que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella,
solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.--«Que bom
que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»--Quando esta palavra
de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um
echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um
tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda
mais cabisbaixo do que a figura,--ou jururú, como dizemos das gallinhas
tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação
unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia
do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a,
e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das
sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.
Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,--lia muito,--outras emfim
não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em
imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam
pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha
e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me
deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada
assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra
e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava
farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com
o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do ceu.
Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida
e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as
gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma
pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa,
situada a duzentos passos da nossa.
--Quem?
--Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...
--Lembra-me... É ella?
--Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.
Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que
os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel
evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes
mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento
de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao
morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que
fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não
tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me
dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá
ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita;
finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz
commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.
--Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio.
Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.
Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e
do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse
derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe
uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.
CAPITULO XXVI
O autor hesita
Súbito ouço uma voz:--Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que
chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o
sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim;
depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:
--Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
--Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.
Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste
motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem,
quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que
alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a
carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas
outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a
duas vezes.
--Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e
acho que deves ir tambem...
--Eu?
--Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago
commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous
projectos, um logar de deputado e um casamento.
Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras
um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no
meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações
ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e
repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.
--Aceitas?
--Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á
noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.
--Mas os ursos casam-se, replicou elle.
--Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.
Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me
necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões,
que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos
de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a
visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um
dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a
intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia
bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem
docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim
mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram
bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me
apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da
familia...
--Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae.
De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.
Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo,
do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um
coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu
deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um
pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma
phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes,
sem ordem, ao acaso, assim:
arma virumque cano
A
Arma virumque cano
arma virumque cano
arma virumque
arma virumque cano
virumque
Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa
deducção; por exemplo, foi o _virumque_ que me fez chegar ao nome
do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever
_virumque_--e sae-me _Virgilio_, então continuei:
Vir Virgilio
Virgilio Virgilio
Virgilio
Virgilio
Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu
a mim, lançou os olhos ao papel...
--Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente
Virgilia.
CAPITULO XXVII
Virgilia?
Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A
mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus
ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas
mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou
dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça,
e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse
a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não
é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos
ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto
nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da
natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo
passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto
Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia
de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,--devoção,
ou talvez medo; creio que medo.
Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa
que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis
annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem
á luz,--tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre
a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que
era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem
injusto.
--Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do
que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e
exprimil-a depois de tantos annos?
Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz
senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a
instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos.
Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é
uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição,
que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição
definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
CAPITULO XXVIII
Contanto que...
--Virgilia? interrompi eu.
--Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem
azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns
olhos... filha do Dutra...
--Que Dutra?
--O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá;
aceitas?
Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei
depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o
casamento, comtanto que...
--Comtanto que?
--Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso
ser separadamente homem casado ou homem publico...
--Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente
meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a
vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto
é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...
--Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.
--Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro,
e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver
brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar
o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com
sessenta annos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava-a
sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é
infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais
seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues
as vantagens da tua posição, os teus meios...
E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me
faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria
recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada
morbida,--o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.
CAPITULO XXIX
A visita
Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia
e a camara dos deputados.--As duas Virgilias, disse elle n'um assomo
de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços.
Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente,
o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de
linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa
do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas
scentelhas.
--Desces commigo?
--Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...
Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu,
na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender
um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um
alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que
chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao
pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento.
--Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E
bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...
Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão
familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com
muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto
me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea
á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os
namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha
patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a
moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de
porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
--Mamãe... mamãe...
CAPITULO XXX
A flor da moita
A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á
porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e
constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:
--Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do
Sr. Cubas; veiu da Europa.
E voltando-se para mim:
--Minha filha Eugenia.
Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe
fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira
da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se
desmanchara.--Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto
é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco;
lembrou-me minha mãe, e,--direi tudo,--tive umas cocegas de ser pae.
--Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.
--Quantos lhe dá?
--Dezesete.
--Menos um.
--Dezeseis. Pois então! é uma moça.
Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha
palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e
muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria
criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel,
tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe
diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe
fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria,
com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a
voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...
Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta,
que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em
derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou
umas palavras soltas:--T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa
Senhora!...
--Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D.
Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha,
pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força
de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição
das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior.
De tarde, vi passar a cavallo afilha de D. Eusebia, seguida de um
pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me
lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a
cabeça para traz; mas não voltou.
CAPITULO XXXI
A borboleta preta
No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou
no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do
que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar
na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar
delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno
de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e,
porque eu a sacudisse de novo, saíu* dalli e veiu parar em cima de um
velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando
com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar
escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu
muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois,
e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei
mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.
Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça.
Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da
janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei
um pouco aborrecido, incommodado.
--Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.
E esta reflexão,--uma das mais profundas que se tem feito, desde a
invenção das borboletas,--me consolou do maleficio, e me reconciliou
commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma
sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz.
A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo
as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre
azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo.
Supponho que nunca teria visto um homem; não-sabia, portanto, o que era
o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que
me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura
collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das
borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem
suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador
era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por
mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é
impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae
do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade
azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra
uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser
superior ás borboletas! Porque, é* justo dizel-o, se ella fosse azul,
ou côr de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel
que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não
era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao
polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi
vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que
para ella era melhor ter nascido azul.
CAPITULO XXXII
Coxa de nascença
Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro
mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto
me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria
ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia.
Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para
transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas
instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais,
era-lhe devida aquella compensação; fui.
Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por
minha causa,--se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de
ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas
orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido
branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um
botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e
nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras,
maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se
alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me
lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo
mote á filha...
--Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o
ultimo gole de café.
Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma
circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a
perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem
titubear:
--Não, senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com
effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe
não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na
vespera--a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle
dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito;
mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia
triste.
Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;--não me foi difficil, por
que a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e promptamente
travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores,
tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me
ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava
os olhos de Eugenia...
Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente
são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres
vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres
vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem
biocos.
CAPITULO XXXIII
Bemaventurados os que não descem
O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma
compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a
natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque
coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo
ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma.
O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela
janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa
outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e
fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente
entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem
explical-o.
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã
era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que
no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas,
frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e
o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha
Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia
enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe,
é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa,
feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que
ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples
egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade
com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza,
entregava-me a alma em flôr.
--O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.
--Pretendo.
--Não desça.
Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:--Bemaventurados
os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com
effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,--o primeiro que
nenhum outro varão jamais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas
candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre
Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella
occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a
contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na
moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á
tua origem...
D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos
apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a
concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita
e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não
estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor!
D. Eusebia não suspeitou nada.
CAPITULO XXXIV
A uma alma sensivel
Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma
sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo
anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim,
talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma
sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com
sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma
sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado
em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o
piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias,
um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas,
em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu
quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia
em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos
de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia
e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a
expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,--que isso
ás vezes é dos oculos,--e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
CAPITULO XXXV
O caminho de damasco