No banco dos accusados lá estão, não menos, os complices que

OBRAS COMPLETAS

DE

A. F. DE CASTILHO

--5--

Felicidade

pela Agricultura

[Illustration]

LIVRARIA BARATEIRA

LISBOA

34-RUA DO DUQUE-36. Tel. T. 1264

OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 5.º

VOLUMES PUBLICADOS:

I--AMOR E MELANCOLIA.

II--A CHAVE DO ENIGMA.

III--CARTAS DE ECCO E NARCISO.

IV--FELICIDADE PELA AGRICULTURA (1.º vol.)

V--FELICIDADE PELA AGRICULTURA (2.º vol.)

NO PRÉLO:

VI--A PRIMAVERA.

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

====V====

FELICIDADE

PELA AGRICULTURA

SEGUNDA EDIÇÃO

VOLUME II

[Illustration]

LISBOA

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

_Sociedade editora_

LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA

_R. Augusta, 95_ _45, R. Ivens, 47_

XI

Quinto serão do casal

Tres novidades aos amigos lavradores

SUMMARIO

O autor já tinha saudades do Casal.--Onde passou o mez de

Maio.--Desencantamento que trouxe da Capital.--Insiste-se na

necessidade de representação agricola.--Testemunho que lhe levantam

attribuindo-lhe desejos de ser Deputado.--Rasões por que o não

deve nem quer ser.--Que fazem e como são os nossos inimigos.--Não

se lhes deve oppôr a violencia bruta, mas juizo, e salvarmo-nos

por uma eleição de consciencia.--Duas novidades traz o autor da

Côrte--Primeira: que a Sociedade de Agricultura Michaelense vai

sendo imitada em Portugal.--Segunda: a publicação do _Guia e manual

do cultivador_.--Louvor d’esta obra, e de quem a fez.--A Sociedade

promotora da Agricultura a coroou--O que os premios produzem de

bem.--Torna-se ao projecto da _Ordem do arado_.--Noticia do banquete

da Sociedade da Agricultura.--Hymno dos Lavradores.

Já tinha saudades de vós, meus bons amigos. Lá passou, e bem a meu

pesar, o mez de Maio, sem eu visitar este casal.

¡Maio sem vós! ¡e sem campo! ¡Maio n’uma cidade, e Capital! ¡e das

maiores! ¡onde o que só dá flores, mas não para frutos, é a rhetorica

dos politicos, e onde, para nada verdejar, nem sequer esperanças já

verdejam!

¡Oh meus excellentes lavradores! Quizera eu, não que vos arrancasseis

do vosso torrão, para irdes ver o que é uma Côrte, e aprenderdes a

amar-vos; mas que ao menos a sonhasseis uma vez, tal como ella é, e

como são todas: magnifica de marmores e architecturas, rumorejante

de festas e musica, trovejada de carroagens, refulgente de gaz, que

supprime a noite, alardeando senhores e principes, remirando-se

nos enxames de suas damas; mas, no meio de tudo aquillo, esteril,

desencantada, e não tirando de si os olhos com medo de os lançar para o

futuro...

Pois se fosseis lá com algum pensamento sincero de amor dos homens,

com alguma santa loucura de alma desinteressada, d’estas que alguma

vez devaneámos na calada das vossas solidões, e que tão faceis foram

de realisar; se vos désse em ir mendigar para a civilisação, e para

os filhos e netos de nós todos, algum favor muito pequeno, e muito

justo, ¡como vos não recolherieis ás vossas poisadas, descrentes e

esmorecidos, para nunca mais arredardes d’ellas nem os pés, nem os

olhos, nem o pensamento!

Meus amigos, meus amigos, deixae falar os nescios, que tão mal vos

querem a vós como a mim; e crêde no que vos repito com a mão na

consciencia e nos Evangelhos: para que, do meio das leivas rusticas,

nos saiam emfim Deputados representantes da terra, semeemos o juizo, se

desejamos colher a felicidade; se não fôr já hoje a hora do desengano,

medo tenho de que seja amanhan a de acabarmos.

¿Sabeis o que dizem lá nos seus pagodes estes mexeriqueiros ruins,

vossos inimigos e meus? ¿estes ingratos, que, devendo-vos tudo, invejam

até o pé do inhâme que semeais para os filhos, e, de vaidosos que são,

até a figura humana vos tirariam, se podessem? ¿Sabeis? ¿adivinhais,

não o que elles pensam, mas o que elles dizem? Dizem, que no dar-vos

este conselho, o unico bom conselho que hoje se vos pode dar, só armo

á popularidade, para algum dia me ir d’aqui, Deputado feito por vós,

sentar-me triumphalmente n’uma cadeira do Parlamento.

¿Então que lhe quereis? Dão o que teem, e fazem o que podem e costumam.

¡E dizer que ha ainda ferrenhos, que não crêem na jumenta de Balaão!

Não, boa gente, nem vós, quando escolherdes os vossos pares na lavoira,

me haveis de nomear a mim, que desgraçadamente o não sou, nem, que o

fizesseis, eu vos acceitaria a nomeação. Essas honrarias, já por mais

de uma vez as rejeitei; e não foi para me andar agora á caça d’ellas.

¡Eu Deputado!... ¿Para quê?

Aqui, no vosso serão, ou entre outros amigos, n’um colloquio poetico,

ou na minha cellasinha phantasiando para um papel alguns amores do

coração, tenho o meu préstimo como outro qualquer. Passeio na herdade

em que me creei; não tenho medo de me perder. ¡Mas a bordo d’aquella

grande náu! ¿Quem me ensinou a mim a sua mareação? ¿E depois ... o

enjôo!... ¿Eu na tribuna? ¡eu orador?! Melhor sorte me dê Deus.

Sou muito humilde, ou muito soberbo, para lá subir. Assentae bem

isto em lettras grandes na vossa folhinha detraz da porta. Votae em

amigos vossos, sinceros e desenganados como eu, porém mais sabedores

e praticos, do que eu, de vossas coisas, e mais affeitos ao mundo

positivo, que o escrevedor de livrinhos, que metade de sua vida a passa

por essas nuvens, e a outra metade entre creanças. Affronta vos faria

ao bom-juizo, se vos allegasse mais rasões.

Quando se trata de lavras, não é a andorinha, nem a cotovia, que vós

jungís á canga do arado. Assim, não é do poeta, que vós, gente grave

e sizuda, farieis o vosso representante; como tambem o não farieis

d’esses descendentes da jumentinha de Balaão, que, sendo muito pobres

de cérebro, muito mais o são ainda de coração.

A mim já vós me conheceis; mas ¿quereis acabar de os conhecer tambem a

elles? Pois ouvi.

* * * * *

Fundou-se ahi uma Sociedade de Amigos das Lettras e Artes, para

fazerem, a bem da instrucção primaria e dos officios mechanicos, o

mesmo que em vosso proveito faz a Sociedade da Agricultura. Era santo

instituto; ¿não era? Pois declararam-lhe guerra, pozeram-lhe nomes,

levantaram-lhe testemunhos pela bocca pequena, enredaram com cartas

anonymas, que mandaram imprimir n’outras terras, imprimiram outros

aleives aqui mesmo, mas com datas fingidas e de longe, porque tamanhas

vergonhas eram, que, sem mascara, nem elles as ousariam; peitaram, por

baixo de mão, creancinhas desvalidas a desertarem das nossas escolas,

para continuarem a apodrecer na ignorancia; aos que eram seus servos,

prohibiram-lhes frequental-as.

Quando me eu ia de proposito, viagem de mais de duzentas leguas por

esses mares de Christo, para requerer se nos désse aqui um chãosinho em

que edificarmos, á nossa custa, uma albergaria para as pobres Lettras e

Artes, mandavam elles, atravez de egual Oceano, quem lá fosse pedir que

nos indeferissem; quem nos denegrisse bem denegridos; quem patrocinasse

e advogasse, por todos os modos (sobre tudo pelos secretos), a causa da

ignorancia; quem lidasse por vos perpetuar na condição ignominiosa de

servos da gleba, um pouco mais que troncos, um pouco menos que bestas

de carga.

--«¿E vingaram esses tramas diabolicos?»--perguntareis vós.

¡Quem sabe! talvez sim; o tempo o descobrirá.

Ahi tendes o que elles são; guapos corações, e guapissimas cabeças

para legisladores; admiraveis amigos da terra em que nasceram, ou que

os abortou, e do Povo, que sua de trabalho para que elles suem de

praseres, que anda nu para que elles se enroupem com arminhos, e cospe

sangue nas mãos por elles, que lhe cospem desprezo sobre ambas as faces.

Meus amigos, se queremos ser salvos, é olharmos por nós, e forcejarmos

por destecer todas estas cerradas teias de barbarias. Trabalhemos

tão activamente, de dia, e ao sol, como elles o fazem de noite, nos

esconderijos, com vigilantes expertos e terriveis a guardal-os.

Opponhâmos ás mentiras traidoras, e ás cobardes calumnias, a verdade e

a franqueza; ao anachronico feudalismo, o seculo XIX, que é o nosso,

que é vivo, e que é forte. Nada de violencia; a força bruta nada cria,

e ameaça tudo; o incendio, o exterminio, as sublevações, o converter

as enxadas em machados, e as arvores, que alimentam, em clavas que

derribem, fôra curar a doença com a morte, enredar-se mais nas cadeias,

pretendendo sacudil-as, querer subir ao cume, e afogar-se no abysmo.

A redempção, toda a redempção, só Leis sabias, e zelosamente mantidas,

nol-a hão de trazer; e é para as termos, que eu vos exhorto e vos

supplico vos associeis, para darmos a um Povo, que é e deve ser

agricola, umas Côrtes agrárias e um Ministerio lavrador; isto é: a um

Paiz, que pode e quer produzir, uma providencia e cultura apropriadas.

Pelo menos, façâmos o que de nós depende para o bem, como os inimigos

fazem quanto podem para o mal. E depois... sahirá o que Deus quizer.

* * * * *

Por novidades da Côrte me requereis. Das _politicas_, nenhuma vos

trago, que não curei d’ellas, nem já entendo essa linguagem. Das operas

e passeios, das modas, e do aformoseamento das praças, não curais vós.

O que só vos importa, é a terra.

Pois bem: duas novidades vos trago quanto á terra, que vos devem ambas

aprazer.

A primeira, é que a vossa tão bem augurada Sociedade promotora da

Agricultura Michaelense, ao mesmo passo que vos fecunda por cá o solo

por via da instrucção, faz nascer lá pelo Reino, por via da emulação,

outras semelhantes Sociedades, que, se forem avante, e imitarem

sempre a sua predecessora, transformarão a final a Patria, de mendiga

despresada e decrepita, em abastada, juvenil, e formosa, mediante

aquelle Congresso e aquelle Ministerio que já sabemos, e para que ellas

hão-de, quando crescerem e se propagarem, contribuir infallivel e

irresistivelmente.

* * * * *

A outra novidade, tambem para alviçaras, é um Livro.

Um Livro nem sempre é uma obra; as mais das vezes é palavras, das quaes

as obras distam muito.

Este, porém, que vos eu annuncio, deveras é obra; custou bom estudo;

fez-se com amor e consciencia; allumiará os vossos espiritos; e contém

em germes grande copia de frutos, que, em vós querendo, entrarão logo a

rebentar pela superficie do vosso solo. Tem por titulo _Guia e Manual

do Cultivador, ou Elementos de Agricultura_.

Antes que d’elle vos fale, ou para supprir o que d’elle vos poderia

encarecer, deixae-me falar-vos do seu autor, que, melhor do que eu,

sabeis vós como pela arvore se adivinha o fruto.

JOSÉ MARIA GRANDE, Doutor abalisado em Medicina e Philosophia, e Lente

ha annos de Botanica e Agricultura na Escola Polytechnica de Lisboa,

é um d’aquelles espiritos eleitos, que a Providencia predestina ao

bem commum, e que, para melhor se habilitarem ao desempenho do seu

sacerdocio, lhe saem das mãos ao mesmo tempo graves, e amenos; sizudos,

e poeticos; para a rasão, convincentes; para a vontade, persuasivos.

Desde a flor da mocidade o amo eu, que desde então nos conhecemos.

N’aquellas famosas festas da Primavera, celebradas nas margens

ridentissimas do Mondego, e de que já póde ser ouvirieis falar ou ler

alguma coisa, foi elle um dos que mais por engenho se extremaram.

D’ahi para cá (e não são tão poucos annos), sem renegar o culto das

Musas, que tão dadivosas o prendaram, entrou, comtudo, a combinar com

aquelle affecto outro mais alto; com a poesia espontanea da imaginação,

que é só rosas e fragrancias, a poesia cultivada e frutifera da

Natureza. As sciencias d’ella, foi-as enxertando no talento, foi-as

nutrindo e robustecendo com a seiba, assim melhor aproveitada, do seu

engenho. Imaginae ¡o que não estarão hoje produzindo!

Então, era a primavera, a florescencia, o poeta. Hoje, é o sabio, a

meditação, o outono, a abundancia. Então, o rouxinol que enfeitiçava

as ociosas noites de luar. Hoje, a aguia que se remonta ás alturas,

d’onde abrange largo mundo, e que fita os olhos escrutadores no

proprio sol. Coração e indole não lhe mudaram; mas os amores que tinha,

ideaes e volateis, concentrou-os no amor grande, no que é bemvindo

em todas as edades, e a todas as ennobrece: no amor dos homens. Como

Virgilio, passou das cadeias de rosas de Amaryllis, ao magisterio das

_Georgicas_, á grave doutrinação dos camponezes.

Lavrador elle mesmo, e imbuido copiosamente nas theorias por sua

experiencia verificadas, comprehendendo (até onde é dado) os mysterios

da Natureza, affeito a explical-os, e sabendo realçal-os ainda com a

lucidez e côres do estylo, commetteu com a melhor estreia, e com as

fadas mais propicias conseguiu, crear para vós o que de toda a parte,

ha muito tempo, se pedia em vão: o codigo succinto, mas completo, dos

vossos trabalhos.

* * * * *

Em dois volumes, e não grandes, é a sua obra repartida. O 1.º anda já

no Publico, procurado e festejado; o 2.º não tardará, podendo-se-lhe

desde já prophetisar egual fortuna.

Presente bem rico vos será já per si o que vos trago. N’elle

aprendereis, como introducção ao que vos cabe fazer, para que a

fazenda, como dizia Virgilio, satisfaça ás vossas cubiças, parte do

muito, e do infinito, que a Divina Sabedoria fez para vós e para todos,

ao crear a terra, as aguas, os ares, e as plantas.

N’este sentido, o livrinho, sem o dizer, é tambem dos mais religiosos.

Descobrir os segredos da Creação é adorar o Creador. Newton, que mais

os sondou, nunca de Deus falava sem inclinar aquella grande cabeça, que

abrangia mundos.

Quando houverdes lido, no vosso _Guia e Manual_, os maravilhosos

segredos do nascimento e crescimento, da florescencia, frutificação

e reproducção das plantas, da sua alimentação, da sua vida, do seu

respirar, do seu dormir, dos seus amores, das suas relações de

beneficios mutuos com o ar, com a terra, com os animaes, e comnosco;

fico-vos eu que a minima hervinha vos inspirará mais devoção, e vos

dará mudamente mais conselhos, que a mais devota Imagem da vossa

aldeia. O que no campo vos parecia solidão e ermo, deixará de o ser aos

vossos olhos, porque direis:

«Tudo isto, que vegeta em derredor de mim, me está amando, e amando

a seu modo ao nosso Deus; tudo isto é vivo, tudo isto é sabedoria e

bondade em acção.»

E depois, com este conhecimento especulativo, que vos ala para as

alturas, ¡quantas ideias para applicação e pratica! Cada verdade, cada

phenomeno, que se descobre dos entes a dentro, é um raio de luz que nos

encaminha no mais acertado modo de os servirmos e os aproveitarmos. A

herdade d’aquelle que aprendeu o capitulo da grande Theologia Universal

chamado _Botanica_, entre os predios dos ignorantes se distinguirá,

como a porção de terreno em que Franklin mandou á Natureza escrever

com grandes lettras viçosas um invento prestadio. _Isto foi adubado

com gesso_--bradavam aos olhos, no meio de um prado mal fértil,

pomposas lettras de verdura. _Isto pertence a quem entende o viver das

plantas_--dirá a duplicada fertilidade da vossa lavoira.

* * * * *

Para que não suspeiteis que é a amisade quem me fascina, quando assim

vos exalto o valor e prestimo do livro; ou para que, por ser de

extranho á vossa bella arte, me não desdenheis a recommendação, haveis

de saber que o mesmo que vos eu digo, foi já sentença de tribunal mui

competente, qual é a vossa Sociedade promotora.

Tanto a obra lhe cahiu em graça por sua singelez e verdade, por sua

sciencia e clareza, pelo mui serviçal que se vem accommodando a esta e

áquella necessidade do lavrador, e pela segura sonda com que o autor

vai tenteando as novidades antes de as adoptar (o que nem sempre se

acha nos agrónomos que só teem por geira a folha de papel, por charrua

a penna, por bois os dedos, e por experiencia as suas phantasias),

emfim por sua sciencia e consciencia, tanto namorou o livrinho a estes

sinceros juizes, que, a par com os louvores e agradecimentos, que já

não seriam pequena corôa, lhe decretaram unanimes uma medalha de oiro.

Fizeram o que o Governo havia de fazer, se já existira n’elle o que em

nossos votos existe ha muito: um paternal Ministro da Agricultura.

Em quanto o não ha, nem Côrtes que legislem premios condignos a taes

serviços, necessario é que a virtude dos particulares vá pagando, como

pode, dividas sacratissimas, que não são só do Estado, se não tambem da

Humanidade. ¡A Deus praza que as outras Sociedades agronomicas do nosso

Portugal, edificadas com o santo exemplo o imitem, e o subam ainda por

sua parte a maior ponto!

Os talentos dos que podem escrever para utilidade dos seus semelhantes,

são como as flores femininas: conteem no seu ovario, lá bem no fundo

do calix, germes optimos; mas o pólen, que os fecunda para frutos, só

lhes vem na aura do favor publico. Esse pólen fragrante, que os activa

deliciando-os, e encantando a quantos no transito o aspiram, é o louvor

e o premio.

Flores d’alma hermaphroditas, que a si mesmas se bastem para

frutificarem, tambem as ha, tambem; mas são muito raras.

Sem premio, nem esperança d’elle, nasceu em verdade, e amadureceu, e

está já colhido, o _Manual do lavrador_; mas agora, depois do exemplo,

¿quem póde calcular o que no engenho e saber de outros procreará a

louvavel ambição?

¿Lembrais-vos d’aquellas condecorações em que vos eu falava aqui ha

tempos, que se deviam instituir com titulo de _Ordem do Arado_, e de

que tanto escarneceram os parvos, que, a propôr-se a votos uma Ordem

_da maledicencia_, _calumnia_, e _mexericos_, talvez a approvariam?

¿Lembrais-vos, meus amigos?

Pois, se tivesse já havido um Parlamento que a decretasse, e

tivessemos um Ministerio dos Negocios da Agricultura.... um Commendador

da Ordem do Arado para venerações teriamos nós já; e vós m’o direis

quando houverdes devorado o livro.

* * * * *

Antes de nos apartarmos, falemos de outra coisa, que tambem vos toca.

Sabereis, que, no dia folgasão do nosso patricio Santo Antonio, teve a

Sociedade promotora da Agricultura Michaelense um banquete campestre,

muito lauto, muito alegre, mas (o que mais vale, que tudo isso,

quanto a mim) muito excitativo para mutuas harmonias de vontades, e

muito desafiador de forças para os trabalhos que mais importam. Com

vinho patrio se bebeu á vossa saude, á prosperidade da lavoira, e á

perseverança e bons fados da Sociedade, que tanto lhe quer a ella, e

mais a vós.

* * * * *

Em nossos precedentes serões, aqui no casal, vos ponderava eu, e vos

provava com exemplos, como os poetas foram sempre os mais certos amigos

e devotos dos campos e vida rustica. No livro que vos hoje trouxe lá

vereis mais uma prova; e agora concluirei com uma recentissima, de

minha lavra; é o _Hymno dos lavradores_, que eu apresentei como postre

entre os vinhos e fruta da vossa terra, n’aquelle patriotico jantar de

nossos amigos e irmãos.

Tambem eu, ensinado pelos annos, passei das festas da primavera para as

do trabalho. Outros tempos, outros gostos; os mais seguros e abençoados

sempre são esses.

Ouvi pois o vosso Hymno; se vos aprouvér decorae-o, e no meio de

vossos trabalhos entoae-o muitas vezes. Poesia e Musica são uns bons

adubos, que se haviam de empregar muito mais a miudo, para estimulo de

entendimentos perguiçosos e vontades indolentes. De Poesia e Musica

muito se ajuda a civilisação onde ha philosophia, como em terras de

Allemanha. Os Antigos por instincto o adivinharam, quando metteram

entre as lições de suas fabulas a de Orpheu e de Amphião domando

rudezas, amançando feras, e erigindo cidades de cem portas e immenso

trato, ao som de suas lyras.

O que a minha entoou para inspirar o santo amor dos campos, ainda que

não seja de nenhum Amphião nem Orpheu, eil-o aqui. Com mãos limpas

vol-o entrego; recebei-o com boa sombra.

HYMNO DOS LAVRADORES

VOZ

Cantae, passarinhos; cantae, arvoredos;

cantae, frescas fontes; cantae, virações;

cantae, ceos e terra, cantae os segredos

da vida inefavel que anima as soidões.

CÔRO

De espigas e palmas coroemos a enxada,

morgado, e não pena, dos filhos de Adão.

Mais velha que os sceptros, mais util que a espada,

thesoiro é só ella, só ella brasão.

VOZ

Romper tenta o Sabio do mundo a cortina;

ao Bello dá cultos o Artista, o Cantor;

o Obreiro transforma; o astuto domina;

mas o homem dos campos só é creador.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Da terra sahimos, á terra volvemos;

a terra nos veste, nos traz, nos mantem.

¿Quem, mais do que a terra, merece os extremos

que obtém dos bons filhos a próvida mãe?

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

É cárcere, e livre se acclama a cidade;

infernos de penas, disfarça-os em si.

A léda, abundosa, gentil liberdade,

sem fausto, sem nome, nos campos se ri.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

As ruas sombrias, as turbidas praças,

só brotam miserias, vaidades, motim.

No campo a abundancia pululla entre as graças,

e adoçam-lhe as lidas delicias sem fim.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Gentil liberdade nos campos impera;

nas médas das eiras seu throno reluz;

diadema de flores lhe dá Primavera;

em choça de colmo tem régia Queluz.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

¿Quem nutre as cidades, as frotas, e armadas?

¿Quem serve ás mil Artes banquete Real?

A mãe do Commercio, rainha das Fadas,

a Fada incançavel, a Industria rural.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Esgotam-se as minas; dissipa-se o oiro;

perguiça e pobreza lhes crescem de apoz.

No solo aos activos poz Deus um thesoiro,

tão rico entre netos qual fôra entre avós.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

A aurora dos campos floreja saude,

nas faces a rir-nos qual ri na maçan;

a terra dá frutos, o Ceo dá virtude,

e a lida folguedos á turba aldean.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Os mezes das flores, os soes do ceifeiro,

a quadra das frutas, o ocio invernal,

são gostos variados, que em vôo ligeiro

matizam nos campos o giro annual.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Viver de colono devolve-se em festa;

o dia lidado lhe escapa a folgar.

Com a alva renasce; repoisa na sésta;

triumpha ao sol posto; descanta ao luar.

CÔRO

De espigas e palmas, etc.

VOZ

De dia, o trabalho n’um chão florescente.

A noite, em bons sonhos, amor e prazer.

¡Ditosa mil vezes a rustica gente,

se os bens que disfruta soubera entender!

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Ver Nymphas nas selvas, nas aguas, nos montes,

foi de animos gratos delirio em pagãos.

Nas serras, nos troncos, nos ventos, nas fontes,

Deus sentem, Deus amam, colonos christãos.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

¿Dos Céos quem, no mundo, quem vive mais perto?

Lavrando ou colhendo, medita-se em Deus.

Com preces e hosannas palpita o deserto.

¡Oh! Fé, os seus filhos inda hoje o são teus.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

¡Oh! Tu, que os expulsos do teu Paraiso

ás quedas e á enxada fadaste, ¡oh! ¡Senhor!

nas lidas põe bençam, nas mentes põe sizo,

nos corpos saude, nos peitos amor.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Mantém nas esposas fiel castidade;

na prole innocencia; fartura no lar;

concede aos visinhos fraterna amisade,

e á Patria virtudes que a possam salvar.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

¡Virtudes á Patria! ¡virtudes ao Povo!

!virtudes aos Chefes que dictam as Leis!

Já foi sceptro a enxada; que o seja de novo.

Diniz lá da campa que a mostre inda aos Reis.

CÔRO

De espigas e palmas etc.

VOZ

Aos roucos triumphos das eras antigas,

succêda o da Arcadia cantar festival.

Da ceifa das palmas á ceifa de espigas

volvei, Cincinattos do bom Portugal.

CÔRO

De espigas e palmas coroemos a enxada,

morgado, e não pena, dos filhos de Adão.

Mais velha que os sceptros, mais util que a espada,

thesoiro é só ella, só ella brasão.

Junho de 1840

XII

Sexto serão do casal

Tristes effeitos da ignorancia

SUMMARIO

Singular processo de feitiçaria e homicidio.--Como se

sentenciou.--Encontradas opiniões acerca da sentença.--Tem para

si o autor que n’este crime, como em outros muitos, não cabe

imputação.--Brotou-o a ignorancia; e a ignorancia é culpa das Leis

e Autoridades.--Todos os cidadãos teem direito a instruir-se, e o

Governo, por conseguinte, obrigação de lhes facultar os meios de se

instruirem.

¡Processo bem raro para em nossos tempos!

No banco dos accusados occupa o primeiro logar uma mulher já de dias,

com a serenidade da innocencia no rosto, nos modos, e nas falas. A

fama publica e as testemunhas a dizem digna do seu nome: chama-se

_Angelica_. A sua casa foi sempre asylo franco a feridos e enfermos,

mórmente pobres, que dizem acharam sempre n’ella muita sabedoria, mãos

mui primas para curar, e palavras de consolo tão efficazes como os seus

remedios; tudo pelo amor de Deus, e esmolas ainda por cima.

¿Que a metteria entre ferros d’el-Rei, onde jaz, faz hoje um anno dia

por dia?

Matou outra mulher.

No banco dos accusados lá estão, não menos, os complices que a

ajudaram: o marido e viuvo da victima, que lh’a levou a casa, e lá

permaneceu em quanto durou a tragedia; os que a estiveram sopeando

de pés e mãos, até que cessou de bulir; o que, por espaço de horas,

com uma vella na mão allumiou; os que, depois de consumado o acto,

carregaram o cadaver, como um fardo, para cima de uma cavalgadura,

para o irem lançar de uns penedos no mar, que a elle lhe servisse de

sepultura, e a elles todos de encobridor. O que o mar havia de sonegar

á Justiça, o Céo, que vê tudo, o descobriu. Os culpados, a fóra um, que

medo ou remordimentos da consciencia trazem a monte, os culpados ahi

estão todos no meio do tribunal.

¿Mas quem era a morta? Que fizera para haver tão miseravel fim?

Chamavam-lhe feiticeira os visinhos.... sem embargo de ter nome de

_Maria_, que dizem preservar de coisas ruins. A artes suas diabolicas

se attribuiam muitos achaques, desconcertos de fortuna, e mortes. Todos

(até seu marido) aborreciam n’ella o «Espirito immundo», que, para não

ser constrangido a desamparal-a, a trazia pertinazmente erradia dos

confessionarios.

Para a desendemoninhar, a fez a _serva de Deus_ conduzir a sua casa;

combateu com as resas e ceremonias que por mais acertadas tinha;

exorcismou, á sua moda; ameaçou, espancou o inimigo; em vão. Com a

teima d’elle, houve de crescer n’ella o fervor da caridade, e a

santa cólera. Lançou-se sobre a infeliz derrubada; recommendou aos

circumstantes lhe tolhessem os movimentos, a fim de se não espalharem

os feitiços (com o que, todos ficariam perdidos, e voaria a casa pelos

ares); e tanto fez, e fizeram, sobre aquelle triste corpo, tanto e por

tanto tempo lhe cerrou a garganta ao som de esconjuros, que a pobre

expediu de si, não o espirito infernal, mas a propria alma.

Lê-se o processo; ouvem-se as testemunhas, os réos, a accusação, a

defensa. Ao cabo de dezasseis horas, pelas 2 da manhan do dia 11 d’este

mez, publica-se a sentença: Angelica, desterrada por dois annos para

fóra da comarca; seus complices, restituidos á liberdade.

* * * * *

Sem quebra do acatamento que todos devem á Justiça, arvoremo-nos aqui,

no casal, em juizes de tal sentença.

De injusta, por benigna, a accusam muitos da cidade, e a accusa o

proprio Ministerio publico; em quanto cá nos campos, segundo oiço,

não falta quem ainda a taxe de cruel. Aquelles, horrorisados com o

homicidio, que as circumstancias aggravaram até martyrio, para o expiar

invocam o homicidio legal. Estes dão benções, do coração, a quem purgou

a terra de uma procuradora e agente dos infernos.

Em rasões de humanidade se fundam uns e outros; e a uns e outros,

todavia, tem a mesma humanidade rasões que oppôr para defender esta

sentença, em que tanto reluz ella como a justiça.

E quando não, discursemos chanmente, e com os animos despreoccupados.

* * * * *

Maria, em verdade, não era feiticeira; não o podia ser; não as ha; não

pode havel-as.

Foi crença de pagãos a que admittia pactos secretos com espiritos

malfasejos, para se obrarem no mundo maravilhas. O Christianismo não a

acceitou, que seria negar peremptoriamente a Providencia, e renunciar

Deus, renunciando a rasão.

Nem a tradição respeitavel da Egreja, nem os escritos dos Santos Padres

e Doutores, nem as Decisões dos Concilios, nem os Theólogos, nem, sobre

tudo, as Escrituras santas, deram jámais o seu assenso a essas fabulas

despresiveis, filhas da velhacaria interesseira, ou da ignorancia

crédula, ou, mais ao certo, de uma e de outra.

De balde nos argumentarão com as penas estabelecidas contra os que

professem a feitiçaria. Nós mesmos, que na feitiçaria não acreditamos,

defendemos por sensatas e justas essas penas; porque todo o individuo

que se inculca alliado, e braço direito de potencias invisiveis e

maléficas, para alterar, em muito ou em pouco, a natural corrente das

coisas, calumnía a Deus, mente a si e a seus semelhantes em materia

grave e de consequencia; arroga-se, de feito, e pelo terror, um

predominio que lhe não cabia; perturba, por querer, a sociedade; lança

n’ella novas sementes de fanatismo e crimes.

Uma de duas: dando-se por alliado dos demonios, ou não o crê,

ou crê-o. No primeiro caso, abusa tirannicamente da rudeza e

pusillanimidade alheia. No segundo, teve necessariamente a criminosa

intenção de pactuar com os genios das trevas; quiz dar-lhes a alma,

a troco do privilegio de malfazer; suppôz ter consumado este pacto

nefando, e obrou em conformidade com a sua persuasão.

Uma e outra coisa, não podiam as Leis ecclesiasticas, e as civis,

deixar de punir rigorosamente.

* * * * *

Maria não era feiticeira. ¿Mas dava-se ella por feiticeira? Não era

esse o processo; não se provou; não o sabemos.

Mas, quer se desse quer não, quer tivesse, quer não, abusado de sua

alma negociando-a com o inferno, ou dos espiritos de seus visinhos,

submettendo-os ao influxo do seu querer, sempre ficava sendo, no

conceito da gente rude e desallumiada, um ente muito infeliz para si,

para os outros mui perigoso e mui funesto.

Era assim que, na sua timorata phantasia, indispensavelmente a devia

representar a mulher, cuja vida, já de annos largos, era toda caridade,

esmolas, e orações. ¿E que fez? uma grande façanha moral; uma sublime

loucura de generosidade.

Só escudada de suas orações, resolveu entrar em duello com inimiga,

em seu entender tão medonha e tão possante, que tomar-se com ella

era tomar-se com o proprio inferno. Duas palmas lhe promettia a

consciencia com aquella victoria, se a ganhasse: redimir uma possessa

do captiveiro diabolico, restituindo-a á Egreja, ao marido, e a si

mesma, á amisade dos visinhos, á quietação interior, e á esperança do

Ceo; e desafrontar de adversidades os que as estavam por via d’ella

padecendo, ou podessem para o futuro padecer.

Eis aqui a magnanima loucura que a seduziu. Aventarmos-lhe outro

intuito não é possivel. Das intenções mais santas brotou o homicidio.

¡Mysterios da Providencia! não os sondemos. A morte appareceu ali como

o raio, sem ter sido chamada, nem prevista.

* * * * *

¿Quem reuniu jámais setenta testemunhas, e na propria casa, e com luz,

e em terra populosa, para assassinar?!...

¿Quem, para assassinar, empregou jámais, como unicas armas, resas de

longas horas, e mãos inermes?!...

¿Que mulher poderia arrancar a existencia, por querer, a outra mulher,

quando n’essa existencia fosse envolta a de um terceiro ente inda não

nascido?!...

¿Desde quando se mudou a natureza humana, a ponto de entrar o

pensamento e proposito do homicidio mais nefando, mais covarde, mais

inutil, e mais perigoso, n’um coração que era todo benevolencia e

caridade?

* * * * *

--«Mas a morte perpetrou-se.»

--Sim.

--«Perpetrou-a ella.»

--Sim, sim, mas sem o querer, sem o pressentir, sem entender ainda

agora o como.

No delirio do seu fanatismo, julgava-se a braços, não já com uma

mulher, senão com o rei dos malfeitores de além-mundo. ¿Que muito que o

terror lhe centuplicasse as forças? ¿que as empregasse ás cegas? ¿que

destruisse uma vida fragil e atenuada, sem saber? Logo que descobriu

debaixo de si um cadaver ¿não cahiu ella quasi cadaver? ¿não lhe fugiu

espavorida a razão? ¿não permaneceu por muito tempo n’esse estado entre

vida e morte, de que ainda inteiramente não sahiu?

Meus amigos, ¿onde está o crime?

Uma desgraça, e muito grande desgraça, essa existiu sem duvida. Mas

n’aquillo em que se não dá crime, ¿a intenção malfaseja quem a provou?

¿quem a allegou? ¿quem a demonstrará verosimil? ¿quem ao menos possivel?

* * * * *

Mas, deixando a justiça á Justiça, falemos de coisa quanto a mim mais

util, mais fecunda, e mais pratica para entre nós.

Os processos são meras formas, sujeitas a opiniões e erros. O que tem

importancia real são os factos sobre que elles versam; e mais real

importancia ainda as ideias, de que esses factos se derivam necessaria

e fatalmente, como a planta da semente, e o animal do ovo.

Não ha grande virtude nem grande crine, que antes de ser obra não fosse

vontade, e antes de vontade pensamento, e antes de pensamento embrião

de ideia; é o pontinho negro e imperceptivel no horizonte, nuncio do

tufão que revolve mares e afoga armadas, varre a terra, arranca e

arrebata animaes, arvoredos, e habitações.

De duas causas, só, proveem quantos males commettidos por homens se

podem no mundo deplorar: uma são as ruins vontades, as paixões, os

interesses mal entendidos; a outra, a ignorancia, e os erros que

d’ella nascem, sendo esta segunda muitas vezes (e quasi sempre) a que

virtualmente contém em si a primeira.

O Adão da maldade é o absurdo; instruir é fazer a cura adiantada.

Não são os terrenos desmoitados e lavradios os que dão plantas

venenosas, reptis peçonhentos e feras bravas; formosuras e suavidades

com a luz se criam, assim na alma como na Natureza.

Metter conhecimentos no Povo devêra ser o empenho dos empenhos para

todo o Governo, que tivesse por norte a civilisação. Não é torcendo,

decotando, nem enxertando, que se melhora a arvore, que por dentro

está enferma, mas ainda não de todo contaminada; é cavando-lhe e

medicando-lhe a terra, em que as radículas invisiveis estão de dia e de

noite bebendo caladamente.

* * * * *

¡Quantas desaventuras na vergonhosa historia que vos acabo de contar,

nascidas todas de ignorancia!

Um povo laborando em terrores, por julgar existente o que nem sequer

era possivel.

D’aqui, odios atrozes contra uma pobre mulher, que n’isso de

maleficios, de que a accusavam, não era mais incursa do que vós e eu.

Logo, ella morta do modo mais afrontoso; e com um filho nas entranhas;

e com um marido ao lado, que lhe não pode acudir, que ao desamparo de

viuvo sentirá accrescer-lhe o opprobrio de conjugicida.

Outra mulher, tornada a subitas e involuntariamente assassina;

arrastada de sua casa, onde era procurada e festejada pelos pobres,

e de sua terra que a citava com ufania, para uma prisão, para um

tribunal, para a publicidade do odio, para todas as humilhações da

justiça, para a eterna agonia que precede a leitura da sentença.

Além d’estas duas casas, abaladas ou destruidas, seis homens, ou chefes

ou filhos de seis outras casas, passando eguaes amarguras, eguaes

transes, depois de um anno sem liberdade na sentina moral da cidade,

chamada cadeia.

¡Que de dias e de noites já perdidos sem remedio para esta gente!

¡e quantos annos, talvez, do seu futuro já devorados pelo desgosto!

¡Que de despezas inesperadas! ¡que de transtornos nos negocios, nos

projectos, nas relações! ¡que brechas na reputação, e talvez na

moralidade, pelo trato de annos com entes corrompidos e perversos, em

ocio já de si corruptor, e com os brios quebrados, pelo desprezo de

quantos viam tranzitar por diante das suas grades!

Todos esses desconcertos, e os milhares de outros que d’elles se

haverão originado, ¿d’onde provieram? de um erro; como o erro, da

ignorancia; a ignorancia, da falta de educação publica; e esta do

vergonhoso e criminoso, do vergonhosissimo e criminosissimo desleixo de

legisladores e governantes.

Para tudo ha Leis; para tudo se andam ellas de continuo a refazer e

emendar; mas o codigo cabal, judicioso, sincero, franco, inexoravel,

que obrigue todos os cidadãos a aprender, para o serem, e para serem

homens; ¿esse código onde o temos? ou quem pensou nunca em o pedir,

quanto mais em o fazer?

Se alguem quizer edificar na cidade o seu predio fóra do alinhamento

e risco municipal, achará quem lh’o coarcte. Se se espairecer nu pela

praça em dia ou noite de verão, irá prezo, quándo menos por louco. Como

estes, mil outros actos, natural e essencialmente indifferentes, são

todavia cohibidos por providencias legislativas.

¿E a minha alma? ¿Esta parte optima de mim mesmo, nascida com a

maravilhosa faculdade e com o desejo instinctivo de se aperfeiçoar, a

minha alma, hei-de poder deixal-a, de poisio, sem que me constranjam a

cultival-a, eu, que para ter obstruida ou immunda a minha testada não

sou livre?!!

¿Hei-de poder condemnar o espirito de meus filhos a uma infancia

eterna, eu, que não sou livre para lhes mutilar um braço ou um só dedo?!

Dizer-se que ha-de o fisco extorquir-me do producto do meu suor, o que

ás vezes me não sobeja, para occorrer ás necessidades do Estado, e que

o Estado me não ha-de compellir a ter riquezas moraes para com ellas

ajudar o patrimonio da felicidade commum!...

A soltura do viver silvestre não m’a perdoariam; ¡e o conservar

silvestre o entendimento, e conseguintemente silvestre e indómito o

coração, com tão estupida magnanimidade m’o relevam!!!...

* * * * *

Meus amigos: se, como já vos ponderei, é crime contra a Natureza e

contra a Sociedade deixar devoluto a terra da Patria, de que o acaso

nos fez donos ¡quanto mais apertada nos não correrá ainda a obrigação

de lhe não deixarmos improductiva a nossa rasão, fundo muito mais

creador e social, mina de muito mais incalculavel opulencia, morgado de

instituição divina, superior em nobreza a todos os morgados!

Caberia pois ao Parlamento, chão, sizudo, e nacional, que vós algum

dia (em Deus o espero firmemente) nos haveis de dar, caber-lhe-hia

proporcionar a todos os cidadãos meios faceis de se instruirem, e,

proporcionando-lh’os, constrangel-os, sob as mais severas penas, a

aproveital-os.

Desde então haverá cessado, para sempre, a possibilidade de processos,

e desgraças, como estas que hoje vos relatei, opprobrio do seculo, e

escandalo da civilisação.

Mas não só isso: quando todos formos, mais ou menos, instruidos,

cada um segundo as suas faculdades, o seu estado, a sua edade e a sua

profissão, a lista dos crimes de toda a especie haverá diminuido. O que

em escolas e livros se houver gasto, poder-se-ha forrar em prisões e

agentes de Justiça.

Não é tudo: ¡Com estes bens negativos, da maior importancia, que

de bens positivos e palpaveis se não verão affluir! Os deveres

domesticos e civicos, mais bem conhecidos, serão menos incompletamente

desempenhados. Os laços da sociabilidade se apertarão e doirarão.

Tornar-se-ha a convivencia mais frequente e mais amena. Medrando

o numero dos leitores o dos bons escritores crescerá na devida

proporção; ir-se-hão opulentando as sciencias, as artes uteis e

fabris desenvolvendo-se; a Agricultura allumiando-se e florindo; as

Artes chamadas bellas por excellencia acharão o que hoje lhes falta:

alumnos, cultores, consumo. Os seis dias da semana deixarão em cada

casa dobrados haveres, e um domingo muito mais desejado, e muito mais

desejavel.

* * * * *

¿Serão isto ainda utopias, como os nescios chamam a tudo quanto nasce

da alma e vôa por cima do lodaçal em que se elles afogam? Não são, meus

bons camponezes, não são.

Vêl-o-hieis já hoje, se as horas nos não appertassem; mas vel-o-heis

para a minha proxima visita. Havemos de conversar muito assentadamente

sobre isto; porque emfim, ninguem me tira da cabeça, que, pése a quem

pesar, ainda algum dia vos hei-de ver legisladores.

¡Oh! quando isso fôr... então é que é pôr luminarias de nove dias, nos

campanarios, nas casas das Camaras, nas granjas, nas officinas, nas

estradas e nos rios, e nas escolas ¡sobretudo nas escolas!

Julho de 1849.

XIII

Setimo serão do casal

Instrucção primaria

SUMMARIO

Males provenientes da ignorancia.--Panegyrico da Sciencia.--Resumo

historico do progresso intellectual.--Seu estado ao presente.--Para

todos ha tarefa na obra da illustração.--O Povo concorrerá para ella,

elegendo verdadeiros representantes--Retrato d’elles.--Serão autores

tambem de um Ministerio especial de Instrucção publica.--Propõem-se

algumas Leis ácerca do ensino.--Como se proporcionarão meios

para todos se poderem instruir.--I. Novos methodos.--II. Escolas

normaes.--III. Escolas primarias fixas.--IV. Bons ordenados aos seus

professores.--V. Centro director, e commissarios volantes.--VI.

Escolas primarias ambulantes.--VII. Escolas para adultos nos serões

e dias santos.--VIII. Cursos especiaes de conhecimentos mais

altos.--IX. Escolas primarias para meninas e mulheres.--X. Item

para as cadeias.--XI. Escolas espontaneas e gratuitas.--Dados estes

meios, como se compellirá o Povo a se aproveitar da Instrucção.--XII.

Exhortações.--XIII. Premios.--XIV. Castigos.--Relancear de olhos sobre

os futuros da Nação assim illustrada.

Assentámos, amigos, em que a ignorancia era a mãe, a avó, e a ama de

muitos males, e de quasi todos.

O que são para a saude os paúes perguiçosos e pestilenciaes, é-o a

ignorancia para a virtude, para a fortuna, para o crédito, para a

boa harmonia, para o folgar, para as forças, para a dextreza, para a

pericia, para a elegancia, para a formosura, e para a saude mesma; para

a do animo, para a do corpo, para a da casa, para a da cidade, para a

do presente, para a do porvir.

Cuidar que um Povo se poderá bemaventurar sem sciencia, e muita

sciencia, é já uma prova palpavel do como a ignorancia nos induz em

funestos erros; pois é presumir que sem luz de sol podia ser a terra

creadora; quando, só por isso que lhes fallece claridade e calor, é que

as regiões dos polos são tenebrosos e gelados desertos, terras ou neves

onde nada pensa, nada canta, nada ama, nada vive, nada vegeta, nada

produz, nada espera, nada se lembra, e nada abençôa, nem em segredo, o

Mysterioso Eterno, que tudo lhes negou com recusar-lhes sol.

* * * * *

Já houve ruins engenhos, ainda que subtís, que profanaram a penna

escrevendo contra a Sciencia, e levantando até ás nuvens o viver

silvestre. Mas ¿que se segue d’ahi? Tambem já alguns espiritos

destillaram, ao fogo de suas paixões, paginas e paginas a desmentirem a

existencia do Espirito; e, bebendo no ar de Deus o seu amor, soltaram

do peito esse mesmo ar, convertido em palavras que o negavam.

A unica razão, por que um Povo excede a outro Povo, e um seculo vale

mais do que outro seculo, é a Sciencia avantajada. Bem sei que estas

verdades correm já communs pelos livros e pelas folhas quotidianas,

chegando a achar-se a confissão d’ellas na bocca dos que menos possuem

de Sciencia. Todavia como a OPINIÃO, de rainha do Universo só tem

o nome, e, se algum dia governou, muito ha que a fizeram abdicar,

obrigação é de todos, e de cada um, conspirar para a fazermos subir de

degrau em degrau até outra vez se assentar no throno. Pelo que, ainda

que a necessidade do Saber corra já como aphorismo de bocca em bocca,

n’este ponto se ha de bater e teimar, até se convencerem e converterem

os proprios Governantes e Legisladores, que são sempre (mal peccado) os

ultimos a virem metter a cabeça no Jordão.

* * * * *

Tempos houve (na historia de todas as civilisações ha esse periodo

equivoco e opprobrioso), houve tempos, em que os poderosos fizeram do

saber um privilegio para si, ou para os seus; mas sempre, em ultima

analyse, para si.

As ideias vegetavam então, e se engendravam, enclausuradas como as

feras nas coutadas dos senhores; e ai do plebeu mesquinho que n’ellas

posesse mira.

Para mais segurarem o monopolio, chegaram até a santifical-o. No Egypto

os livros recatavam-se no regaço e debaixo do manto de Isis. Antes e

depois do Egypto, muito Oriente, com ter sido aquella região o berço

da civilisação, como é o do sol, encerrou as luzes entre os idolos e

os sacerdotes, no silencio de seus pagodes, nos recessos mais intimos

e profundos dos seus palmares. No seio mesmo da Religião da egualdade,

mais de uma vez se manifestou em classes poderosas essa tendencia

usurpadora, que as fazia, ao menos temporaria e apparentemente, mais

possantes.

Todos estes factos comprovam que o saber foi sempre havido pelo que é

em realidade: por uma força, e uma potencia; e, como tal, ambicionado

e enthesoirado pelos mais astutos. A pusillanimidade, a perguiça,

a rudeza, a credulidade, a propria penuria e miseria das turbas

subjacentes, ajudavam aos usurpadores a manter-se n’aquella posse.

Entretanto, a obra de uma Providencia redemptora progredia caladamente.

O Saber, sem mão nem autor visivel, ia-se filtrando de camada em

camada, até á plebe infima. Os instinctos intellectivos, semelhantes a

aquellas sementes cereaes, que ainda hoje se desencantam em sepulcros

de dois e tres mil annos, e que apóz tres mil annos ainda não perderam

a sua virtude germinativa, e sob influxos favoraveis se desenvolvem

e vicejam, os instinctos latentes na alma do Povo começaram a

desabrolhar, verdes, vivazes, medrançosos, e taes, como das gramineas

(que são a plebe dos vegetaes) diz o grande Naturalista sueco: «Quanto

mais calcadas, tanto mais multiplicativas».

A luz, crescendo de seculo em seculo, tinha fendido, estalado, e feito

cahir em pedaços a lanço e lanço, o vaso terreno e mesquinho em que a

haviam encerrado. O dia de Deus era nascido. Elle cresce, e cresce, e

já agora crescerá sempre, porque para elle não ha occaso, e o zenith

para onde tende é na Eternidade.

O Saber já não é aristocratico, nem sacerdotal, nem de classe alguma; o

Saber é de tudo que tem alma; é do genero humano.

O Saber foi o quinto Evangelista, e o decimo-terceiro Apóstolo, mandado

percorrer mundo para radicar e consumar o dogma santo, e já agora

imprescriptivel, da egualdade. Deixemol-o ir na sua missão, que a

ha-de preencher. Se o esperam ainda trabalhos, mais certas o esperam

as corôas. No que já andou, colheu as forças para o que tem de andar.

Nos martyrios que soffreu, e de que sahiu illezo, se conteem os seus

futuros de triumpho.

Deixae-o ir, deixae-o ir, que é a Providencia quem o enviou; é Ella

quem lá de cima o sustenta pela mão, e lhe aponta por estrada o

Universo. Deixae-o ir, que ninguem o deterá; lançae flores diante de

seus passos, apóz elle canticos, por cima da sua cabeça bençãos.

Quanto mais derrama com as mãos ambas, tanto mais vai cheio o seu

regaço. Quanto mais colhe, tanto mais semeia. Quanto mais liberalisa

aos filhos, tanto mais prodigalisará aos netos. Quanto mais se

robustece, tanto mais se humanisa. Quanto mais se nobilita e deifica,

tanto mais familiar e plebeu se torna de hora a hora.

* * * * *

Applicae attentamente o ouvido d’alma. ¿Não sentis um rumor geral

nas intelligencias, com que a vossa sympathisa, e que a faz

mysteriosamente agitar-se como a sensitiva? ¿um rumor, como aquella

harmonia, que o sublime sonhador da Grecia percebia nas espheras

celestes? ¿um frémito de desenvolvimento e medrança, como se ouve, ou

se cuida ouvir, pelas noites de verão, no seio vegetativo da Natureza?

Esse frémito, esse rumor sem estrondo e sem nome, ¿quem o produz? São

milhões de pennas, a escrever em milhões de retiros, por toda a face

da terra; são milhões de espiritos a meditar; são milhões de mãos a

esfolhear livros; são milhões de olhos a revolver a Natureza, desde

as entranhas da terra até á abóbada dos Ceos; desde o insecto de

horas, até á Sempiterna Essencia; desde as origens mais remotas das

coisas, até aos ultimos futuros das sociedades; são milhões de erros,

preparando, como adubío, o solo para muito maior numero de verdades

frutiferas; são os passos dos viajantes que perlustram o globo; são

as vozes infantis, que solletram n’uma infinidade de escolas; são

os colloquios familiares a alarem-se para não sei que alturas; é

a Imprensa, arvore da Sciencia, a chover de dia e noite frutos e

flores, e de dia e noite a carregar de mais flores e mais frutos;

são os idiomas a permutarem entre si noções e descobrimentos; são os

direitos e deveres a quererem passar de abstracções para principios,

de principios para Leis, e de Leis para obras; são os elementos de uma

felicidade sempre longinqua, a confluirem para embrião; em summa: é

o Saber, a sêde e a necessidade do Saber, a transsudar-se de toda a

terra, como um vapor vago, e a recahir sobre toda ella como um orvalho

fecundo e esplendido.

Ora pois: n’esta obra providencial, para todos ha tarefa; e, com

salario ou sem elle, todos a devem preencher. Ha tarefa para os Cabeças

do Estado, que, segundo dizem, são em grande parte feitura nossa; e ha

tarefa para o Povo, que somos nós.

D’onde se segue, que, mediata ou immediata, directa ou indirectamente,

muito podemos; e se muito podemos, muitissimo devemos a favor da

publica instrucção.

* * * * *

Felicidade pela Agricultura (Vol. II) · 第 1 / 8 段