De Jupiter é o principio--diziam os poetas antigos. Do Povo é o

principio--podemos nós dizer. Desengane-se elle, uma boa vez, a eleger

os seus representantes, a tiral-os de sua consciencia, a escrevel-os

de seu punho, em vez de os acceitar do bolso (ou da bolsa) de

nomencladores interesseiros; e logo conseguirá, não um milagre, se não

mil; não alguns bens, se não todos os bens, e a felicidade.

Constitua o seu Parlamento por modo, que n’elle se possa mirar,

conhecer-se, e amar-se; venerando Senado, cheirando mais á terra, aos

cereaes, e ás hortas, que ás esteiras palacianas, aos theatros, e aos

toucadores; mais sollícito de despachar, que de requerer; mais prateado

de cans, que doirado de medalhas; mais obreiro, que orador; e mais

eloquente nos feitos, que nos ditos; em summa: tire-o do seu seio, da

sua maioria e melhoria, dos cultivadores, dos amigos, dos parentes

da terra; deixe-os trabalhar, como elles sabem e costumam, e aguarde

quieta e animosamente os resultados.

Verá como, a par com o suspirado Ministerio da Agricultura, brota logo

outro não menos suspiravel Ministerio, o da Instrucção publica, e para

um e para outro pululam d’aquelle paraizo legislativo Leis novas,

robustas de bom senso, e de prodigiosa feracidade.

* * * * *

Dos interesses directos da Agricultura não vos quero falar hoje, mas

somente das Lettras, que áliás os encerram virtualmente, como encerram

tudo.

Eis aqui, meus amigos, a substancia de algumas d’essas Leis memoraveis,

que, cedo ou tarde, aqui e em toda a parte do mundo, se estão para

fazer e executar.

* * * * *

TODOS SERÃO OBRIGADOS A CULTIVAR O SEU ESPIRITO.

A TODOS SE FACILITARÃO MEIOS PARA O CONSEGUIREM.

Comecemos por este segundo ponto.

* * * * *

A quantidade dos mestres das disciplinas primarias é insufficiente; a

sua qualidade mais insufficiente ainda; sendo que, sem muitissimos e

optimos mestres de taes disciplinas, nem instrucção ulterior é muito

provavel, nem o arroteamento e primeira cultura industrial, agricola, e

moral do Povo se pode conseguir.

Convem e urge portanto:

* * * * *

I. Promover, pela esperança de premios condignos, a invenção

ou introducção de methodos faceis e completos, clarissimos e

efficacissimos, para o ensino de ler, de escrever, de contar, de

desenho, geometria, physica, mechanica usual, de agricultura, de

Religião, de moral, de decencia, etc.

* * * * *

II. Crear Escolas normaes, em que esses methodos se incutam e gravem

profundamente no entendimento, na vontade, no amor dos que hão-de por

elles ensinar.

* * * * *

III. Que haja escolas primarias fixas e permanentes em todas as

povoações que d’ellas forem capazes por sua extensão.

* * * * *

IV. Que os professores recebam salario correspondente, assim ao cançaço

como á utilidade do seu trabalho; devendo todos os cidadãos ricos

ser obrigados a contribuir do seu para esta obra nacionalissima,

socialissima, e christianissima.

* * * * *

V. Que um Centro director da Instrucção publica traga perennemente

Commissarios volantes, de grande illustração e zelo, a visitar as

escolas, a corrigil-as, a aperfeiçoal-as em todo o sentido, e a tomar

nota do merito comparativo dos professores; para que os mais dignos,

no fim de cada anno recebam, não só louvor publico, mas ainda outros

premios de sua diligencia, e os ineptos, desleixados, ou viciosos, sem

misericordia se despeçam e substituam.

* * * * *

¿D’onde virão os cabedaes para tantos premios, para tantas casas e

trens de aulas, para tantos centenares de milhares de livrinhos, como

será necessario distribuir gratuitamente, para tantos ordenados não

mesquinhos, e para tantas viagens?

Virão, em pequena parte, dos tributos especiaes, e, na maxima parte, da

suppressão de outros gastos, muito mais avultados e dispensaveis do que

estes.

Logo que um Parlamento lavrador houver, como deve, supprimido o

Exercito, desapparecerá a horrenda voragem dos nossos dinheiros, que

então chegarão para isto, e para tudo. E já vos não falo nos outros

tantos e tamanhos beneficios, que d’ahi se hão-de derivar para o

Estado, para a familia, para os particulares; na restituição de

braços á lavoira e á industria, que são novas surgentes de haveres

para o Reino; na tornada dos filhos para as familias; no accrescimo

dos casamentos, e correspondente diminuição nos vicios; na maior

probabilidade e segurança da paz, e da liberdade verdadeira.

Tapado este sorvedoiro, ao som dos hymnos de alegria dos proprios

soldados, que não são menos onerósos a si do que á republica, o vosso

Parlamento, circumspecto e calculador, lá verá como sobram cabedaes

para a obra santa que propomos.

Mas prosigâmos, que a objecção, que parecia insuperavel, com um leve

sopro ficou morta.

* * * * *

VI. Alem d’estas escolas, estaveis e perennes, outras devemos pedir

ainda á nossa boa gente legisladora; a saber: escolas ambulantes para

os povoados pequenos; professores nómadas, bem estipendiados, que vão,

de terrinha em terrinha, dando o seu curso do mais indispensavel das

materias primarias; por exemplo: o ler, escrever, e contar, quando mais

não seja; para o quê, sendo elles bons, e bons os methodos, tres mezes

bastam e sobejam.

* * * * *

VII. Nas cidades, villas, e aldeias grandes, conviria fundar, com uns

ou outros dos sobreditos mestres, escolas só para adultos, cujas

lições fossem no serão de cada dia de trabalho, e nas manhans e tardes

dos domingos e mais dias santificados; obra cuja caridade e moralisação

se não pode assáz encarecer.

Estas escolas de adultos devêram principalmente trabalhar desde o

descahir do outono, até ao fim do inverno, quando a Natureza põe férias

ás fadigas ruraes. Ahi, o que os vicios e intemperanças da ociosidade

haviam de consumir, ¡quão mais bello não será aproveital-o em cheio

a civilisação! O camponez, depois de cultivar a terra, cultivará o

seu espirito; depois de ter dado á sua Patria riquezas physicas,

dar-se-lhe-ha a si proprio melhorado, que é riqueza moral muito maior.

Ninguem ignora os resultados felizes das escolas dominicaes

introduzidas em Inglaterra por Bakes, imitadas já, em mais ou menos

copia, por todas as nações cultas. Só na Gran-Bretanha se contam

para mais de treze mil d’estas escolas, com mais de milhão e meio de

discipulos. Nos Estados Unidos os discipulos excedem de um milhão. Na

Alemanha não teem conto.

* * * * *

VIII. Cursos especiaes, já de moral e decencia, já de direito politico,

já de jurisprudencia usual, e rural, deverão ser regidos com a maior

lucidez, amenidade, e graça, por mestres muito idóneos, que para

esse fim peregrinem de terra em terra, não se detendo em cada uma

senão o tempo indispensavel, e ahi forcejando por attrahirem ás

suas prelecções o maior numero de ouvintes de um e de outro sexo;

preferindo-se para estes agradaveis exercicios, segundo a estação o

aconselhe, o adro, a sacristia, ou a egreja mesma, um theatro, uma

sala, ou um jardim. Os hortos floridos eram na Grecia viveiros de

philosophia, e os pórticos em Roma seminarios de litteratos.

Todas as seducções se deveriam empregar para attrahir a estes cursos,

e, sobre todas, a musica instrumental, podendo ser; ou, quando menos, o

canto em commum. Ainda nos lembra como os piedosos cantares, com que os

severos Missionarios abriam e cerravam os seus tremendos e apostólicos

discursos, ás vezes n’uma egreja, outras n’um arraial, outras n’um

souto profundo de castanheiros, com serem umas solfas muito chans e

monótonas, singularmente affeiçoavam e induziam os animos de seus

profusos auditorios.

* * * * *

IX. As escolas primarias para meninos e homens são muito, mas não são

tudo; é forçoso creal-as egualmente para meninas e mulheres, e, com mão

não mais avara, multiplicar e remunerar as professoras.

A educação das mulheres, se bem se adverte, contém em si a dos homens.

Ellas são no principio, e por muito tempo, as nossas mestras unicas;

ellas nos infiltram em todas as edades as suas ideias; no que temos

de bom e benigno, foram ellas que nos modificaram á sua imagem;

ellas (sem o parecerem) nos educam e dirigem até ao fim. A mulher,

convenientemente educada, será melhor mãe, melhor esposa, melhor

ecónoma, melhor amiga, mais proveitosa á casa, mais util aos visinhos,

mais benemerita da Patria, sem se lhe mostrar; mais querida de todos, e

de si mesma.

Ás mães fazem os medicos tomar os remedios que os seus filhinhos de

peito necessitam; a virtude benefica lá passa d’ellas para elles

disfarçada no suave e candido do leite.

O nosso Parlamento de Lavradores ha-de attender muito a isto: as almas

feminis já per si mesmas mereceriam ser educadas; que não será, quando

sabemos, tão ao certo, que são ellas as que amamentam as nossas!

* * * * *

X. Se a instrucção é hygiene para a alma, ella lhe serve tambem de

medicina.

A sociedade tem, e ha-de ter sempre, criminosos, e, em razão d’elles, a

fatal necessidade de prisões. Ora as prisões, quaes as temos e teremos

ainda longamente, são ao mesmo tempo um semi-remedio ou palliativo,

e um veneno. A Liberdade desvia d’ellas os olhos com vergonha; a

Virtude as contempla com terror; a Philosophia cruza os braços aos seus

hombraes, e emmudece; em quanto a Justiça lhes chapeia e reprega as

portas, e o Interesse individual dos cidadãos approva a obra da Justiça.

O carcere amputa e enterra os membros pobres da sociedade; mas a

podridão d’estes membros, posta em commum, desenvolve um contagio

moral, que por derradeiro devora tambem aos innocentes, ou aos menos

culpados, que as apparencias ou os caprichos da fortuna para ali

arrojam muitas vezes.

Nos ares mephyticos do carcere, por todos os poros se aspira o odio dos

outros e o desprezo de si mesmo, a selvajaria da linguagem, a bruteza

dos sentimentos, a grossaria e obtusidade das ideias.

Tratado como fera, ali o infeliz se compraz de aguçar nos varões de

suas grades, e na lágea de sua cama, as garras do seu furor, para um

dia grande que elle espera sempre. Em quanto elle não chega, cria para

se aturdir uma especie de vertigem voluntaria.

Tinha, por ventura, um só vicio quando entrou; agora é n’um só

individuo um feixe de miseraveis: ébrio, immundo, obsceno, jogador,

ladrão, falsario, perjuro, calumniador, conselheiro mestre e

missionario de insociabilidade, inimigo apostado das Leis, escarnecedor

de Deus, e (por desesperação, por que a sua alma deixou de lhe falar)

materialista.

A prisão, de que uma eloquente e philosophica penna contemporanea ahi

lançou em rasgos mestres um quadro para estudo de legisladores,[1] é um

sepulcro infecto de moribundos impenitentes. D’ali não se pode descer

senão para o inferno, nem subir se não para o supplicio, nem sahir

senão para o desterro, que é supplicio e inferno juntamente, ou para a

miseria, para o desprezo, para o crime, veréda espinhosa e pérfida, que

outra vez conduz ás suas portas.

[1] _O Preso_, romance social por Sebastião José Ribeiro de Sá, 1 vol.

de 8.º-335 paginas.

Uma escola em cada uma das cadeias fôra resumo de muitas Obras de

Misericordia, não só para aquelles malfadados, se não para todo o corpo

social; fôra applicar o sal, para tolher os progressos da corrupção.

Quando os prezos aprendessem a ler, e lessem em livros muito de

industria feitos para os allumiar, para lhes ungir e fomentar o

coração, ¿não chegariam pouco a pouco a ressuscitar, reconciliados

com a Providencia, com os homens, e comsigo, e talvez melhores e mais

nobres que antes da queda?

* * * * *

XI. Além das escolas pagas, que o Estado deve multiplicar e distribuir

por todas as partes onde vir ignorancia, vicios, e crimes, deverá

promover, por meio de estimulos honorificos, o apparecimento de novos

focos de doutrina, espontaneos e gratuitos.

¿E quem duvida de que ha ainda ahi almas generosas, homens-humanos,

e christãos não renegados, que, uma vez levantadas essas nobres

competencias de bem fazer, acudirão a abrir suas salas aos pobres

ignorantes, a assental-os em suas cadeiras em de redor do seu

candieiro, do seu livro, e do seu affecto?

Não somos nós dos partidarios da liberdade do ensino, como o não

seriamos da liberdade de vender generos avariados, ou venenos;[2] mas

se os traficantes e especuladores charlatães de instrucção, que a não

possuem, devem ser inexoravelmente prohibidos, nenhuma das rasões que

militam contra elles se podem racionalmente applicar aos que offerecem,

de graça, as suas horas a instruir o proximo. Os Commissarios volantes,

porém, até mesmo essas privadas fontes deveriam visitar, se esses bons

professores o consentissem, como de certo consentiriam.

[2] Pode-se ver o que sobre isto dissertavamos no Tomo II da _Revista

Universal Lisbonense_, pag. 177.

* * * * *

Temos, graças a estas leis novas, resolvido em cheio o problema de pôr

a instrucção ao alcance de todos. Vejâmos se se resolverá o outro, de

fazer com que todos a aproveitem.

Este me parece ainda mais facil.

Apontemos, e apertemos. Eis aqui pois a coisa em poucas palavras; são

sementes que atiro; ellas que germinem como podérem.

* * * * *

Concedo que, apesar da utilidade e facilidade da instrucção, a

perguiça, a bruteza, os preconceitos de bom numero de ignorantes,

os farão esquivar-se e retrahir-se ao beneficio; e nos primeiros

annos, e na primeira geração muito mais que para o diante. Para essas

repugnancias, é que tres remedios se estão per si mesmos aconselhando:

a exhortação, o premio, e o castigo.

* * * * *

XII. A exhortação, promova-a o Governo, mas com fé, mas com vontade

sincera, mas com perseverança, pelos artigos das suas folhas

officiaes, pelas reiteradas recommendações aos Prelados e aos Chefes

administrativos; os Bispos, em pastoraes sobre pastoraes aos Parochos;

os Governadores Civis em circulares sobre circulares ás Camaras e

Administradores de Concelho; os Curas d’almas nas homilias e praticas

de todos os domingos; os cabeças dos Municipios e dos Concelhos por

todo o seu continuo contacto com o Povo. Promova-a, finalmente, o

Parlamento legislando boas retribuições pecuniarias para quantos

autores publicarem obras, em que efficazmente se ensine a conhecer e

amar a Instrucção.

Dêmos que, de tão numerosos agentes, falham na pratica muitos, ou a

maior parte, ou por indolentes, ou por nescios, ou por maus. Alguns

haverá sempre, que não falhem; e as diligencias d’esses algum resultado

hão de surtir.

* * * * *

XIII. Quanto a premios, afiance-se aos estudiosos, que os que mais

se distinguirem serão galardoados com livros uteis (que é fazer dois

proveitos em logar de um), e que os seus nomes serão com louvor

lançados nos registos publicos, vulgarisados na folha official,

pregoados do pulpito da sua freguesia no dia mais festivo, e nos seus

requerimentos recebidos como recommendação.

* * * * *

XIV. Os castigos devem ser graves, e severamente applicados.

As pequenas multas em dinheiro arbitradas pela actual Legislação para

os remissos que não mandam os filhos á escola, ainda quando á risca se

executassem não seriam sufficientes.

Ordene a Lei (e cumpra-se) que se não reconheçam direitos cívicos

aos que desprezaram, como brutos, a sua alma, aos que, podendo-o,

não quizeram instruir-se, ao menos no ler, escrever, e contar;

defenda-lhes o administrarem seus bens, o contratarem, o addirem

heranças, o testarem, o exercerem commercio ou industria, até mesmo o

servirem; sobretudo lhes véde o casamento; e nos mistéres durissimos da

republica, para que hoje se costuma prender e forçar, no serviço das

armadas, na milicia (se ainda alguma houver), sejam elles, pois assim o

quizeram, sejam elles os preferidos, os condemnados.

Com o medo e terror d’estes castigos, com a esperança e cubiça

d’aquelles premios, e, logo por cima, com todas aquellas paternaes e

assiduas exhortações; havendo á mão bons mestres, e sendo o ensino

(como pode e deve ser) breve, aprasivel, e gratuito; ¿quem duvida de

que em cincoenta annos, em vinte e cinco, e em menos, com o dedo se

apontaria homem ou mulher, que não soubesse ler, e que não lesse?

* * * * *

N’um tal Povo, assim allumiado, ¿qual seria a sciencia, qual a arte,

qual o mistér, que deixasse de florescer?

A terra e as mãos se tornariam mais productivas; os costumes mais

concertados; os praseres, mais delicados e vivos; as familias, mais

unidas; o trato, mais urbano; a fortuna, mais segura; as Leis, mais

obedecidas; a Religião, mais venerada; os direitos e a dignidade do

homem cessariam de ser chimeras, e a paz uma utopia.

Só n’um Paiz todo de luz, de trabalho, de benevolencia, poderia

fundar-se e manter-se um regimen lealmente representativo, em vez

d’estes a-la-moda, a que o nosso publicista europeu, Silvestre

Pinheiro Ferreira, não chamava, na candura da sua alma, senão

«pseudo-constitucionaes».

Por mim vos juro, minha honrada gente do casal, que, a ter eu a

desgraça de ser Governo, e a loucura de querer sel-o, havia de fazer

tudo por illustrar o Povo. Não haviam de ser as espadas, que me

guardassem; haviam de ser as luzes, que eu tivesse accendido em de

redor do Throno, até os confins da Monarchia.

Agosto de 1849

XIV

Oitavo serão do casal

Continuação do antecedente

SUMMARIO

Repiza-se a ideia fixa de um Parlamento de Lavradores, como

panacêa.--Explicação do entibiamento das vontades quanto á

Politica.--Perfectibilidade.--Convencidos d’ella, obedecemos

aos nossos instinctos bons.--Lembrête a malignos.--Entra-se em

materia.--Apontam-se muitas pessoas, que podem ser mestres por

curiosidade: primeiro para escolas masculinas; depois, para escolas

femininas.--Suasoria d’alma a todos esses homens, e a todas

essas senhoras.--Tambem se deve recorrer aos ricos para pagarem

escolas.--Cita-se o honrado exemplo de Plinio, o moço.--O Methodo

de leitura introduzido pelo autor facilitou extraordinariamente a

execução de taes projectos.--O autor se offerece a explical-o a quem

quer que o deseje professar.

Bons e bonissimos eram elles, os alvitres do nosso precedente serão.

¿Mas quando virá cá a sua realidade?

Depende ella e carece de um concurso e concerto de tantas coisas, e

tão raras, que, sem offensa nem de pessoas nem mesmo dos tempos, bem

podemos presumir que essa ante-manhan da civilisação ainda está longe.

Receio que muitas gerações tenham de morrer pagans, antes que nasçam

Messias e Apostolado, que não só facultem ao Povo o baptismo das

Lettras, mas que para lh’o darem o procurem, lhe préguem, lhe instem, o

reduzam, e o convertam.

Por ora tratam-se outras coisas, que (segundo parece) estão primeiro

que a alma, primeiro que o coração, primeiro que as primeiras.

* * * * *

Vós mesmos, meus amigos, ou me engano muito, ou ainda não bem cahistes

na maxima, na summa, na urgentissima importancia de olhardes pelos

fundamentos de toda a possivel regeneração: a eleição de verdadeiros

representantes vossos para Legisladores.

¿E quereis que vol-o diga? Comquanto vol-o deplore, e muito, não vol-o

extranho. De puro cançados com este continuo tecer e destecer da

Penélope politica, perdestes a fé na Politica.

O almanack dos benemeritos e patriotas, nunca de anno para anno o

vistes regular, nem de semestre para semestre. Perdestes a fé em

patriotismos e virtudes. Com tantos programmas flammantes, como de

continuo brotam, chovem, e ventam de todas as partes, ainda não vistes

fim nem diminuição á vossa miseria, e perdestes a fé em promettedores.

Em summa: em vós mesmos perdestes a fé; e receio... que na Providencia

tambem; pois noto que as eleições dos que vos hão-de representar, isto

é, dos que vos hão-de salvar ou perder, a vós e a vossos filhos, á

vossa freguezia e á vossa Patria, já á revelia as deixais correr.

Desprezais votar, ou votais em quem vos dizem, e até em quem vos não

dizem. Lançais na urna dos destinos publicos uns papeis dobrados,

que nem lestes nem ouvistes ler. Lançail-os pensando n’outra coisa,

lançail-os com a indifferença, com que um ocioso distrahido vaí

desfolhando ao longo de um regato um ramo inutil, seguindo com os

olhos cada folha em quanto cai, e, logo que na corrente desappareceu,

esquecendo-a para sempre; ¡como se cada um d’aquelles papeis não fosse

um germen de fortuna ou infortunio para nós todos!

Hombridade civica, ou virtude social (perdoae-me que vol-o diga) não a

tendes já, ou ainda a não tendes.

Sois n’isto como quasi todos somos.

¿E quem é que assim nos fez, ou nos atenuou, ou aniquilou? ¿A quem

havemos de amaldiçoar?

A ninguem.

Foi a fatalidade das coisas. Os primeiros como os ultimos, os Reis

como os bagageiros, os estadistas como os idiotas, todos são por ella

arrastados.

Bons e ruins, sabios e nescios, poderosos e fracos, agitadores,

agitados, e inertes, todos n’esta apparente confusão somos empregados,

por um Obreiro invisivel, para um edificio em que desde o principio

do Mundo se trabalha, e por esses seculos fora se ha-de ir sempre

trabalhando. É uma vasta e immensa Pyramide, cujo vértice ha-de ser

no Ceo, e na qual todo o genero humano anda como operario, suando e

gemendo porque só vê a pedra bruta em que se cança; mas a traça total

da architectura, com que se podera consolar, é o Divino Architecto que

a tem escondida em sua mente.

* * * * *

D’aqui, porém, não concluais que se haja de admittir o dogma

mahometano, o tenebroso e quebrantador dogma do fatalismo, essa

anti-philosophica e insustentavel parodia do dogma augustissimo,

fecundo, e creador, da PROVIDENCIA.

Vâmos, sim, todos e tudo, n’uma torrente infinita, e que sobe sempre;

mas todos com entendimento e liberdade; entendimento, para perceber e

julgar; liberdade, para optar e fazer, cada um dentro em seus limites

circumscriptos.

Logo, assim como na ordem physica o saudavel e o venenoso, o suave e o

terrivel, a luz e as trevas, o gelo e o fogo, a atividade e a inercia,

a leveza e o peso, o solido e o fluido, o concorde e o discorde,

contribuem, por um jogo milagroso de harmonias, para haver dias,

noites, estações, plantas, animaes, homens, mundo, e tantos mundos;

assim, na ordem moral, esta incalculavel variedade de ideias, de

opiniões, de systemas, de affectos, de egoismos e generosidade em todos

os graus, de exforços para o bem, de exforços para o mal, de aspirações

para a claridade, de aspirações para a escuridão, de instinctos

de sociabilidade, de instinctos dissolventes, de pusillanimidade,

de virtude, de rudeza, de engenho, de sciencia, de illusões, de

sophismas, de absurdos, de verdades, de probabilidades, de prophecias,

de experiencias, conspira para que a natureza moral, obedecendo, sem o

saber, á Providencia, lá se vá, como cometa enigmatico, composto de luz

e envolto de nevoas, progredindo pela sua orbita incommensuravel.

Deixemo-nos de queixumes excusados. Tudo obra e ha-de obrar segundo sua

natureza.

A rosa embalsama; a mancinella envenena; o rouxinol canta e poetisa;

o tufão brama e devasta; a montanha medita; o valle ri; a praia

entristece-se; o Oceano ruge e devora; a rôla ama e dil-o; o reptil

desembosca-se, punge, e foge deixando morte; o raio fracassa e

pulverisa; a alvorada retinge e floreja; o sol nos diz «Vida»; a lua,

«Ternura»; as estrellas, «Immortalidade»; o menino, «Innocencia»; a

mulher, «Doçura e heroicidade para sacrificios»; as cans, «Repoiso e

reflexão»; a virilidade, «Energia e emprezas»; em suma: o ambicioso,

o vil, o avaro, o pródigo, o caritativo, o perseguidor, o tecelão de

enredos, o mineiro de verdades, o que se cança a accender luzes, o que

se não cança de apagal-as, os que vozeiam: «Para a frente!», os que

gritam: «Alto!», os que murmuram: «Para traz», os que vêem por cima da

terra uma abóbada de Ceos, os que para alem da terra nada vêem, os que

acreditam nos destinos da humanidade, os que não acreditam senão nos

seus proprios, os que usam e os que abusam da sua alma e da alheia,

os que usurpam, os que assumem, os que acceitam, os que desdenham, os

que menoscabam, os que insultam, os que sullapam, os que perseguem o

poder, todos concorrem, ou todos concorremos, com penedos, silharia,

areia, cal, barro, cascalho, pórphiro, suor, lagrimas, e sangue, para

o edificio providencial, para o futuro palacio no segundo paraizo do

genero humano.

Com muita ou pouca esperança, obedeçâmos á nossa natureza, e cumprâmos

o nosso fadario, nós outros, os que (mercê de Deus) anhelamos pela

dita da Patria, que ninguem dirá que não esteja muito enferma, e muito

triste.

Felicidade pela Agricultura (Vol. II) · 第 2 / 8 段