Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os

contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos

de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma

gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois

sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me

embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de

meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não

cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou

da Z. ou da U.--que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua

elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te

com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias;

a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.

Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro,

ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia;

deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora

boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica

e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas,

e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando

me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura

marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e

melhor marquez do que o Lobo Neves,--eu, que valia mais, muito mais do

que elle,--e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...

CAPITULO XLVIII

Um primo de Virgilia

--Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz

Dutra.

O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as

musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas

elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o

applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem;

mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas

forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.

Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa,

e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma

palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu

falava-lhe de mil cousas differentes,--do ultimo baile do Cattete, da

discussão das camaras, de berlindas e cavallos,--de tudo, menos dos

seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação,

depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto

delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu

dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e

lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha

intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E

tudo isto a olhar para a ponta do nariz...

CAPITULO XLIX

A ponta do nariz

Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já

meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação

do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,--e

tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas

veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de

philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.

Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor

que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com

o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na

ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se

no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra,

dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz

é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não

pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade

e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz

celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo

a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os

narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano

não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.

Ouço daqui uma objecção do leitor:--Como pode ser assim, diz elle,

se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu

proprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um

chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de

um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem

quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus

do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro

compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas,

e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual

preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os

olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade

do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor

chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos

se fixam na ponta do nariz.

A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que

multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo.

Procreação, equilibrio.

CAPITULO L

Virgilia casada

--Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo

Neves, continuou o Luiz Dutra.

--Ah!

--E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...

--Que foi?

--Que você quiz casar com ella.

--Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?

--Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.

No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do

Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só

a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza

e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu;

entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu

fiquei attonito.

Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar

duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em

casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não

desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa,

porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos;

e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e

magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.

--Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?

--Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.

Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos,

ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia

dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram

excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes

esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.

Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião

intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:--O senhor

hoje ha de valsar commigo.--Na verdade, eu tinha fama e era valsista

emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais

outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu.

Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella

deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos

em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.

CAPITULO LI

É minha!

--É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e

confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando

no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais

insinuativa.

--É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.

Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se

lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me

no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de

ouro, uma meia-dobra.

--É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.

Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o

caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava

porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas

sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro,

daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum

operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas

se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e

o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio

ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe

o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse

devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso.

Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar

suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma

janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de

ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciências!

não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras

circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo

escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha

dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me

dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.

--Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é

balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que

fizeste, Cubas?

E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi,

claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida,

multiplicando-se por si mesma,--ser dez--depois trinta--depois

quinhentas,--exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e

na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu

ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom,

talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um

poucochinho mais.

Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia

das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada

é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a

consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma

cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso.

Pois toma lá o embrulho mysterioso.

CAPITULO LII

O embrulho mysterioso

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um

embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que

pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente

feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa,

lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o

embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava

deserta; ao longe uns meninos brincavam,--um pescador curava as redes

ainda mais longe,--ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me,

apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de

devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco

adeante, desandei o caminho e guiei para casa.

--Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.

E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o

receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa;

mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar,

guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me

visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou

duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava

aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi...

achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada

menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e

dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as

de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com

os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e

conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei

o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco

contos,--eu, que era abastado.

Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves,

que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções

da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado;

elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera

alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu

procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota

analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que

pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos

na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de

dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime

achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance

da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos,

como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil

sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem

as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma

praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem

crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem.

Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas

de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha

felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos

beneficios da Providencia.

--Estes cinco contos, dizia eu com migo, tres semanas depois, hei de

empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre,

ou outra cousa assim... hei de ver...

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com

muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava

já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado

que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então

a modestia,--e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era

simplesmente grande.

CAPITULO LIII

..........

Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella

estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu

pensamento;--era o que dizia, e era verdade.

Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias

e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta

seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante

creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias

que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite,

abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo

que ella me deu, tremula,--coitadinha,--tremula de medo, porque era

ao portão da chacara, á vista das estrellas,--das castas estrellas de

Othello,--_you chaste stars!_ Uniu-nos esse beijo unico,--breve como

a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de

terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções

que desabrochavam em alegria,--uma hypocrisia paciente e systematica,

unico freio de uma paixão sem freio,--vida de agitações, de coleras,

de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra;

mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á

tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a

saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.

CAPITULO LIV

A pendula

Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama,

é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite.

Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito

mal; esse _tic-tac_ soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada

golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho

diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as

moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:

--Outra de menos...

--Outra de menos...

--Outra de menos...

--Outra de menos...

O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para

que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os

meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam;

as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O

derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um

relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.

Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e

deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre

outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor

das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos

ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o

meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu

as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma

janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra.

Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os

dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.

CAPITULO LV

O velho dialogo de Adão e Eva

BRAZ CUBAS

. . . . ?

VIRGILIA

. .

BRAZ CUBAS

. . . . . . . . .

. . .

VIRGILIA

. . . !

BRAZ CUBAS

. .

VIRGILIA

. . . . . . . . .

. . . . . ? . . . . .

. . . . . . . . . . . .

BRAZ CUBAS

. . . . . .

VIRGILIA

. . . .

BRAZ CUBAS

. . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . ! . .

. . ! . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . !

VIRGILIA

. . . . . . . . . . . . .?

BRAZ CUBAS

. . . . .!

VIRGILIA

. . . . .!

CAPITULO LVI

O momento opportuno

Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia

vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio,

sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum

despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro

giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza

de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos

substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais

bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?

A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era

opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde

para o amor, ambos o estavamos para o _nosso_ amor: distincção

fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos.

Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um

dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e

tenazmente a galanteava.

--Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.

Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me

que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e

comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de

importuno a opportuno.

CAPITULO LVII

Destino

Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam,

agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungi-los um ao outro,

como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:

Di pari, come buoi, che vanno a giogo;

e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de

animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem

saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou,

durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre

Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos?

Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro

nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah!

nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que

Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como

explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um

dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe

dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia

cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:

--Amo-te, é a vontade do ceu.

E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não

ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas

em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas

rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha

medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava

todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho

de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens

dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas

as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo

vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de

flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.

CAPITULO LVIII

Confidencia

O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão!

Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes;

achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades

solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança

não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia

confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe

a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle

ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de

morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater

as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus

tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas;

contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos,

intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma

crise de melancolia; tratei de combatel-a.

--Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o

que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por

ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os

motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de

outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era

bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação.

Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar

com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho

passado horas e dias... Não ha constância de sentimentos, não ha

gratidão, não ha nada... nada... nada...

Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não

ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos.

Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:--O senhor ha de

rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um

negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste;

depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós;

ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados

e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria,

a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia

hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens;

conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

CAPITULO LIX

Um encontro

Deve ser um vinho hem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair

da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos

Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro

de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui

andando... andando... andando....

--Porque não serei eu ministro?

Esta idéa, rútila e grande,--trajada ao bizarro, como diria o padre

Bernardes,--esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me

estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na

tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle

companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e

travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo

porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico;

e tudo me parecia dizer a mesma cousa.--Porque não serás ministro,

Cubas?--Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma

deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me

n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de

gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que

me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 6 / 15 段