a _Biblia_, de Pereira;

as _Meditações, ou discursos religiosos_, de Rodrigues de Bastos;

a _Imitação de Christo_;

a _Moral em acção_;

o _Bom homem Ricardo_;

_Simão de Nantua_;

a _Historia de Portugal_;

a _Recreação philosophica_;

o _Guia e manual do cultivador_;

o _Diccionario de Agricultura_, de Soares Franco;

a _Hygiene_, de Mello Franco;

a _Collecção de receitas_, de Lucio;

a _Revista Universal Lisbonense_;

o _Agricultor Michaelense_;

o _Industriador_;

o _Panorama_;

o _Archivo popular_;

o _Recreio das familias_;

o _Universo pittoresco_;

o _Robinson Crusoe_, etc.

D’estas obras, algumas são inteiramente traducções; outras, traducções

em parte; mas essa consideração só por si pouco faz para o nosso

caso. ¡Oxalá que muitos outros originaes estrangeiros, dos que merecem

ser vulgarisados, se fossem para cá trasladando! Eis aqui dois, bem

credores de preferencias, dois, cada um dos quaes pela utilidade vale

uma bibliotheca: o _Robinson Suisso_, e os _Colloquios aldeãos_, de

Timon.[4]

[4] =Entretiens de village=--_par Timon_. (Vicomte de Cormenin). A

leitura d’esta obra, de que eu não conhecia mais que o titulo, sobre

modo me lisonjeou o amor proprio. Muitos dos meus pensamentos e

desejos n’esta serie de artigos, haviam coincidido, e concordam, com

os d’aquelle excellente philosopho. Não falando no talento, em que

elle me leva notoriamente a palma, no seu livro me vejo como em um

espelho. Elle obteve a amisade dos homens de bem, e alguma gratidão dos

infelizes; por que não hei-de eu esperar tambem uma e outra coisa?

CASTILHO

O primeiro é um formoso estudo da Natureza, entresachado com um

mellifluo curso de Moral; paginas, que todas resplandecem e palpitam,

que todas nos amam, e que todas amamos.

O segundo é a alma de um homem humano, que, apoz muito ver, muito

meditar, muito enganar-se, e muito desenganar-se sobre a _politica_

e os _estadistas_, vai procurar a felicidade do Povo onde só a pode

haver: no querer e bom juizo do mesmo Povo, na morigeração, na

diligencia, na economia, na fraternidade, na religiosidade.

Os _Colloquios aldeãos_ (dae-me as alviçaras da nova), brevemente

os havereis em linguagem chan, sincera, e vernácula, como convem,

e é essencial condição em todo o escrito que aspira á honra de ser

ouvido, lido, manuseado, aprendido, assimilado, e a final vivído, pela

Plebe, pelo Povo, pela Classe média, pela superior, pela Nação, pela

Posteridade, pelo Mundo.

O _Robinson Suisso_, já d’aqui me obrigára eu a que tambem o

houvesseis, e tambem em linguagem vernácula e muito vossa, se a fortuna

de quem escreve com a alma deitasse a tanto como lhe chegam os bons

desejos. Porque olhae vós: amigos do bem publico não faltam entre os

homens que se consagram ao estudo; mas são aguias, a quem a fortuna,

parece que por escárneo, se diverte a depennar as azas, ao mesmo passo

que, por escárneo tambem, as vai atar, mui brilhantes e espaçosas, em

quem não sabe, nem quer, senão dormir.

¡Grande desconcerto! ¡misero e miserrimo desconcerto, o que tão boas

e optimas coisas dessemeia, ou calca no embrião, ou afoga á nascença,

ou ao desabrochar ou ao florir as torce, as quebra, as arrebata, as

confunde, as perde, as aniquila!

* * * * *

Oh! Quando um pouco n’este desconcerto do nosso estado presente se

repara; quando tão claramente se reconhece a perda que ahi vai para

o genero humano na anti-providencial discordia dos diversos meios de

acção, isto é das riquezas da alma, das riquezas da diligencia, e das

riquezas da bolsa, ¡que tentações não veem a um coração generoso de

venerar e abraçar (a despeito de todas suas difficuldades) a sublime

theoria da numerosa e crescente escola de Fourier!

Calumniado nas intenções pelos que nunca o estudaram, o systema da

universal harmonia, o systema mais profundamente respeitador das

propriedades, a ser exequivel (segredo, que por ora só pertence ao

Altissimo), é o mais prenhe de immensos e prosperrimos destinos; o

unico, efficaz para regenerar a terra, precavendo e impossibilitando

revoluções; o unico, poderoso para realisar superabundante e

illimitadamente as promessas charlatans e sempre fallidas dos

politicos; o unico, por onde a ideia da PROVIDENCIA se ha-de tornar

comprehensivel a todos os entendimentos; o unico, emfim, digno do

Homem, digno da Natureza, e digno de Deus, que a elle o fez para ella,

como Elle é para ambos e para tudo...

* * * * *

...¡Oh! ¡por onde me ia eu agora! ¡quão longe do casal e do serão! ¡por

esse Universo e seculos fóra!

¿E a proposito de quê?

De bem pouco: de mim, que tenho alma e vontade energica, e alguns meios

internos para ser util; que forcejo pelo ser, e, por falta de concurso

de meios externos, me gasto, abrazo, e consumo, como moinho sem grão a

trabalhar sobre si mesmo.

¿Hei-de acabar, hei-de morrer, como outros muitos, sem haver podido

deixar rasto de bem para os meus semelhantes?! eu com faculdades, eu

com vocação, eu com valor, eu com empenho, eu com diligencias, eu com

a minha missão bem sentida, bem acceita, e bem jurada, e, até onde

pude, bem cumprida, de amar aos homens, de collaborar com os obreiros

desinteressados, de pospôr mais que o meu individuo, os individuos

do meu sangue, ao proveito abstracto e hypothetico, mas fascinador e

grandioso, do maior numero, e do porvir?!....

O que havia aqui dentro, e se mallogrou, só Deus o sabe; eu mesmo não

o alcanço. O meu destino, como o destino de muitos de vós, como o

da maior parte dos homens no actual cahos (alcunhado por antiphrase

_estado social_), brevemente será reduzido a cinzas, sem ninguem o ter

lido. A Providencia m’o escrevêra do seu punho; a fortuna terrestre com

a sua mão sacrilega m’o fechou com sete sellos. Todo o meu trabalhar

apenas dos sete rompeu um; espreitei para dentro; deletreei algumas

palavras soltas; eram nobres.

Amanhan será tudo pó. Depois de amanhan... nem o pó já lembrará.

¡Ó meus irmãos da _Utopia harmonica_, almas generosas e consoladoras,

derramae-me, vós ao menos, sobre as chagas do coração o suave balsamo

da esperança! Feneça eu embora mallogrado e perdido; mas fazei-me

crer, na minha ultima hora, que para os meus descendentes ha-de já ter

nascido redempção; que o labyrinto, onde os mais nobres Athenienses

eram devorados, vai desabar; que eu, e vós, e os contemporaneos, somos

as derradeiras victimas do Minotauro.

¡Outra vez fóra do serão! ¡outra vez fóra do casal! Desculpae-me; agora

volto; e ainda que a rasão me chame lá fora, não torno a sahir, que

tambem cá dentro a temos, e muito forte, e muito formosa, no grandioso

assumptosinho que vinhamos tratando.

* * * * *

Queriam-se pois para as nossas leituras ou lições populares, além das

obras já indicadas outras, e muitas, de Religião, de Moral, de Hygiene,

de Medicina caseira, de Agricultura, de Veterinaria, de Physica, de

Chymica, de Zoologia, de Botanica, de Mineralogia, de Economia, de

Direito publico, de Direito civil, de Direito criminal, de Historia,

etc.; opusculos curtos, em linguagem pura (estragal-a, como por ahi a

estragam, para populares e meninos é um crime), e finalmente baratos e

quasi dados.

¿Parece-vos isto difficultosissimo? pois não é.

Homens de saber e engenho para escreverem taes opusculos, não faltam; o

que só falta, é a Lei nova, e novos costumes, que lhes afiancem o não

perderem, nem o tempo que houverem gasto no estudar e escrever, nem as

despezas que houverem feito no imprimir. O costume virá do tempo, da

rasão, e da mesma Lei; a Lei muito facilmente poderá vir do vosso e

nosso Parlamento. Adopte e sanccione elle o alvitre que ha seis annos

publicavamos[5]: ponha tributo de sello ao papel em que se imprimem

deploraveis e estragadoras traducções de excusadas e abominaveis

novellas francezas, e com o tributo d’esse imposto, mais racional que o

do sello nos papeis forenses, faça premios aos escritos illustradores e

sociaes. Será queimar ou enterrar as hervas más para adubio de plantas

uteis, que é fazer n’um só lanço dois beneficios.

[5] _Revista Universal Lisbonense_--Tomo II, n.º 37--1.º de Junho de

1843--artigo 1741.

D’esta sorte os autores, seguros da perda, perfarão o que hoje nem

ousariam commetter. Pagas de antemão as suas despezas, poderão dar

os seus livrinhos por vil preço. A barateza, junta á utilidade, os

fará copiosamente vender e reimprimir, com proveito sempre crescente

d’elles, com proveito sempre crescente de todo o Publico.

Em quanto, porém, essa edade aurea das Lettras, Artes, e Sciencias,

nos não chega, os nossos bons leitores publicos que se remedeiem, com

o que acharem de melhor para o intento; e mesmo, se a experiencia lhes

mostrar ser conveniente, que misturem com aquellas obras de que fizemos

rol, e semelhantes, outras de menos substancia e maior agrado, como os

dramas e os romances moraes. Este arbitrio para os primeiros tempos, e

para fazer pegar o costume, seria por ventura o mais plausivel.

* * * * *

¡Que serões! ¡que serões vos não esperam já este inverno! ¡Que

deliciosas tardes de domingos e dias santos! ¡quantas coisas

prestadias, e para vós novissimas, não tereis já na memoria, no

espirito, e no coração, em volvendo a primavera! ¡quantos gastos de

dinheiro, de saude, e de paz interior, não haverão forrado muitos

d’entre vós, que, a não ser o chamariz da leitura, teriam ido da venda

para o arruido, ou para o roubo, de lá para o hospital, para a cadeia,

ou para o cemiterio!

Pedi, supplicae ao vosso Parocho, ao vosso Administrador do Concelho,

a quem mais vosso amigo, e a quem mais homem vos parecer, que ajudem e

promovam taes institutos em favor da Religião e da Caridade, em favor

da Policia e da Ordem publica, em favor das Familias, e da Patria.

¡Um leitor em cada aldeia, se é possivel! ¡Um leitor, e mais de um em

cada villa! ¡Muitos leitores, muitissimos, innumeraveis, em cada cidade!

* * * * *

¿Será ainda este mais um grito em deserto sem eccos?

Outubro de 1849.

XVI

Decimo serão do casal

Abolição do Exercito

SUMMARIO

Outros procuram a felicidade, onde a não ha; nós pedimol-a á

Agricultura.--O que um Ministerio da Agricultura fará para beneficiar

os lavradores.--O Exercito é mal para os individuos, para as familias,

para a Patria, para a Humanidade.--O Exercito ou é para conquista, ou

para defensa, ou para tranquilidade.--Portugal não pode conquistar;

não tem de quem se defenda; tendo, haveria outros recursos; e a paz

interior mais se lhe tem com as tropas perturbado, que mantido.--Uma

sentença de Felice contra havermos Exercito.--Quanto o Exercito

nos custa, no orçamento, e fora d’elle.--Lucros cessantes que

motiva.--Retrato do camponez antes de soldado.--O mesmo em soldado.--O

mesmo depois da baixa.--Celibato militar.--Pede-se a suppressão do

Exercito.--Poucas palavras sobre o como se pode a milicia extinguir

sem inconveniencia nem perigo algum.--Nova organisação da força

publica.--Guarda nacional.--Lei agraria, com vantagem para o publico e

para muitos particulares, e sem lesão para nenhum d’elles.--Acenam-se

alguns pontos para uma Lei de organisação de propriedade

territorial.--Adoptando-se estes conselhos, as instituições liberaes e

o Throno se firmariam.

Continuamos na nossa teima de procurar felicidade.

Se é loucura, é loucura nobre, e todos os espiritos mais bem

nascidos de cada seculo a teem padecido. Uns a fizeram consistir na

renunciação de todos os bens terrestres pelo amor do Ceo. Outros, na

impassibilidade estoica. Outros, no _elixir de longa vida_. Outros,

no Quietismo. Outros, na maxima diffusão das luzes. Os economistas,

na maxima producção material, com absoluta abstracção de moralidade.

Os politicos, na composição de formas governativas. Nós, em relação

ao nosso Portugal, fazemos consistir a felicidade na Agricultura,

pois debaixo d’esta palavra comprehendemos, como effeitos na causa, a

abundancia, os bons costumes, a paz, a satisfação, e a estabilidade.

Dos economistas não esperamos nada; o materialismo foi sempre estéril.

Dos financeiros ainda menos; todos os algarismos do mundo não são

capazes de crear um átomo; por elles ainda não vieram senão tributos

ao Povo, e meia duzia de _alampadas maravilhosas_ para os Aladinos do

calculo. E, finalmente, dos politicos tambem não, porque, trabalhando

ha tantos annos na procura da promettida _pedra philosophal_, tendo

mettido para os seus cadínhos tantas preciosidades, e accendido tanto

fogo e tantos fogos, queimado tanto (até do futuro), ainda não fizeram

sahir do seu estrondoso laboratorio senão fumo.

¡Se elles, ao menos, tivessem conseguido imitar o alchimista, que

deixou na galeria do Gran-Duque da Toscana o prego meio ferro e

meio oiro, para admiração de crédulos, e desappareceu!... Mas pelo

contrario: a sua sciencia occulta, se alguma coisa tem logrado é

transformar o oiro em ferro; o que não impede que, semelhantes aos

Albertos Magnos e Cagliostros, appellidem tambem a sua obra «A grande

obra».

Não, meus lavradores; os unicos alchimistas sociaes, em quem se ha-de

pôr a verdadeira esperança de _pedra philosophal_, que faça ao menos

prata, e de _elixir_, que, se não prolongar a vida, pelo menos nol-a

torne supportavel, sois vós, com o vosso natural bom-senso; sois vós,

creando-nos um Parlamento da terra; é esse Parlamento, creando-nos Leis

de verdadeira economia, e um Governo agricola; é esse Governo, vosso

neto, e para logo vosso protector, illustrando-vos, moralisando-vos,

incitando-vos ao trabalho, nobilitando-vos na vossa mesma estimação,

facilitando-vos transito por todo o vosso territorio, promovendo

companhias a quem vendais os generos com segurança, e de quem recebais

adiantado para os amanhos, descobrindo e ensinando-vos, por uma

continua investigação dos portos e mercados de todo o mundo, quaes as

culturas velhas que deveis largar, quaes diminuir, quaes acrescentar,

quaes aperfeiçoar, quaes experimentar, quaes introduzir com affoiteza;

que para isso traga embaixadores muito escolhidos, mui zelosos, mui

portuguezes, e mui vossos, por todas as partes do mundo; que em summa

comprehenda e creia firmemente, que tudo aquillo que a terra nos não

der, a poder de sciencia, de arte, e de trabalho, nada seria já capaz

de nol-o dar.

Para esse Governo, para esse Parlamento, e para vós, continuemos pois a

discursar sobre o que está para fazer.

* * * * *

Falemos hoje do Exercito, com licença dos vossos lares e das vossas

arvores, que sempre em ouvindo tal palavra se estremecem e horrorisam.

Um serão para tal assumpto carecia de ser mui largo; noite de S. João

levada de vela lhe não bastára. Emfim: apontemos; o vosso recto juizo

desenvolverá depois.

Cerrae a porta, que ha ahi alguns visinhos de andares altos, que já

murmuram sermos nós ruins gastadores de tempo. Assentae-vos com animo

despreoccupado; e, se vos parecer, ide apontando ahi com carvão, por

essa parede da vossa conversavel cosinha, as principaes rasões da

pratica, a fim de se vos não desluzirem da memoria, para quando fôr

tempo.

* * * * *

¿Que é um Exercito?

É um mal, complexo de males sem numero, e que só por uma necessidade

absoluta se póde tolerar.

O soldado é ora um escravo, ora uma victima; a familia do soldado

uma orphan, esbulhada de parte do seu haver mais sagrado. A Patria

não tem carga mais onerosa, nem a Humanidade coisa que tanto a vexe

e lhe repugne. Todas as considerações sociaes, economicas, moraes,

religiosas, scientificas, litterarias, e artisticas, todas sem excepção

veem jurar contestes no processo contra o Exercito.

¿Para que tem logo havido em todos os tempos exercitos? ¿e para que os

ha ainda hoje em tantas partes?

Umas vezes, para a conquista; outras, para defensa contra invasores;

outras, para tranquilidade interna.

No primeiro caso, é o Exercito uma arma em mão de salteador. A Historia

chama-lhe um brasão. Portugal, como todas as nações heroicas, o teve, e

com elle se engrandeceu.

No segundo caso, é um escudo, que está afrontando e esmagando ao

proprio corpo que defende. Do mal, o mal: das armadas invasoras

procederam fatalmente as armadas defensivas.

No terceiro caso, é um remedio violento e dispendiosissimo, para

doença que em parte se devia prevenir pela hygiene, ou, chegando-se a

declarar, acudir-se com menos ruido e mais efficacia.

¿Podemos nós ser conquistadores?

Não. Logo, se temos Exercito, não é para conquista.

¿Temos que nos defender de extranhos?

Não. Rasões de mais alta e geral politica são as que per si nos

defendem, e hão-de defender; e, quando ellas cessassem, ou fossem

vencidas, não haviam de ser estas nossas fileiras que nos salvassem,

mas sim o Povo todo: os fortes, e os fracos, os decrépitos, as

creanças, as mulheres. As nossas armas seriam o ferro, os troncos, o

fogo, as pedras; o nosso soldo, a vista das casas que defendemos; as

nossas bandeiras, os campanarios das nossas freguesias; os Evangelhos

do nosso assentar praça, as lembranças das nossas victorias sobre

Romanos, sobre Arabes, sobre Castelhanos, sobre Francezes. Povo que se

defende na terra em que nasceu, é leão e leôa no seu bosque diante do

covil dos filhos. O Ceo, com a santidade da nossa causa nos protegeria;

e, se nos fosse indispensavel auxilio humano, elle no-lo depararia no

braço de alguma Nação, que defendesse nos nossos os seus interesses.

Logo, não é tambem como escudo, que mantemos um Exercito.

¿Será portanto para obviar a tumultos? para cohibir sedições? ¿para

conservar boa ordem e regimento no Estado?

A esta pergunta não precisamos de responder; bem respondida que ella

está n’uma pagina de cincoenta leguas de largo e cem de alto, que ha

cincoenta annos temos cem vezes escripto, respançado, e tornado a

escrever com sangue de irmãos. Logo, se com um Exercito nos consumimos,

não é para bem da paz domestica.

* * * * *

«Os pequenos Principes--diz Felice--querendo arremedar os grandes

potentados, teem exercitos, que para brinquedo são de mais, e para

deveras de pouco servem.»

A segunda parte d’esta sentença bem provada e contraprovada nos está

por factos; e a primeira é verdade não menos manifesta.

Perguntae aos orçamentos (e ainda esses não sabem, ou não dizem

tudo): ¿emquanto nos importa o Exercito? ¿os soldos e comedorias da

soldadesca e dos estados maiores? ¿os uniformes, os armamentos, o

calçado, a remonta e sustento da cavallaria, as fabricas de polvora e

balas, os arsenaes, os quarteis, as obras de fortificação, as marchas e

conducções de bagagens, os transportes por mar, os roubos e extravios

do material, as secretarias, os commissariados, as inspecções, os

tribunaes militares, as boticas, os medicos, os cirurgiões, os

enfermeiros, os moços, os invalidos, as musicas, etc.?

Os orçamentos do Ministerio da Guerra d’estes ultimos nove annos dão,

termo medio, uma despeza annual de 2:758:580$410 reis.

Se porém considerarmos que a Marinha é, por sua natureza, parte e

complemento da Guerra, e nos tem custado, tambem termo medio no mesmo

periodo 944:475$851 reis, teremos annualmente uma despeza de reis

3:703:056$261.

Pelo exame dos respectivos orçamentos, todas as restantes despezas

do Estado, termo medio, não teem subido no mesmo periodo de reis

6:560:419$590.

Coisa espantosa! Mais de um terço dos haveres publicos devorado pela

Guerra, que ou é um nome vão, ou, quando tem a sua funesta realidade, é

por esse mesmo desperdicio que nasce e se alimenta!

Despeza ainda mais desgraçada, quando se olha para o desamparo da

Instrucção Primaria, para a falta de estimulos e premios á Agricultura,

á Industria, ás Artes, ás Sciencias.

Despeza inqualificavel, quando se repara em que, á proporção que nós

minguamos, que nos afogamos na divida, vai ella a crescer de mais em

mais.

¡E, como se este infinito fôra ainda pouco, lá baixam de vez em

quando das Secretarias novos padrões de uniformes, como de París veem

figurinos para os toucadores das casquilhas! no que, ao desperdicio

accresce ainda o indecóro, ao indecóro a dureza, pois que essas

vaidosas despezas, dos proprios militares vão sahir; classe que,

empobrecendo-nos a nós, está bem longe da opulencia.

* * * * *

Além d’estas despezas carregadas na massa commum, perguntae ás

terras, por onde, ha meio seculo, nos andam, quasi de continuo,

transitando corpos, ¡quanto lhes não tem custado a ellas o Exercito

em aboletamentos, em hospedagens, em dilapidações, descaminhos, e

estragos, em seáras taladas e comidas pelos cavallos, em oliveiras,

séves e alfaias campestres queimadas, gados comidos, bestas e carros

apenados, trabalhos ruraes retardados ou supprimidos, etc., não falando

já em damnos de outra natureza, muito maiores e mais irreparaveis!

Esmae tudo isto a monte. ¡Arripiam-se as carnes!...

E todavia, ainda ha mais: a todos estes damnos immergentes, ¡que de

lucros cessantes não accrescem, com a existencia de um Exercito, aos

particulares e ao Publico! ¡quantos braços arrancados á lavoira, aos

mistéres, e ás artes! ¡que desfalque no total da producção! ¡que

augmento no salario dos jornaleiros! ¡em milhares de casaes que mingua

de pão, por ausencia de quem o ganhe!

* * * * *

Viremos agora a questão por outro lado.

Chega o recrutamento.

¡Lá vai o coração de uma pobre familia arrancado! Lá entra pela

primeira vez, e prezo como um criminoso, na cidade, a quem elle queria

servir de longe com a enxada na mão, um mocinho, innocente, cheirando

á terra, ao feno, e á flor do matto; simples e viçoso como ella,

temente a Deus, amante de seus paes, de suas irmans, de seus irmãos,

bemquisto dos visinhos, laborioso como abelha, sentindo e expirando de

si a poesia da Natureza, como o passarito do silvado em flor por uma

antemanhan de Maio.

Approvado pelos medicos n’um exame, onde o fizeram corar pela

primeira vez, passa de repente da liberdade para a escravidão; da

luz e fragrancias do seu campo, para a escuridade fétida de um

quartel; d’entre rostos benévolos, para entre semblantes carrancudos;

do rebanho que pastorava, para a escola e chibata do instructor,

para as conversações grosseiras, mortiças e fumosas da tarimba. Com

violenta mão lhe limam á pressa todo o cunho da sua individualidade:

rentearam-lhe o cabello, como a todos os seus camaradas; vestiram-n-o e

calçaram-n-o como todos elles; constrangeram-n-o a tomar a mesma figura

e movimentos, a dar os mesmos passos contados, a comer á mesma hora, e

do mesmo pão, a dormir e a acordar á voz metallica da mesma trombeta.

¡Individualidade!? ¿elle? até o nome lhe tiraram; é um _numero_; e

esse numero nem mesmo designa um ente sobre si. As suas armas, o seu

fardamento, e elle, são tres elementos inseparaveis, cuja somma é _o

soldado_. Se a bayoneta soubesse ouvir e obedecer, e a espingarda

atirar, não as teriam complicado com aquelle appenso vivo, que é para

ellas o que é a carreta para o canhão, ou os cavallos para a carreta.[6]

[6] N’um volume de romances moraes, que o meu amigo o snr. Luiz Filippe

Leite está para dar á estampa, com o titulo de _Supposições que podem

ser realidades_, ha uma pintura das miserias da vida militar. O autor

copiou o seu soldado do natural, o seu desenho é bello, as suas côres

verdadeiras. É um soldado esse, que serve de efficaz auxiliar á nossa

doutrina.

CASTILHO.

* * * * *

O mais rigoroso de todos os codigos das Nações, e o mais altamente

offensivo da dignidade humana, é aquelle que o soldado, com a mão sobre

os Evangelhos, jura cumprir. E o peor é que essa antinomia a todas as

ideias de Liberdade, é uma fatal condição, e inseparavel, da existencia

de exercitos.

--«¡Ao menos, é uma vida gloriosa a das armas!»--dizem.

¿Mas não será esse dizer uma arteira seducção armada ao espirito,

assim como a purpura das bandas, o accezo dos pennachos, as côres vivas

das golas e canhões, o oiro das dragonas e das chapas, o lustroso das

correias e dos ferros, são outra calculada seducção para os olhos, e

outra as estrondosas musicas para os ouvidos?

Nos sacrificios dos pagãos enfloravam-se as victimas. ¿Por que razão

Marte não enfeitaria tambem as suas?

«¿Gloriosa vida a do soldado?!...» A consciencia d’elle que o diga.

Felicidade pela Agricultura (Vol. II) · 第 4 / 8 段