Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cab

MEMÓRIAS PÓSTHUMAS

DE

BRAZ CUBAS

POR

MACHADO DE ASSIS

RIO DE JANEIRO

TYPOGRAPHIA NACIONAL

1881

OBRAS DO AUTOR

Memórias Pósthumas de Braz Cubas

Helena, romance

Yayá Garcia, romance

Resurreição, romance

A mão e a luva, romance

Historias da meia noite

Contos Fluminenses

Americanas, poesias

Phalenas, poesias

Chrysalidas, poesias

Tu só, tu, puro amor, comédia

Os deuses de casaca, comédia

Desencantos, comédia

Theatro

AO LEITOR

Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o

escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não

admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver

os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito,

dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa,

na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de

um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens

de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da

galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá

sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas

apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará

nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos

graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da

opinião.

Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz

para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo

é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e

truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que

empreguei na composição destas _Memórias_, trabalhadas cá no outro

seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao

entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino

leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote,

e adeus.

BRAZ CUBAS.

AO VERME

QUE

PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES

DO MEU CADAVER

DEDICO

COMO SAUDOSA LEMBRANÇA

ESTAS

MEMÓRIAS PÓSTHUMAS

CAPITULO I

Obito do autor

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou

pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a

minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas

considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que

eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para

quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim

mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a

poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o

Pentateuco.

Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de

agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta

e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de

tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos.

Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce

que chovia--peneirava--uma chuvinha miuda, triste e constante, tão

constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora

a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de

minha cova:--«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer

commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de

um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar

sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o

azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á

natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao

nosso illustre finado.»

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe

deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que

me encaminhei para o _undiscovered country_ de Hamlet, sem as ancias

nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se

retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove

ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,--minha irmã Sabina, casada

com o Cotrim,--a filha, um lyrio do valle,--e... Tenham paciência!

daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de

saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as

parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo

que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu óbito era cousa

altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro

annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E

dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De

pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a

triste senhora mal podia crêr na minha extincção.

--Morto! morto! dizia comsigo.

E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu

desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das

ruinas e dos tempos,--a imaginação dessa senhora tambem voou por

sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil...

Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos

primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente,

ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que

tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma

navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro.

Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que

podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa.

A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha,

esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral,

e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do

que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o

leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o

caso. Julgue-o por si mesmo.

CAPITULO II

O emplasto

Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara,

pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez

pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas

cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a

contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as

pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um

emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica

humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a

attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão.

Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam

resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos

effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso

confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver

impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas

caixinhas do remedio, estas tres palavras: _emplasto Braz Cubas._ Para

que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de

lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse

talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha

idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico,

outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde

de nomeada. Digamos:--amor da gloria.

Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da

gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria

eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços

de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente

humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.

Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.

CAPITULO III

Genealogia

Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto

esboço genealogico.

O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu

na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural

do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade,

se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou,

colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que

morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas.

Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós--dos

avós que a minha familia sempre confessou--, porque o Damião Cubas era

afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o

Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos

particulares do vice-rei conde da Cunha.

Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria,

allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a

um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que

praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de

imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um _calembour._ Era um bom

caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns

fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva

notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar

a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu

famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S.

Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de

Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle

imaginou as tresentas cubas mouriscas.

Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia,

por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo;

vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os

successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.

CAPITULO IV

A idéa fixa

A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa.

Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma

trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o

matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que

a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira.

Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro

banana,--ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que

mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou

meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos,

e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi

o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um

poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius

incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a

lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o

sabio.

Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando

á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos;

a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,--formula

Suetonio.

Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz

fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez

a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe

quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda

não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que

prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades,

e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que

este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já

desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de

uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que

não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do

que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a

historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou

a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela

minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que

Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto

aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum

da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira

grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras

modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella,

com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é

como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu

este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a

comparação não presta.

CAPITULO V

Em que apparece a orelha de uma senhora

Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha

invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me

tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos

doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e

remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso

expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia

estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem

cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á

eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio

haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações

menos lúcidas e não menos triumphantes.

Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um

seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude

e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de

uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma

instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente

do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um

sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a

sorte dos homens.

Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas

com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do

primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do

Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina.

Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que

um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova...

CAPITULO VI

Chimène, qui l'eut dit?--Rodrigue, qui l'eut cru?

Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto,

e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida

pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia,

contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de

fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a

agora não qual era, mas qual fora**, quaes foramos ambos, porque um

Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou

o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte

ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o

ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples

saudade.

Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade

presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado

o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre

uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.

Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente

expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste

livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa

saber é que Virgilia--chamava-se Virgilia--entrou na alcova, firme,

com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu

leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava

todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de

desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo.

Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a

olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous

grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli,

vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela

vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados.

Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal;

estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa

de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora

começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.

--Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.--Ora, defuntos! respondeu

Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:--Ando a ver se

ponho os vadios para a rua.

Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e

doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro;

podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas

noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má

lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia

um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.

--Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que

eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos

vivos.

E vendo o relogio:

--Jesus! são tres horas. Vou-me embora.

--Já?

--Já; virei amanhã ou depois.

--Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não

tem senhoras...

--Sua mana?

--Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.

Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com

gravidade:

--Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas,

virei com o Nhonhô.

Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade

de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram

juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha

alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder

logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao

filho:

--Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer

fallar para fazer crer que está á morte.

Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura

galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das

vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse

denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação

sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos,

casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados,

vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se

tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo

aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam

de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...

Era o meu delirio que começava.

CAPITULO VII

O delirio

Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu,

e a sciencia m'o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação

destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á

narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é

interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a

trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro,

escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e

confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na _Summa Theologica_ de S. Thomaz,

impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e

estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade;

e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro,

e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de

certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que

me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança,

mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que

me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me

parecia sem destino.

--Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos.

Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me

entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e,

perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo

de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a

estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os

olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que

sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava

a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e

sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos

mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de

olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio

augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu

entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que

o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra

montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de

neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas

apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:

--Onde estamos?

--Já passámos o Eden.

--Bem; paremos na tenda de Abrahão.

--Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha

cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e

extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado

impalpavel. E depois--cogitações de enfermo--dado que chegassemos ao

fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes

devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão

seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho,

e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e

pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada

vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio

ceu*, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra

planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O

silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a

vida das cousas ficára estupida deante do homem.

Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso,

uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos

rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas

selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os

contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz

diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um

grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e

como se chamava; curiosidade de delirio.

--Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A

figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de

um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das

cousas externas.

--Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo

pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello.

--Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para

certificar-me da existencia.

--Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu

orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho

da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua

consciência rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres

viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e

levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude

ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma

contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição

unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna

surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas

no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um

ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o

mais debil e descrepito dos seres.

--Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua

contemplação.

--Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma

fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu

não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a

razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que

eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem,

como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque

Pandora?

--Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a

esperança, consolação dos homens. Tremes?

--Sim; o teu olhar fascina-me.

--Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás

prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a

voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle,

afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos;

pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a

com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.

--Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes

de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do

expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei

menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da

tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o

maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

--Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este

amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear

a ti mesma, matando-me?

--Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa,

mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer

em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o

tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei.

Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da

onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o

estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos

a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe,

atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma

reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas,

todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e

dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era

o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem

e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem

a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a

imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação

viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o

relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilhão, e, não obstante,

porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante

de mim,--flagellos e delicias,--desde essa cousa que se chama gloria

até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a

miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça

que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a

penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia,

a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até

destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora

mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as

suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia

alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos,

ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e

rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura

nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro

de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario,

com a agulha da imaginação; e essa figura,--nada menos que a chimera

da felicidade,--ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar

pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um

escarneo, e sumia-se, como uma illusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia,

que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por

que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,--de um riso

descompassado e idiota.

--Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,--talvez

monotona--mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra

concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espectáculo.

Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas

digere-me.

A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os

seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações

que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do

captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas

ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me

retinha os pés; então disse commigo:--«Bem, os seculos vão passando,

chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração

da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que

vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei

até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de

sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o

seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada

um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam

depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma

regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o

homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e

o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia,

que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico,

philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia

á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que

entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu

olhar, enfarado e distrahido*, viu emfim chegar o seculo presente, e

atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio

de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel

como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a

mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista;

ia emfim ver o ultimo,--o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha

era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago

seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se;

uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um

nevoeiro cobriu tudo,--menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que

aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho

de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato

_Sultão_, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel...

CAPITULO VIII

Razão contra Sandice

Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e

convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de

Tartufo:

La maison est á moi, c'est á vous d'en sortir.

Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo

que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a farão despejar. É

sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora,

se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez,

outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel

peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi

um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria

entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu.

Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão.

--Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos,

cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á

sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto.

--Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um

mysterio.

--Que mysterio?

--De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns

dez minutos.

A Razão poz-se a rir.

--Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a

mesma cousa...

E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois

entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda

grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de

fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente

andará até á consummação dos seculos.

CAPITULO IX

Transição

E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior

transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença

de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha

juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como

chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci.

Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada

do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens

do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto

de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor

tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta,

como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de

quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma

arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao

dia 20 de Outubro.

CAPITULO X

Naquelle dia...

Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci;

recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que

se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de

fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração;

creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a

com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da

nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe

quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria,

achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir

sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego.

--Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer

orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado...

É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano

Bento?

Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me

ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a

todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito...

Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro

a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança

veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras

semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha

que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão

conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os

contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o.

Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram

a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do

anuo seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça

feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel

Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas

familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas

veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes

de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia

com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia

pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os.

--Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.

--Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza

Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D.

Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.

--É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.

--Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de

orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo

tempo, namorado, cheio de si.

Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez

por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras,

pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.--Só só, nhonhô, só só,

dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe

agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e

andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.

CAPITULO XI

O menino é pai do homen.

Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente,

como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos

matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu

era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se

isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e

verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu

tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um

dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do

doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio,

deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura,

fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por

pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa,

era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um

cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma

varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle

obedecia,--algumas vezes gemendo,--mas obedecia sem dizer palavra,

ou, quando muito, um--«ai, nhonhô!»--ao que eu retorquia:--«Cala a

boca, besta!»--Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel

a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões

nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram

mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões

de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração;

e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples

formalidade: em particular dava-me beijos.

Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a

quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas

opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não

passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo

rabicho das cabelleiras.

Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me

a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a,

não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e

logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns

preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me

governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que

a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu,

e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como

eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma

grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na

cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!

Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um

simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta

nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito

coração, assaz credula, sinceramente piedosa,--caseira, apezar de

bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao

marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas

creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era

no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego

fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava

mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu

pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente

superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão,

illudia-se a si proprio.

Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como

herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a

natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa,

exigente, doentia.

De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo

extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles,

o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca.

Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não,

eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a

adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença

que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não;

deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e

emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era

eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em

casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu

achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas

que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos,

de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque

o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga

no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do

tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a

ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio

João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:

--Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!

Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e

pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior,

apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a

parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as

preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da

sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que

uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia,

não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de

Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa;

mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das

cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de

sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia

aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das

regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que

era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as

impôr aos outros.

Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a

pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se

grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia,

uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena

de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com

grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio

domestico, e essa ahi fica indicada,--vulgaridade de caracteres, amor

das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio

do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta

flôr.

CAPITULO XII

Um episodio de 1814

Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante

episodio de 1814; tinha nove annos.

Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria

e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos

homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza,

acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio

puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa,

porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de

officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre

era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as

controversias e as rusgas.

Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão,

houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou

remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais

decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população,

cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real

familia; houve illuminações, salvas, _Te-Deum_, cortejo e acclamações.

Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no

dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim

do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca

mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que

a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era

vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas

não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá

echoava alguma vez este conceito de experimentado:

--Vae-te embora, tu só cuidas do espadim.

Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo

publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição

do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações

chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus

ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do

meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras

da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as

compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas,

escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os

apparelhos do luxo classico.

Dada a hora, achou*-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra,

tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados,

varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas,

outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria

de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um _Te-Deum_;

foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o

Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o

acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver

erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma

esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote,

e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois

tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que

apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote

glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não

acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente,

e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras

presentes não pôde calar a sua grande admiração.

--A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca

ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquillo sim!

que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no

botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso

talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de

Cadaval...

Memorias Posthumas de Braz Cubas · 第 1 / 15 段