E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram

em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem

tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com

duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as

damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n'o com respeito,

alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto,

ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre

adverbio, a desfiar todas as rimas de _tyranno_ e de _usurpador._ Era

á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas,

corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos;

os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou

saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas,

aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de

crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como

uma gemma,--ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo

e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado,

um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete.

No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos

e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar

ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que

promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como

folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava

a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo

cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia

ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que...

Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella

occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns

cento e vinte negros, pelo menos.

--Trás...trás...trás...fazia o Villaça batendo com as mãos uma na

outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra,

e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe

aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte,

antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e

candido.

Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma

certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito

contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza

continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu

pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas,

mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se

com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo

de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota

para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse;

mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas

succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e

o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o

doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz

de me dar o sol, se eu lh*'o exigisse, chamou um escravo para me servir

o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e

entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões.

Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa

á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança,

qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira

o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido

e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o

rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor.

Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara,

aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do

sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita,

tambem não era feia.

--Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.

--Porque?

--Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás

vezes que é melhor morrer...

Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O

Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.

--Deixe-me, disse ella.

--Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que

eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de

saudades...

D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria

algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de

uma das operas do Judeu:

--Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.

Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir;

uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais

medroso dos beijos.

--O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela

chacara.

Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos;

os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos,

segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno.

Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com

a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso,

sacudiu-me o nariz, a rir:--Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

CAPITULO XIII

Um salto

Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha

eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas,

apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde

quer que fosse propicio a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições

arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a

palmatoria, e ainda assim... Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris,

tu que foste o _compelle intrare_ com que um velho mestre, ossudo e

calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o

mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos,

quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as

minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão

superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre

de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais,

nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras;

com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga.

Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro

branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te

sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos

depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado,

obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar

o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho

nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,--ninguem, nem

eu, que te devo os rudimentos da escripta.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta

pagina: Ludgero Barata,--um nome funesto, que servia aos meninos de

eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel

com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na

algibeira das calças,--umas largas calças de enfiar--, ou na gaveta

da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava

ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes,

dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados,

moleques.--Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém,

deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.

Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a

minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era

a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva,

com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado,

enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear

a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no

morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa,

como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o

Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De

resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei,

ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o

traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios.

Quem diria que... Suspendamos a penna; não adeantemos os successos.

Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de

cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia

politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.

CAPITULO XIV

O primeiro beijo

Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por

trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição

verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se

distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem

com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que

entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias,

cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas

balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar

com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal

ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar,

comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os

seus livros.

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente

se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte

pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a

que me captivou logo foi um ... uma ... não sei se diga; este livro é

casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se

ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola,

Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo.

E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias;

disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinião aceita

é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza,

ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze

annos. _Cosas de España._ Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado

ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica,

e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida,

sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe

não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas;

luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno,

morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e

tisico,--uma perola.

Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo

que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um

amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos

da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir

de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante,

um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras.

--Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro,

como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio

das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella»,

lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que

fiquei tonto.

Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma

ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier,

com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que

eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa.

Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia

de mulheres,--todas de partido--, e bonitas, cheias de graça, mas a

hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso,

estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á

porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a

subir as escadas.

--Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar.

--O lenço.

Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos,

puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma

cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra

vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio.

CAPITULO XV

Marcella

Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella,

não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciência,

a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de

grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa,

e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae,

tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam

trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem

as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas

baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes

que o asno foi digno do corsel,--um asno de Sancho, deveras philosopho,

que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe

na anca e mandei-o pastar.

Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia

ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse

effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor.

Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito

annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.

Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome,

que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial.

Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle

jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a

credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias,

e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana.

Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso

colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as

larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem

reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz

e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle

restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então

recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás

escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar

sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar

um dia com usura.

--Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda,

alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo... Pois isto é cousa

que se faça... um presente tão caro...

E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar

melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma

reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe

a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava

muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia

obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro,

cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por

medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria.

Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as

demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,--uma linda baixella da

India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me

grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona;

não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos

dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão

candida,--candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem;

mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia

ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare

com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha

noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais.

Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que

ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que

o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo.

--Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu

ameaçando-me com o dedo.

E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com

ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de

criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo,

com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os

affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a

para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára

devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de

valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os

mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de

festas.

--Esta cruz...

Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro,

presa a uma fita azul e pendurada ao collo.

--Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que...

Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:

--Não percebeste* que era mentira, que eu dizia isso para te não

molestar? Vem cá, _chiquito_, não sejas assim desconfiado commigo...

Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...

--Não digas isso! bradei eu.

--Tudo cessa! Um dia...

Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos,

tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao

ouvido:--Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos

humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.

--Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.

Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto

magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço;

pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia.

Sorriu e ficou.

Entretanto, pagava-me á farta os sacrifícios; espreitava os meus mais

reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma,

sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade

do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma

criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este

vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia

a tudo, risonha e palreira.

--Você é das Arabias, dizia-me.

E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de

encantar.

CAPITULO XVI

Uma reflexão immoral

Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de

estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores

pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer

assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista

na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os

vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio

dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual

é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que

eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo

não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos

bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita,

Marcella amou-me...

CAPITULO XVII

Do trapezio e outras cousas

... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada

menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se

devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

--Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma

Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não

para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:--Gatuno,

sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...

Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle,

e sacudiu-m'os na cara;--Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o

nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em* casas

de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou

ficas sem cousa nenhuma.

Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e

nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a

idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e

fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder

logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a

Europa.

--Porque não?

--Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles

ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...

--Qual delles: o hortelão ou o advogado?

Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes;

depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o

a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos.

Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar

com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a

preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós,

derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um

monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem

ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios,

fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada,

a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive

impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus

pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me

atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei

aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes

queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos

della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com

lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a

olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um

ar enfastiado:

--Não me aborreça, disse.

Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a

alcova.--Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a

lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.

Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais

excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando

o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as

horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles

eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim

mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia

embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e

deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria

ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de

sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte...

Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza

me bradava que era preciso levar Marcella commigo.

--Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.

Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados,

trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle,

como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a,

fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por

um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias;

recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a

melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente

de marfim; corri á casa de Marcella.

Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das

pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os

cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.

--Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro,

terás tudo o que quizeres...Olha, toma.

E mostrei-lhe o ponte com os diamantes, Marcella teve um leve

sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu

metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante

alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado.

Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á

pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o

pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as

madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella

desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.

--Prompto, disse eu.

--Doudo! foi a sua primeira resposta.

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 2 / 15 段