Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho

de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da

Escriptura (_Act._, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz

saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava

ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e

desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não

ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de

uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para

baixo.--Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz

bem.--E como eu nada dissesse, continuou:--Faz bem em fugir ao ridículo

de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente,

engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por

todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não

deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou

sem dizer nada.

--Acredita-me? perguntei eu no fim.

--Não; e digo-lhe que faz bem.

Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão

de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado,

outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo

obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica...

que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...

CAPITULO XXXVI

A proposito de botas

Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e

agradecimento.--Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?

Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam

apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio

comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma

relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas

são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés,

dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado,

desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos

sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso

trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha

perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não

tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo.

Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e

incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma

preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais

engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar

a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles

aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a

sabedoria humana não vale um par de botas curtas.

Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela

estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os

enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem

para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era

muito necessaria ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos

fizesse patear a tragedia humana.

CAPITULO XXXVII

Emfim

Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra,

perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.

--Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito,

confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo

fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará.

Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma

flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se

casasses com ella, mais depressa serias deputado.

--Só isto?

--Só isto.

Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho,

jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não

desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era

legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á

mulher,--uma estimavel senhora,--e á filha, que não desmentiu em nada

o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII.

Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo;

ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o

nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez

estavamos intimos.

CAPITULO XXXVIII

A quarta edição

--Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no

largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos

ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle

tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda

inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma

compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era

luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o

relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á

mão; era um cubiculo,--pouco mais,--empoeirado e escuro.

Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto

amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo

que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia;

ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença

e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas

tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias

e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa,

enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás

tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo

que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava

ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão

esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era

Marcella.

Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe

dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual

por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para

esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de

um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.

--Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.

Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não

era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava

mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma

cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida

que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos

desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do

tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é

que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a

amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de

ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco

buscada a loja--talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em

seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em

dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.

--Casou? disse Marcella no fim de minha narração.

--Ainda não, respondi seccamente.

Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou

relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações

e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino.

Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro

tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava

saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao

mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia

nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram

olhos da primeira edição.

--Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo

daquella especie de torpor.

--Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um

vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.

Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido

e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa.

Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar

da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o

vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que

desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que

mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me

daria finas joias por preços baratos. Não disse _preços baratos_, mas

usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que

não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro

a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do

lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que

me disseram depois.

CAPITULO XXXIX

O visinho

Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um

sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.

--Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.

--Assim, assim. Vem cá, Maricota.

O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do

balcão.

--Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava

anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então,

Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não

imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes,

e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?

--Não, diga, não, papae.

--Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da

menina.

--Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso

e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem

veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria

offerecel-os a Santa Marcella.

--Coitadinha! disse Marcella beijando-a.

--É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que

é feitiço...

Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que

saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou

suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.

--É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a

filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.

Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de

Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...

CAPITULO XL

Na sege

Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo;

já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse

a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para

dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era

uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões

oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao

almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha

de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem,

que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo

que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do

almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira

loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera

e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e

bexigas...

Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo

do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas

ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me,

as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a

chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes,

um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas

abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas

saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse

uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os

espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me

soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o

presente, almejava por sair á planicie do futuro. O peior é que a sege

não andava.

--João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?

--Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.

CAPITULO XLI

A allucinação

E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor,

fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim

dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:

--Esperavamos que viesse mais cedo.

Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um

amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico

tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a

muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a

vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle,

ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella,

stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os

olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste

e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a

brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um

gesto de repulsa.

Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo

a olhar para os meus proprios pés. Devia, sair ou ficar? Rejeitei o

primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para

Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca,

a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto delia algum

vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.

--Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistência.

--Tão bonita, nunca.

Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas.

Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao

incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos

o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos,

mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo

as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas

dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.

Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto.

Lá dentro, ella padecia, e não pouco,--ou fosse magua pura, ou só

despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provável que

Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que

isto é metaphysica.

CAPITULO XLII

Que escapou a Aristoteles

Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:--Dá-se movimento a

uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe

o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou.

Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,--é uma simples

supposição; a segunda, Braz Cubas;--a terceira, Virgilia. Temos que

Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz

Cubas,--o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até

esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis

ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos

sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar--solidariedade

do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a

Aristoteles?

CAPITULO XLIII

Marqueza, porque eu serei marquez

Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se

querem, mas era-o, e então...

E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto

do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e

todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de

poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu

nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu

dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura

de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o

começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo

Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.

--Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um anno.

Virgilia replicou:

--Promette que algum dia me fará baroneza?

--Marqueza, porque eu serei marquez.

Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e

elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e

tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que

fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como

a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é

justamente o contrario.

CAPITULO XLIV

Um Cubas!

Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não

morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos

e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem

padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um

Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal

convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um

instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não

raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.

--Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.

Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha

velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas

vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois,

não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma

phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto

basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como

ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras

truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.

Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde

supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse

precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas

dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,--acabrunhado, triste,

com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um

desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve

ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou.

Vi-lhe,--lembra-me bem,--vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos

olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo

lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de

morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.

--Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio,

entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu

cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso

amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de

morrer, morreu.

--Um Cubas!

CAPITULO XLV

Notas

Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem

que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão,

eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo

surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e

calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar

do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o

levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos,

soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o

collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche,

o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario,

eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente

succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta

do sol; porquanto:--_a_) a natureza não inventou a morte, senão

com o fim de dar vida a algumas industrias,--armadores, segeiros,

emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente

previu;--_b_) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana,

não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que

dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não

escrevo.

CAPITULO XLVI

A herança

Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,--minha

irmã sentada n'um sophá,--pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a

um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,--eu a passeiar

de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo

silencio.

--Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta

contos; demos que valha trinta e cinco...

--Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...

--Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que

os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas,

aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos,

quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?

--Não fale nisso! Uma casa velha.

--Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.

--Parece-lhe nova, aposto?

--Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do

sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo,

o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...

--O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar

outro.

--Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.

--O Prudencio está livre.

--Livre?

--Ha dois annos.

--Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte

a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a

prata?

Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a

porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela

origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando

vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.

--Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma,

se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe

razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você

é solteiro, não recebe, não...

--Mas posso casar.

--Para que? interrompeu Sabina.

Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer

os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na

palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto

como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.

--Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.

--Nem cede?

Abanei a cabeça.

--Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar

tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.

--Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata,

quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com

testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e

que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha.

Ora, meu amigo, outro officio!

Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de

conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia

o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou

que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo.

Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,--e

depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto,

com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha,

mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.

--Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.

Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda

presenciou uma pequena altercação.

--Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem

grande para ser repartido por todos.

Mas o Cotrim:

--Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão

secco é que eu não engulo.

Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E

digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos

tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da

edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria,

irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal

qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.

CAPITULO XLVII

O recluso

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 5 / 15 段