Jo„o Vaz, n.^{os} 225 a 237.--Deliciosa toda a obra d'este _cantor_,

pelo pincel, da agua. Inexcedivel artista em marinhas; com que veneraÁ„o

eu o admiro, e ao seu _savoir faire_. Ha tanta verdade em todos os seus

quadros, tanta e tanta luz nas suas telas, que ao contemplal-as como que

se sente o marulhar cadenciado das ondas. _A pesca da sardinha_, 225, È

um quadro primoroso. _O barco algarvio_, 229, navegando em pleno mar,

parece que se vae afastando pouco a pouco de nÛs e que ouvimos o bater,

compassado dos remos na agua. _O moinho do Barredo_, 230, airoso e

lindo, batido do sol--e _O Castello de MontemÛr_, 234, que parece sair

arrogantemente do fundo d'um azul primoroso, s„o obras que encantam.

Alli, ha o que se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica

de quem muito bem conhece a arte de pintar.

Emily Wormsley, n.^o 238.--Um largo quadro de flores, louÁa da India e

metaes. Boa composiÁ„o, bem estudado e bem tocado de cÙres. Foi-lhe

conferida uma menÁ„o honrosa, bem merecida.

Francisco Xara, n.^{os} 239 a 240.--As _Papoulas_ do 239, fizeram-me

lembrar flores de papel de seda feitas por alguma menina da baixa, em

horas d'ocio, entre o crochet e o ch· com torradas, para enfeitar um

chapeu de campo ou algum oratorio de velhota amiga.

ESCULPTURA

JosÈ Simıes d'Almeida (Sobrinho), n.^o 241.--_Modelo para uma medalha_,

bem executado.

Pedro Cartoccio, n.^{os} 242 e 243.--Fez-me especial attenÁ„o o 242,

_Juiz de PhynÈ_. Um ar malicioso de juiz estecta, definidamente traÁado,

nas suas bem marcadas linhas, È uma bella cabeÁa lanÁada com energia e

rigorosidade.

Antonio Teixeira Lopes, n.^{os} 244 a 258.--… sem discuss„o Teixeira

Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez. … talvez o unico que

pÛde affirmar ao paiz e ao estrangeiro, que sÛ elle tem o poder de fazer

resaltar do marmore ou do bronze, as suas figuras, t„o definidamente

perfeitas, que se nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos

seria fazer a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos

impıem · admiraÁ„o, do mesmo modo. No entanto, magestosamente solemne,

na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu pensamento est· a

figura, da _Historia_, 252, para o tumulo de Oliveira Martins. E o 244,

_Santo Izidoro_, n'uma serenidade de justo, esculpido com um carinho

doce; ao olhal-o sente-se como que, uma unÁ„o sublime e casta que nos

convida · oraÁ„o. … um trabalho soberbo, as m„os, o pescoÁo, a face, as

roupagens, tudo emfim, È feito com um rigoroso saber. E os _Velhos_, 245

e a _Flora_, 246 e o _BÈbÈ_, 247, e todos os outros trabalhos?

Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes È inegavelmente o primeiro

esculptor portuguez.

Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.^o 259.--Uma _CabeÁa de

estudo_, bem feita.

Jorge Pereira, n.^o 260.--_Um typo de marinheiro_, traÁado largamente,

sem detalhes de meticulosidade; È na verdade uma bella cabeÁa, bem

estudada e melhor executada.

ARCHITECTURA

N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente leigo. No entanto

l· vae.

[Figura: Olaia em flor--CARLOS REIS]

Antonio Couto n.^o 261.--_Casino_, preferia vel-o construido, pois

n'esse caso melhor o gosaria.

Raul Lino, n.^{os} 262 e 263.--Gostei do 262, _EsboÁo para a casa em

Azeit„o_. Talvez, pela idÈa do conforto que se deve sentir n'aquella

casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario de talha e bilros.

Tertuliano Marques, n.^{os} 264 e 265.--_Projecto do mausoleu a Almeida

Garrett_. N„o desgostei, acho-o bem estudado.

JosÈ Alexandre Soares, n.^{os} 266 e 267.--Achei airosa e bem lanÁada a

fachada para o _Club militar_. Deveria depois de feito ficar uma obra

digna do ser admirada aquella _PraÁa Publica_.

AGUARELLAS

… uma das mais interessantes manifestaÁıes da arte pinctural, este

genero de pintura, difficil na execuÁ„o, sÛ se admitte quando o desenho

È muito correcto e a tinta È dada em pinceladas certas, frescas e

vivas... por isso, o terem-me agradado pouco os trabalhos expostos. A

ver:

Francisco A. Moreira de Almeida, n^{os} 268 a 271.--Francamente,

francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.

Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.^{os} 272 a 278.--… a

especialidade d'este artista a pintura de costumes militares e com

franqueza, tem-nos, primorosos de execuÁ„o, o que n„o quer dizer que

tambem os n„o tenha fracos. N'este certamen agradaram-me o 273,

_Official do regimento do Maranh„o_, feito com muito ar e muito boa luz,

destacando soberbamente no seu arrogante _aplomb_, e o 274, _Official de

estado maior_, tambem bem trabalhado.

Mademoiselle Helena Eisembart, n.^o 279.--_Fructas_. Uns cachos de uvas

com a sua folhagem, boa aguarella, muito fresca, muito leve,

transparente.

JosÈ Souza Moura Gir„o, n.^{os} 280 a 285.--C· temos outra vez o grande

artista das aves. N'esta secÁ„o brilha elle deliciosamente. As suas

aguarellas correspondem precisamente ·s condiÁıes exigidas para a boa

aguarella, cÙres vivas, transparencia, e frescura; e tudo isso tem as

suas. Notaveis todas as dos n.^{os} 280, 281, 282, 284, 285 mas

sobretudo o _Fausto_ e _Margarida_, 280, _Entrando_, 282, e _Cantando_,

285, que a meu ver s„o magistralmente feitas.

Jorge Ianz, n.^{os} 286 a 295.--Outro aguarelista, que nos enche, com a

sua cÙr fulgurante. S„o bem manchadas as suas aguarellas, fazendo-me

lembrar, n„o sei porquÍ, as do fallecido Manuel San-Rom„o, o artista

mais mimoso, que eu tenho conhecido, como manchista, Ianz e

inegavelmente um artista de merecimento. S„o muito bons para mim, os

seus 286, em _Toscana_, 288, _Impressıes de viagem_, 292, 293, 294, tres

bellas marinhas, muito bem tratadas, o 295, _Descarga no Tejo_, È

admiravel de execuÁ„o; a arcada que se vÍ ao fundo do quadro poderia,

com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.

Alfredo de Moraes, n.^{os} 296 e 297.--_Costumes da Judea_. N„o quero

dizer que estejam maus, mas fizeram-me lembrar, Deus me perdÙe, (Deus e

o artista) os homens das tamaras.

[Figura: Entre o almoÁo e o jantar--MARQUES d'OLIVEIRA]

Roque Gameiro, n.^o 298.--_Retrato d'El-rei_. Aguarella de difficil

execuÁ„o, mas superiormente tratada, boa luz, bella cÙr, roupagem

magnifica, tom de rosto bom. As luvas s„o uma perfeita illus„o. … um bom

trabalho.

DESENHO

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 299.--_Um estudo_, regularmente traÁado.

Jorge Porphirio, n.^o 300.--_Jardim botanico_. Achei-o palmeirento de

mais. Regular.

Candido da Silva Junior, n.^o 301.--_Um quadrito com cinco cabeÁas_. SÛ

me agradaram as duas feitas a crayon azul.

PASTEL

N„o imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito do pastel de

fructa, ou de crÈme, do Baltresqui, n„o, vou fallar do systema de pintar

a _pastel_--ou por outra, a crayon de cÙres, e que por signal n„o È l·

das coisas mais faceis, para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este

genero uma das coisas mais necessarias È saber desenho. Que afinal para

se pintar bem o que È preciso È desenhar muito e bem.

D. Luiza Almedina, n.^o 302.--_Retrato de sua irm„ Ilda_. N'este

trabalho ha varios defeitos, saltando porÈm · vista a differenÁa da cÙr

entre o rosto, e o pescoÁo e collo, que muito prejudica o effeito do

quadro.

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 303.--_Estudo_. Uma velhinha. Regularmente

empastado.

Condessa Alto Mearim, n.^o 304.--_Estudo_. Este quadro a meu vÍr, devia

estar no catalogo na secÁ„o dos desenhos. … bem feito, vÍ-se que esta

senhora n„o descura a base principal de pintura.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^o 305.--_Um estudo_. As mesmas

consideraÁıes expandidas para o n.^o 304.

Leopoldo Batistini, n.^o 306.--_CabeÁa de estudo_. Magnifica de

empastamento doce e finura de traÁo, penna È que encha t„o por completo

o quadro. Um pouco mais de margem e seria para mim muito mais agradavel

· vista.

D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.^o 307.--_Retrato de Cupertino

Ribeiro_. Trabalho bem feito.

JosÈ de Brito, n.^{os} 308 e 309.--Superiormente executado o n.^o

309.--_O frade_.

Frederico Cezar Camara Leme, n.^{os} 310 a 312.--Recortado de mais o

312, _Ovelhas_. D·-me a impress„o d'estas ovelhas de cart„o e algod„o em

rama, tendo ao fundo um vulc„o de theatro, irrompendo bravamente e pondo

uma luz forte em todo o ambiente.

[Figura: A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira do

Zezere--ALFREDO KEIL]

Bemvindo Ceia, n.^o 313.--_Um velho operario_, regularmente tocado,

_comme ci, comme Áa_.

Jo„o G. Mattoso da Fonseca, n.^{os} 314 a 320.--Destacarei d'este

artista o 314. _Retrato de D. M. E. F_., que tem o cabello e a pelliÁa

magnificamente tratado. _Ninete_, 315 regularmente feito--especialmente

o cabello, e pluma do chapeu. N„o gostei do 316, _A FÈ_, porque achei a

figura com muito pouca fÈ, e o 418, _Ao espelho_, em que noto um

determinado abuzo de branco, na cara.

Adriano de Sousa n.^o 321.--_Ave Maria_. A carnaÁ„o d'esta figura È

muito bem tratada, aveludada e macia.

JosÈ MalhÙa, n.^o 322.--_Retrato de mademoiselle C. R_. … simplesmente

delicioso este quadro. Como desenho, como technica de execuÁ„o, como

posiÁ„o de modelo, como tudo emfim, È sem discutir esse o primeiro

trabalho a pastel da exposiÁ„o.

Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum me deslumbrou

como este.

D. Antonio Lobo da Silveira, n.^o 328.--_Um estudo_, mau.

Viscondessa de Sistelo, n.^{os} 324 a 325.--N„o tive o gosto de

vislumbrar estes trabalhos na exposiÁ„o ou n„o estavam l·, ou

passaram-me despercebidos, por isso nada direi d'elles.

GRAVURA

JosÈ Simıes d'Almeida (Sobrinho), n.^o 236.--_Medalha_.--Gostei d'ella.

CARICATURA

Aqui È que È tremer e tremer como varas verdes, porque, se estes dois

pandegos me descobrem, ainda tenho a sorte dos caricaturados expostos.

Eu, se tivesse pretensıes · popularidade, bem sei o que fazia: desatava

a dizer mal dos dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi

em qualquer jornal burlesco e eu passava · gloria entre as gargalhadas

estridulas do publico e a arrelia das pessoas que me querem bem. Porque

eu, aqui para nÛs, dava uma boa caricatura... Mas n„o direi mal dos

homens, nem bem... direi sÛ o que sinto... que o primeiro È filho de

peixe e sabe nadar e o segundo tambem nada menos mal.

Perfilar, que vae passar a patrulha da troÁa e do chiste.

Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.^o 387.--Soberbas caricaturas, que

pena È, n„o virem mais para o publico, n'esse _Album de Glorias_, que

t„o estimado È pelos leitores. Aquelle _Chaby_ est· fulgurantissimo de

graÁa.

Francisco ValenÁas, n.^o 328.--_Typos_, todos elles bons, mas superior o

_Ricardo Jorge_, fazendo-me saltar o riso, naturalmente, expontaneo.

ARTE APPLICADA

Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo È o peor de esfolar, como

muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins. E de facto assim È...

eis um assumpto em que eu me vejo assaz embaraÁado--arte applicada!...

eis uma coisa onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a

pintura dedicada de bibelots adoraveis para _boudoirs_ de luxo. N'esta

secÁ„o primam com a sua bagagem artistica todas as senhoras que expıem.

Umas mais brilhantemente que outras. N„o vos massarei pois com citaÁıes

de numeros nem de nomes.

[Figura: O rapto de Ganimedes--FERNANDES de S¡]

Fallarei no emtanto, do n.^o 336, _Goblin_, do Jorge Ianz, que na

verdade È uma das imitaÁıes mais perfeitas que temos visto. Bem estudado

nas cÙres, que d„o a impress„o nitida de estarmos em frente de um

verdadeiro tecido; sÛ achamos um poucochinho puxado o preÁo...

Um conto de rÈis È dinheiro!

A _Moldura-Luiz XIV_, n.^o 337, de JosÈ Emygdio Maior, È bem esculpida,

correcta no estylo e no desenho.

Tambem gostamos do n.^o 338, _Modelo para uma floreira_, È muito

elegante de fÛrma e est· feita com certo mimo. Como arte nova È

acceitavel.

Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque exposto por D.

Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto. Aquella senhora vem

de ha muito afirmando o seu grande gosto artistico e o seu forte

temperamento creador.

Que isso n„o nos admira, mal fora que assim n„o succedesse, pois ella È

uma grande artista. Todos os seus, s„o verdadeiros artistas, cada qual

no seu genero. Bordallo, o incomparavel e inimitavel caricaturista;

Columbano, o soberbo pintor; Manuel Gustavo, correcto seguidor dos

passos de seu pae, vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na

correcÁ„o de caricatura.

Mas n„o È d'elles que eu fallo, È da rendilheira sublime que consegue

que as operarias de Peniche, faÁam rendas t„o finas e t„o delicadas, que

abertamente se podem pÙr ao pÈ d'essas custosas rendas de Bruxellas e de

AllenÁon.

Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente j·

conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda hoje ao escrever

isto, um lenÁo formosissimo executado por D. Maria Augusta, com peixes e

mariscos, a sua muita admiraÁ„o pelo seu grande talento.

Notaveis tambem as _Fivellas_ n.^{os} 342 e 343, de Jo„o da Silva, que

achei bem executadas, n„o devendo envergonhar-se ao pÈ, das saidas de

cinzeladores, como Jerdelet.

Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos, que È, como quem

diz, em _trez folhas_, d'um _paravent_, pintado por Pigasson Ricot, que,

na verdade, n„o est· feio. Est„o bem copiadas as figuras e os effeitos

tirados, n„o s„o maus. Acho-lhes o mesmo defeito do Goblin de Ianz: È

muito caro... para amadores.

Sobre o concurso para a capa do catalogo, nada tenho que dizer, pois

isso era unica e exclusivamente da competencia da commiss„o da

exposiÁ„o, que deu o primeiro premio ao trabalho de Francisco dos Santos

e o segundo a Tertuliano Marques.

E atÈ que em fim, acabou a massada para o benevolo leitor.

Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido tanto a

_massa_, como se costuma dizer, mas desagravel me seria, ter promettido

falar de todos e deixar passar em claro algum d'elles.

… provavel que o publico e, muito especialmente, os artistas, n„o tenham

gostada minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades, mas eu sou

assim; o que tenho c· dentro È para se dizer, bem ou mal, segundo posso

e sei. Mas, se esta minha despretenciosa prosa lhe agradou, de vez em

quando, c· apparecerei com noticias d'arte, l· do norte, do Porto,

d'essa aldeia trabalhadora e honesta, para onde vou partir, pois j·

tenho saudades d'ella...

MarÁo 1903.

P. S.--As gravuras d'este e d'outros artigos, nem todas s„o copias dos

quadros notados nos mesmos, mas, na impossibilidade de adquirir

photographias d'elles, usei de provas de quadros dos mesmos artistas,

dando assim a conhecer ao leitor trabalhos de artistas de merecimento e

valor.

[Figura: Guarda arabe--Pastel de S. M. EL-REI]

VIII

PINTORES PORTUENSES

[+] MANUEL SAN ROM√O

… com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar

d'um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.

Quando elle se finou, sob a dolorosa impress„o que me deixou a sua

morte, n„o me atrevi a vir a publico, depor na sua campa o meu ramilhete

de flores, fazendo a apologia do seu saber e das suas largas aptidıes

para a pintura. Esperei esse grande acto de justiÁa dos outros, dos que

ent„o eram os criticos d'arte da nossa terra.

[Figura: Manuel San Rom„o]

Mas, nenhum, nem um sÛ, compriu com esse dever e Manuel San Rom„o desceu

· mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha

perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos

seus amantes.

N„o me admirou que a critica artistica da nossa terra se esquecesse de

San Rom„o, por isso que, o querido morto, n„o era d'aquelles que se

expunham · admiraÁ„o de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas,

dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos

_clubs_, exempto de _coteries_.

Era talvez um misantropo. Talvez. Mas, o que inquestionavelmente elle

sempre foi, era um grande sabedor de cousas d'arte.

Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um

verdadeiro _gentleman_; cavaqueador brilhante e fluente fallando d'Arte

com uma tal elevaÁ„o e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um t„o

grande saber que, n'essas occasiıes, fazia-nos lembrar um douto

professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial

e authorisada competencia.

Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil problemas intrincados e

complexos da Arte na sua mais ampla acepÁ„o, convenciamo-nos de que quem

fallava n„o era um _dilettanti_ da pintura, mas um critico justo e

sabedor, um verdadeiro homem do _metier_.

[Figura: Na Espectativa--Aguarella de M. SAN ROM√O]

Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier

do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que me veio este prurido de

fallar em artistas e coisas d'arte...

Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes que passei, em

aquelle atelier pequenino e confortavel como _gabinete_ d'uma delicada

dama, replecto d'uma suavidade de luz e n'uma t„o artistica disposiÁ„o e

t„o cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...

E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um

respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San

Rom„o era um aguarelista _hors ligne_.

Para mim, o querido extincto foi um dos primeiros aguarellistas

portuguezes; a sua maneira especial de manchar ainda n„o foi suplantada

por mais ninguem. Nem mesmo o grande pintor Casanova, que foi professor

de San Rom„o, e que È inegavelmente um mestre na aguarella, nunca

conseguiu dar aos seus trabalhos aquelle tom especial de mancha que era

uma das grandes superioridades de Manuel San Rom„o. E isto fazia-o elle

naturalmente, instintivamente... Aquelle modo era o seu, d'ahi talvez a

impossibilidade de ser igualado.

Depois, San Rom„o dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal

transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram

como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.

E como elle desenhava!... Attestavam bem o seu estudo do desenho as

pastas carregadas de trabalhos feitos por elle... Muitos d'esses

desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaÁos dum grande poema

d'Arte...

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROM√O]

Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor

pÛde verificar que as affirmaÁıes que fazemos s„o, por todos os motivos

muito justas e muito verdadeiras.

O _fidalgo antigo_ È uma soberba aguarella d'um vigor de execuÁ„o e

d'uma correcÁ„o inexcedivel de desenho, e o quadro _No directorio_, e a

_Paisagem de Santa Maria de Boure_, e esses pequenos trabalhos, essas

lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos

esses desenhos n„o ser„o manifestaÁıes seguras do seu talento e do seu

valor?!... S„o! ninguem o pode duvidar...

Mas, Manuel San Rom„o n„o era t„o conhecido do publico como devera ser,

por isso que elle n„o vendia os seus quadros, dava-os. Foi ao menos

feliz em n„o necessitar de negociar com o seu trabalho... Vivendo na

abastanÁa n„o fazia da Arte um negocio, fazia d'ella unicamente um culto

intenso e sincero.

D'ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas

espalhados por um meio restrito de amigos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROM√O]

Manuel San Rom„o n„o era exclusivamente um aguarellista, mas tambem um

terrivel _bric-‡-braquista_. Collecionava tudo quanto fosse arte,

gravuras, quadros, mobiliario, faianÁas e, em especial, livros

artisticos.

Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras cousas,

formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas

abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados

pelos mais distintos mestres de pintura. No seu atelier, alli, È que

elle reunia o que mais fundamente lhe fallava · sua alma de artista, as

faianÁas mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as

revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma _pele mele_

deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do

gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno d'uma capelinha em festa.

Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais

deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais

insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferenÁa

publica para a expÙr · veneraÁ„o e respeito de todos aquelles que vÍem

nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.

1904.

[Figura: Uma sevilhana--Aguarella de M. SAN ROM√O]

IX

A MULHER ARTISTA

Ha dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma conversa larga e em que

se debateram varios assumptos, um houve, que especialmente me prendeu a

attenÁ„o. Discutia-se Arte em geral, e um dos homens, cavaqueador

_enragÈ_ emerito e apologista da _n„o_ emancipaÁ„o da mulher, desfechou

abruptamente esta phrase: ´N„o posso admittir que a mulher seja uma

esculptora ou uma pintoraª.

[Figura: S. M. a Rainha]

Escusado ser· dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um

_duche_ frio e forte. ApÛs, porem o choque, houve, como era de esperar,

a reacÁ„o, e, como poderam, os _paladinos_ da sala, debateram e

rebateram a estranha declaraÁ„o, com factos, n'uma larga demonstraÁ„o de

erudiÁ„o e talento.

Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasi„o para poder dizer

serenamente, sem precipitaÁ„o, as consideraÁıes que tinha a fazer sobre

tal assumpto.

E hoje, perfeitamente · vontade, sem pressıes de especie alguma nem

necessidades de galantear, vou dizer o que penso da mulher artista, e

como eu teria desarmado o gracioso se logo me tivesse permittido

dizer-lhe alguma coisa em resposta ao seu repto.

A mulher È um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o

lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual. … como nenhum

outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina

sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem,

deixa-se assenhorar das impressıes, e o seu coraÁ„o, muito mais

passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma

doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.

Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas

psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.

[Figura: D. Aurelia de Sousa]

Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve

facilmente adquirir elementos magnificos para execuÁıes de vulto, e de

obras que venham tocadas d'uma suave poesia.

Depois, se a mulher tem o direito de danÁar e de cantar, e se lhe

admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o

direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais

longe mesmo, escrever livros, cujo encanto ser· deliciosamente bom? Ora

ella canta e danÁa desde a origem do mundo e borda desde as eras mais

remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a nÛs, que

caminhamos para o maximo da perfeiÁ„o, de evitar que ella nos dÍ as

manifestaÁıes mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento

singular? Impossivel.

[Figura: Estudo de creanÁa--Aguarella de S. M. a RAINHA]

Isto seria verdadeiramente barbaro!...

Para que ella cante ou dance, sÛ se lhe exige que tenha talento vocal ou

choreographico, tal qual o que se exige ao homem para os mesmos fins. E,

se tal succede e a logica existe, qual a raz„o porque durante tanto

tempo se puzeram entraves ao franco estudo da pintura, da esculptura e

da litteratura, ·s mulheres?

Bem sei que o canto, a danÁa e a musica, eram considerados por todos,

como dotes necessarios e sem os quaes uma senhora n„o podia briosamente

frequentar a sociedade.

Menina que n„o danÁasse, em noite de baile, era como flÙr sem aroma, que

se ficava estiolando em canteiro, d'onde tinham sido colhidas todas as

olorosas rozas e violetas. Havia pois a necessidade de se aprender a

danÁar, e todas tentavam ser eximias no _minuete_, na _gavota_, na

_pavana_, na _valsa_, na _polka_, e no _pas-de-quatre_.

[Figura: Tia Bertha--D. BRANCA ASSIS]

Notas d'arte · 第 3 / 10 段