O seu entendimento entorpeceu-se no meio da monotonia da sua agitada

ociosidade. Tudo n’elle é vulgar. Os seus actos, até quando arrosta

com as balas ou vôa á brécha, são sem merito, porque não são livres.

A reflexão lhe é defeza. O sopro de um clarim o despára para a morte,

ou para a victoria, como a descarga do obuz arremeça a bomba, que

vai despedaçar, despedaçando-se. Mandado, combate hoje pelo vermelho

contra o azul; amanhan, mandado, combaterá pelo azul contra o vermelho.

Mandado, expõe-se n’uma sentinella perdida, pela segurança dos seus

camaradas. Mandado, irá, em se recolhendo d’ali, espingardear o seu

camarada predilecto, sem uma pergunta, sem uma lagrima. Mandado, poria

fogo, sem hesitar, á egreja onde o baptisaram, á aldeia em que nasceu,

á choupana d’onde sua mãe entrevada não pode fugir.

Tudo isto lhe murmurará tristemente a consciencia, quando á sua

profissão ouvir chamar _gloriosa_. ¡Que fiel, que horrorosamente fiel,

não é o retrato, que do soldado, olhado a esta luz, pintou a negro

Alfredo de Vigny!

* * * * *

Ao viver monastico teem reprehendido philosophos os seus tres votos,

como anti-naturaes.

¡¿E o soldado?! ¿O soldado é livre para casamento? ¿O soldado não

geme em forçada pobreza? ¿O soldado, sobretudo, não é o prototypo da

obediencia servilissima?

No monge, ao menos, a pobreza descalça, a continencia sobrecarregada de

cilicios, a abnegação do querer, tinham por compensação a esperança de

thesoiros, de delicias, e de um throno para a eternidade.

¿E o soldado? ¿Que lhe promettem, ou que espera, por tantas

renunciações?

¡Oh! a sua humildade, se fosse livre, seria inquestionavelmente de

todas as heroicidades humanas a mais estupenda. Mas não é livre. Mais,

do que no Religioso opera a esperança do premio, opéra n’elle o seu

unico movel: o medo do castigo. O cenobita padece e canta; o soldado

padece, e nem ousa suspirar. Aquelle canta porque na phantasia lhe riem

Céos; a este negrejam-lhe na ideia o calaboiço, as varas, a grilheta, a

farda rasgada, o fusilamento.

* * * * *

Depois de annos de uma tal vida de _gloria_, ¿como volverá ao seu

torrão o mancebinho innocente, que d’ali arrancaram, por entre tantas

lagrimas dadas e recebidas, se por ventura lá volver? Nem a namorada

do seu coração, se a teve, o reconhecerá.

O aborrimento da miseria n’uma condição obscura, e na familiaridade

com entes sem educação nem principios, lhe fez contrahir muitos

vicios ignobeis, que o levaram mais de uma vez, ora ás prisões, ora

aos hospitaes[7]. As suas mãos perderam o geito e gosto dos trabalhos

naturaes e primitivos. Rescendia ás flores do matto; hoje cheira

á polvora, tem o perfume das batalhas, como as aves carniceiras o

fortum cadaveroso. Tinha Fé, desbarataram-lh’a; indole affectuosa,

affizeram-n’o, por dever, á theoria e á pratica do homicidio. Nos

contos do serão, tudo o fazia estremecer; agora, é elle que infunde

espanto aos ouvintes, pelo impassivel com que a sua voz rouca descreve

as carniçarias que viu, e que ajudou, o lanço da cidade que voou com a

explosão da mina, a população inerme que passaram á espada.

[7] Verdade reconhecida pelo snr. Capitão João Maria Fradesso da

Silveira no seu honrado artigo sobre a lei do recrutamento, na _Revista

Militar_ de Fevereiro de 1849.

CASTILHO.

¿Por que assim é desprezador da vida? Porque d’ella só conhece as

durezas e amarguras. O seu valor, se o tem, é uma qualidade negativa:

despréza a morte, porque não sente a alma.

Breve: o Exercito custa ao Thesoiro, que devora; ás provincias, que

fatiga; ás casas, que desfalca de filhos; ás terras, que priva de

braços; ás artes, que despója de obreiros; aos individuos, que esbulha

do seu quinhão de liberdade, a quem quebranta mil fóros e immunidades

essenciaes do homem, a quem, finalmente, de homens converte em machinas

de destruição.

E mais, e muito mais, custa ainda o Exercito, se avaliarmos as graves

consequencias, positivas e negativas, directas e reflexas, do seu

celibato; ponto esse, em que já d’outra vez tocámos, e que por si mesmo

se está commentando.

* * * * *

Ora, se tanto custa o Exercito, e se tão inutil é, como já vimos,

¿por que não insistiremos para os Legisladores, e para os que os

hão-de eleger, no alvitre (que tambem já outra vez suscitáramos) de

se extinguir este grande, este immenso, este inutil, este estéril e

esterilisador, convento militar?

¿Não se dá baixa ao soldado quando já não póde com a milicia? ¿Não

se lh’a dá? até em tempo de guerra? ¡quanto mais em paz! Pois então,

¿por que se não ha-de a baixa conceder já já a este triste velho de

Portugal? As suas armas visivelmente o assoberbam e debilitam de anno

para anno. ¿Aguardaremos que o acabem de matar, para então lh’as

despirmos? Elle já não tem que ir fóra a conquistar. De fóra não hão-de

vir accommettel-o. ¿Logo, de que lhe servem, se não fôr para se ferir?

Arrancae-lh’as; ou antes: deixae-lh’as depôr dos braços pizados,

sangrentos, e cadavericos, que é tudo quanto elle mesmo vos supplíca.

Tem o torrãosinho que mercou, e muito caro; permitti-lhe remoçar-se

n’elle, cultivando-o com desafogo.

Quando Herminia, no formoso poema da _Jerusalem resgatada_ envérga

armas sem ser guerreira, ¡a que perigos e terrores a não expõe essa

loucura! Mas quando emfim, vai armada dar assim áquelle campestre

retiro, onde o pastor ancião está rodeado da familia, embebido em seus

rusticos exercicios, que os meninos fogem, assustados de a ver, e só

voltam quando ella, desquitando-se do elmo, se lhes descobre gentil,

pacifica e amorosa, donosissima allegoria! Escutae o que a boa Herminia

diz, ou o que diz, por sua bocca, a alma do grande Poeta:

_Seguite,--dice--avventurosa gente,

Al Ciel diletta, il bel vostro lavoro,

Che non portano giá guerra quest’armi

All’opre vostre, ai vostri dolci carmi._

Assim deve já dizer aos nossos agricultores a nossa milicia,

desfazendo-se de armas excusadas e improprias:

Gente amada do Ceo, ditosa gente,

¡avante em vossos plácidos lavores!

Já dispo as armas; animo recobrem

a lida vossa, os vossos brandos versos.

* * * * *

Até aqui são axiomas. Qualquer entendimento os percebe.

D’aqui para diante pertence aos Estadistas, mas aos Estadistas

sinceros, philosophos, e humanos, propôr:

primeiro, o modo de fazer a suppressão, sem expôr a contingencias

funestas;

depois, o modo de organisar, mais efficaz e menos dispendiosamente, a

necessaria força publica.

Nós, que não somos Estadistas, só poucas palavras nos permittiremos

sobre estes dois assumptos.

* * * * *

A abolição do Exercito seria recebida pela grandissima maioria d’elle

com alvoroço, ou muito nos enganamos.

A soldadesca, se a consultassem, approvaria talvez unanime. Ao

subir d’ella para a officialidade, é que haviam de principiar as

repugnancias, crescendo tanto mais, quanto mais se fosse pelos postos

a subir. Era logo licenciar a soldadesca toda, e da officialidade

quantos o desejassem. Os restantes empregar-se-hiam, ou nos serviços,

ainda militares, de que logo falaremos, ou em outros quaesquer, em

que, segundo suas habilitações, o Governo entendesse aproveital-os. As

vacaturas, por morte ou outras causas, diminuiriam de mez para mez este

resto de onus, ainda grande para o Thesoiro; até que em poucos annos

haveria cessado totalmente.

Os soldados sôltos das Bandeiras seriam preferidos, em egualdade de

circumstancias, para mil pequenos empregos da republica: policia

municipal, guardas de barreira e de alfandegas, correios, serviço

inferior de tribunaes e estações publicas, trabalho braçal nas

officinas nacionaes e nas dos contratos que a Nação arrenda, tráfego

nas quintas exemplares e experimentaes, tripulação e mais officios na

Marinha, de que alguma parte sempre ficaria provavelmente subsistindo.

* * * * *

Quizera-se tambem que uma Lei nova, regulando mais assizadamente a

propriedade do solo, em ordem a fazel-o subdividir, e aproveitar até

á ultima polegada, proporcionasse conceder-se aos que houvessem sido

bons soldados um pequeno chão, com o adiantamento de instrumentos,

sementes, e algum dinheiro para os primeiros annos, sendo casados, ou

obrigando-se a casar; e apresentando fiador que respondesse pelo valor

que se lhes entregava.

Os terrenos nacionaes poderiam d’este modo ser aproveitados com grande

vantagem, e mesmo os baldios dos Municipios, mediante contratos

equitativos, e de interesse mutuo.

¿Que lucrou o Estado com tão consideravel quantidade de solo tomado ás

Ordens religiosas? Elle nada. Crearam-se ahi meia duzia de principados,

contra todos os aphorismos da Economia. Com a divisão em pequenos

lotes, ¡que familias indigentes se não houveram aventurado! e o

Thesoiro teria recebido já hoje vinte vezes mais do que assim obteve.

Pela mesma Lei, os grandes proprietarios que não cultivam, por não

poderem ou não quererem, seriam certamente obrigados a arrendar em

lotes, e por preços racionaes.

Os morgados... Mas este objecto é sobejo largo e importante; não cabe

aqui.

O que apontámos sobra para mostrar que, reformadas as Leis no que ellas

teem de mais flagrantemente anti-social, nenhum receio podia haver de

que faltasse trabalho e pão para quem quer que fosse.

* * * * *

Já podemos portanto pressuppôr acceita e agradecida pelo proprio

Exercito a sua suppressão, na qual, segundo se acaba de vêr, nada ha de

violento nem odioso, se não que é tudo paternal.

A ulterior organisação da força publica figura-se-nos ainda mais facil.

Não é invenção nossa; é do seculo; é da philosophia; é da Lei do

Estado; é a GUARDA NACIONAL.

Para allivio d’esta nas cidades grandes, podia haver tambem, como em

Lisboa e no Porto, uma Guarda estipendiada pelo Municipio; ainda que,

ao vermos Londres, a mais populosa cidade do Mundo, manter sem nenhuma

tropa, e só com meia dusia de paizanos velhos, a sua admiravel Policia;

não podemos dissimular, que muita coisa está ainda por imitar de

Estrangeiros, de quem, pelo commum, só o indifferente ou o inapplicavel

traduzimos.

«Paiz mais florescente que a Hollanda nunca eu vi em minhas

viagens--diz Bernardino de Saint-Pierre.--Na Capital encerra pelo

menos cento e oitenta mil almas. Com o immenso tráfego de mercadorias

que em tal cidade negoceiam, ¡se faltarão n’ella com que se tentem

as cubiças! Pois sem embargo, não se ouve lá falar de um roubo; nem

guardas ha de soldados. Em 1762 que eu lá estive, havia já onze annos

que se não tinha suppliciado ninguem; e não é dizer que não sejam

severas as Leis; mas como o Povo acha facilmente em que ganhar a vida,

não tem por que as quebrante; e advirta-se que este Povo tem ganhado

milhões a imprimir quantas extravagancias ahi se escrevem em França

sobre Moral, Politica, e Religião. Assim mesmo, ainda não desdiz das

crenças e costumes que d’antes tinha. A razão é porque vive contente

com a sua sorte. OS CRIMES SÓ NASCEM DA INDIGENCIA E OPULENCIA

EXCESSIVA.[8]»

[8] Da primeira vez que este artigo se imprimiu no _Agricultor

Michaelense_, não levava a presente transcripção dos _Estudos da

Natureza_. Foi depois de dado á estampa, que eu li esta admiravel obra;

digo _li_, por que ao devorar folhas na puericia não se chama _ler_.

Os meus encontros em affectos, em pensamentos, até em imagens, com

Bernardino de Saint-Pierre n’esta e n’outras suas obras, não obstante

o que vai de talento a talento, que (ainda mal para mim) é quasi

infinito, se por uma parte me podiam lisonjear o amor proprio, por

outra me confirmam n’esta, para quem escreve, tristissima verdade de

que nada ha de novo debaixo do sol.

Censura de plagiato, que é a mais gabadinha dos ignorantes,

difficultosamente a ousára fazer quem tiver composto e estudado.

Veja-se a minha Nota sobre _Originalidade_ no fim do drama _Camões_.

CASTILHO.

* * * * *

Uma Guarda Nacional, urbana e rustica, de pé e de cavallo, segundo uma

Lei prudente, mas francamente liberal, seria uma força respeitavel pelo

seu numero, e mais que sobeja para os tempos ordinarios.

Para a hypothese, mais que inverosimil, de invasão estrangeira, esta

mesma Guarda seria Exercito, como se observassem duas precauções;

a saber: ter constantemente uma bella Escola militar, viveiro de

officiaes para as armas scientificas, e obrigar os batalhões civicos a

revistas, exercicios, paradas, e passeios militares, com instructores

idoneos.

Soldados taes, ¿em que differiriam dos de linha? Em duas sós coisas: em

custarem menos, e em valerem mais.

O que pode o homem defendendo o solo conhecido, e a que chama seu,

já o ponderámos; mas se provas quereis, perguntae á Germania, ás

Gallias, á Britannia, á Helvecia, á Lusitania, e a todas as Hespanhas

velhas, pelas legiões Romanas; á mesma Hespanha, pelos Saguntinos,

pelos Asturianos, pelos Gaditanos, por cada uma das suas provincias;

á França, pelos Parisienses, pelos Bretões, pelos Vendeanos, por suas

comarcas; á Grecia, pelas Thermópylas, por Missolunghi, por toda a sua

historia antiga e moderna; á Belgica, por Anvers; á America, pelos

Estados-Unidos; ao Norte, pela Polonia, pela Hungria, pelo Caucaso; a

Portugal, pela Terceira, pelo Porto, por cada palmo do seu territorio.

Emfim: interrogae affoitamente a todos os seculos, sobre todos os

povos do Mundo. Sobre o torrão materno, todos são Antheus; podem ser

vencidos, mas é por braços de Hercules, e só depois de mil vezes

renovada a lucta.

¡Oh! de que loiros se não cingira o Ministro da Corôa que o ousasse

propôr! ¿Onde ha ahi Camões, nem Homero, para lhe fundir a estatua com

as devidas dimensões?

O Throno e as Instituições deixariam de vacillar. Duas égides celestes

os cobririam: a ellas, o sentimento da Liberdade; a elle, o amor, amor

centuplicado pela gratidão.

Aos roucos triumphos das eras antigas

succeda o da Arcádia cantar festival!

Da ceifa das palmas, á ceifa de espigas,

volvei, Cincinatos do bom Portugal.

De espigas e palmas coroemos a enxada,

morgado, e não pena, dos filhos de Adão.

Mais velha que os sceptros, mais util que a espada

thesoiro é só ella, só ella brasão.

* * * * *

¡Meu Deus! ¿Será possivel que estejam a paz, a abundancia, e o amor

a bater-nos ás portas, e lhes não abrâmos? ¿que a felicidade nos ria

dos ares, dos valles, dos montes, dos rios, do Oceano, e lhe fechemos

os olhos? ¿que este solo nos grite de todos os pontos «Pedi-me, e

recebereis», e lhe arranquemos os filhos? ¿que aos brados da Industria

e da Agricultura respondâmos sempre _politica_? ¿aos gemidos da Moral,

que pede para si trabalho, fartura, casamentos, instrucção, e festas,

_politica_, sempre _politica_, nada senão _politica_?

Aos jogadores e empalmadores da boa sorte do Povo, a esses, que lhe

reprezam em seus cofres o oiro, que tantas coisas podia fecundar, não

perguntemos que vale ou significa o oiro; mas aos magnates do Estado,

¿como deixaremos de perguntar que vale ou que pode essa _politica_,

esse demonio incubo, sem olhos, sem ouvidos, sem entranhas? ¿Que tem

feito? ¿que faz? ¿que ha-de fazer? ¿que sabe fazer?

Dispam-lhe a purpura, que é sangue. Amarrem-lhe os pulsos, que é

harpia. Tapem-lhe a mentirosa bocca de sereia. Desterrem-n’a, ou

enterrem-n’a, que os dias da credulidade já passaram.

Para o seu logar subam, ao som de vivas universaes, o amor da verdade,

o amor da actividade, o amor da justiça, o amor da fraternidade, o

amor das virtudes e dos talentos, o amor dos homens, das mulheres, dos

meninos, e dos ainda não nascidos.

Só amores pedimos.

¡O pedil-os é tão justo!... ¡e o concedel-os é tão facil!...

Novembro de 1849.

XVII

Festa da Redempção

25 de Dezembro

Nada mais inexplicavel, que a opposição constante, que de muito fazem

ao Christianismo tres raças de homens, todos influentes: os chamados

Liberaes, os chamados Philosophos, ou sabios, e os chamados Mundanos,

ou partidarios dos deleites.

Os primeiros deviam ver n’elle o santo dogma da egualdade e

fraternidade; os segundos, a chave que abre todos os enigmas, e o

unico principio da Moral; os terceiros, as unicas verdadeiras alegrias

concedidas á terra, a serenidade do animo, as esperanças infinitas, a

beneficencia mutua e universal, a arte divina de converter os tormentos

em gosos, as humiliações em glorias, a velhice em alvorada, e a morte

em triumpho.

Os que, não podendo chamar outra coisa ao Christianismo, para o

deshonrarem lhe chamaram triste, não tinham jamais comparado os rostos

da multidão pobre e humilde, que pela manhan cedo sai do templo mui

serena, aos semblantes do tropel, que, pelas horas mortas, vem golfando

dos espectaculos, das assemblêas, das espeluncas da crápula e do jogo,

cançado, aborrido, parte melancolico, parte cuidadoso, parte ébrio;

uns vazios do oiro que lhes havia de sustentar os filhos; outros,

opulentados a subitas, para se arremessarem mais affoitos á ruina;

estes, com a fama denegrida; aquelles, com a alma hydrophóbica ainda a

babar veneno; frutos de cinza e fel dentro em casca brilhante; favos

escondidos no escuro vão de um tronco.

* * * * *

Todas estas excellencias nos traz epilogadas a festa grande, que

prende ao fim do anno velho o principio do anno novo, e que é uma como

absolvição do preterito, e santificação do porvir.

N’estes treze dias temos em formoso drama um symbolo completo da

origem, da indole, e dos fins, da Religião do Nazareno; é a apotheóse

da humanidade; a subversão das pompas vans; a infusão do Ceo na terra,

e a escada mystica da terra aos Ceos, que apparece resplandecente no

meio das trevas com as azas prateadas de todos os Anjos, e ressoando

com os córos de ¡GLORIA E PAZ; GLORIA AOS CEOS, E PAZ AOS HOMENS DE BOA

VONTADE!

* * * * *

¡Que risonha e que magnifica não é, ao mesmo tempo, a primeira scena

d’este drama, annunciado e preludiado, largos seculos havia, pelos

grandes lyricos da Fé, os Prophetas!

Eis o presepio de Belem. Os mysterios, em tão pequeno espaço contidos,

adoram-se com o silencio. Adoremol-os.

Mas como o dia é de jubilos e boas-festas, chamemos pelos nossos

camponezes, como os Anjos chamaram pelos da Judêa, para que venham,

primeiro adorar, como nós, e depois alegrar-se com ufania.

Não foi nos palacios, não foi em Roma, não foi no Capitolio, que o

Filho do Senhor de tudo quiz nascer; foi nos campos, foi na mais

rustica poisada; não entre Principes, se não entre pobres. Os animaes,

symbolos da lavoira e do trabalho, lhe fazem côrte. Os primeiros

convocados para o verem, os primeiros que o louvam, o beijam, e o

querem, são os pastores.

Os primogenitos do Ceo fostes vós, e soil-o ainda, homens simplices e

laboriosos. Os das pompas, os da riqueza, os da sciencia, virão tambem

prostrar-se a este Menino, que ennobrece a tudo quanto se prostra;

virão, que o destino d’Elle é a dominação universal; mas só chegarão

depois de vós. Para vós, bastou um convite melodioso; para elles será

necessaria uma revolução nos astros.

¡Eil-os emfim, os Reis!

* * * * *

Noite de Natal, ¿quem te não ama?! Noite das virgens e das mães, dos

meninos e dos velhos, dos camponezes e dos Soberanos, noite dos Anjos e

dos homens, ¿qual será o coração que tu não alvoróces? Até o incrédulo

se alegra, vendo refulgir no meio das trevas o templo enflorado, e

escutando-lhe os cantares triumphaes. Do alto dos campanarios rebentam

á porfia os repiques, luctando com os ventos impetuosos do inverno, e

vencendo-os, e indo levar uma saudade, ainda suave, ao leito solitario

do paralytico.

Toda esta musica, toda esta claridade, todo este calor, toda esta vida

no coração do inverno, e á meia-noite, condizem com uma Religião, que

venceu o inferno, os Cesares, os deuses; que triumphou, triumpha,

e triumphará sempre, dos temporaes da perseguição, das trevas da

ignorancia, e das trevas, muito mais trevas, da presumpçosa Sciencia.

Sim, sim; o presepio, tal como ainda ao presente o vemos reluzir

allumiado, até por sotãos e cabanas, o presepio com todos os seus

chamados anachronismos, com os seus castellos artilhados, os seus

monges, os seus Romanos antigos, os seus pastores modernos, os seus

camellos carregados de oiro, as suas gentis damas, e os seus pavilhões

campestres inglezes; embora nescios o commentem por delirios e absurdos

artisticos, é a mais verdadeira de todas as Historias, e de todas as

Prophecias a mais infallivel: é um espelho longinquo, no qual todos

os pontos da terra e todas as edades se estampam, convergindo para a

adoração do CREADOR UNIVERSAL.

1849.

XVIII

Undecimo serão do casal

Despedida

SUMMARIO

Adeus para sempre a S. Miguel.--Saudades.--Como é o coração de

um poeta.--Continua a ambicionar a vida rustica.--Panegyrico

d’ella, extrato de um livro inédito.--Memora os bons desejos

que teve a bem da Ilha.--Excusado sermão a estadistas.--O que

o autor tentou, além de alvitramentos.--Sociedade dos Amigos

das Lettras.--Escolas.--Novo systema de leitura.--Tratado

de versificação.--Mnemonica.--Curso de poesia; outro para

damas.--Curso de Latim.--A Sereia, jornal projectado.--Gravura

em madeira.--Lithographia.--Typographia.--Excitação na

mocidade.--Applicação da poesia a assumptos serios.--Hymnos

da Industria, das Escolas, dos Lavradores.--Curso de

Hygiene.--Conselho industrial.--Caixa economica, Banco industrial e

Montepio.--Commissariado dos estudos.--Solar de Artes e Lettras, e

dotação.--Insiste-se fortemente n’esta ideia civilisadora.

Hora solemne e triste é esta para mim; e ¡oxalá que para vós tambem

o seja um poucochinho! Após tão amigavel convivencia de dois annos,

trago-vos despedidas, e para sempre.

Sequer, estamos nas espaçosas noites de Dezembro; e como já me vêem com

a cinta prestes, o escaço fardel ás costas, e o bordão de peregrino

outra vez em punho, não me hão-de levar a mal se n’esta derradeira

pratica por ventura me dilatar.

¡Custa tanto a arrancar os pés d’onde os tivemos por decurso de oito

estações! ¡mais de cem semanas! ¡mais de setecentos dias e outras

tantas noites!... Quando um coração chega a fazer cama (mas que fosse

entre espinhos) já não sabe como se erga. Qualquer lado do horizonte,

por mais risonha luz que de lá o chame, lhe faz medo.

¡E então o coração de um poeta, que é a mais amoravel coisa de quantas

Deus cria!... O coitado lançaria radiculas para se apegar, até a um

rochedo! Em não achando a quem ame, logo muito de pressa o inventa. Faz

lembrar esse animalzinho bemdito, que do seu interior fia a seda em que

se envolve; esconde-se na sua doirada ou prateada esphera, tão macia

e mimosa, livre das distracções da luz, dos sons, dos cheiros, dos

calores, dos frios, e dos toques lá de fóra; rico de sua pobreza, vive

vida encantada de mysterio, de que só ha-de sahir morto, ou com as azas

esplendidas para voar aos céos, depois de ter aboiado em fragrancias e

raios de sol, por cima de labyrintos de flores...

Boa sina parecerá aquella, mas ninguem a inveja. Só pelos espaços da

phantasia é que o enjeitado da fortuna, chamado poeta, pode encontrar

alguma vez com que assim se console. A vida real por todas as juntas

lhe doe; todo o movimento o afflige e dilacera; quantas vezes se aparta

e muda, tantas se fina.

* * * * *

Quando a Sociedade promotora da vossa Agricultura me commetteu escrever

para vós o seu Jornal, que eu me estreei conversando logo comvosco

largamente como amigo com amigos, foram estas (ainda me lembra) as

minhas ultimas palavras n’essa introducção:

«Se aqui, para onde a fortuna me arrojou, tão longe do meu ninho, está

escrito que haja de acabar a cançada vida, quero que em minha pedra

raza, se a tiver, se possa escrever: AMOU A TERRA ONDE JAZ, COMO SE

D’ELLA FÔRA. QUANTO POUDE E SOUBE, TUDO LHE DEU DE BOA-MENTE.»

Era em Janeiro de 1848. Em todo esse anno, que andei comvosco, e em

todo este, que só vos visitei, dizei se desmenti, com as obras a

promessa. Não desmenti, não. Quanto soube e pude tudo de muitissimo

boa-mente dei á vossa terra, e amei-a como oxalá os seus filhos a amem

sempre.

Entretanto, a sepultura, que eu principiava a entrever aqui, era mais

uma illusão, se a morte em poucos dias me não tomar. Vou procural-a

mais longe, muito longe, pois só a desejo ter onde os meus trabalhos

me houverem grangeado um prediosinho, em que me enterre eu mesmo antes

que me enterrem, e, morto para o mundo, viva ainda alguns dias para

os meus, para mim, e um pouco para a posteridade, se podér ser. _Res

non relicta sed parta._ Quero teimar até ao cabo n’esta minha humilde

ambição já de muitos annos.

* * * * *

Se vos não enfada ouvir louvores do vosso viver, do unico viver a que

tenho inveja, vou dizer-vos o que eu na minha terra, que bem grande

é, bem formosa, e bem cheia de delicias, escrevia ha tres annos, com

toda a sinceridade do meu coração, como agora e como sempre. Escutae,

escutae:[9]

Felicidade pela Agricultura (Vol. II) · 第 5 / 8 段