Sou sincero, apenas; nunca me embrenhei nos escaninhos da politica e,

por isso, n„o conheÁo a intriga; nunca calquei os tapetes dos palacios

dos nobres e da aristocracia e, por isso, n„o conheÁo a bajulaÁ„o; n„o

me tenho accorrentado ao jornalismo militante e, por isso, n„o conheÁo

as conveniencias de redacÁ„o. Sou, ainda, mais independente do que o

chefe do partido novo, que n„o quer para seus soldados sen„o os que

est„o isentos do peccado politico. Sou, emfim, como os homens do norte;

duro como um sobreiro, ingenuo como uma creanÁa... de bigode, sincero

como um convicto e delicado como uma dama.

[Figura: Paisagem (pastel)--EL-REI]

E feita a minha apresentaÁ„o, ahi vae o que eu lhe queria dizer.

Fui, levado por intensa curiosidade, visitar a exposiÁ„o da sociedade

Nacional de Bellas-Artes e dei o meu tempo por muito bem empregado. E

dei por bem empregadas as tres horas que l· passei, porque morro por

coisas d'arte.

A Arte, a grande Arte, cuja definiÁ„o perfeita, para mim, È um mytho,

atrae-me como uma feiticeira deslumbrante e maravilhosa. Mas a Arte

pinctural e esculptural, essa, extasia-me e n„o È para extranhar o

vÍr-me parado em frente d'um bom quadro ou d'uma bella esculptura, tal

qual como em frente d'uma mulher formosa. Mas, deixemos estas divagaÁıes

e entremos no assumpto da minha carta. Demais, que lhe importa a si que

eu goste ou desgoste, se o meu caro nem sequer me conhece de nome.

Antes, porÈm, de continuar, ou por outra, de comeÁar, desculpe esta

franqueza: as aguas de Lisboa s„o m·s e pozeram-me o figado n'um pessimo

estado, o que deu em resultado eu ter tido um ligeiro extravasamento de

bilis, que pode ser se manifeste, ainda que ao de leve, no decorrer

desta minha despretenciosa carta.

[Figura: CabeÁa de estudo--ERNESTO CONDEIXA]

Uf!... que comeÁo a massar, n„o acha? Mas que quer, eu sou assim, o mal

È dar-me corda, h„o-de aturar-me depois. E posto isto, l· vae.

Fui vÍr a exposiÁ„o e fui sem a preoccupaÁ„o de critico d'arte, unica e

exclusivamente como amador, como _dilletanti_, e como tal È que escrevo.

Que me perdÙem os _artistas_, se nada fÙr, a minha apreciaÁ„o aos seus

trabalhos, que me tolerem os _criticos de arte_ se a minha incompetente

opini„o brigar com as regras do _metier_, e que se ria o _publico_ se

n„o gostar da minha prosa e o meu caro redactor se entender que a

pimenta È forte, ou o guizado est· mal condimentado, j· sabe o que tem a

fazer, È, cesto dos papeis inuteis com elle.

[Figura: Barbeiro d'Aldeia--JOS… MALHOA]

ComeÁarei tal qual como indica o catalogo, apreciando, sob a impress„o

perfeitamente pessoal d'um provinciano, os trabalhos expostos, pela sua

ordem numerica.

Primeiro est„o os de S. M. Este artista-amador est· l· t„o alto que nada

poderei dizer dos seus trabalhos. Unicamente o que me agradou mais foi o

_No Sado--processo Raffaelli_, se bem que j· tive occasi„o de vÍr

trabalhos de muito maior valor executados pelo mesmo monarcha, que È

inegavelmente um artista de temperamento definido.

E agora sem respeito nem consideraÁ„o pelos artistas e quiÁ· amadores,

que eu n„o conheÁo, ahi vae a minha opini„o sincera.

QUADROS A OLEO

D. Bertha Alcantara, n.^{os} 1 a 4--_Natureza morta e flores_--Natureza

morta e t„o morta que d· vontade de... decorar uma cosinha com

ella.--Amores perfeitos, imperfeitos.--Um agrupamento de lyrios e

mimosas, os lyrios bastante densos, n'um demasiado ajuntamento, que

parece esmagarem-se uns aos outros.

D. Luisa Almedina, n.^o 5--Uns cravos sem cheiro, desconsolados...

Almeida e Silva, n.^{os} 6 a 15. Pinturas varias, assaz recortadas e

lambidas, com ar pretencioso de oleographias caras; este artista parece

andar para traz, quem pintou _O Viatico na aldeia_, _Um critico d'arte_,

_CabeÁa de cabrito_, (que eu possuo) tinha obrigaÁ„o de se apresentar

melhor.

Tem n'esta exposiÁ„o um quadro--_O abat-jour japonez_, que È

verdadeiramente uma japonesice de caixa de ch·.

No entanto recommenda-se o seu quadro--_Tarde calma de junho_, que est·,

a meu vÍr, bem, e È o unico que se salva de todo aquelle mont„o de arte

de recorte...

[Figura: Paisagem--MARQUES d'OLIVEIRA]

Condessa d'Alto Mearim, n.^{os} 17 a 19. Tem merecimento, e muito, esta

amadora--_A Nossa Senhora do Refugio_, bem lanÁada de linhas, largas

pinceladas dadas sem feminismo, talvez um pouco coquete, na express„o,

para Nossa Senhora, no entanto um bello quadro. O n.^o 17 parece-me

estar trocado, pois n„o È crivel que s. ex.^a pintasse um retrato de F.

V. n'um velho em traje de fantasia; mas se o pintou, diremos que o

trabalho È bom, a figura est· bem estudada, boa carnaÁ„o, boas

roupagens, m„os bem trabalhadas, um bom quadro, emfim.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^{os} 19 e 20, o _Five Û clock tea_ È um

bom quadro traÁado amplamente, com boa luz e muita express„o da figura,

talvez um pouco de branco a mais na cara da dama, que deve ser da

primeira sociedade e que naturalmente usa muito pÛ de _veloutine_, e

d'ahi o tal branco!...

Viscondessa de Ameiro, n.^o 11. _Arvoredo_--eu

chamar-lhe-ia--_Alvoredo_. Est· l· muito no alto, t„o alto, que se perde

de vista. Lembra uma travessa de hortaliÁa picada para gallinhas.

[Figura: Mendiga--CARLOS REIS]

D. Virginia Avellar, n.^o 22. _Supplica_.--Uma deliciosa irm„ da

Caridade, estudada com carinho e amor, tal quanto merecia aquelle lindo

rosto, que um bello sol banhava n'uma suavissima emoÁ„o de castidade

e... affecto.

Merecia, a meu ver, uma menÁ„o honrosa, mas... foi para outros...

D. Laura Bandeira, n.^o 23. _D. Ignez de Castro_, esguia e airosa, um

pouco theatral, regularmente pintada. O galgo que a acompanha, parece

feito de _grafite_, e se a D. Ignez continua, por muito tempo, com a m„o

esquerda n'aquella posiÁ„o, acaba por cegar o pobre cachorro, pois a

metter-lhe um dedo pelo olho dentro, aquillo d· pelo menos uma

conjunctivite...

Leopoldo Battistini, n.^{os} 24 a 27--dois estudos de velhos, um d'elles

passavel--o 25. _Avarento_, horrido de luz e de express„o, parece um

_paranoÌco_ fugido ao tratamento do dr. Bombarda. O 27--_Barqueiros do

Mondego_. Extraordinario. Parece incrivel que se podesse metter uma

barcaÁa d'aquellas dentro d'um quadro de 1,26 por 1,87. Effeitos de luz,

detestaveis. A mulher ou tem o peito em fogo ou quer dar a comer

candeias de cebo ardendo, · pobre creanÁa que parece ter ao collo.

D. Emilia A. S. Braga, n.^{os} 28 a 31--_A Maria de S. Jo„o_ (28) È uma

velhota com cara de boa pessoa, regularmente pintada; acho-lhe as m„os,

o rosto e o cabello bem estudados e com boa cÙr. _A oraÁ„o_ (29)

_Estudo_ (30) s„o dois bons quadros, traÁados com superior criterio,

pincelados largamente, com soberbas expressıes, luz boa, cÙr magnifica;

no n.^o 30 notamos ainda o bem executado do collo d'uma linda mulher.

JosÈ de Brito, n.^o 32--_A Vaga_.--… j· meu conhecido este quadro, d'um

pintor portuense, que tem o seu nome ligado a obras de muito

merecimento. _A Vaga_, na sua idÈa symbolica n„o me agrada, mas na sua

execuÁ„o, como estudo do n˙ È superior e irreprehensivelmente feito; no

bem trabalhado do desenho e no bem dado da cÙr, sente-se a curva

avelludada e macia d'uma mulher nova e de carnes duras. … um bom quadro.

Arthur A. Cardoso, n.^{os} 33 e 34--Dois retratos.--O n.^o 33 bem feito;

que para mim, desde que s„o retratos, o que eu quero È que elles se

pareÁam, quanto ao mais n„o me importa.

[Figura: Marinha--JO√O VAZ]

Jo„o Luiz Cardoso, n.^{os} 35 a 42--Especialidades em _Arredores_.

Arredores de Aveiro e de Thomar. Notarei como dignos de menÁ„o o n.^o

39, um bello poente, e os n.^{os} 40, 41, e 42, onde a luz È bella,

distribuida com methodo e muita uniformidade.

Antonio Carneiro Junior, n.^{os} 43 a 45.--Este artista È um

melancolico, um triste, e se nos quadros expostos o n„o mostra È que se

limitou a expÙr retratos. O que dizer d'esses retratos, quando o jury j·

disse tudo, dando ao seu quadro--n.^o 43, _Retrato de Teixeira

Lopes_--uma medalha. … innegavelmente um trabalho magnifico. O retrato

n.^o 45, de uma senhora, tambem È muito bom.

Bernardino Trindade Chagas, n.^{os} 46 e 47.--Uma paisagem e um

retrato.--Ataca dois generos differentes com a mesma galhardia e o mesmo

_savoir-faire_. O retrato teve uma menÁ„o honrosa.--A paisagem È boa:

Uma mulher sobre um burrico, vae, n'um chouto doce, atravez um caminho

de aldeia, para a capellinha, em Tavira. Boa luz, boa cor, destacando no

tom amarello saibroso da estrada as figuritas, que o artista estudou com

cuidado.

Jorge CollaÁo, n.^{os} 48 a 50.--Este artista È o collaborador artistico

do _Seculo Illustrado_, julgo eu, e por isso preciso ter cuidado com

elle para n„o ter o desgosto de succeder · minha despretenciosa critica

o que succedeu ao monumento de Sousa Martins, feito pelo Queiroz

Ribeiro. Por isso... fico calado... Mas n„o fico... ahi vae o que eu

penso.

Na _Partida interrompida_, que teve a 2.^a medalha, acho-lhe o pÈ

esquerdo, que est· no plano anterior, um tanto mais delgado do que o pÈ

direito, que est· n'um 2.^o plano, um pouco mais atraz e bastante cheio.

O _Nos campos de Arzilla_, È um largo quadro feito com todo o interesse

e correcÁ„o de quem sabe tratar com pinceis. Uma bella tela cheia de cor

e de um largo poder decorativo.

_Guarda negra_. Talvez n„o fosse peor ter adelgaÁado um pouco as m„os ao

cavallo, que avulta no 1.^o plano do quadro. Os cavallos arabes s„o, por

via de regra, d'uma gracilidade especial de m„os, que caracterisa bem o

seu genio nervoso e a ligeireza do seu galopar.

Ernesto Condeixa, n.^{os} 51 a 56.--Este È tambem um artista cuja

reputaÁ„o est· feita. Pinta com muita consciencia, muita pratica e

bastante saber. Notarei, para mim como melhor, o 52, em que ha um bello

effeito de sol sobre a agua do mar. O 53, delicioso _Cantinho da praia

de PaÁo d'Arcos_, e o 56, um soberbo poente nostalgico e poetico na

_Ribeira de AlgÈs_.

Candido da Cunha, n.^{os} 57 a 61.--Poeta sentimental da pintura, lanÁa

nos seus quadros as suas impressıes com um sentimento desusado; n„o È o

pintor do grande sol e da cÙr que retine como toques de clarim, n„o;

repassa-os de uma uncÁ„o suavemente triste, que encanta. … inegavelmente

um quadro de mestre o seu _Hora nostalgica_, 57. Os outros s„o pequenas

manchas, feitas com muita correcÁ„o.

[Figura: Vaga--JOS… de BRITO]

Mademoiselle Helene Eisembard, n.^{os} 62 e 63.--_Portrait ‡ huile_, 62,

regular, sem espantar. _Fleurs_, 63. Chrisantemos, uma chinesice a oleo,

que se supporta... como chinesice.

Lizzie Escolme, n.^{os} 64 a 70.--Alguns quadros de flores e paisagens.

Sem interesse para mim, a n„o ser o n.^o 65, _Primeroses e violettes_, e

o n.^o 66, _Lil·s_, que s„o regulares, com alguma frescura. O resto...

n„o vale nada.

Duarte Faria e Maia, n.^o 71.--Uma _miniatura_ lambidita... como

retrato...

C. Gomes Fernandes, n.^{os} 72 a 78.--Tem-se desenvolvido este amador,

desde que se lembrou de querer ser artista; progride innegavelmente,

demais para quem viu, como eu, os seus ultimos trabalhos no Porto; pasma

do modo como est· pintado o seu quadro n.^o 72, _Margem do Tejo_. Bem

tocado de luz, regularmente pincelado, com uma certa largueza e um doce

tom, que nos encanta. … tambem interessante o seu _Caminho_ (_Granja_),

n.^o 78. Os outros s„o quadros de amador com pretensıes...

JosÈ S. Moura Gir„o, n.^{os} 79 a 87.--SÛ podemos admittir com a rubrica

d'este bom artista os quadros n.^{os} 84 a 87, onde ha gallos e

gallinhas soberbamente pintados, porque, ainda atÈ hoje n„o encontr·mos

ninguem, que tenha na sua palleta cores t„o brilhantes e t„o

accentuadamente definidas, para pintar a plumagem retumbante dos gallos.

S„o estes trabalhos de molde a fazer impor · admiraÁ„o do publico um

artista como Gir„o. Mas... pena foi que elle se n„o limitasse a isso e

tentasse pintar animaes de pello... Os seus gatos (n.^{os} 81 a 84), s„o

horrorosos; parecem, bem como os coelhos (n.^o 79), _biblots_ de algod„o

em rama, para creanÁas; d'estes que se vendem no Benarde, no Cardoso da

rua Nova do Carmo... Fique-se com esta snr. Gir„o, que eu, infelizmente,

n„o conheÁo. Nunca pinte sen„o aves, se n„o quer perder o grande nome

que tem, como primoroso artista que È.

D. Isabel Laver, n.^{os} 88 a 93.--O quadro n.^o 88, _CabeÁa de velho_,

fez-nos parar algum tempo na sua frente e, ao fixal-a, saltou-nos,

instinctivamente, da mente, aquelle pedaÁo de poesia de Caldeira, _A

Mosca_:

.............................o maldito do velho,

Da cor d'um rabanete, ou ainda mais vermelho...

Porque de facto o tal velhote parece esculpido n'um presunto de

Lamego... O n.^o 90, _Rosas_, duras e compactas como se fossem talhadas

em porcelana da Vista Alegre, pousadas n'uma jarra d'um detestavel

effeito e cor.

_O ch·_, (91). Um bule de prata oxidado e sujo, doce de dezoito vintens

o _arratel_, para velhotas coscovilheiras, que vieram atÈ nÛs dos tempos

dos francezes.

JosÈ Leite, n.^o 94.--Um bello retrato de mulher nova, feito com

mestria, e dando a conhecer que o auctor tem disposiÁ„o e sabe do

_metier_. Foi-lhe conferida uma menÁ„o honrosa, uma das mais bem

applicadas do certamen.

Adriano Lopes, n.^o 95.--Um retrato do general Castel-Branco--muito bem

cuidado,--È o seu auctor um discipulo que d· honra aos seus professores.

JosÈ MalhÙa. Eis-me chegado emfim ao Artista que mais me deslumbra, e

mais me fascina. Chegado aqui, o meu desejo È pousar a penna, curvar-me

reverentemente deante da sua obra genial, e limitar-me a gritar

enthusiasmadamente: SalvÈ, pintor da grande luz, do bello sol, da

soberba cÙr que retine nos teus quadros, como pedaÁos de crystal

finissimo que se parte.

Era este o meu desejo, mas, alguem, os mal intencionados, esses,

ficariam na sombra a rir-se de mim, e diriam: Porque n„o falla este

_critico_ do MalhÙa?!...

Eu responderia, porque elle enche com os seus trabalhos t„o por completo

o meu espirito, que me julgo muito pequeno para fallar d'elles.

Mas, como quero levar de seguida a minha carta, ahi vae a impress„o que

tive com os quadros de JosÈ MalhÙa, n.^{os} 96 a 108.

[Figura: Velloso Salgado]

Destaco como primordial o seu quadro, _Barbeiro da aldeia_, 98,

assombroso de execuÁ„o, sublime de express„o nas figuras, mesmo nas que

se perdem nos ultimos planos. Luz soberba, e... desenho rigorosamente

estudado. A seguir _A Descamisada_, 97--magnifico--e o 98, _O Antigo

phosphoro_, em que se vÍ perfeitamente, muito definido, a impress„o

asphyxiante do enxofre que arde morosamente, obrigando a pÙr a distancia

o phosphoro. Que bello trabalho, que primor de express„o na figura, que

distender de braÁo t„o naturalmente lanÁado! e o 99, _CabeÁa de estudo_,

optimo de luz, e o 102, _Ao cair da tarde_, quanta melancholia doce n„o

nos imprime, aquelle quadro, e o 108, esse largo quadro decorativo para

a sala de musica do snr. Lambertini? Com que gracilidade n„o est„o

lanÁadas todas aquellas figuras, n'umas posiÁıes naturaes e flacidas que

parecem cheias de mocidade e de vida.

E, deixei para o fim o n.^o 106, que, embora eu esteja em erro, È para

mim um dos trabalhos mais fulgurantes do grande artista.

Aquelle retrato de mulher, com uma elegancia finissima de palmeira,

desenhada com uma distincta correcÁ„o de linhas e colorida com um mimo

especial de carnaÁ„o, que palpita, fez-me sentir o grande desejo de me

curvar n'uma postura palaciana e beijar respeitosamente as pontas

d'aquelles dedos, que t„o despreoccupadamente pousam no teclado do

piano.

Este quadro È para mim d'um encanto inexcedivel. E que me perdÙe o

artista se eu n„o soube dizer d'elle o que elle merecia.

Raul Maria, n.^{os} 109 a 112.--Quatro retratos, sendo regularmente bem

feito o 109, de Carlos Malheiro Dias, o 111, retrato de Eduardo Braz„o,

foi feito decerto em occasi„o, em que o grande actor estava soffrendo de

_vertueja_, uma especie de erisypela. O retrato n.^o 112, sÛ se admitte

como caricatura.

D. Branca Marques, n.^o 113.--_Uma velha alde„_, que nos faz lembrar uma

_batata_ ingleza.

Adolpho Manon, n.^o 114.--_A Costa_. Perfeito quadro para as Messageries

Maritimes; eu chamar-lhe-ia o vapor _City of Lisbon_.

Thomaz de Mello Junior, n.^{os} 115 a 121.--… um paisagista interessante

e de merecimento. Destacaremos os seus quadros: 115, _Salgueiral

d'Azambuja_, paisagem cheia de luz, com uma fita d'agua muito bem

estudada; _O Gerez_, estudado com cuidado, na cÙr e na luz. O Gerez È

aquillo, conhece-o bem. O 121, _Torre de S. Juli„o_, que È muito

interessante, e, ent„o, o 118, _Praia de Nazareth_! uma soberba marinha,

feita com muito criterio e muito saber. As vagas, que se levantam em

cachıes espumantes, est„o, na verdade, feitas magnificamente, e o barco,

que as tende galgar ao esforÁo dos remos, est· estudado com precis„o e

rigorosidade.

Thomaz de Moura, n.^{os} 122 a 128.--… um artista que vem l· de fÛra,

com as suas impressıes de Paris e da Bretanha; os seus quadros s„o

tocados de um certo _gris_, que nÛs n„o temos, uma cÙr acizentada que me

fere mal a retina, o que n„o quer dizer, que elle n„o tenha merecimento,

que o tem. Especialmente o seu 122, _Carinhos de m„e_, est· muito bem

feito.

D. Fanny MunrÛ, n.^{os} 129 a 133.--Muito gelo, muito gelo e muito gelo,

no entanto n„o me desagradou o 133, _Na Montanha_.

Isaias Newton, n.^{os} 135 a 149.--… um professor e bem me custa dizer

mal d'elle, mas que querem, a bilis c· est· ·s voltas commigo; o seu

134, _O Lago_, parece feito de vidro fiado e os seus, 137, _Entrada para

a quinta do Ex.^{mo} Snr. Novaes_, 139, _Campo do Bomfim_, lembram

oleographias, o unico aproveitavel, È a meu vÍr, o 135, _Um trecho de

paisagem_.

D. Mariana Palma, n.^o 140.--_Depois do jantar_. Um mel„o phantastico

com pevides que parecem dentes, queijo cabeÁa de preto com manchas de

bolor. Um mau vinho, dentro de uns crystaes e d'uns vidros da fabrica da

Amora ou da Marinha Grande.

Torquato Pinheiro, n.^{os} 141 a 145.--_O retrato de seu filho_, 141.--…

sem discuss„o o seu melhor quadro n'esta exposiÁ„o. Torquato Pinheiro È

um paisagista distincto, mas n„o È menos como retratista. Os seus

quadros s„o tocados sempre de uma certa ingenuidade, que nos encanta,

s„o para notar o 144, _LeÁa de Bailio_, profundamente melancholico, e o

145, _Fim da Tarde_, bem feito, com muita suavidade de luz.

[Figura: Busto de ingleza--TEIXEIRA LOPES]

Columbano Bordallo Pinheiro, n.^{os} 146 a 154.--Eis outro artista que

se impıe firmemente · nossa admiraÁ„o, este n„o È um artista do sol, È,

deixem-me dizer, um artista psychologo. Faz talvez mais o retrato da

alma do que o retrato do corpo, mas, o que elle sabe È, dar umas

pinceladas t„o originaes, t„o suas, que os seus quadros conhecem-se ao

longe, sem precisarmos de lhe vÍr a assignatura. O quadro 146--_A

PeliÁa_ È d'uma execuÁ„o t„o subtil, que apetece passar-lhe ao de leve a

m„o sobre aquella pelle, para se sentir o aveludado da lontra, o

147--_Scena d'interior_, ha tal express„o na cara de mulher, que se est·

a sentir e a vÍr, o que ella est· pensando l· dentro do seu cerebro de

velhota matreira.

Mas, superior a todos, a meu vÍr, o 152, _Retrato do Conde de Arnoso_. …

extraordinariamente superior.

Manuel H. Pinto, n.^{os} 155 a 156.--Nunca tinha visto nada d'este

artista, e fiquei gostando de vÍr os seus quadros; s„o ambos bons, mas o

155, _Dar de comer a quem tem fome!_ È muito bem estudado. Ha ali vida,

n'aquella mulher que cuida dos seus bacorinhos com boa _menagÈre_ e os

bacoritos, esses, na sua _suinissima_ figura de resmungıes, est„o tambem

muito bem estudados. E n„o fui sÛ eu que gostei dos quadros, foi tambem

a commiss„o, que lhe deu uma medalha.

Jo„o Porfirio, n.^{os} 157 a 158.--O quadro 158 È um especimen

comprovativo das theorias de Darwin.

Carlos Reis, n.^{os} 159 a 164.--Este sim. Os seus quadros confirmam bem

o seu bom nome de mestre.

Na figura e na paisagem, em ambos È superior. O seu 159--_Retrato de Max

Van Ypersele de Strihon_, È magnifico, a carnaÁ„o È flagrante de cÙr e a

m„o? ah! a m„o! È um primor de correcÁ„o. Os 160--_Velho

castanheiro_--161, _Mendiga_--162, _Souto de Castanheiro_--163, _Poente

de abril_, s„o quatro lindas joias da arte pinctural que apetece roubar

da exposiÁ„o para revestir o _boudoir_ gentil da mulher que se ama.

Augusto Ribeiro, n.^{os} 165 a 170.--Verdadeiro pintor impressionista.

Unicamente nos d· impressıes de paisagens do Norte, onde o azul È mais

forte e a vegetaÁ„o mais luxuriante, verdes d'um matisado mais doce,

mais animado. As suas _pochades_ s„o regularmente tocadas. As que mais

me agradaram foram as n.^o 167, _Poente_ (Ancora); 169, _Poente_ (Ponte

do Lima); 170, _Poente_ (Paredes do Coura). Foi contemplado com uma

menÁ„o honrosa, bem merecida.

Jo„o Augusto Ribeiro, n.^o 171.--_Um septuagenario_, interessante e bem

feito.

Jo„o Nunes Ribeiro Junior, n.^{os} 172 a 181.--Pintor de paisagem,

retrato e quadros de genero; muita coisa para um artista sÛ. Os retratos

passaveis, alguns mesmo bons. Paisagem com certo ar, especialmente o

177, que est· bem tocado de luz e assumpto bem escolhido; o 178,

_Campolide_, que È interessante. _Os fructos e flores_, 180, esse

achei-o medonho, simplesmente medonho, muito proprio como reclame para a

casa Daupias. Pareceu-me um quadro annunciador. N„o que, as flores e as

fructas tÍem que se lhe diga, È preciso muita frescura, para as fazer

resaltar com vida, dos quadros...

[Figura: Tomando o ch·--COLUMBANO]

Adolpho de Sousa Rodrigues, n.^{os} 182 a 195.--O seu maior trabalho È o

182, _No trabalho do campo_. N„o desgostei d'elle, apenas me fez m·

impress„o aquelle verde das lombardas ou tronchudas. Parece-me que as

figuras se recortam demais n'aquelle fundo verde. O 184, _Sabotier

breton_, achei-o com boa luz de officina e as figuras bem estudadas. A

cÙr... aquella cÙr bret„, que eu n„o conheÁo, È que me fez esmorecer um

pouco. Eu gosto mais da nossa luz. O retrato 195, esse acho-o muito bom,

bem executado, bem desenhado.

Fernando A. M. de S·, n.^o 196.--_Arredores de Setubal_. Mau de execuÁ„o

e de cÙr.

JosÈ Velloso Salgado, n.^{os} 197 a 199.--O grande pintor de retratos e

de tudo o mais, que È este artista, quasi que me dispensava de dizer

qualquer cousa d'elle. Os seus trabalhos veem de ha muito, pondo uma

verdadeira nota de arte no nosso pequeno meio. A sua fama est· feita, o

seu nome, ao ser dito, retumba como um echo de gloria na arte da pintura

portugueza. L· para o norte temos coisas t„o lindas, e t„o

primorosamente feitas, d'este artista, no Palacio da Bolsa, que eu

acanho-me de fazer opini„o sobre os seus trabalhos expostos, que s„o

muito bons. Sobresaindo para mim a todos estes, o 199, retrato de

_Adolpho M·sson_.

D. Luiza Stephania da Silva, n.^{os} 200 a 202.--Unicamente me fez

sensaÁ„o o 201, em que ha uma certa frescura, nos lyrios pintados.

Candido da Silva Junior, n.^{os} 203 a 212.--Dois quadros, em que ha

retratos, paisagem e flores. Deram-me no goto os n.^{os} 205 a 209--o

primeiro uma especie de jardim de velha rabugenta; muita flor, muita

flor, e nenhuma disposiÁ„o. N„o sÛ as flores d'este quadro, mas as de

todos os outros s„o duras, sem frescura, sem cambiantes de tom, quasi

homogeneos na cÙr. A _magnolia_, 209, atÈ parece um lim„o... Acceitavel

o 210, _Alfeite_, que È uma manchasita que se suporta bem, para amador.

Jo„o Ribeiro Christino da Silva, n.^{os} 213 a 218.--Ai pai! que coisas

aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel, os outros...

adeante... a n„o ser o 218 que È interessantinho na sua fÛrma

miniatural.

Viscondessa de Sistello, n.^{os} 219 a 224.--… uma amadora de certo, os

seus quadros s„o cheios d'um quer que seja de pretencioso... o n.^o 219,

_Retrato_--achei-o sem vida, muito chapado.--Fez-me saudades, porque me

pareceu uma imitaÁ„o m·, do bello quadro de Velloso Salgado--_Reflexos_.

O 220 passavel, a n„o ser o ar estudioso e pensador de mais, do menino,

e o 222 a abarrotar de coisas--um pedaÁo de queijo stilton, que faz

lembrar sab„o rajado azul, fructas duras, vinhos maus, agrupamento

infeliz. O 221 regularmente tocado, como mancha.

[Figura: Retrato de El-Rei--CARLOS REIS]

Notas d'arte · 第 2 / 10 段