Depois comeÁou a desenvolver-se o gosto pela musica; as audiÁıes de

operas nos theatros de S. Carlos e S. Jo„o, a organisaÁ„o de escolas

particulares de canto, os concertos onde era chic apparecer, foram

creando os amadores distinctos que no Porto e Lisboa teem affirmado

exuberantemente que n'este nosso torr„o, n„o ha sÛ bom sol, ha tambem

boas gargantas e bastante talento, (porque para se cantar bem n„o basta

sÛ ter uma boa voz È preciso tambem talento e arte). E assim appareceram

em Lisboa e Porto as Ex.^{mas} Snr.^{as} D. Maria Albergaria, D. Laura

Gasparinho, D. Maria Viterbo Ferreira, D. Carminda Guerra Andrade, D.

Laura Leite, D. Alice Freire Silva Braga, M.^{elle} Lidia Oliveira,

M.^{me} Sarah Mattos, M.^{me} Ilda Blanc, D. Stela Pinheiro, M.^{elle}

Castello Branco, Condessa d'Almeida Araujo, Condessa de ProenÁa-a-Velha,

D. Maria Thereza Valdez Pinto da Cunha, D. Carolina Palhares, D.

Leopoldina Kopke de Carvalho, D. Beatriz Arroyo, D. Izabel Vallado, D.

Elisa Lear, D. Albertina Arnaud, D. Julia Villares, D. Thereza

Wandscheneider, D. Edwiges de Castro, D. Judith Marques, D. Bertha

Leaham Camello, D. Camilla Katzeintein, D. Margarida Motta, D. Maria

Luiza Mour„o, D. Idalina Castro, D. Laura Leite, D. Anna Fins, D.

ConceiÁ„o Castello Branco Albuquerque, D. Margarida Fernandes Braga, D.

Bertha Arroyo, D. Julia Pinto Moreira, D. Olinda Rocha Le„o.

[Figura: Quem espera desespera--ZE” WAUTHELET BATALHA REIS]

Mas, tambem l· estava a necessidade de apparecer, de ser notado. Era

preciso cantar para n„o ficar atraz das outras que apareciam, e assim se

desenvolveu por completo o gosto pelo canto, essa arte sublime que, como

dizia um philosopho, faz um ente transportar-se ao _sol_ sem se lembrar

de _si_.

Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava, era como o

canto, um genero de sport artistico. Toda a gente tocava, mas, era

preciso ir mais longe, era preciso tocar bem para ser notado. Em

qualquer parte onde se estivesse, n'uma sala, havia sempre muitos que

podessem exhibir os seus dotes musicaes, mas, no meio deste mar de

tocadores-amadores sÛ se foram distinguindo os que tinham verdadeiro

talento, e assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina

Pacifico, D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo, D. Maria

de Magalh„es, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz Bravo, D. Esther Coelho

de Campos, D. Carolina Suggia, D. Leonilda Moreira de S·, D. Julieta

Vieira Barbosa, D. Elvira Mattos, D. Maria Julia Brand„o, D. Maria

Helena Carvalho, D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia

Paiva, D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. ConstanÁa Pinto

Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia Suggia.

Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques Pinto, D. Laura

Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia Maia, D. Ophelia

d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.

Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.

Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes de Mattos.

E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso apparecer com

vantagens sobre outros.

Com a pintura e esculptura porem n„o se dava isso. Os amadores de

pintura sÛ tinham occasi„o de mostrar os seus trabalhos, quando algum

d'estes _cabrions_ que teem o nome de _possuidores de albuns_, vinha

pedir a esmola d'uma collaboraÁ„osinha, para esses repositorios exoticos

de coisas varias e quiÁ· exdruxulas, onde se afundaram muitos poetas e

se lapidaram muitos desenhadores.

E os amadores de esculptura? Esses, nem os havia. E se algum se dedicava

a esse genero da divina Arte, era t„o escondidamente que ninguem dava

por elle.

[Figura: Condessa d'Alto Mearim]

Mas, sob o impulso grandioso do desventurado Silva Porto iniciava-se uma

nova era d'Arte. ComeÁaram de fazer-se exposiÁıes na cidade de Lisboa e

na do Porto, exposiÁıes criteriosas que foram o inicio do renascimento

da vida artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do

aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades

nacionaes.

Promovidas na capital pelo grupo de Le„o, esse brilhante gremio de que

fizeram parte Columbano, Ramalho, MalhÙa, Gyr„o, etc.; e aqui, por um

grupo de artistas e amadores de Bellas-Artes, sem designaÁ„o especial de

nome, mas entre os quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa,

Marques Guimar„es, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano

Ramos Pinto,--as exposiÁıes d'arte teem sido actualmente realisadas pelo

Instituto de Estudos e Conferencias.

D'ahi, do agrupamento desses artistas, e tentados pela gloria de se ver

aplaudidos pela opini„o publica e instigados pela critica amiga dos

jornaes, fez-se uma como que revolta no meio da sociedade, que vive um

pouco do espiritualismo Artistico do Bello, e como que resaltou uma nova

pleiade de amadores, que tenta a pintura e a esculptura. No meio d'essa

pleiade resaltam como caracteres artisticos definidos e assentes,

individualidades cujos nomes temos que notar e descrever.

[Figura: D. Alice Grilo Lima]

Apparece no alto, como verdadeira fulguraÁ„o na arte de esculpir, a

Duqueza de Palmella, a maior alma de artista que pode ter uma amadora.

Os seus trabalhos perfeitamente executados s„o confirmaÁıes

indiscutiveis do logar proeminente que ella deve occupar entre os que

s„o sacerdotes na sublime arte de Milo.

No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a Ex.^{ma} Sr.^a

D. Joanna Andressen Silva, de que mais adeante fallaremos em artigo

especial.

Na pintura, confirma-se o que a principio digo, sÛ se exige que as

amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir o logar ao lado dos

homens na transplantaÁ„o para a tela da natureza, em todas as suas

variadas manifestaÁıes. E assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os

dias se fazem novas revelaÁıes de senhoras que s„o verdadeiros

sportwomen artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D.

Sophia de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho, D. Lucilia

Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D. Maria Afflalo, D. Alice

Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim, D. Maria Luiza Alto Mearim, D.

Branca de Araujo Assis, D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro,

D. Margarida Costa Rom„o, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D.

Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias de Lima

Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira de Moura, D. Laura

Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto, Viscondessa de Cristello, ZeÛ

Wauthelet Batalha Reis, D. Margarida Ramalho, D. Albertina Falker.

E, tudo isto, pela simples raz„o de haver exposiÁıes, onde se pode

mostrar que se tem aptidıes para a pintura ou para a esculptura, que se

tem talento artistico emfim.

Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural, que faz de nÛs um

poucochinho mais do que a vulgaridade, n„o acho raz„o nenhuma para que

se queira tirar · mulher o direito de publicamente mostrar que È um

pouco superiora ·s outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber n„o

occupa logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um quadro,

do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso sÛ pode mostrar que

a preoccupa o espirito com alguma coisa donde lhe pode vir honra o

louvor, no segundo caso... que n„o o preoccupa com nada...

Setembro 1904.

[Figura: Orchideas--D. ALICE GRILO]

X

NOVAS EXPOSI«’ES D'ARTE

Ao mesmo tempo duas exposiÁıes de pintura, uma organisada pelo Instituto

de Estudos e Conferencias, outra organisada pelo snr. LagÙa. Estamos em

marÈ d'Arte, n„o ha que vÍr. Ora eu, que sou um bisbilhoteiro de mil

diabos, l· fui, n'um d'estes ultimos dias de bom sol, visitar as duas

exposiÁıes.

Boas e m·s impressıes trouxe d'estes certamens e È o que muito

despretensiosamente direi para diante, conforme o meu modo de vÍr.

Tem, j· se sabe o primeiro logar, a exposiÁ„o do Instituto, e tem-no por

muitos e variados motivos; entre esses porque È formada por trabalhos de

artistas, se bem que por l· andem anichados puros amadores... Mas, isso

fica para depois, para mais larga conversa quando n„o houver j· que

dizer a respeito dos artistas.

Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em parte, a ameudaÁ„o

de exposiÁıes d'esta natureza; pena È que nem todos os nossos artistas

comprehendam o quanto isto È util para elles.

Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores, e È pena.

N„o sei, nem tentarei desvendar a raz„o porque os bons artistas n„o

querem concorrer, mas sinto profundamente que Salgado, MalhÙa,

Columbano, Carlos Reis, Gir„o, e outros, se fiquem, l· de longe, sem nos

dar o gosto de lhes applaudir e admirar o talento nas suas varias telas,

que s„o quasi sempre admiraveis. Talvez porque n„o encontrem no nosso

meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba pagar, talvez!...

A exposiÁ„o, no seu geral, È fraca, sem interesse (que barbaro eu sou).

A n„o ser uma meia duzia de telas, o resto È insignificante, sem

destaque, morrendo pelo... nem sei mesmo porque... mas fazendo-nos

sentir a saudade das exposiÁıes realisadas no Atheneu Commercial, ha

tantos annos j·, e organisadas por um nucleo de pintores conhecidos.

Isso sim, isso È que foram exposiÁıes onde todos concorriam cheios

d'aquella boa vontade e d'aquelle enthusiasmo que È peculiar ·s almas

novas; que isto n„o È dizer que as almas d'hoje sejam almas velhas, n„o,

s„o almas novas, mas formadas pelo systema arte-nova, t„o cheia de

curvas e sinuosidades, que treslouca.

Como de costume, l· fui encontrar no catalogo nomes dos que nunca faltam

· chamada, honra lhes seja, Marques d'Oliveira, Torquato Pinheiro,

Candido da Cunha, JosÈ de Brito e Antonio Costa, e a par d'estes, muitos

outros e alguns que comeÁam agora a apparecer.

[Figura: D. Sophia de Sousa]

D'entre os artistas, que expıem, a meu vÍr, destacam-se Marques de

Oliveira e Candido da Cunha, que s„o inegavelmente os que d„o a nota

pelo seu modo e pelos seus assumptos. JosÈ de Brito, soberbo no seu

pastel _Um frade_, no resto sempre um tom ingente de nevoa que faz os

seus quadros baÁos.

Torquato Pinheiro, muito bem no _Retrato de meu filho_, assim como,

gostamos d'elle, nos seus--_Fins da tarde de outomno_ e _Rua de Villa

Real_.

Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos encantos

cazeiros, veio · exposiÁ„o com dois quadros que j· lhe conheciamos, mas

que por isso n„o deixarei de os mencionar, especialisando para meu gosto

o--_ServiÁo feito_, que acho primoroso.

Prat, com os seus estudos n„o foi completamente feliz; destacam no

entanto a _Cabecita de burro_, que me n„o desagradou.

Victorino Ribeiro, com o seu--_Esperando um amigo_, est· bem

apresentado.

D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos tenha mostrado em

outras exposiÁıes muito melhor.

D. Aurelia de Souza, com o seu estudo--_Um africano_, muito bem.

Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores ao seu muito

talento artistico.

Antonio JosÈ Costa, como sempre, o primoroso pintor de flores, d·-nos

umas _Camelias_ bem tocadas e muito frescas.

De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do que o j· temos dito:

tem talento e sabe do _metier_. A sua _Marinha_ È para mim o seu melhor

trabalho n'esta exposiÁ„o.

Almeida e Silva, esse, parece que desandou; as suas telas s„o

demasiadamente recortadas e esmiuÁadas. Lembrei-me com saudade de outros

quadros seus, expostos em tempos idos, como por exemplo, um _Viatico na

aldeia_ e um _CabeÁa de cabrito_.

Augusto Ribeiro, È um trabalhador incansavel, produz de mais. Desenha

bem e pinta com certo gosto, mas pinta muito. Tem na exposiÁ„o alguns

quadros de valor e a _Marinha da Foz_, _O atalho ao sol_, s„o bons. Como

notas typicas do nosso meio s„o interessantes as manchasitas do

_Bolh„o_, _Anjo_ e dos _Ferros Velhos_.

[Figura: Marques de Oliveira]

Francisco Gil, È um pintor da Figueira da Foz que tivemos o prazer de

vÍr pela primeira vez; os seus trabalhos s„o (perdoem-me o francez)

_comme ci comme Áa_.

Lago Pinto, È um novo que promette muito e que se apresenta com vontade

de fazer alguma cousa. S„o muito recommendaveis os seus quadros _Fim da

tarde_ e _Lavadeiras_, em que a agua est· bem estudada.

Teixeira Bastos, È um pintor de Lisboa que veio ao Porto mostrar-nos que

tem talento artistico, dando-nos a impress„o de que vÍ muito bem. O que

especialmente o torna notado È o magnifico tom de luz que d· aos

quadros. _Os castanheiros_, foi para mim o que mais me agradou; s„o

dignos de menÁ„o a _CabeÁa da rapariga_ e _Canto do Rato_.

D. Leopoldina Pinto È uma amadora distincta.

Carlos Gomes Fernandes, È tambem um amador que comeÁa. … provavel, que

de futuro nos dÍ quadros, que se tornem notaveis, por emquanto È, a

nosso vÍr, um amador que tem vontade de fazer alguma coisa.

Fallei de todos mas deixei para o fim Marques de Oliveira e Candido da

Cunha, porque a meu vÍr s„o os dous pintores que attestam profundamente

o seu temperamento artistico.

[Figura: Flores--D. Leopoldina Maia Pinto]

Marques de Oliveira È inegavelmente um mestre e n„o era preciso que eu o

dissesse, eu que sou um _zero_ no nosso meio critico. Os seus quadros

_Cercanias d'Agueda_, _O Combro_ e as _Lavadeiras_ s„o obras primas de

desenho, de cÙr e de luz.

Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a luz iriada dos

poentes, d·-nos quadros maravilhosos, destacando como flor„o da sua

corÙa de artista a _Hora nostalgica_. N„o devemos porÈm esquecer a sua

_Casa rustica_ e os seus _Moinhos em LeÁa_. Ha tambem na exposiÁ„o um

trabalho d'este artista que me extasiou. … o retrato da esposa do

pintor, feito a carv„o (claro escuro). Trabalho que por si sÛ bastaria

para n'outro meio, que n„o o nosso, dar o nome a um artista. Correcto de

desenho, È superiormente primoroso.

Falta fallar d'um amador, t„o distincto que n„o pude fugir ao desejo de

lhe reservar um logar mais para o fundo, para que fizesse alguma

impress„o d'elle, ao leitor amigo, que tivesse a pachorra de me lÍr atÈ

ao fim. Refiro-me a Alberto Ayres de Gouveia, discipulo de Marques

d'Oliveira e que honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este

cavalheiro se dedicava · pintura, mas francamente, julgavamos que elle

fosse um _dellitanti_ como muitos outros, que tendo tempo livre, se

entretinha a fazer pequenas cousas sem valor, mas, ao comtemplarmos a

sua obra, ficamos confuzo. Era uma revelaÁ„o... Trabalho agigantado o

seu, topando um assumpto sublime, tal como a _Vida de Jesus_. Pintor

mystico com tal pujanÁa nunca o imaginaramos. Vemos que elle se sae

brilhantemente da empreza em que se metteu. Os seus quadros a _Palavra

do Mestre_ e o _Christo morto_ s„o verdadeiras obras d'arte. Figuras

estudadas com cuidado, pousadas naturalmente sem poses academicas, tendo

vida e verdade, luz e cÙr escolhidas com sciencia; pinceladas largas e

justas eis o que se encontra n'aquelles dois quadros.

[Figura: A Caridade--TEIXEIRA LOPES]

No seu _Lettre de Colombine_, ha um effeito de luz admiravelmente

estudado. Mas, Ayres de Gouveia n„o È sÛ correcto nos seus quadros

biblicos e de phantasia, È-o tambem quando faz o retrato, assim podemos

dizer que È bom o seu oleo e retrato de mademoisselle M. F. A.

E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se nos revela um

verdadeiro artista; s„o para notar o seu _Apollo_ e _Retrato de

mademoiselle Allen_, (ambos a pastel) _e cabeÁa de estudo_, (a crayon).

Mas, n„o digamos mais nada d'esse amador, que podem julgar para ahi que

eu sou amigo d'elle e vim aqui sÛ para o elogiar, e eu n„o quero isso.

Passemos agora rapidamente · esculptura, deixando em branco as

aguarellas, porque francamente n„o gostamos de nenhuma.

Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes de S· com a sua

_CabeÁa de Velho_ e o _retrato do medico Correia de Barros_, este ultimo

um trabalho flagrante de verdade.

D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta, pois em pouco

tempo fez progressos grandiosos.

D. Albertina Falker: n„o gostei do seu _BÈbÈ_. N„o sei que lhe achei de

mau, talvez a posiÁ„o d'aquella cabecita... N„o sei...

Com respeito a arte applicada, sÛ direi, que tenho visto muito melhor do

que aquillo.

E acabou-se a resenha das minhas impressıes.

Antes, porÈm, de fechar este despretencioso artigo uma, como que nota

final.

Eil-a:

Uma coisa urge fazer de futuro em exposiÁıes congÈneres. Destacar em

grupos definidos os artistas e os amadores; a cada um o seu logar.

Poder„o mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos, e n„o teremos

ao primeiro relance uma impress„o t„o m·. Aproveitam todos mais, os

artistas, porque juntos, ver-se-h„o obrigados a applicar todas as suas

aptidıes para se destacarem uns dos outros: os amadores, no seu modo de

fazer um pouco _gauche_, n„o ter„o o confronto dos quadros dos mestres

que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n'um _Salon_ tanto o

critico d'arte, como o amador ou o indifferente, saber·, logo o desconto

que tem a dar aos trabalhos, dos que comeÁam, ou fazem arte para

entreter e n„o far· injustas apreciaÁıes. Este, È o meu modo de vÍr e

penso bem que os proprios artistas me acompanhar„o n'elle.

Quando porÈm um amador se impozer pelos seus trabalhos, como os de

Alberto Ayres de Gouveia, ent„o que entre desassombradamente no gremio

dos artistas e que se sujeite · critica rigorosa dos que sabem do

assumpto.

Emquanto assim n„o acontecer, estas exposiÁıes n„o ter„o um caracter

definido, n„o ter„o o ar correcto d'um verdadeiro _Salon_. Dar-nos-h„o

simplesmente a impress„o da sala d'um burguez endinheirado, que finge

ter gosto pela Arte.

Ahi fica a impress„o que me deixou a visita feita · ExposiÁ„o de Pintura

do Pateo da Misericordia.

Dezembro de 1902.

[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto--VELLOSO SALGADO]

PINTORES PORTUENSES

[Figura: Eduardo Moura]

[Figura: JosÈ Teixeira Lopes]

[Figura: Julio Ramos]

[Figura: Candido da Cunha]

XI

Uma ExposiÁ„o de Aguarellas

ORGANISADA por AMADORES

N'um dos salıes do Palacio de Crystal, acaba de ser aberta uma ExposiÁ„o

de Pintura, onde o professor portuense de desenho Joaquim Marinho e suas

discipulas, sujeitam · apreciaÁ„o do publico os seus trabalhos.

Fui, como È meu costume, vÍr a ExposiÁ„o, sem a preoccupaÁ„o de critico

d'Arte, como um bom _vivant_, um mero collecionador, affeito um pouco a

vÍr com os olhos do espirito, alÈm dos olhos da cara.

N„o terei portanto aqui, n'este modesto _compte-rendu_, phrases

empulgantes, nem sentenÁas judiciosas sobre os trabalhos expostos.

Modesto ser· o meu artigo como modestos s„o os expositores. Deixo aos

outros, aos que sabem de tudo, aos que chamam a quadros a oleo

_cromolytographias_, essa extraordinaria tarefa de dizer muito e

retumbante, sem dizer nada.

[Figura: Joaquim Marinho]

Fui, como disse acima, vÍr a ExposiÁ„o e gostei; entre os quadros

expostos ha alguns que destacam, como manifestaÁıes de estudo e talento.

N„o farei a resenha detalhada d'elles, nada d'isso, sÛmente indicarei os

que mais fundamente me impressionaram.

Est„o n'este caso, como decorativos, os apreciaveis trabalhos a pastel

de Joaquim Marinho, _A Camponeza_, e os de D. Zulmira Almeida e D.

Izolina B. S·, _ImitaÁıes de azulejos_. S„o de completa novidade, dando

uma nota fulgurante de boa concepÁ„o e execuÁ„o. Estas duas senhoras,

entre varios outros trabalhos, teem mais, a primeira, duas paisagens em

pastel, magnificas; a segunda, uma marinha muito acceitavel.

Ha mais uma _CabeÁa de creanÁa_ (pastel) de D. Maria Leonor, que me

impressionou deliciosamente. Esta senhora expoz tambem dous outros

quadros, (paÌsagens), tambem a pastel, muito interessantes.

D. Guilhermina Marinho, com os seus estudos a aguarella, revela-se-nos

uma amadora distincta e conscienciosa; destacarei d'entre elles os

_Recuerdo del Paiz Vicino_, (interessante scena de bailado em Andaluzia)

e _Rapaz de Aveiro_. Primorosos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de J. TEIXEIRA LOPES]

D. Maria Joaquina, d·-nos duas pequeninas impressıes de Vizella, muito

interessantes.

Deixei para o fim propositadamente o fallar do professor. Este, expıe,

entre outros, um quadro que eu admiro pelo modo como est· feito. … um

trabalho a carv„o de grandes dimensıes e chama-se a _Batalha de

Malmaison_. Todo aquelle cÈu est· bem trabalhado e cuidadosamente

desenhado. … magnifico.

Tem tambem tres trabalhos a carv„o, em madeira, que s„o interessantes e

apresentam muita novidade. Um d'elles especialmente _Um boi_, est·

magnificamente bem feito.

N„o me alargo mais n'este meu modesto artigo, mas ao terminar n„o posso

deixar de manifestar aqui o meu applauso ao iniciador d'este certamen

d'Arte, animando-o a que continue a mimosear-nos com exposiÁıes como

esta, que distrahem a vista e consolam a nossa alma, farta das

ignominiosas scenas, que v„o por esta terra. Aquillo È como um banho

santo ao nosso espirito enervado e doentio.

Parabens, pois, pela sua exposiÁ„o.

Novembro de 1900

[Figura: CabeÁa de estudo--Pastel de JOS… de BRITO]

XII

PINTORES PORTUENSES

THOMAZ DE MOURA

Eu sou d'estes sujeitos que gosto muito de vÍr e de apreciar tudo quanto

de Arte apparece no nosso restricto meio, e por isso fui ha dous dias

atÈ · Photographia Guedes, visitar a exposiÁ„o de quadros de Thomaz de

Moura.

Conhecia j· este artista d'uma exposiÁ„o, que em Lisboa se realisara,

nas salas da Sociedade Nacional de Bellas Artes e onde elle concorrera

com sete quadros. N'essa occasi„o e em um jornal da capital tive

occasi„o de manifestar a impress„o que ent„o recebera dos seus

trabalhos. Hoje, porÈm, que elle no Porto se nos apresenta, n„o È muito,

que, mais uma vez, me occupe dos seus trabalhos, n'uma rapida noticia,

sem philosophia d'arte nem detalhes de apreciaÁ„o, mas unicamente n'uma

resenha breve e simples do que vi.

[Figura: Thomaz de Moura]

Na sala do nosso amigo Guedes de Oliveira, esse bello rapaz, amigo

dedicado dos artistas e t„o artista como elles, reune Thomaz de Moura 39

trabalhos, que d„o a nota verdadeiramente accentuada do seu temperamento

artistico.

Talvez, porque a sua alma seja d'um contemplativo, ou d'um triste, ha

nos seus quadros um quer que seja de nostalgico e de sugestivo. N„o È

d'aquelles pintores que distribuem, ·s pinceladas, nos seus quadros, as

tintas fortes e vibrantes; os vermelhos carmins e ocres amarellos. N„o,

enche as suas telas d'umas tintas doces e melancholicas. Depois ha ali

muita paisagem dos paizes brumosos, trabalhos que elle executou l· por

fÛra nas suas viagens de estudo. E a paisagem da FranÁa e da Bretanha,

essa paisagem, È muito differente da nossa. L·, n„o se encontra um cÈu

como o nosso, claro e limpido, onde as aves passam n'um vÙo chilreante

de alegria, o sol de l·, como que apparece envolvido em gaze, n„o È

retumbante e claro como o nosso e as tonalidades da vegetaÁ„o tem aqui

um forte destaque de frescura que falta n'esses paizes.

E, È talvez d'isso que se sente o nosso artista. Mas, quando elle

retratar a nossa paisagem, esse Minho encantador, ent„o, vel-o-hemos

accentuar perfeitamente as nossas cÙres e nosso tom.

Algumas das telas apresentadas j· s„o da nossa paisagem, mas, vistas um

pouco ainda com a vista habituada ao cinzento das paisagens bret„s,

d'ahi o n„o terem a nitidez accentuada da paisagem portugueza.

D'entre todas essas telas destacarei para mim como a mais subtilmente

inspirativa--_Christo lamentando Jerusalem_, de linhas definidas embora,

em esquicio, de uma concepÁ„o bella, d'um effeito sentimental e de uma

suave express„o.

_Os cuidados de m„e_, que eu j· conhecia, s„o um estudo de interior que

revela muito saber e muita observaÁ„o.

_O fim da tarde_, delicioso poente, onde o cÈu tingindo-se de vermelho,

d· ao quadro uma inspiraÁ„o suave do quer que seja de poesia lyrica.

_No limiar da porta_, bella cabeÁa de rapariga, d'um olhar aveludado e

triste, de quem espera por alguem; talvez pelo seu namorado.

No _CabeÁa de rapariga bret„_, ha a mesma serenidade que no _Limiar_.

_Um caminho_, È um bello retalho de aldeia, um caminhosito tortuoso

coberto por uma frondosa ramaria. Appetece descanÁar um pouco, ali, apÛs

um largo passeio.

_Os casebres de Alfena_, _O lavadouro_ (Guisec), _AÁudes_ (Vizella),

_Ribeira de Pont d'AbbÈ_, e mais outros ainda, s„o manchas tocadas com

primor e com muita proficiencia.

_Os pequenos marinheiros_, È um quadro onde se revela d'uma maneira

accentuadamente definida a disposiÁ„o que Thomaz de Moura tem para a

figura. Os dous rapazes est„o perfeitamente desenhados e sahem da tela

accentuadamente.

Ha um quadrosito tambem notavel, È o _Nos campos_, um pequeno sentado

sobre a relva parece desfolhar malmequeres emquanto ao fundo, sob um

traÁo de luz, pastam dous mansos bois, È inegavelmente um dos mais

apreciaveis trabalhos expostos.

Mais largo poderia e deveria ser este _compte-rendu_ da exposiÁ„o, mas

eu prometti apenas uma ligeira noticia, e as minhas aptidıes criticas

n„o d„o para mais.

Notas d'arte · 第 4 / 10 段