pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro
de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem
agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,--ou,
litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a
um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito
primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas
fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um
botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de
uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de
oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura,
roto a espaços, e desabotoado.
--Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.
--Não me lembra...
--Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet
ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o
gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão
intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode
ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba
pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina
fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de
outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era
peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim
de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação
acabrunhava.
--Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha
tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se
das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo
mendigo...
E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença,
parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente.
Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação
christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe
callejára a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os
andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.
--Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.
Um sorriso magnifico lhe abriu os lábios.--Não é o primeiro que me
promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não
me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro
sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as
quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vinténs de angú, nem isso
fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu
amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não
almocei.
--Não?
--Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das
escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na
porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não
comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,--a menos
limpa,--e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de
cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.
--_In hoc signo vinces!_ bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa
expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle,
que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e
pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não
via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.
--Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
--Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.
--Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me
positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa
abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.
--Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle,
escarranchando-se diante de mim.
CAPITULO LX
O abraço
Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando
elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que
eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns
pruridos de posse.
--Magnifico! disse elle.
Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.
--O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e...
Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe
que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?
--Não...
--Nem eu.
--Móro na rua...
--Não quero saber onde mora, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos
virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a
vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo
que está impaciente.
--Adeus!
--E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o.
Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do
abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da
sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não
pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora,
entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo
da realidade de outro tempo...
--Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.
Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba
furtára-m'o no abraço.
CAPITULO LXI
Um projecto
Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a
imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra
vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em
mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa,
para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria
refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o
encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora
devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.
Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no
Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico,
a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte
necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que
effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.
--A que horas?
--Não tem hora certa.
Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo
lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao
respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um
bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a
noite; fui ter com Virgilia.
CAPITULO LXII
O travesseiro
Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia
era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido,
aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle
costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas,
ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da
existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para
olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação
mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E
lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do
passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros,
se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos
e dormir?
CAPITULO LXIII
Fujamos!
Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de
Virgilia,--eram quatro horas da tarde,--achei-a triste e abatida. Não
me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:
--Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas
exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o
olhar parece que não é o mesmo. Durmo, mal; ainda esta noite acordei,
aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão,
mas eu penso que elle desconfia...
Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos.
Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e
nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a
chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava
entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei
a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da
imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um
mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem
nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa
embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria
mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.
--Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.
--Que é?
--Amas-me?
--Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.
Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente.
Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se
ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam
uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a
namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte.
A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira
antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor
nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não
apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas,
e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o
sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto
póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos,
peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.
--De que?
--De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou
pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te
parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos pára ti, onde
vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde
descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta...
e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.
Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços
e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer
palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da
descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe
todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem
afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:
--Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo
modo.
Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de
viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até
lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a
amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia
fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido
gostava muito della.
--Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...
E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no
peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus
zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão...
Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas
assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda
com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara,
fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia
retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.
--Está cá ha muito tempo? disse-me elle.
--Não.
Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido,
costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de
jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do
cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes.
Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á
sala.
--Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.
--Cançado? perguntei eu.
--Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra
na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..
--Que é? perguntou Virgilia.
--Um... Adivinha!
Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe
a gravata, e tornou a perguntar o que era.
--Nada menos que um camarote.
--Para a Candiani?
--Para a Candiani.
Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar
de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o
camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa,
acerca da _toilette_ que faria, da opera que se cantava, e de não sei
que outras cousas.
--Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.
--Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o
melhor vinho do Rio de Janeiro.
--Nem por isso bebe muito.
Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos
do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn
pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia.
Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da
imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse,
ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e
dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me
irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me
apenas nos levantámos da mesa.
--Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.
--Póde ser.
E sai.
CAPITULO LXIV
A transacção
Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir,
atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não
ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír.
Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza.
Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu.
E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a
esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote,
com os seus magnificos braços nús,--os braços que eram meus, só
meus,--fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia
de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do
tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a
assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a,
a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos
sofregas e lascivas, a tornal-a,--não sei se mais bella, se mais
natural,--a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.
No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a
com os olhos vermelhos de chorar.
--Que houve? perguntei.
--Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de
amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse
o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?
--Que foi o que? Creio que não houve nada.
--Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...
A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas
rebentaram-lhe dos olhos.
--Acabou, acabou, disse eu.
Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa
della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma,
que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia
supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito
de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás
dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.
--Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria,
mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa;
mas para que fugir?
Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o
sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de
candidez. Então, afastando-me, respondi:
--Você é que nunca me teve amor.
--Eu?
--Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma
egoista sem nome!
Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na
boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a
ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos,
susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o
perigo; o terror apaziguou-a.
--Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho;
se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não
posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus!
meu Deus!
--Socegue; olhe que podem ouvil-a.
--Que ouçam! Não me importa.
Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse,
que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella
acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos
ambos; minutos depois, tornávamos ao assumpto da casinha solitaria, em
alguma rua escusa...
CAPITULO LXV
Olheiros e escutas
Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer
que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.
--Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o
melhor é não receber.
--Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.
--Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
--Que entre!
A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas
era impossivel mostrar maior alvoroço.
--Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não
apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no
theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani?
É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no
camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo!
e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi
hontem ao theatro?
--Uma enxaqueca.
--Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se,
porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não
tem quarenta annos?
--Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença,
vou consultar a certidão de baptismo.
--Vá, vá... E estendendo-me a mão:--Até quando? Sabbado ficamos em
casa; o barão está com umas saudades suas...
Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das
pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que
pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante
e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte
de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira,
desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os
outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo
que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de
olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras;
mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio,
remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de
setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo
teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era
um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde.
Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me
que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava
simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto,
desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar
aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam
contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de
felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle
nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras,
vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim
da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta
de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a
tactica e maciez das cobras.
CAPITULO LXVI
As pernas
Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando,
ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel
Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado,
nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram.
Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença.
Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos
fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis
com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.
Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós
deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes
uma á outra:--Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao
Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama,
tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e
as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e
salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas,
o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.
CAPITULO LXVII
A casinha
Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o
Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de
rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:
«Meu B...
«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para
sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz
«V...a»
Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á
casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella,
contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe
francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior,
a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham
commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da
suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.
--O melhor é fugirmos, insinuei.
--Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.
Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam
inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia
era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as
vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa
semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já
muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.
Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um
recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro
janellas na frente e duas de cada lado,--todas com venezianas côr de
tijolo,--trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão.
Um brinco!
Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia,
em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella
verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente
o resto.
Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia
do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria
adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das
cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas
cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade.
Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites,
emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa
resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;--dalli para
dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso,
somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros,
sem escutas,--um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade,
uma só affeição,--a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das
que me eram contrarias.
CAPITULO LXVIII
O vergalho
Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra,
logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento;
era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a
fugir; gemia somente estas unicas palavras: