a pag. 80 e seg. Por ainda se não achar publicado, nem de todo
impresso tal livro, e por fazer muito ao meu proposito, me permitti a
transcripção.
CASTILHO.
«¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras
minhas, a cabeça encanecida e regalada! ¡Uma barraca de poucas braças,
mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio! á roda, tanto de
fazenda... quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de
um só fôlego; mas isto em solidão bem solidão, onde só os astros me
enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me
chegasse, senão o vento, já expurgado, e esquecido de humanas vozes.
«Tal casa e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio
e reino: paraizo terreal, e digno vestibulo de outro melhor.
«Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá
trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos. Por si se retingiriam
os cabellos com o franco sol, remoçador de quanto existe. A lyra
interior volveria a cantar espontaneamente, como harpa eólia entre
jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.
«Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephemeras
e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me
desbarataram na galé da Imprensa periodica; ou (com mais propriedade)
nas palhas d’essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do
Universo, soberana com diadema de papel, e sceptro de lapis. Só não
rira d’ella, quando me lembrasse que me engoliu, com os annos que me
tomou, outros tantos da minha existencia para o diante, pois em cada
tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever
este epitaphio:--_Aqui jazem um anno de fadiga e dois de vida de...
Orae por elle._
«Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.
«Vingára-me (¡oh se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda
por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes,
appareceriam de novo (mas sem mim) no povoado. Como Ovidio aviava os
seus do desterro, aviaria eu os meus do meu eden:
_Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem._
--«¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e
desejos?--dirá, e ha-de dizer, algum d’estes que sabemos, e que nunca
faltam, escoimadores _ex officio_ do alheio.
«Senhor meu--lhe respondo eu já--pois é por isso mesmo de não passarem
de fabulas os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes
eu largas no papel. Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o
meu quintal coroados de ermo, como o Evangelista, nas praias nevoentas
de Pathmos, viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros
de oiro, o tempo, que n’estas palavras gasto, aproveitára-o melhor em
correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o; e em
lá vindo o florido Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus Lares
com mais fé ou egual amor.
«¡A Liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade que nem por longe se pareça
com a de um viver remançado, em casa sem numero nem espias, ao som da
Natureza, á lei da propria inclinação, sem ouvir horas, que nos chamem,
sem encontrar conglosadores, que nos aboquem no ar acções e palavras,
para nol-as tingirem de branco em preto, nem cahir nas garras de
ociosos, que vos emprasarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma
noite de Dezembro; isento da praga de reformadores velhacos, que são
a peor salada que o diabo temperou e mecheu em horas de aborrimento;
seguro, emfim, de ser pizado nas ruas por soberbias de quem vos não
vale, tremolando-lhe na botoeira do vestido refulgente epigramma
de esmalte contra meritos e virtudes, e de noite interrompido na
meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens,
que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correr para
nada, pygmeus histriões da farça séria d’este mundo.
«Se algures ficou sobre a terra a Liberdade, que irmana, segura,
ennobrece, e concilía os hómens, na montanha encontrareis mais depressa
coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles,
onde se blasona que ella tem o seu templo, e n’elle as suas festas.
Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas
diversas ao mesmo tempo: este o _Te Deum_, aquelle o _De profundis_, um
o _Quômodo cécidit cívitas plena populo_, outro o _Cantemus Domino_,
qual o _Miseremini mei_, qual o _Ecce sacerdos magnus_.
«Se alguma vez se incensou presente n’este orbe a Liberdade,
derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando
rojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou
o pedestal razo com o formoso nome d’ella em lettras de oiro. Ao que
tinha de ser ermo, pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi
inteira. Aqui pregôam-n-a; lá disfrutam-n-a:, assim vai tudo.
«E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia, e, deixado
o palavrorio, que não sôa muito senão por ser vazio, como tambor de
foliões, dizei me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que
homem que desperta recobrado ao romper d’alva, por se lhe ter o somno
acabado, e não porque ruins pezares lhe repiquem, ou o estremunhem
alvoroto de praças, e reboliço de visinhos, pois diante de suas
janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu
tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas
passarinhos ou borboletas? ¿Quem mais livre?
«Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera
despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o
cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas, e dos
convites. ¿Quem mais livre?
«Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as
occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?
«Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e
para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta,
ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem
como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho
corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar
senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da
obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir
com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a
alegria que se esconde.
«Este _deus in nobis_, divindade campestre, em que se pode crer,
perguntae, se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames que
pejam escriptorios e secretarias; perguntae-o a quasi todos os que
remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais
livre?
«Posto o sol, pregoadas as tréguas das lidas pelo sino das Aves-Marias,
o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda ao pescoço, para folgar
entre eguaes, em quanto a ceia, bem mercada se lhe acaba de coser ao
lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito
cheio; não ha ciar-se de mulher e filhas, que não dá a terra óperas
nem bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como
elle. Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor,
o obrigue a pôr n’uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não
o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do
mundo em sêcco; nem menos a ouvir ler, n’uma coisa malcheirosa chamada
periodico (especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não
maleficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem
para quê, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios
na hora do chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de
vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?
«Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas
destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio,
nada reluz na poisada que os attráia.
«Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o
vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça
para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes
para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher
para o Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.
«¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e
afortunado que o nosso? Pois não disse eu d’elle tudo que poderia, nem
o direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não
deixei na materia udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são
condições de boa ventura!
«Se n’isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fóra do meu
proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração
de alguns d’estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por
inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo,
ou podendo, se uma hora olhassem para si, adquirir, sem nenhuma
difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos
á fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena,
commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para
os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de
bons costumes e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa,
que a de mais de retemperar corpo, animo e coração, para se n’ella
saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto,
quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.»
* * * * *
Aqui estão, ó meus morgados do trabalho, ó meus fidalgos da gleba, aqui
tendes as minhas ambições, que, de esperança em esperança, e de poiso
em poiso, depois de me haverem trazido até aqui, me levarão até aos
fins do mundo.
Onde quer porém que me ellas conduzam, ou a Providencia m’as realise,
ou o meu lidar continue a ser vazio de futuro, sempre entre as minhas
saudades vicejará a vossa Ilha; aqui, onde eu, pensando em vós,
devaneei os meus mais entranhados devaneios de humanidade, e com
tanta fé, que ousei declaral-os, sustental-os, defendel-os; a vossa
Ilha, a nossa lustrosa esmeralda engastada na saphira immensa dos
mares, e em que o ceo e as terras de longe se estão revendo; a vossa
Ilha, este açafate de frutos, onde, se não encontrei o sepulcro ao
pé da choupaninha (como desejava), sei que deixo bons amigos, que me
defenderão o nome, quando alguem, por não ter acabado de me conhecer,
m’o atassalhar.
¡Não depender de mim, como de outros depende, o bemaventural-a! ¡O
bemaventural-a era tão facil! a ella, e a todos os dominios d’esta
nobre, d’esta memoranda, d’esta desbaratada (mas ainda não perdida)
Monarchia; tão facil, tão suave, tão seguro, tão glorioso, tão divino!
¡Dizer que ha pessoas, que teem nos destinos do mundo uma especie de
omnipotencia, e que esta lhes não influe nem um vislumbre do amor
infinito! Vê-se, e não se acaba de entender.
* * * * *
Quando um potentado desce os degraus do seu jazigo, ¿que que é o que
leva?
¿Os palacios, de que já outros estão tomando posse?
¿Os canticos dos lisonjeiros, que lhe deram costas logo que cessou de
assignar graças?
¿Os saccos de oiro, que não cabem por aquella portinha?
¿Os cordões e gran-cruzes, que a mortalha repulsa, porque é séria?
¿Os loiros das victorias, que n’essa hora aterram, porque se vêem
claramente suar sangue?
Não. Para dentro d’aquelle carcere pomposo, por entre aquelles hombraes
estreitos, por onde se entra e se não sai, nada passaria com elle,
para derradeiro consolo, senão a claridade das luzes que lá por fóra
deixasse accezas, senão os eccos das benções, que para si andasse
semeando no semear para os outros felicidade.
¡Oh! ¡quão poucos, quão poucos pezam isto em quanto podem! ¡e quão
menos, quão menos ainda, deixarão de o pezar, e ha de pezar-lhes quando
já não fôr tempo!
* * * * *
¿Quereis vós saber como todo o mundo se faria de repente
bemaventurança? Era se Deus ordenasse antecipada, e já agora, a
ressurreição dos mais ruins Principes, Ministros, legisladores,
chefes de provincias, Prelados, em summa, de todos os perversos ou
negligentes maioraes de nações, de povos, de tribus, de hordas, de
familias; e, ressuscitados com a experiencia da agonia e sciencias de
além-mundo, lhes ordenasse recomeçarem seus governos.
Os unicos rostos tristes e pallidos sobre toda a superficie da terra,
seriam os d’estes penitentes do poder. Quanto mais Neros, mais Titos;
quanto mais Caligulas, mais Trajanos; quanto mais Claudios, mais
Aurelios; quanto mais demonios na primeira vida, tanto mais Anjos e
Semideuses sahiriam na vida nova.
Ó gente esquecida dos outros, e de vós, e de vossos filhos, ó
somnambulos que não acordais aos clamores dos povos, e ao estrépito das
aldeias que se arruinam, nem ao ranger ameaçador das cidades que apoz
ellas se virão a baixo sobre vós, ¿não ha já em vosso coração fibra
que não esteja dormente?! ¿nem a do egoismo? ¿Não haverá, com valentia
para vós despertar, senão a trombeta do dia ultimo? Lazarones da
_pseudo-politica_, vós sonhais estirados ao sol sobre a terra inculta;
e essa terra inculta já foi lava; e por baixo d’essa lava ainda rugem
vulcões.
* * * * *
¡Que dó, não poderem estas vozes de tanta verdade, de tanta lealdade,
de tanto e tão entranhado amor, não poderem sahir do colmo rôto do
casal!
Agora, que tudo é sizudo e meditativo, agora que estas arvores
despojadas pregam desenganos, agora que o rugir das folhas sêccas
sob os pés agoira vaidades, agora que o anno expirando induz a deitar
contas, agora que o seculo termina a sua primeira metade, estes
cincoenta annos tão de sangue e de cinzas, para poderem fecundar os
cincoenta que ainda lhe restam, ¡não poderem agora estas vozes tão
benévolas, ser tomadas por algum dos Seraphins, que de noite espalham
em segredo os bons conselhos, para irem ser depostas de mansinho onde
ha forças de sobejo para milagres!...
¿Essa gente não verá estrellas lá por cima? ¿Voarão tanto as suas
carroagens, que lhes não deixem perceber a fome que gira pelas ruas? O
vinho, que lhes jorra de crystaes doirados em seus festins, os frutos
que lhes rescendem em prataria lavrada, ¿nunca lhes trariam á lembrança
o pobresinho do rustico, de quem tudo isso, e tudo, lhes veio, e que
Deus sabe se tem pão para o filhito que desmama?
Deixal-os lá... A Providencia os fará seus quando fôr tempo. ¿Quem sabe
se elevados a poderosos vós e eu valeriamos mais do que elles?
Parece-me que as almas são n’isto como as arvores: as mais agigantadas
estão nos valles infimos; quanto mais costa acima pelas serranias,
tanto mais se apoucam. Segredos do Altissimo, não os havemos nós de
julgar. Dêmos-lhe graças de termos nascido na planicie.
* * * * *
De mim sei eu que, se não tenho feito nenhum bem aos meus semelhantes,
não é á mingua de muito bons desejos; d’estes, quando são verdadeiros,
e se provam, pode um homem, sem pejo, gloriar-se.
Mas hoje comvosco só quero falar do que hei desejado em vossa mesma
terra; e não é tanto por vangloria (ainda que talvez poderá esta andar
tambem ahi sem o eu cuidar), como que para estes pontos aqui recordados
á pressa, em forma de testamento nuncupativo, se reconsiderem, e os que
parecerem de préstimo se levem por diante. ¡Como eu não applaudirei lá
ao longe cada nova de progresso da vossa Ilha!
No Prologo do vosso _Agricultor_ escrevia eu, se vos recordais, estas
palavras:
«Sizudamente discutimos comnosco, se os intereses moraes haviam de
ser tambem aqui representados, como em a nossa _Revista Universal_;
e entendemos como a Sociedade, que sim, mas que só fosse de longe a
longe. Dentro na fazenda está a casa; dentro na casa o colono, e dentro
no colono espirito e coração.
«A Natureza, com a necessidade do trabalho, para que se vivesse, creou
a necessidade de repoiso, para que se meditasse. A Religião, sobre cada
seis dias de servir, impôz, como corôa, um de cantos, de preces, e de
amor. O exercicio do animo e do corpo mutuamente se aliviam.
«A virtude e o prazer, a moral e a litteratura, poderão vir nas boas
horas, alguma vez, semear de boninas suas estas paginas tambem suas.
¿E por que não? Deus, que fez as arvores, madeiras, cortiça, frutos,
resinas, oleos, gommas, cera, farinhas, pão vestidos, medicamentos,
¿não lhes disse tambem--Verdejae, flori, espalhae sombras como tendas,
murmurios como harpas, fragrancias e delicias como noivas? ¿E não lhes
disse sobre tudo--Apontae sempre com os vossos braços dadivosos para o
meu Ceo?»
¿Ora não procurei eu preencher tal promettido durante os dois annos que
então começaram e findam hoje?
A par com as propostas de culturas e creações uteis, de introducção
ou aperfeiçoamento de industrias faceis, da inauguração d’um Conselho
agronómico, etc. ¿não pugnei com ardor pela Instrucção primaria, pela
Educação moral, pelas festas civilisadoras, pelos premios e animações
aos meritos, pela rehabilitação do Clero e das mulheres, pela abolição
do tributo de sangue, pelo aperto dos laços das familias e dos
cidadãos, pela substituição da verdade franca e honrada ás ficções e
cavillações da pseudo-politica, pelo aperfeiçoamento do homem em todos
os sentidos?
Com documentos o provo, e ninguem com documentos m’o negaria.
* * * * *
Mas as minhas diligencias não pararam em alvitramentos; até onde se
podia, sem os grandes meios externos, fui eu. Confederámo-nos, os
sollicitos; fundou-se e prosperou uma Sociedade de Amigos das Lettras e
Artes, foco e excitamento de convivencia, de trabalho, de instrucção;
d’ella brotaram escolas variadas, festas, exposições; tres fontinhas,
todas preciosas, de ulteriores progessos, e que, até como exemplo, teem
já sido proveitosas.
A vossa villa da Ribeira-grande lá está com brilhantes serões musicos
e escolas primarias. Ha-as na villa de Alagôa; ha-as nascidas n’outras
partes, e em quasi todas estão despontando.
Na vossa terra organisei um novo systema de leitura facillimo,
já approvado para todo o Reino. N’ella compuz um novo Tratado de
versificação e poetica, tambem já approvado para o mesmo fim. N’ella,
um de Mnemonica. Tres livros elementares, não sem prestimo.
Da Poesia abri curso, de que sahiram dois poetas lyricos de esperanças;
e outro curso do mesmo haveriam as damas tido se o quizessem;
offereci-lh’o. Offereci-me tambem ao ensino rapido do Latim e Portuguez
ao mesmo tempo; se não acudiram alumnos, não foi minha a culpa.
Como invite ao foragido espirito de sociabilidade espancado pelas ruins
_politicas_, tentei um jornal litterario e poetico para os domingos
e para as salas, _A Sereia_; tambem lhe não deram a mão, e ahi se
mallogrou.
Introduzi a Gravura em madeira. Tentei a Lithographia. Fiz dar, talvez,
um passo de adiantamento á Typographia.
Expertei em alguns mancebos d’alma o amor do Bello e do Bom; por onde
espero que as novas escolas que elles vos regem, com fervor exemplar e
fanatismo santo, se hão-de arraigar e permanecer.
Commetti o que em terras portuguezas se não commettêra: applicar a
Poesia e a Musica, d’antes só desbaratadas em amores e vaidades, a
concitar os espiritos para coisas serias e uteis; d’ahi, o _Hymno do
trabalho_, o _da Infancia nos estudos_, e o _dos Lavradores_.
Obtive da amisade de um dos nossos primeiros medicos um curso popular
de Hygiene.
Provoquei a creação de um Conselho industrial, que acudisse com o fruto
dos seus estudos ás consultas dos mechanicos indoutos.
Sollicitei a formação, ainda pendente, de um estabelecimento mixto de
Caixa economica, Banco industrial, e Monte-pio.
Acceitei o Commissariado dos Estudos n’esta Ilha, sem interesse, antes
com dispendio de fazenda e tempo, pelo mero empenho de apressar a
Instrucção, antepondo aos methodos e praxes tradicionaes, methodos e
praxes mais do seculo; agra tarefa, de que eu não houvera aberto mão,
se barbara e ingratamente m’a não houvessem pago, logo ao principio,
com desgostos.
Finalmente, puz peito a que a verdadeira mola real de todos os
desejaveis e possiveis beneficios, a nobre Sociedade dos Amigos das
Lettras e Artes, assegurasse a sua duração.
Requereu-se chão nacional, onde, por generosos donativos da Sociedade e
da Ilha, se edificasse e dotasse um magnifico solar de Artes e Lettras;
requerimento que eu acompanhei incançavel, e em cujo favor, porque era
em favor da civilisação, invoquei, e continuo a invocar, Ceos e Terra.
¡Oxalá o defiram, antes que as vontades aqui se descoroçôem e percam
totalmente! Mais tarde... poderão semear n’esse chão aveia ou luzerna,
ou deixarem-n’o para escalracho e cardos; dará tudo, menos instrucção.
Felizmente, deixei-lhe na Côrte protectores intelligentes, zelosos, e
de valimento; ainda restam esperanças.
Com esse palacio, se se chega a levantar, espaçoso, commodo, claro,
ridente, pintado, ornado, ajardinado, alegre por todas as janellas,
convidativo por todas as portas, bondoso e dadivoso em todos os
recantos, com aulas de Religião e moral, de escrita, de leitura, de
contas, de geometria, de desenho, de pintura, de linguas, de historia,
de geographia, de musica, de dança, de hygiene, de civilidade, com
theatro para declamação, baile, e opera, com sala para saraus, com
basar para productos artisticos, com vergel e sombras para passeio e
exercicios gymnasticos, com museu e bibliotheca para estudiosos, ¿quem
não vê que haverá ali uma irresistivel attracção para todos os Socios,
a qual, junta á ideia do proveito commum e publico, e á diminuição ou
cessação de prestações continuas, pela preexistencia de um capital
seguro e sufficiente, os trará perennemente reunidos e gostosos?
É por isso que, se hoje nos chegasse a boa nova de se nos haver
outorgado aquelle solo, hoje mesmo começariamos a mendigar como
Religiosos, para as obras da nossa Terra-santa. Amanhan lhe estariamos,
por nossas proprias mãos, uns cavando os alicerces, outros acarretando
as achêgas, outros cortando as madeiras, outros serrando ao som do
Hymno do trabalho.
O Prelado, nosso consocio, cedendo ao nosso convite, e ao de sua
consciencia, viria ao primeiro alvor da madrugada abençoar o chão; as
autoridades, lançar nos fundamentos as primeiras pedras; as damas e os
meninos, flores.
Com taes estreias, a edificação pularia por entre cantos, todo o dia
á luz do sol, toda a noite á dos archotes. S. Miguel em poucos mezes
teria para amostrar a todo o mundo um monumento. Teria; e ha-de ter, ou
de todo é morta já a alma nas terras de Portugal.
Orae, meus amigos, orae, para que não caia mais essa vergonha em nossa
edade.
* * * * *
E agora, que vos hei deixado tudo quanto me restava, que eram votos e
preces pela vossa prosperidade, a que eu já não hei de assistir senão
em espirito, agora vos abraço; e com a fronte inclinada sobre as trevas
do destino, quando eram bem horas de repousar, recomeço a peregrinação.
Dezembro de 1849
NOTAS DO AUTOR
I
Pag. 03.--=Abolição do Exercito=
A pequena dissertação, que se leu sob este titulo, acerca da
verdadeira, urgente, urgentissima e indeclinavel necessidade de
supprimirmos a força armada, tal como entre nós existe, sahiu a lume a
20 de Novembro de 1849.
Na Ordem do Exercito n.º 3, datada de 9 de Janeiro d’este anno de 1850
vemos, se não reformas radicaes e absolutas, quaes as pediramos, e as
pede já de muito a consciencia publica, pelo menos o annuncio de uma
economia.
Ahi se lê a pagina 6:
«Pelo orçamento que acompanha o Plano se observará que, comparado o
quadro legal do Exercito, com o proposto, ha uma differença a favor da
Fazenda Publica de réis 193:719$425.»
Estas palavras, quando mais nada fossem que palavras, seriam ainda,
como são, uma solemne homenagem tributada pelo Poder á grande e
salvadora verdade que defendemos.
II
Pag. 129, lin. 18--=Ilha, açafate de frutos, onde, se não encontrei
o sepulcro ao pé da choupaninha, como desejava, sei que deixo bons
amigos.=
Estas palavras postas no ultimo Serão do casal, em que eu dava a S.
Miguel a despedida, traziam a proposito de _Amigos_ o seguinte em nota,
que eu tomára republicar em milhões de exemplares:
Provadamente sei que os tenho. Descompassada sahiria a nota, se n’ella
os houvesse de nomear com as devidas explicações; testemunho é esse,
que fica reservado para outra parte, e mais accommodada conjunctura.
Duas memorias porém não posso eu deixar de antecipar já aqui, por
conterem exemplo moral, sempre raro, e hoje rarissimo.