda beber.

--Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

--Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas.

Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto

haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo,

e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco.

Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente.

Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo

gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de

se desfazer das pancadas recebidas,--transmittindo-as a outro. Eu,

em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem

compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha

de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir,

desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava:

comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de

mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!

CAPITULO LXIX

Um grão de sandice

Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e

dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa

maneira de a explicar.

--Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas

adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei

Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer

Tartaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor

não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha

algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho

recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á

casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.

CAPITULO LXX

D. Placida

Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor;

envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo

para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito

menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de

telhado é o infinito para as andorinhas.

E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos

espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje

um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de

peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino,

depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de

terra, que lhes deu algumas illusões.

Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e

dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para

lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e,

a certos respeitos, verdadeira dona da casa.

Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o

officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo

de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim

durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria,

carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por

offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a

benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei

uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior

ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que

outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da

novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo

de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida

era minha sogra.

Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,--os cinco

contos achados em Botafogo,--como um pão para a velhice. D. Placida

agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por

mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no

quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.

CAPITULO LXXI

O senão do livro

Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho

que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse

mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro

é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica;

vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu,

leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a

narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e

o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e

param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem...

E cáem!--Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como

quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia

uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se

não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis

de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos

allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio

e carnaval.

CAPITULO LXXII

O bibliomano

Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha* ahi, nas

ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não

quero dar pasto á critica do futuro.

Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que

não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina

anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê,

desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra,

e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados,

contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica

sempre o mesmo desproposito.

É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem

nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no

pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou,

pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar,

unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a

mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes,

portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das

Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os

houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das

minhas _Memorias_; faria a mesma cousa com o _Almanak_ de Laemmert, uma

vez que fosse unico.

O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina,

com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção

de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma

breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da

sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo,

não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o,

remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico!

Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell,

a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se

na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar

unico!

CAPITULO LXXIII

O lunch

O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer

as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu

estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi

que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da

Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso _lunch._

Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer

virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices,

uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o

ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o

nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto

do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida.

Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a

narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror

ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a

sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.

--Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.

--Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o

tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste

mundo?

E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até

molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a

muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.

CAPITULO LXXIV

Historia de D. Placida

Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia

de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu

a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves

termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de

uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já

então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira,

compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate,

que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva,

com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e

a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia

doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com

affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do

bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não

a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros,

propostas, seducções, a que resistia.

--Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me

teria casado; mas ninguem queria casar commigo.

Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais

delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois

de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar

os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da

necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de

emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava:

--Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de

pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se

come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda,

coitado...Esperas algum fidalgo, não é?

D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria

ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas

que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada.

Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito,

queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não

cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção,

e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era

muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios

que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados,

levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das

lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava

para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam

comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...

Interrompeu-se um instante, e continuou logo:

--Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber...

Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha

ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo

que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até

chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno,

aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus

foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as

mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.--Não

se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria...

Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um

medo de acabar na rua, pedindo esmola...

Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se

tornasse a si, pareceu attentar na inconveniência daquella confissão

ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a

chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim,

cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a

ponta do botim.

CAPITULO LXXV

Commigo

Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo

anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse

commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi

isto:

--Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar

a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a

outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça,

pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou

delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias

brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando

nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:--Aqui

estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente

lhe respondi riam:--Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos,

os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para

outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e

sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas

sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia

na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de

sympathia.

CAPITULO LXXVI

O estrume

Subito deu-me a consciência um repellão; accusou-me de ter feito

capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe,

depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era,

melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa

de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu

fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou

que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a

ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a

resistência de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras

feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar

tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e

nervoso.

Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida

estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E

raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente

D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se

poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que

não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência

concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.

CAPITULO LXXVII

Entrevista

Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os

sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias,

envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma

especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da

primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os

olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella,

talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as

entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor

era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos

primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo

e constante, como nos casamentos.

--Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.

--Porque?

--Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou

muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não

foi?

Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de

Virgilia, Questão de ciúmes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e

gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera,

em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois

de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão

alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as

minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum

sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta

e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me

até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse

muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas

occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.

Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe

o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos

mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma

estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a

primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade

e ternura, que inteiramente me confundiu.

--Ora você!

E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do

collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na

testa, com um só dedo, a repetir;--Isto, isto;--e eu não tive remedio

senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.

CAPITULO LXXVIII

A presidencia

Certo dia, mezes depois, entrou o Lobo Neves em casa, dizendo que iria

talvez occupar uma presidencia de provincia. Olhei para Virgilia, que

empallideceu; elle, que a viu empallidecer, perguntou-lhe:

--A modo que não gostaste, Virgilia?

Virgilia abanou a cabeça.

--Não me agrada muito, foi a sua resposta.

Não se disse mais nada; mas de noite o Lobo Neves insistiu no projecto,

um pouco mais resolutamente do que de tarde; e dous dias depois

declarou á mulher que a presidencia era cousa definitiva. Virgilia não

pôde dissimular a repugnancia que isto lhe causava. O marido respondia

a tudo com as necessidades politicas. E accrescentava:

--Não posso recusar o que me pedem; é até conveniencia nossa, do

nosso futuro, dos teus brazões, meu amor, porque eu prometti que

serias marqueza, e nem baroneza estás. Dirás que sou ambicioso? Sou-o

devéras, mas é preciso que me não ponhas um peso nas azas da ambição.

Virgilia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa

da Gamboa, á minha espera; tinha dito tudo a D. Placida, que buscava

consolal-a, como podia. Não fiquei menos abatido.

--Você hade ir comnosco, disse-me Virgilia.

--Está douda? Seria uma insensatez.

--Mas então...?

--Então, é preciso desfazer o projecto.

--É impossível.

--Já aceitou?

--Parece que sim.

Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um

lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei

nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da

mão; D. Placida foi á janella.

--Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é

responsavel por ella; faça o que lhe parecer.

Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo

fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente

o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia.

Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no

chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os

dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião,

por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della,

e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém,

era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á

responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a,

deixal-a, e saír; foi o que fiz.

--Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.

Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a

ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de

voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e sai.

CAPITULO LXXIX

Compromisso de gato

Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas

primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer,

entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro

sentimento,--egoismo, supponhamos,--que me dizia:--Fica; deixa-a a

sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor.

Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e

resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia

definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me

que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada

sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular,

vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava

irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me

levasse a compartir a responsabilidade da solução.

Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria

vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer

nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia

conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que

o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de

egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma

suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um

naturalista,--não me lembra qual,--mas era um naturalista,--em quem li

esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.»

Vejo que eu fazia um compromisso de gato.

CAPITULO LXXX

Do secretario

Na noite seguinte fui effectivamente á casa do Lobo Neves; estavam

ambos, Virgilia muito triste, elle muito jovial. Juro que ella sentiu

certo allivio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de

curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou

expresso no capitulo anterior, _in fine._ O Lobo Neves contou-me os

planos que levava para a presidencia, as difficuldades locaes, as

esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado!

Virgilia, ao pé da meza, fingia ler um livro, mas por cima da pagina

olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.

--O peor, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei

secretario.

--Não?

--Não, e tenho uma idéia.

--Ah!

--Uma idéa... Quer você dar um passeio ao norte? Não sei o que lhe

disse.

--Você é rico, continuou elle, não precisa de um magro ordenado; mas se

quizesse obsequiar-me, ia de secretario commigo.

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente

deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver

se lhe apanhava algum pensamento occulto... Nem sombra disso; o olhar

vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta,

uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de

olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar della, que me

pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um

presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um

modo administrativo.

CAPITULO LXXXI

A reconciliação

E comtudo, ao sair de lá, tive umas sombras de duvida; cogitei se não

ia expor insanamente a reputação de Virgilia, se não haveria outro

meio razoavel de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia

seguinte, ao levantar-mo da cama, trazia o espirito feito e resoluto a

aceitar a nomeação. Ao meio dia, veiu o creado dizer-me que estava na

sala uma senhora, coberta com um véo. Corro; era minha irmã Sabina.

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 8 / 15 段