Eu já agora, meus amigos, n’isto hei-de perseverar, requerendo para

Ella luz e mais luz, campo e mais campo, trabalho e mais trabalho, até

que os obscurantes, obedecendo tambem á sua natureza, e cumprido tambem

o seu fadario, me hajam acabado, não com o bom proposito, que o não

podem, mas com a vida.

* * * * *

¡Se vós bem soubesseis, meus irmãos do casal, o que elles teem urdido,

e urdem, e tramam contra o pobre de mim, que nunca lhes fiz mal, nem

a ninguem, só por terem visto que, em vez de acudir ao chamamento dos

seus _muezzins_, e ir ás suas mesquitas psalmear o seu _alcorão_, só

curo da instrucção elementar do Povo!...

¡Se bem soubesseis a feridade e impudor com que me atassalham o

nome, e me cospem na sombra, só porque me desarrisquei de bandos

politicos! ¡a risivel ociosidade, com que discutem e decretam em seus

conventiculos, ora que me envenenem, ora que me prendam e multem, ora

que me deshonrem, ora que me dessoceguem e me defraudem do tempo, só

porque esse tempo eu o consumo, com parte do meu escaço haver, em

fazer que se ensinem as primeiras lettras aos vossos filhos, e aos dos

artifices desvalidos!

¡Se adivinhasseis os embustes indignos, as suggestões aleivosas, as

ameaças e espancamentos brutaes, com que d’estas fontes de doutrina

teem procurado arredal-os!

Não sei qual admirarieis mais: se a sua maldade e demencia, se o meu

soffrimento e perseverança.

Mas, por descargo de consciencia, sempre vos digo, que os admireis

antes a elles do que a mim, que já acabei de ser para elles tão

generoso como pareço. Não lhes digo o que a lima do ferreiro disse á

vibora que a esmordaçava... mas condemno-os a viver.

D’aqui avante, zunam e piquem quanto quizerem; de tudo faço registo

para um archivo, que a elles lhes está defezo pela Natureza: para a

Posteridade.

Fundo em bronze todos estes seus feitos magnanimos. Esculpo em ferro

os seus retratos, semelhantissimos de asquerosidade, sublimes de

hediondez. Por baixo gravo-lhes os nomes; gravo-os fundo e com todas as

lettras; e todos estes aleijões de museu, não tanto por vingança, como

para escarmento a outros temerarios, hão-de ser em um livro carreados

para o porvir. ¿E que duvida? ¿Não é assim que o mundo conhece, ainda

hoje, dementes e facinorosos de dois mil annos?

Já os tinha avisado. Quizeram-n-o, tel-o-hão. O ferro e o bronze da

minha fundição não se acabaram, nem se acabam tão depressa.

* * * * *

Perdoae-me, boa gente. Descabidas coisas são estas para a amorosissima

serenidade do vosso casal; e bem alheias são ellas tambem da minha

indole, só propendente para bem querer e muita paz.

Venhâmos pois ao que mais nos importa: ao nosso grande ponto das

escolas, que são as eiras em que primeiro se prepara o pão da alma.

* * * * *

A alma tambem, como o corpo, morre á mingua de alimento. Se aquella

ruim gente, que detesta e persegue as nossas humanas diligencias,

tivesse aprendido, e soubesse, já pode ser que não empregasse tão

desalmada e torpemente a sua actividade.

Para que os filhos e netos não venham a ter ás Lettras egual odio,

antes por ellas cada vez se pulam e amaciem mais, e se façam mais

poderosos, mais ricos, e melhores, é que devemos forcejar para que se

multipliquem, por campos e cidades, estes sacerdotes e curas de almas

infantis, a que dão o humilde mas bello nome de MESTRES DE PRIMEIRAS

LETTRAS.

Das Côrtes e do Governo, tarde nos virá o remedio, que dizem e repetem

não lhes sobrar dinheiro para escolas; e é verdade; só o Exercito

devora quasi metade do Erario. Vejamos logo, se, em tamanha mingua e

desamparo, nos não podemos ir, como quer que seja, remindo por nós

mesmos; bem, completa, e devidamente, não o cuido; mas até certo ponto,

emquanto a Providencia não acode, parece-me que sim. Ora vêde:

* * * * *

Em toda a parte ha sempre, por entre o cardume dos rusticos e

ignorantes, alguns individuos mais mimosos da fortuna, que aprenderam

alguma coisa, que vivem com certa abastança, e a quem sobram horas para

aborrimento ou desmanchos, se as não poserem a juro para a consciencia

e para o Ceo. Ha o Parocho; ha o Cura; ha o Doutor, ou Licenciado;

ha o proprietario, que traz arrendados os bens; ha o negociante, que

chegou á sua conta, e para descançar fechou as portas á fortuna; ha o

laborioso, que andou moirejando barras de oiro por terras extranhas, e

quiz vir morrer descançado no quarto em que nasceu, e comer as couves

creadas deante da sua porta, como em menino; ha o militar aposentado,

que não sabe o que faça do anno; ha o professor emérito, a quem ainda

ás vezes o ensino lembra com saudade; ha o estudante que veio a

ferias, e que está n’aquella edade feliz, em que a alma gravíta com

tanta força para a publica estima, como o coração para o amor; ha o

velho, que não pode sahir, mas conserva os olhos e ouvidos, a memoria

e a voz, e folgaria de ter com que encurtar os dias, tão solitarios

e tão longos; ha o Magistrado homem de bem, e o Escrivão honesto, a

quem seus officios deixam remanescentes de muito boas e aproveitaveis

tardes; ha o Ecclesiastico sem beneficio mas não sem entranhas; ha o

ancião Egresso, que perdoou tudo, e, se o não esqueceu é porque deseja

bemfazer ao mundo, que o desterrou do ermo para o povoado, continuando

e augmentando no mesmo povoado as obras de sua caridade.

¿Ora, por que não haveis vós, os mais velhos e respeitaveis de cada

aldeia ou logar em que não ha escola, por que não haveis de ir ter

com algum d’estes homens, acompanhados de vossas mulheres e de vossos

filhinhos, e supplicar-lhe, pelo amor do Pae Commum, e da sua alma, e

de vós, e da Patria, e da Humanidade, abra um ensino de ler, escrever,

e contar, nos dias de semana para os pequeninos que ainda não trabalham

na terra, aos domingos e aos serões para os grandes já callejados, e

para vós mesmos?

Se o primeiro se vos excusasse, o segundo vos deferiria. Se o segundo

vos repellisse, o terceiro, com mais lagrimas nos olhos do que vós

mesmos, vos despacharia e agradeceria a supplica.

Depois, era ir de porta em porta, pedindo ás senhoras habilitadas para

tão nobre encargo, egual mercê para vossas filhas e esposas, porque

(segundo já ponderámos) na instrucção das mulheres se contém a dos

homens para o futuro; e logo que as mães souberem ler, não haja medo

de que os filhos o ignorem. Para uma Religiosa no seu convento, ¡que

gentil e religiosissima occupação, obtida do Prelado a licença para ali

se abrirem as portas a uma escola feminil!

* * * * *

¡Oh! ¡quem me dera poder estar meia hora, ou um quarto de hora

(bastava), ao pé de cada uma d’aquellas senhoras, e de cada um

d’aquelles homens, antes que vós entrasseis com o vosso requerimento!

Não lhes diria o que a Religião lhes insinuára; não lhes invocaria

o patriotismo; não lhes encarecêra mesmo a grandeza de tão facil

beneficio, nem a vossa gratidão, nem os respeitos que semeavam na

geração nova, nem o thesoiro de consolações que atulhavam para o ultimo

praso da vida, em que tudo que se ajuntou se deixa, e só o que se deu

se leva para a grande viagem.

Pedir-lhes-hia só, que experimentassem a delicia do ensinar, sobre tudo

de um ensinar desinteressado, como de pae e mãe a filhos e filhas; ¡o

como, n’aquelle trato intimo com a puericia, permitte Deus ás nossas

almas rejuvenescer e florir!

Na innocencia, na alegria, na lealdade, no affecto perenne, que

está ressumbrando em todos aquelles rostinhos, sempre ávidos de

saber, sempre distrahidos, sempre buliçosos, veem-nos umas virações

de passada bemaventurança, que já foi nossa, e parece prophetisar

ainda o que quer que seja. Deliciâmo-nos, como o viandante cuidoso e

cabisbaixo, com o cheiro longinquo de rosas vindo de um jardim que se

não vê. ¡Horas, horas de éxtase, que por todos os bailes, honras, e

thesoiros, seriam bem mercadas!

Oh! cultivae, cultivae esses espiritos e corações tão esperançosos.

Toda a cultura é saudavel e rescendente; mas nenhuma como essa.

Todos os entes alados, em quanto estão, com amorosa febre, aquecendo

sob o peito e entre as asas os pequeninos da sua especie, mantendo-os a

grãosinho e grãosinho, a verme e verme, e ensinando-lhes a adejar, são,

de quantos grupos de felicidade a Natureza encerra, os mais formosos.

¡Oh! o nosso espirito é tambem uma coisa alada como os Anjos.

Uma escola, em que os profanos não vêem senão tédio, não ouvem senão

sussurro, é aos olhos de todo o bom entendimento um ninho, cem vezes

mais carinhoso e interessante que o dos passaros entre as sombras

verdejantes da primavera.

* * * * *

Ha ainda, meus bons amigos, outras pessoas, a quem podeis recorrer

(¿Vêdes vós? a Providencia é liberalissima): são os ricos.

¿Que muito é para esses, com um átomo supérfluo do seu oiro pagarem um

mestre para os desvalidos?

--«¡Mas podiam-n-o ter feito, e nunca o fizeram»--direis vós.

É verdade; porém todas as coisas principiam uma vez. Não reflectiram

ainda na facilidade e excellencias de tal obra. Não teria ainda chegado

a sua hora de acordar; porque lá dizer que o oiro mirra o coração, que

não ha poderosos bemfazejos, é calumniar ao mesmo tempo ao homem, e ao

seu Autor.[3]

¡Que relvado florído, entre sombras inspirativas, não é este assumpto

de conversação, para n’elle a vontade se espairecer! É forçado

deixarmol-o por agora.

Voltae vós a elle com os vossos sonhos d’esta noite, com os vossos

pensamentos de amanhan todo o dia. Cuidae-me e pesae-me bem isto toda a

semana; e domingo, depois da Missa, na sacristia mesmo, quando o vosso

Parocho se houver acabado de desvestir, puchae com elle a pratica a

este proposito; consultae-o, ouvi-o, e fazei-o no negocio procurador

vosso, que não o podeis ser mais proprio e natural.

[3] ¡Que bom exemplo não é para citar aos ricos o de Plinio o moço,

pagão, romano, e dezoito seculos mais antigo que nós! Pedir-lhes-hia

que lessem a XIII do Livro IV das suas Cartas, escrita a Cornelio

Tacito; talvez se tentasse algum d’elles.

Se vos parecer, apontae-lhe, mas que seja por longe, aquelles dois

apostólicos varões, Prior e Cura da villa do Nordeste, aqui, na vossa

mesma Ilha, que, sobre olharem por todas as necessidades moraes e

corporaes do seu rebanho, até a estas do ensino acodem com escolas,

diurnas e nocturnas, em que são professores elles mesmos.

* * * * *

A unica difficuldade, em que tudo isto de escolas podia encalhar,

logrei eu, eu obscuro homemzinho, mas muito vosso amigo, a ventura de a

aplanar completamente.

A difficuldade, que até agora se tem opposto a haver muitas escolas,

e em cada uma d’ellas a safra do fruto desejavel, era o ronceiro, o

moroso, o semsabor, o imperfeito, do ensino. Com o Methodo de ensino

que eu introduzi, em poucos mezes de recreativo exercicio se chega

muito adiante do que até aqui em annos largos se conseguia; com o que,

já vêdes se desvaneceram as maiores e peores objecções, que ao nosso

empenho se podiam pôr.

¡Animo pois, e avante! Teimemos, como vos dizia, nós outros, os amigos

dos homens, no nosso bom fadario; e deixar os outros obstinar-se lá no

seu.

¿Sabeis uma coisa? Parece-me que esses homens, com o seu odio ás

luzes, concorrem a final, tanto como nós com o nosso amor, para se

ellas diffundirem. ¿Porquê? porque as suas perseguições nos servem de

estimulo; as suas picadas nos amadurecem, como as de certos insectos,

que a Providencia fez, muito de industria, para o sazoamento de certos

frutos.

* * * * *

Tomae sentido n’isto:

Se achardes, que espero em Deus haveis de achar, quem se promptifique a

vos crear uma escola, seja quem fôr, dizei-lhe que eu, o vosso amigo,

me dou por obrigado a industrial-o em só uma ou duas lições, para

ensinar a ler como por encanto.

Se duvidar, pedi-lhe que venha. Verá provas, e ficará sendo prova elle

mesmo.

Setembro de 1849.

XV

Nono serão do casal

Leituras publicas

SUMMARIO

Porfia-se na summa precisão que temos de Instrucção primaria.--Bom

exemplo que S. Miguel está dando com as suas escolas.--Ellas

progridem, e hão-de ir a mais.--O que urge agora, é que os ignorantes

conheçam o agrado e préstimo do saber.--Recommendam-se para isto as

leituras publicas.--O _Carlos Magno_ nas roças do Brazil tem feito

que muitos negros aprendam a ler.--O mesmo nas colonias francezas a

novella de _Paulo e Virginia_.--O leitor publico no proprio trabalho

tem a recompensa.--Leituras publicas dos Gregos e Romanos, e suas

vantagens.--Tem-se grande fé em que não faltará quem se offereça a

fazel-as.--Entretanto, o Povo que as sollicite.--Nenhuma estação mais

propria para as publicas leituras, que o inverno.--Aponta-se d’onde os

livros podem vir, e quaes hão-de ser.--Aconselha-se o traduzirem-se

obras estrangeiras e populares.--_Robinson Suisso._--_Colloquios

aldeãos_, por Timon.--Os _Colloquios_ vão sahir em vulgar.--O

_Robinson_, traduzira-o eu, se podesse.--Digressão sobre o

socialismo.--Providencia para haver boas obras populares.

Assumptos ha, que, parecendo mui simplices, nunca de todo se esgotam.

Isso teem de seu as coisas intrinzecamente boas: que a tantos respeitos

e por tantos modos o são, que mais se amam e desejam quanto mais se

investigam, e conhecem.

Tornemo-nos á nossa instrucção primaria, risonha e amorosa alvorada

do dia esplendido e magnifico da civilisação. ¡A ella, com toda a

fé e caridade! ¡com toda a esperança e devoção! ¡com todo o ardor e

fanatismo! ¡A ella desde hoje! ¡e teimar n’ella, em quanto os que

mais o devem e podem não vierem, pelo desempenho do seu officio,

desobrigar-nos d’este nosso!

E nem ainda então havemos nós de descançar; havemos de nos aggregar a

elles como auxiliares livres.

Vasta e difficil é a conquista de que se trata; nem elles sem nós, nem

nós sem elles a perfariamos. Venha de cima o favor; venham por baixo as

diligencias, que sem suor de trabalhadores, e influxos de sol e ares,

não ha colheita que se abençôe.

* * * * *

Por emquanto o que mais urge é, como vos dizia, crear no Povo

cubiças, ou mesmo veleidades, de se instruir (quando mais não seja),

e deparar-lhe, quando não fontes caudaes para essas sêdes, ao menos

alguns caritativos poços, como os dos Arabes nos desertos; quero dizer:

á falta de escolas do Estado, com excellentes mestres e grandes meios,

ensinosinhos particulares e gratuitos.

Esta ideia, que não é minha, nem de ninguem em particular, sim do

seculo, já por ahi vai lavrando; e com tão boas mostras, que, a não vir

saraivada que a destrua, ainda esta Ilha tem de ser apontada e seguida

como exemplar.

¡Que de escolas gratuitas já nascidas e pegadas no seio da Sociedade

dos Amigos das Lettras e Artes! ¡Que de alumnos já aproveitados e

instruidos por cada uma d’ellas! ¡Que de outras já a rebentarem

pelas vossas villas, e até em aldeias! Os factos que d’este genero

me teem vindo ao conhecimento são para grandissima consolação, e

para se registarem com summa ufania. ¡Oh! prometto-vos que ainda

o hei-de fazer. Os nomes d’esses mancebos generosos, e os d’esses

poucos Parochos, que assim acodem ao pregão do seculo, aos gemidos

da necessidade, e aos clamores da sua consciencia, ou eu hei de todo

esquecer, ou hão de ficar lembrando.

Assim, que por esta parte não ha senão que dar muitas graças, e confiar

no contagio santo. As escolas espontaneas brotam, e estão crescendo;

logo, hão-de continuar a crescer e multiplicar; e não só para leitura,

escrita, e contas, mas para outros generos e graus mais subidos de

instrucção. Se o duvidasseis, apontar-vos-hia mesmo para fóra da

Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes: para a dos vossos amigos

especiaes; para a Promotora da Agricultura Michaelense, com os seus

cursos de Historia natural, de Botanica, de Physica, e de Chymica. Ha

tráfego intellectual, ha; e já superior ao que poderia presumir-se;

mas, para que elle dure e se augmente, é que é preciso que os

necessitados de aprender conheçam a miseria e vergonha da sua mingua,

desejem, queiram, e procurem remedial-a.

* * * * *

Hoje em dia, a nossa maior carencia não é já tanto de quem tenha

vontade de ensinar, como de quem se afervore por aprender. Ha

proporcionalmente mais quem dê, ou quem offereça, do que quem peça, ou

quem acceite.

¿E como se hão-de ir abrindo as tantas escolas de que ainda havemos

mistér, se do nada se não forem evocando os rogos e votos dos que as

devem frequentar?

O mestre é um medico; o discipulo, um doente. Em quanto o doente se não

conhece como tal, em quanto não deseja saude, em quanto não implora

soccorro, o medico, ainda que perto more, não apparece para o salvar.

Seja o nosso ponto, primeiro que outro nenhum, accender em vós mesmos e

em vossos filhos o gosto da leitura; d’elle, como o effeito da causa,

virá tudo mais.

As ponderações, que já vos fiz, e vos tenho repetido, sobre as

conveniencias do ler para o aperfeiçoamento moral, industrial, e

agricola, para augmento dos haveres, da saude, dos deleites, e da

convivencia, são muito certas, muito claras, e muito irrefragaveis; mas

receio que não tenham, só per si, efficacia bastante para vos vencer a

natural inercia. Quer-se uma persuasão mais immediata, um argumento,

embora menos forte, porém mais presente, e, como tal, menos resistivel.

N’uma palavra: quer-se que o ler, já pela sua propria formosura, vos

namore, independentemente do que promette e pode dar.

* * * * *

¿Sabeis vós que aquelle popularissimo livro de _Carlos Magno_, apesar

das suas rematadas loucuras, e nenhuma substancia, tem sido o mais

poderoso incentivo de Instrucção Primaria? Pois é assim. Até nos serões

das roças e engenhos de assucar, pelos sertões mais sáfaros do Brazil,

o _Almirante Balão_, os _Doze Pares_, e a _Princeza Floripes_, dando

horas de encantamento a corações simplices e espiritos boçaes, crearam

n’elles a inveja, a sêde, o estudo, e logo a sciencia, o gosto, e o

costume do ler.

O negro que sabe solletrar por aquellas paginas de maravilhas, é

respeitado e festejado por todo o auditorio; centenares de negros e

negras, de todas as edades, lhe pendem dos labios sem respirar, horas

inteiras; se elle cahir doente, cegar, morrer, ou fôr vendido, ¿quem

lhes fará esquecer as penas e trabalhos do dia com taes relações

estendidas pela noite até deshoras?

É por isso, e para que tamanha calamidade se não possa nunca realisar,

que todos ambicionam, e muitos logram, aprender, á custa do repoiso e

do somno, a maravilhosa Arte, por quem as memorias do _Arcebispo de

Turpim_ ainda estão vivas.

O que nas roças do Brazil tem operado o _Carlos Magno_, tem-n-o

egualmente feito, entre os negros das colonias francezas, aquella

prosa-poema, aquelle poema-flor, aquella flor sempre orvalhada de

lagrimas, _Paulo e Virginia_.

* * * * *

Á vista d’estes dois factos, ¿por que não aconselhariamos, se

procurasse introduzir o costume das leituras em commum, semi-publicas,

ou publicas, nas aldeias e villas, e até nas cidades?

¡Que agradavel, que util, que nobre exercicio para o leitor! ¡Que

magisterio tão facil de exercer! ¡Que derramar de beneficios tão sem

custo! ¡Que victorias sem combate! ¡e que triumphos sem odios!

Com esta bella usança, se formaria entre nós essa arte preciosa de

ler, recitar, e declamar; mais conhecida, praticada, e presada pelos

antigos, do que em nossos tempos. Os melhores livros dos Romanos, ¿não

sabemos nós que eram lidos por seus autores, ora em suas salas perante

convidados, ora perante o povo nos theatros? ¿De poetas e oradores

Gregos não alcançamos outro tanto? ¿e não é verosimil que por ahi se

ajudariam as Lettras dobradamente a subirem a tamanha perfeição? á

uma, porque o escriptor, para entrar em duello com o juizo publico, se

armava de ponto em branco, e em cada um d’esses combates aprendia e

se amestrava; e á outra porque das suas coroas de loiro forçosamente

haviam de cahir bagas, que produzissem novos loiros para futuros émulos.

Ainda que outro bem se não seguira de taes leituras, já grandemente

valêra a pena de as crear e as generalisar, se o nome de _pena_ podera

caber ao que é só goso.

Mas o principalissimo proveito de tal praxe é o dos ouvintes. Pessoas

que nunca leram, nem sabem; outras que não teem livros; outras para

quem o mais pequeno volume é um labirynto inextricavel e sem sahida;

outras que na solidão de um aposento silencioso nem com Virgilio

caberiam, e para quem a sociedade é condição impreterivel do agrado;

todos acudiriam á leitura em commum.

Todos lhe applicariam mais attenção, porque a attenção é tambem

contagiosa. Todos comprehenderiam melhor, e gostariam mais a fundo,

porque entendimento e coração, tudo em nós, não sei como, cresce e se

melhora na proporção do numero de cabeças que em derredor trabalham

no mesmo objecto, dos rostos, ouvidos, e olhos, que escutam as mesmas

palavras, dos peitos que identicas paixões comprimem ou dilatam.

D’este modo tudo concorrêra para que o succo, expresso do livro por um

leitor habil, fosse para cada um dos circumstantes o mais agradavel,

o mais copioso, e o mais nutritivo, assim como para que a cubiça da

leitura se pegasse aos que nunca a aprenderam; os que a aprenderam

mal, se industriassem; e os que por perguiça lhe fugiam, chegando a

reconhecer-lhe os feitiços, se lhe entregassem de corpo e alma.

* * * * *

Meus amigos, se no outro serão nós confiavamos em que não faltaria quem

se offerecesse a vos reger escolas, ou pelo menos o acceitasse quando

rogado, ¿como não teremos grande fé em que haverá de sobra quem para

estas leituras se vos offereça? Um pequeno rol dos que poderiam ser, já

vol-o eu apresentei; se vos não acudirem logo, ide-os vós desafiar, e

ide affeitos, que vos não hão-de resistir. Não percais tempo; temos á

porta as descompassadas noites do inverno.

O inverno é, sobre todas, a estação do espirito, do recolhimento, da

casa, da sociabilidade.

No inverno o Sol, esse grande poeta de Deus, interrompe, para

descançar, o seu poema de seis mil annos. A Natureza adormece. Tudo

deserta dos campos: as aves, á busca de primavera; os gados, para a

quentura do aprisco; os bois, para recobrarem força para a lavoira;

os filhos das cidades, para os theatros e assemblêas; vós, para a

abhorrida monotonia da lareira.

¡Um leitor! ¡um leitor! ¡o vosso Cura! ¡o vosso Escrivão! ¡o vosso

Facultativo! ¡um de vós! ¡seja quem for: um amigo, que vos ajunte com

um bom livro n’uma cosinha, n’uma sala, n’uma adega, n’um celleiro

(¿que importa onde?)! ¡que vos leia, vos explique, vos oiça as duvidas,

vol-as desate, ou vos ajude a desatal-as, vos ensine o que elle mesmo

não sabia, vos descubra o mundo que nunca vistes, vos engolfe, pelas

catacumbas encantadas dos seculos preteritos, vos leve a peregrinar

pelo Universo fora, vos descortine cardumes de maravilhas em que nunca

attentastes por terra e ceos, vos revele que tendes lá dentro um

coração, vos infunda mais alto respeito de vós mesmos, mais sublime

ideia de vossa alma e de vossos destinos, noções mais distinctas de

vossos direitos e de vossos deveres, mais ternura para com a familia,

mais aferro á Patria, e fraternidade para com o genero humano!

¡Um leitor! ¡um leitor¡ e o vosso inverno vai ser mais florido e

harmonioso que a primavera; mais verde, luminoso e accezo que o estio;

mais frutifero e scismador que o proprio outono.

¡Um leitor! ¡um leitor! e a quadra que chamavam morta, será para os

vossos interesses de todo o genero a mais activa; e, no meio dos

folguedos e abastanças das outras tres, a mais recordada com saudade, a

mais esperada com alvoroço.

¡Oh! ¡não poder ser eu, eu mesmo, o vosso leitor!....

* * * * *

--«Mas os livros--perguntareis vós--¿d’onde hão de vir? ¿e quaes hão-de

ser?»

Hão-de vir, com summo gosto emprestados por quem quer que os tenha, em

quanto de outro modo se não possa. E depois.... ¡tão poucos bastam! ¡A

leitura, saboreada como deve ser, funde tanto!

Agora, quanto á escolha (porque emfim, grão para semente ha-de ser

escolhido), quando por si só o vosso leitor a não soubesse ou ousasse

fazer, nada mais facil que tomar conselho com algum erudito sizudo, o

qual provavelmente faria mais que indicar-lhe e recommendar-lhe a obra:

facultar-lh’a-hia, tendo a; não a tendo, lá lh’a iria desencantar.

O catalogo dos livros portuguezes mais proprios para estas leituras

é por ora (¡ainda mal!) muitissimo curto. ¡Ah, boa França! ¡ah, boa

Inglaterra! ¡ah, boa Allemanha! ¡ah, boa Italia, que os teem em

cardumes, e curam da instrucção de meninos e plebeus, como de coisa

séria, e de vez.

Todavia, ainda aqui mesmo, e de repente, alguns titulos poderiamos

citar ao vosso ledor, segundo os diversos interesses que elle tem de

servir e prégar: verbi gratia:

Felicidade pela Agricultura (Vol. II) · 第 3 / 8 段