E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique n'estas

rapidas linhas a magnifica impress„o que me deixou a visita que fiz ·

sua exposiÁ„o.

1904.

[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto--VELLOSO SALGADO]

XIII

AMADORES PORTUENSES

D. JOANNA ANDRESSEN SILVA

Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas

as minhas impressıes sobre o merito artistico d'esta illustre senhora,

amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia

do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de fÈ e de

bondade.

[Figura: D. Joanna Andressen Silva]

Eu sei que biographar um amador È trabalho de certo folego, muito

especialmente quando o amador È distincto, como esta illustre senhora;

mas eu n„o venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha

dos seus trabalhos, resenha esta que servir· ao mesmo tempo de ligeira

nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, sÛ a

isso, me abalanÁo, convencido de que cumprindo um dever de cortezia

presto ao publico, ao que aprecia as manifestaÁıes d'Arte, um

interessante e util favor.

N„o me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema--a _Arte_.

Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais

necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.

N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes

_pseudo-perfis_, uma larga tirada sobre _Escolas d'Arte_, _EvoluÁıes da

Arte_, _Variedade de gostos artisticos_, _Papel moral da Arte_, etc. N„o

enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com

mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.

Sou apenas uma especie de _reporter artistico_, que vem sempre que

d'isso tem occasi„o, trazer a noticia d'um amador que se torna notado,

d'um artista que est· em fÛco, d'um atelier que se recommenda pela sua

disposiÁ„o e pelo _recheio_, e d'um _salon_ que se abre em exposiÁ„o de

trabalhos _isolados_ ou _collectivos_.

[Figura: Sal„o do palacete de D. Joanna Andressen Silva]

Feitas as precisas explicaÁıes, vou dar principio · minha singela

narraÁ„o, sem balofas adjectivaÁıes e sem assumir o ar solemne e grave

de _Pater Magister_. Serei simples e breve como convem aos que escrevem

para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados

problemas sociaes e artisticos e para aquelles que sÛ sabem ler. Farei

portanto todo o possivel para que facilmente me faÁa compreender e

alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.

Foi n'uma manh„ formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha

primeira visita ao atelier da Ex.^{ma} Snr.^a D. Joanna Leheman

Andressen Silva.

Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da

Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde

reside esta talentosa amadora. A vivenda sÛ em si È um encanto. A bella

casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso

e rico que se impıe. Os jardins e o parque que a rodeiam s„o deliciosos

trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a

compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos

de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar · tela. Eu n„o

posso fallar d'essa paisagem adoravel que me n„o sinta enlevado pelos

seus encantos naturaes. Como È bello tudo quanto d'alli se avista! Como

È soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos

apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do

Douro, que serpeia l· em baixo, a agitaÁ„o continua do mar, cujas ondas

se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida

alde„, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do

outro lado, no Monte das Ch„s!...

[Figura: Canto do Atelier]

Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde,

_bibelots_ caros e artisticos se juntam n'uma delicada confus„o que

contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapeÁarias. Apenas

alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de

attenÁıes e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu

atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela

conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma

fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.

N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da

habitaÁ„o, passagem que fiz com a religiosa uncÁ„o de quem visita um

museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis

trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa,

Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos

mais consagrados artistas estrangeiros.

[Figura: Busto de mademoiselle Eliza Andressen]

E tudo isto, todo este batalh„o de Arte se espalha pela casa,

gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de

luz.

Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o sal„o de

baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louÁas e dos

crystaes, mas acima de tudo a confecÁ„o e o estylo do mobiliario.

Avancei uma pergunta:---´Quem fÙra o auctor d'aquella maravilha? Quem a

desenhara?ª

E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia,

dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execuÁ„o fizera dous

desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de

flores, fÙra posto de parte porque seu primeiro marido n„o gostara

d'elle.--´E eu tambemª, concluiu a illustre amadora.

Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fÙsse, aquelle

desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque È uma

verdadeira maravilha de Arte, quer em concepÁ„o, quer em execuÁ„o.

Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D.

Joanna, e passamos ao atelier. … este construido sob a sombra protectora

e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga

janella que l· do alto se abre para a estrada.

Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que l· se achava, desde

o mais insignificante desenho atÈ · mais bem lanÁada esculptura, desde a

mais pequena revista atÈ ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto,

entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos,

conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos,

analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo

fallamos da educaÁ„o artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei

que D. Joanna desde creanÁa revelara uma grande disposiÁ„o para a

esculptura.

Seu pae, um bom e honrado negociante allem„o, que viera para o Porto

estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com

livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se

enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e

d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma

vocaÁ„o especial para o desenho.

[Figura: Busto de mademoiselle Ramos Pinto]

Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi

no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.

Foi, portanto, sob a direcÁ„o d'esta desenhista correcta e sabedora que

ella comeÁou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por

algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia

Katzenstein, teve occasi„o de acompanhar muito de perto e receber mesmo

indicaÁıes utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irm„o do Consul

d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente

_pousou_ para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse

excellente artista, j· por vezes devidamente apreciado no Porto, por

quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios

certamens a que tem concorrido.

Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna

volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa

mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama

para lhe completar a educaÁ„o d'arte dous dos mais notaveis artistas e

mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e

poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome È uma verdadeira

gloria da Arte Nacional.

E, recebendo liÁıes d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar,

D. Joanna revela-se n„o uma amadora distincta, mas uma distinctissima

artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores

pelo encanto com que s„o concebidos e executados.

[Figura: Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen]

D'alguns d'esses magnificos trabalhos v„o aqui photogravuras, pelas

quaes facilmente se vÍ que aquillo que affirmo n„o È sen„o a sentida

express„o da verdade. Na photogravura _Recanto de atelier_, ha uma

figurita sobre a meza, _maquette_ de um trabalho em tamanho natural, e

que se intitula _Rapaz jogando a malha_, que È um assombro de bem

executado.

Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial mens„o. …

um _Christo na Cruz_ original do grande e saudoso Soares dos Reis.

Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas _CabeÁas de rapazes_,

bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes n„o pude

obter photographia.

Parecer· ao leitor que quem executa t„o bellos trabalhos n„o necessita

mais de professor; n„o o entende assim D. Joanna e, n'essas condiÁıes,

como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e

recebe orientaÁıes e liÁıes do velho Costa, o meu querido amigo Antonio

JosÈ da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em

Portugal.

… desnecessario proseguir. J· fica dito o bastante sobre as impressıes

recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman

Andressen Silva, n'essa manh„ deliciosa, de que conservo as mais gratas

recordaÁıes, n„o sÛ pelo prazer de avaliar de perto os superiores

trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas

preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente

attencioso.

Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada,

dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre

os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me,

quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.

[Figura: Guarda fiel--ANTONIO JOS… da COSTA]

XIV

PINTORES PORTUENSES

ANTONIO JOS… DA COSTA

Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impıem ·

consideraÁ„o de todos nÛs.

O que encima este artigo È um d'elles.

Como homem e como pintor Antonio JosÈ da Costa deve ser respeitado e

admirado. Como homem porque È um cavalheiro em toda a acepÁ„o da

palavra; como pintor porque È um mestre.

[Figura: Antonio JosÈ da Costa]

… muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo,

uma figura culminante da pintura em Portugal; e n„o vos admireis,

leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o,

queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. N„o. Se considero

Antonio JosÈ da Costa um grande artista, n„o quer isto dizer que o

julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle È um

dos grandes artistas da pintura em Portugal.

Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas, grandes como

este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.

N„o quero, nem procuro saber quando e como È que Antonio Costa se fez

pintor: o que tento È provar que elle hoje È, em Portugal, um soberbo

paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me

que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais

demonstrativo seria dizer: vÍde esses quadros de que vos dou a gravura;

vizitae as muitas casas de amadores onde elles est„o espalhados: vizitae

as exposiÁıes onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis

convencidos d'esta verdade indiscutivel.

[Figura: Rosas e Peonias--ANTONIO JOS… da COSTA]

Mas isso È infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com

raras excepÁıes, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo

ter medo que os outros, sÛ de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o

artista mora l· para Bellos Ares, t„o longe do centro da cidade, que,

chegados ao seu atelier, o canÁaÁo seria tanto que n„o vos deixaria vÍr

com a devida attenÁ„o, as lindas coisas que elle vos mostraria.

DescanÁai pois que eu,--dando-vos, a traÁos largos, um relato da obra do

artista--vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.

* * * * *

Para a pintura como para todas as demais manifestaÁıes da Arte È

necessario, em logar primordial, a disposiÁ„o natural do individuo. N„o

basta sÛ a boa vontade. Mas quando esta se alia ·quella ent„o tem-se

realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que ´querer È poderª

n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheÁo eu de muito

boa vontade e que querem chegar a onde v„o os mestres e nunca l· chegam.

E porque? Porque lhe falta a _bossa_ artistica, a disposiÁ„o natural.

[Figura: Outros tempos. (EsboÁo)--ANTONIO JOS… da COSTA]

Ora com Antonio Costa d·-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa

vontade, a intuiÁ„o, a disposiÁ„o natural para a pintura.

… um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar

um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do

assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, nÛs

temos a impress„o completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus

quadros. Dous esboÁos acompanham este trabalho, e ambos demonstram

sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos

quadros, se elles tivessem tido completa execuÁ„o.

No primeiro, que chamarei _Outros tempos_ e que tem o duplo interesse de

ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto,

taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim

Vianna, o professor Jo„o Correia, o pintor Rezende, o Brown, etc., que,

na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a

vÍr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de

porta-machados e seu tambor-mÛr que, descendo pela rua da SovÈla abaixo

viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma

cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a

intuiÁ„o caracteristica do grosso do regimento.

[Figura: No Pinhal. (EsboÁo)--ANTONIO JOS… da COSTA]

No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras

por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno È

empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali È o

mar. Mas nada d'isto est· definido, nada disto est· executado e, no

entanto, nÛs vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria

assim.

Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos È que sÛ È

peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa È-o e em alto

grau.

Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de

saber vÍr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma

cancella, d'um casebre tosco, d'um port„o de Quinta, d'um _nada_, faz um

quadro que È sempre um encanto. Muitos e muitos s„o os seus trabalhos

n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica n„o acha completamente

bons, ha sempre alguma cousa, muito atÈ, que È excelente.

Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos

nossos criticos d'arte de mais cotaÁ„o no Porto, diz o seguinte a

respeito d'um quadro de Antonio Costa, _Portaes do Mar„o_: ´… um pedaÁo

de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensaÁ„o e uma

franca acÁ„o de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo

esta como a que melhor denuncÌa o seu talento por vezes desigual, com

caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos

intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...ª

Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado È a

confirmaÁ„o do que venho dizendo, e como na arte n„o È vulgar andar-se

para traz, mas sim cada vez mais aperfeiÁoar-se, cada vez mais estou na

minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje È um grande

artista.

[Figura: Camelias--ANTONIO JOS… da COSTA]

Mas, Antonio JosÈ da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de

floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos

e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as · tela, em

pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico,

comeÁou de nos dar quadros t„o admiravelmente lindos e frescos como as

flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que

agora È.

Ha no espirito de muita gente que pinta, a crenÁa de que as flores s„o

de facil execuÁ„o e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de

todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a FranÁa e a

Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores,

Santo Deus!!!!

Para pintar flores È necessario ter na paleta alem das tintas fortes e

vivas... um certo quÍ de orvalho, um pouco de sol e uma porÁ„o de ether,

esse fino fluido que nos cerca. Ora isto È que sÛ elle tem, sÛ elle

possue.

[Figura: Junquilhos e Camelias--ANTONIO JOS… da COSTA]

As suas camellias s„o t„o frescas e t„o carnosas que temos a impress„o

de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os

seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas,

parecem sair da tela em contorneaÁıes exoticas, envolvidos no tal ether

em que fallei mais acima.

E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas

como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho,

s„o admiraveis; parece atÈ exalarem, em delicias, o aroma que lhes È t„o

caracteristico.

Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da

perfeiÁ„o...

Ao olhal-as n„o nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um

jardim...

Mas n„o s„o sÛ flores que elle pinta deliciosamente. As fructas, tambem

s„o tratadas por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.

ConheÁo alguns quadros n'este genero que s„o um verdadeiro assombro.

Melhor do que eu porÈm fallam as gravuras publicadas no _Portugal

Artistico_, reproducÁ„o de alguns quadros de Antonio JosÈ da Costa.

E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista

respeitado e querido.

1904.

[Figura: Junto ao Cruzeiro--ANTONIO JOS… da COSTA]

XV

EM FRENTE D'UM CARTAZ!...

CHRONICA DO "MONITOR"

Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de

desculpa.

N„o appareci na ultima semana porque estive com as _maleitas_, um diabo

d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos

do Cyrne, alli para os lados do Reym„o.

Pois essas _maleitas_, vieram atacar-me traiÁoeiramente, como costumam,

e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em _vale

de lenÁoes_ a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.

Unica raz„o porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a

semana passada. Hoje, porÈm, n„o escapam. Estou agora fino como um pÍro

e muito _bravo_.

Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, n„o vos

afflijaes, porque ella È de _cortiÁa_, como era a da _JustiÁa_, para

matar a _CarriÁa_... Ora pois, como a espada È de cortiÁa, n„o corta, o

mais que pode fazer È arrolhar. Adiante.

No alto d'este arrazoado escrevi eu:--_Em frente d'um cartaz_!...--E

sabeis a que cartaz me refiro? N„o sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz

executado por Juli„o Machado para reclame aos festejos carnavalescos no

Porto.

--Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntar„o l· de

si para comsigo os leitores?

--Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo est·

muito longe de ser o que se desejava. Juli„o Machado È, inegavelmente,

um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a

desejar.

N„o quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal

colorido; n„o, o que quer dizer È que n„o era aquillo que se queria.

Que se queria, n„o digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.

Aquillo, È um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma

pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma,

para distribuir nos theatros, ou na rua.

Finura de traÁo, cuidado de desenho, doÁura de cores... tudo alli ha;

mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz:

largueza de traÁo, cÙres fortes e retumbantes, cÙres, que collocadas

pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como

trovıes, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.

[Figura: Cartaz--JULI√O MACHADO]

Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente

portuguez, que infelizmente n„o tem. As figuras passam n'elle como se

fossem a reproduÁ„o d'uma festa em pleno Paris---o _Boi gordo_, por

exemplo.

Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de

_lavradeira_, e l· entre essa multid„o apenas um _capote e lenÁo_, como

que querendo fugir para fÛra do traÁo delimitador do caixilho, talvez

embaÁado de se vÍr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem È.

Os nossos mascaras caracteristicos, os _chechÈs_, os _lavradores_, os

_bebÈs_, os _gallegos_, etc., etc., que davam a nota definida do nosso

carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados

n'aquella _pele-mele_ de mulheres em _maillot_, e mascaras que nÛs n„o

conhecemos.

Mas a culpa n„o foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella

_cocote_ fina e delicada, que o _pierrot_ leva sobre o grande bombo, a

_Folia portugueza_, e enganou-se!... A _Folia portugueza_ n„o È assim

t„o fina e quasi ingenua, È muito mais expressiva, mais valente, de

gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de

_bombons_ ou um _bouquet_ de violetas, com ar de quem n„o est· a estudar

posiÁıes ao espelho, despreoccupadamente...

No meu entender, Juli„o Machado n„o realisou o verdadeiro programma.

Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece:

È vÍr suspensas da m„o da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as

mascaras da Russia e do Jap„o. N„o acho de grande intuiÁ„o artistica

aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes naÁıes se

degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito È que se aproveite esse

caso para que, como n'um ridiculo de troÁa, a _Folia_ atira sobre a

multid„o que se diverte com essas duas grandes figuras.

Mas... adeante; isso nem se discute.

O cartaz ahi est·! … o que o publico pÛde vÍr! Agora, o que o publico

n„o pode vÍr, È o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e È pena,

porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem,

comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.

No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, cÙres

retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.

Depois, a concepÁ„o era genial, d'um bello artista.

No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se

mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu traÁo

caracteristico e definido.

As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de

genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse n„o apparece.

[Figura: Cartaz--MANUEL MONTERROSO]

… que a commiss„o entendeu que devia premiar os dois e mandar executar

sÛ um. E porque seria isto? Que entendedores fÙram os que determinaram

resoluÁ„o t„o exotica? Porque n„o se far· a exposiÁ„o do outro cartaz?

Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer

afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso ter· dado uma prova de

favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de

amesquinhar outro. E isso n„o È de pessoas que dirigem um Club cuja

divisa È--_Pelo Porto_!

Que appareÁa o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal

como elle merece, e para que se n„o fique julgando que o Carnaval ser·

palido e desenchabido como o cartaz de Juli„o Machado.

Notas d'arte · 第 5 / 10 段