mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e
o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de
reprehensão:
--Ora você! dizia.
--Vens commigo?
Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que
passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia;
mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu
resolutamente:
--Vou. Quando embarcas?
--Daqui a dous ou tres dias.
--Vou.
Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros
dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu
descia a escada.
CAPITULO XVIII
Visão do corredor
No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes
para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me
emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me
feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade;
mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos
e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia
ter defeitos, mas amava-me...
--Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.
E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que
pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de
cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu.
Pobre namorado das _Mil e uma noites!_ Vi-te alli mesmo correr atraz da
mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse,
e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde
sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então
pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a
de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos
correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes
todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me
n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré
na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui
transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se
resisti; mas toda a resistencia era inutil.
Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer;
tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar
um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.
CAPITULO XIX
A bordo
Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous
rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu
pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás
tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher
tisica em ultimo gráu.
Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou
se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima;
chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me
para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir
muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa.
Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse
de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima,
talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que
me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O
mundo para mim era Marcella.
Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para
morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada,
tinha os olhos fitos no horizonte.
--Algum temporal? disse eu.
--Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite.
Veja; está celestial!
O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a
locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto.
No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,
perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não
era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a
mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á
luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da* vida
maritima. Eram versos delle.
--Que tal?
Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão
com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous
sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da
mulher.--Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa,
com amor.
Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos
máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte,
acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente,
menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava
buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura.
Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no
meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a
bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta,
descomposta. Ás* vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia
umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria
muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue
ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu.*
Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi
uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava
ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.
Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se
estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com
um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do
mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu
respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.
--Vae ver, respondeu elle.
E recitou-me um poemasinho, depois outro,--uma egloga,--e emfim cinco
sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No
dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só
por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria
que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas;
não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua
vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me
logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os
ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o
capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo,
que não viu nem ouviu nada.
Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem
passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do
almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da
semana.
--Já! exclamei.
--Passou muito mal a noite.
Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de
descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque
era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui
achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado
do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a
historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da
mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto
vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse
e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi
ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o
capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe
alguma cousa de conforto.
--Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras
não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu
a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.--Vamos,
continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.
Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar,
com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos;
o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo
raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo,
fechou-se,--uma leve ruga,--e a galera foi andando. Eu deixei-me estar
alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em
que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.
--Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me
esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre
Leocadia! tu te lembrarás de nós no ceu.
Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na
poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera,
e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um
pouco.--Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos
versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do
desembarque.
--Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver...
o mar... o ceu... o navio...
No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que
estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da
mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim
perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.
--São, disse eu.
--Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem
me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a
perfeição....
--Não me parece; acho os versos perfeitos.
--Sim, eu creio que... Versos de marujo.
--De marujo poeta.
Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar
a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções
litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim,
confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim;
elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.
CAPITULO XX
Bacharelo-me
Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia
eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa
expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro?
Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até
bispo,--bispo que fosse,--uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia,
uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse
aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e
penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias
sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria;
deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.
E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A
Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei
se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi
o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após
os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de
saudades,--principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra
uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial,
tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico
e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das
constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em
pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no
cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que
orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava
a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens
do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já
uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de
influir, de gozar, de viver,--de prolongar a Universidade pela vida
adeante...
CAPITULO XXI
O almocreve
Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle
deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu
fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no
estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado,
disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente
deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de
lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o
bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.
--Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.
E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me
devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça
partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me
ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida;
era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom
almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava
de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi
dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque
tal fosse o preço da minha vida,--essa era inestimavel; mas por que era
uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito,
dou-lhe as tres moedas.
--Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.
--Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...
--Ora qual!
--Pois não é certo que ia morrendo?
--Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do
Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.
Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco
moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a
gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma
moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe
a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro.
Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o
almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o
talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe
conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia
castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um
beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.
--Olé! exclamei.
--Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a
gente com tanta graça...
Ri-me, hesitei, metti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o
jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco
incerto do effeito da pratinha. Mas a algumas braças de distancia,
olhei para traz, o almocreve fazia-me grandes cortezias, com evidentes
mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu
pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez de mais. Metti os dedos no bolso
do collete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os
vintens que eu devera ter dado ao almocreve, em logar do cruzado em
prata. Porque, emfim, elle não levou em mira nenhuma recompensa ou
virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos habitos do
officio; accresce que a circumstancia de estar, não mais adeante nem
mais atraz, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituil-o
simples instrumento de Providencia; e de um ou de outro modo, o
merito do acto era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta
reflexão, chamei-me prodigo, lancei o cruzado á conta das minhas
dissipações antigas; tive (porque não direi tudo?) tive remorsos.
CAPITULO XXII
Volta ao Rio
Jumento de uma figa, cortaste-me o fio ás reflexões. Já agora não digo
o que pensei dalli até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na peninsula e
em outros logares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia
remoçar. Não, não direi que assisti ás alvoradas do romantismo, que
tambem eu fui fazer poesia effectiva no regaço da Italia; não direi
cousa nenhuma. Teria de escrever um diario de viagem e não umas
memorias, como estas são, nas quaes só entra a substancia da vida.
Ao cabo de alguns annos de peregrinação attendi ás supplicas de meu
pae:--«Vem, dizia elle na ultima carta; se não vieres depressa, acharás
tua mãe morta!» Esta ultima palavra foi para mim um golpe. Eu amava
minha mãe; tinha ainda deante dos olhos as circumstancias da ultima
benção que ella me dera, a bordo do navio. «Meu triste filho, nunca
mais te verei», soluçava a pobre senhora apertando-me ao peito. E
essas palavras resoavam-me agora, como uma prophecia realizada.
Note-se que eu estava em Veneza, ainda rescendente aos versos de lord
Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o preterito,
crendo-me na Serenissima Republica. É verdade; uma vez aconteceu-me
perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.--Que doge,
_signor mio?_ Cahi em mim, mas não confessei a illusão; disse-lhe que
a minha pergunta era um genero de charada americana; elle mostrou
comprehender, e accrescentou que gostava muito das charadas americanas.
Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte
dos Suspiros, a gondola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei
tudo, e disparei como uma bala na direcção do Rio de Janeiro.
Vim... Mas não; não alonguemos este capitulo. Ás vezes, esqueço-me a
escrever, e a penna vae comendo papel, com grave prejuizo meu, que
sou autor. Capitulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e
nós não somos um publico _in-folio_, mas _in_-12, pouco texto, larga
margem, typo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente
vinhetas... Não, não alonguemos o capitulo.
CAPITULO XXIII
Triste, mas curto
Vim; e não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova.
Não era effeito da minha patria politica; era-o do logar da infancia,
a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto
do ganho, as cousas e scenas da meninice, buriladas na memoria. Nada
menos que uma renascença. O espirito, como um passaro, não se lhe deu
da corrente dos annos, arrepiou o vôo na direcção da fonte original, e
foi beber da agua fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.
Reparando bem, ha ahi um logar-commum. Outro logar-commum, tristemente
commum, foi a consternação da familia. Meu pae abraçou-me com
lagrimas.--Tua mãe não póde viver, disse-me elle. Com effeito, não era
já o rheumatismo que a matava, era um cancro no estomago. A infeliz
padecia de um modo crú, porque o cancro é indifferente ás virtudes do
sujeito; quando róe, róe; roer é o seu officio. Minha irmã Sabina, já
então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia
tres horas por noite, nada mais. O proprio tio João estava abatido e
triste. D. Eusebia e algumas outras senhoras lá estavam tambem, não
menos tristes e não menos dedicadas.
--Meu filho!
A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso allumiou o rosto da
enferma, sobre o qual a morte batia a aza eterna. Era menos um rosto do
que uma caveira; a belleza passára, como um dia brilhante; restavam os
ossos, que não emmagrecem nunca. Mal poderia conhecel-a; havia oito ou
nove annos que nos não viamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos
della entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar fallar, porque
cada palavra seria um soluço, e nós temiamos avisal-a do fim. Vão
temor! Ella sabia que estava prestes a acabar; disse-m'o; verificamol-o
na seguinte manhã.
Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria,
repisada, que me encheu de dor e estupefacção. Era a primeira vez
que eu via morrer alguem. Conhecia a morte de outiva; quando muito,
tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadaver, que acompanhei
ao cemiterio, ou trazia-lhe a idéa embrulhada nas amplificações de
rhetorica dos professores de cousas antigas,--a morte aleivosa de
Cesar, a austera de Socrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duello do
ser e do não ser, a morte em acção, dolorida, contrahida, convulsa,
sem apparelho politico ou philosophico, a morte de uma pessoa amada,
essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me
que não chorei durante o expectaculo; tinha os olhos estupidos, a
garganta presa, a consciência boquiaberta. Que? uma creatura tão
docil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma
lagrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa immaculada, era força que
morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença
sem misericordia? Confesso que tudo aquillo me pareceu obscuro,
incongruente, insano...
Triste capitulo; passemos a outro mais alegre.
CAPITULO XXIV
Curto, mas alegro
Fiquei prostrado. E comtudo era eu, nesse tempo, um fiel compendio de
trivialidade e presumpção. Jamais o problema da vida e da morte me
opprimira o cerebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abysmo do
Inexplicavel; faltava-me o essencial, que é o estimulo, a vertigem...
Para lhes dizer a verdade toda, eu reflectia as opiniões de um
cabelleireiro, que achei em Modena, o qual se distinguia por não as
ter absolutamente. Era a flor dois cabelleireiros; por mais demorada
que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; elle intercalava
as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de
um sabor... E não tinha outra philosophia. Nem eu. Não digo que a
Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só
as formulas, o vocabulario, o esqueleto. Tratei-a, como tratei o
latim: embolsei tres versos de Virgilio, dous de Horacio, uma duzia
de locuções moraes e politicas, para as despezas da conversação.
Tratei-os como tratei a historia e a jurisprudencia. Colhi de todas as
cousas a phraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu
espirito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as
conchas do mar e os dentes de pessoa morta.
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a
minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um
defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a
luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar
os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que
faz á consciência; e o melhor da obrigação é quando, á força de
embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso
poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é
um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que
liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as
lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar
lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha
visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não
ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a
virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se
não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não
se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão
incommensuravel como o desdem dos finados.
CAPITULO XXV
Na Tijuca
Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples,
como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras
semanas depois da morte de minha mãe.
No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda,
alguns livros, roupa, charutos, um moleque,--o Prudencio da capitulo
XI,--e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu
pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem
queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum
tempo,--duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar
á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a
circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã
até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella,
a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e
um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam
que era avaro.