E n„o o farei, porque entendo que para se escreverem artigos

*Nota de editor:* Devido ‡ quantidade de erros tipogr·ficos

existentes neste texto, foram tomadas v·rias decisıes quanto ‡

vers„o final. Em caso de d˙vida, a grafia foi mantida de acordo com

o original. No final deste livro encontrar· a lista de erros

corrigidos.

Rita Farinha (Jan. 2010)

NOTAS d'ARTE

[Figura: NOTAS D'ARTE]

PORTO

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)

Travessa de Cedofeita, 54

1906

Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS

¡ SOCIEDADE de BELLAS ARTES

pelo que podem fazer em bem da Arte.

[Figura: (EsboÁo para um retrato)

VASCO FERREIRA]

NO LIMIAR

_O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico

para a Escola de Bellas-Artes_:--A Arte È o reflexo dos costumes. _E, de

facto, assim È. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do

aperfeiÁoamento e da illustraÁ„o dos povos_.

_Assim, quanto mais illustrado fÙr o publico, tanto mais perspicaz, mais

estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o

applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, È mesmo por

isso que entre nÛs, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia

fazem, na incessante lucta pela vida, os esforÁos mais lidimos e mais

honrados para resolverem esse enorme e sublime_ desideratum:--_ser

grande!_

[Figura: (1904) Caricatura do dr. M. Monterroso]

_Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, n„o o conseguem, porque

para isso n„o s„o precisas sÛ a boa vontade e a persistencia no estudo.

Alguma coisa mais lhes È necessaria, e essa, primacial:--ter talento!_

_Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, v„o

gloriosamente para diante e s„o verdadeiramente grandes_.

* * * * *

_Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nÛs era uma especie de_

Arte mystica, _que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos_.

_Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e

acanhadas normas, sem pensarem sequer que o_ fluido ether _que nos cerca

e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisaÁıes

vibrantissimas de luz e de cÙr, precisa de ser estudado e quiÁ·

pintado_.

_Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o

publico tambem n„o exigia mais, e a critica n„o se preoccupava

absolutamente nada com isso_.

_Tanto_ elle _como_ ella _eram feitos por individuos, que ao visitar os

museus e as exposiÁıes de pintura n„o tinham a intuiÁ„o nitida e

verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestaÁ„o

psycologica da vista_.

_Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que

lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, n„o

para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para

gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o

seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada

frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface,

acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso

verde de Amarante_.

_E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuiÁ„o artistica, porque, l·

fÛra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que

lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferenÁa, sem se

manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores

do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composiÁıes de convenÁ„o

e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspecÁ„o constante e

immediata dos motivos a pintar.._.

* * * * *

_Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que

comeÁavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados,

saltam por sobre as barreiras das convenÁıes e correm pelos Campos da

Arte, fÛra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que

possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica

mais independente que auctoritariamente se impıe, cheia de raz„o, para

que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficÁ„o_.

_E, È sob este refulgir de um novo sol, que orientado l· fÛra, com as

mais modernas noÁıes d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres

escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como

Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc.,

etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim È o maior

dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de

ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era

para a pintura portugueza_.

_Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma

larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento,

exuberantes de verdade, geniaes de execuÁ„o. Era um grande! Era um

sublime artista!.._.

_Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido

t„o sincera, t„o verdadeira e t„o lealmente_ roubar _· Natureza

verdadeiros e flagrantes pedaÁos do seu grandioso_ Ser, _para t„o

maravilhosamente os transplantar · tela_.

_Ao morrer porÈm Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente,

a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores

portuguezes_.

_E, de facto, È sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal

brilha hoje mais fulgurante, podendo pÙr-se sem vergonha ao lado da Arte

dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo_.

_Se n„o em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes

de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem

temerem confrontos_.

_E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas n„o queiram, vae

avanÁando intellectualmente um pouco na civilisaÁ„o moderna_.

_E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos_:--A

Arte È o reflexo dos costumes.

Antonio de Lemos (Alvaro).

[Figura: CabeÁa de negra (Bronze)

DUQUEZA de PALMELLA]

NOTAS d'ARTE

1

Impressıes d'uma ExposiÁ„o

Ha muito tempo j·, deveria ter vindo dizer da bella impress„o que me

causou a 1.^a ExposiÁ„o organisada pelo _Instituto de Estudos e

Conferencias_, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus

leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde

melhor), a sÛ hoje cumprir este dever.

Fui vÍr a exposiÁ„o sete vezes, e de cada vez que l· ia, novos encantos

encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o

resultado mais brilhante que podia desejar-se.

Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas atÈ aos

mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram

dignamente, n„o obstante um _critico d'arte_ ter dito, em um semanario

d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras _chromolythographias_.

Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos

artisticos e criterio de tal critico. Saber· elle o que s„o

chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de

vÍr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua est· t„o

alta?...

[Figura: JosÈ Malhoa]

Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os

dous bustos e o medalh„o em marmore.

Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros s„o obra

de Fernandes de S·, pensionista do Estado, que em Paris completa a

educaÁ„o artistica do seu muito talento. A cabecita de creanÁa, em

marmore, È um encanto, aquella boquita admiravel de bÈbÈ pedia milhares

de beijos...

[Figura: JosÈ de Brito]

O medalh„o de Joaquim GonÁalves È uma bella copia de um primoroso

trabalho do grande mestre Soares dos Reis.

Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dÙa a quem doer, os

dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da CÙr. Eram

um assombro os seus quadros.

O _Gozando os rendimentos_, estudado com cuidado e traÁado largamente,

empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem

estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um

amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta

impress„o forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu

burguesismo.

[Figura: Que grande calamidade--JOS… MALHOA]

No _Que grande calamidade_, as figuras trabalhadas com um rigor de

verdadeiro mestre, s„o flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido

porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeÁas das figuras e o

rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes

ellas ficariam.

E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre t„o primorosos

trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me

prenderam a attenÁ„o.

Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. … inegavelmente um

grande desenhista. As suas _Impressıes de Espinho_, s„o bellas e tanto,

que uma foi adquirida pelo Instituto por indicaÁ„o do jury competente.

_A Azenha_, um encanto, _CabeÁa de estudo_, um primor.

[Figura: Chrysantemos--ANTONIO COSTA

Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Ent„o os

_Pensamentos_? Esse, era uma delicia.

Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, n„o

desmereceu a sua grande fama e, os _Chrysantemos_ e _Na vindima_,

deram-me a prova evidente da sua muita aptid„o para este genero de

pintura.

[Figura: Candido da Cunha]

Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu _Ultimos raios de

sol_, que j· conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com

os seus--_Mar calmo_, _Martyr_ e _Barcos de pesca_, merecem hoje, como

sempre, os nossos elogios.

Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ·s

suas paisagens um tom de verdade admiravel. O _Macieiras em flor_, em

especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.

JosÈ de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas;

todos os seus quadros s„o bons, mas para mim superior a todos È o

_Mulher do novello_, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta,

flagrantissima de verdade na express„o do rosto. Na _Infancia de Diana_,

bello estudo do n˙, alguma coisa me desagradou · vista, especialmente um

c„o que se via nos ultimos planos...

Jo„o Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros _Retalhos_, _Lar_.

[Figura: Jo„o Augusto Ribeiro]

D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de forÁa

de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as

suas aptidıes artisticas.

Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposiÁ„o o seu logar definido e

assente ao lado dos bons artistas. _Um caminho encharcado_, _Manh„

d'Abril_, _Margens do LeÁa_, e todos os demais s„o feitos com alma de

verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execuÁ„o, o _Retrato

de minha M„e_, que È um trabalho notavel.

[Figura: Retrato de minha m„e--TORQUATO PINHEIRO]

D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores,

especialmente o _Pelargonios_, que senti n„o tivesse preÁo para ser

adquirido.

Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, n„o

me demorarei na enumeraÁ„o dos seus trabalhos, porque isso iria ainda

muito longe e os meus leitores, decerto, se atÈ aqui chegaram, j·

bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa

prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.

II

PINTORES PORTUENSES

JULIO COSTA

Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa,

pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo

insignificantemente pequeno para fallar d'este artista. Mas, antepondo a

esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o

encargo, e, tal como posso, desempenhar esta miss„o.

[Figura: Julio Costa]

Ser· um artigo despretencioso, sem preoccupaÁ„o do estylo ou requinte de

forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor

illustre de quem me vou occupar.

N„o conheÁo escolas, n„o discuto artistas, n„o cito nomes estrangeiros,

nem rebusco particularidades de _metier_.

Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente,

indiscretamente, a impress„o que os quadros me deixam. Nada mais. E

hoje, ao traÁar estas linhas a respeito de Julio Costa, n„o venho,

acreditem, fazer a apreciaÁ„o, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse

pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome j· aureolado pela

critica consciente, o laurel amigo da minha admiraÁ„o.

E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio

Costa.

* * * * *

Portuguez de nascimento e condiÁ„o, alma que se espande na mais suave de

todas as alegrias--a familia--Julio Costa vem, de ha tempos para c·,

vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus

discipulos e para os seus trabalhos.

… um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo ·

primeira vista.

… lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito,

tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe

atire. Nunca deixa de chalacear, a n„o ser quando tem algum dos seus

doente. Ent„o, sim, ent„o abate-se todo na dÙr d'aquelle que soffre e

deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.

… uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto È bom, e d'ahi a uncÁ„o

deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.

[Figura: Conselheiro Jo„o Franco--JULIO COSTA]

Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve

orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemoraÁıes aos

homens notaveis do nosso paiz.

O retrato È inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente

trata e que mais em evidencia o tem collocado.

O retrato de El-Rei pintado para o sal„o do Tribunal da RelaÁ„o, os

retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, Jo„o Ramos, Dr. Eduardo

Pimenta, Conselheiro Campos Henques, Conselheiro Jo„o Franco, e muitos

outros, s„o affirmaÁıes publicas do que digo.

O primeiro, È largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas

cÙres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo

sal„o do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.

O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e

de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em

posiÁ„o natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que

se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os

intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis

factos da nossa historia.

[Figura: Oliveira Martins--JULIO COSTA]

E todos os outros, todos, s„o verdadeiras obras primas.

N„o esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro

Jo„o Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de

verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova

orientaÁ„o, a marcha dos negocios publicos.

D'esse retrato j· eu disse, quando tive occasi„o de o ver pela primeira

vez, o seguinte:

´… grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do

snr. Conselheiro Jo„o Franco.

´Absorve por completo a nossa attenÁ„o. Est· executado n'um

correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de cÙres, n'um

flagrante de pose e de semelhanÁa. Ao retrato do Conselheiro Jo„o Franco

sÛ lhe falta fallar para ser o proprio.

´Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este

trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal È a perspectiva

que Julio Costa lhe deu; ·s vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha

um n„o sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que

os labios se v„o descerrar para fallar.

´E as roupas, que delicada feitura, que _nuances_ de verdade! Na facha

que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de _moirÈ_.

´O retrato em quest„o n„o È simplesmente um retrato; È mais do que

isso:--È um quadroª.

* * * * *

Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa

sabe apanhar tudo quanto vÍ em volta de si. Sabe ver, que È o essencial.

D'ahi o colher a express„o da Impress„o. Mas a Impress„o escolhida, n„o

da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.

Julio Costa È um civilizado! … um delicado! … um _raffinÈ_ (desculpem o

francez).

E È esse effeito de _raffinerie_ e essa predilecÁ„o pela impress„o

escolhida que elle transporta aos seus retratos.

Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das

linhas d'um rosto.

Elle sabe que nada È t„o impressionante, para nÛs que contemplamos os

quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que est„o vivas!...

E os seus retratados vivem nos seus retratos.

Em uma palavra, Julio Costa n„o pinta _um retrato_ do seu modelo...

pinta _o retrato_.

Cada uma das nossas sensaÁıes, das nossas emoÁıes, dos nossos

sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanÁas, dos

nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.

A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nÛs se transforma, e deixamos

de ser ent„o semelhantes a nÛs mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir

n'essas fugitivas transformaÁıes aquelle _momento_, que È sempre da

nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma

physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a

multiplicidade das nossas attitudes.

E È por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande

preponderancia sobre outros artistas.

Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella

correcÁ„o no desenho.

Que o desenho n„o È sÛ como muita gente pensa o esqueleto da pintura.

N„o, o desenho È uma parte integral d'ella, o desenho È a propria

pintura.

J· um celebre pintor francez, cujo nome n„o recordo agora, dizia dos

seus desenhos--_A cÙr dos meus desenhos_... como se o desenho n„o fora

unicamente uma apresentaÁ„o do claro escuro.

Mas È que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios

tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa

chata, sem vida, sem relevo.

O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte

avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me

fazia uma prelecÁ„o sobre as vantagens do desenho:--´Olhe, se vocÍ

quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias,

com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus

claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e

ter· um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho È tudoª.

E de facto assim È: para se poder pintar bem o que È preciso primeiro È

saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus

trabalhos uma corecÁ„o distincta.

Mas, Julio Costa n„o È sÛ notavel no retrato. Julio Costa È-o tambem em

outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas

indiscutiveis das suas aptidıes.

O _Calvario_, que elle pintou para a egreja do Bomfim, È o melhor

attestado do seu _savoir faire_. D'essa obra prima, que veiu abrir uma

polemica entre um critico da _Palavra_ e o conego Alves Mendes, dizia

este ultimo no seu opusculo--_A crucificaÁ„o de Jesus:--Outros quadros

de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este n„o. … tal a

firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial

inspiraÁ„o artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude

enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa_.

[Figura: O Calvario--JULIO COSTA]

Que melhor e mais auctorisada opini„o que a d'este _pintor_ da oraÁ„o,

este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel

os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagraÁ„o a um

artista n„o as tenho visto melhores nem mais perfeitas.

Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem,

n'esses momentos, n„o deixa o seu nome em m· posiÁ„o. Ahi, como nos

outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o

quer que seja de suggestivo, de impressionante.

N„o È cousa simples enumerar a sua obra, porque ella n„o È uma

insignificancia.

No entretanto, como È do meu desejo levar o mais longe possivel a

resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais

se notabilisaram nas exposiÁıes onde teem apparecido.

[Figura: A Ti Anna--JULIO COSTA]

Em primeiro logar colloco eu o _No Vago_, uma pastoral de cÙr, como lhe

chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado

poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma moÁoila

trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedaÁo de

terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os

trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu

chapeu de palha; marc·ra ao namorado uma entrevista, na esperanÁa d'um

doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado n„o vem, e ella, na

sobrexcitaÁ„o do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres

que ora lhe dizem _sim_, ora lhe dizem _n„o_, e, por ultimo, como que

adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento

esvoaÁando no _vago_... Eis o quadro, que figura l· fora, em Berlim,

para onde foi vendido.

N„o esquecerei a _Romeira_, uma fresca rapariga que, em descantes

alegres, parte para a romaria.

E uma _CabeÁa de estudo_, que appareceu na exposiÁ„o de Arte de 1894,

uma linda cabeÁa de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu

lenÁo de xadrez multicor, que È um encanto!

O _retrato do Quinsinho Souto Mayor_, È um estudo de creanÁa finamente

trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de

renda, t„o bellamente pintada, que dava a perfeita illus„o de que eram

rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.

O _Vencido_, que È um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que,

apÛs uma refrega com outros, sae com um braÁo deslocado; que suavidade

de cÙr, que tristeza nos olhos humidos!

O _retrato da Ti Anna_, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu

casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo

lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas

esfolhadas e nas espadeladas, È soberbo. Hoje, a pobre velha canta as

tristes canÁıes com que embala os netos, e fia o linho com que veste os

filhos, que outras, que s„o novas, v„o espadelando a rir e a cantar. E

tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se vÍ alli

representado n'uma sentida impress„o e n'uma ideal concepÁ„o.

O _Costume dos arredores do Porto_, È tambem um lindo quadro--uma

cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.

E a _Mimalha_ e a _Varanda dos Mangericos_ e mil outros trabalhos

d'elle?...

Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor n„o tem obrigaÁ„o nenhuma

de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.

Julio Costa È para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam l· o

que disserem, e se, dentro da sua modestia, n„o gostar do que eu agora

digo d'elle que me perdoe porque eu sÛ sei dizer o que penso, e isso

muito rudemente ainda.

III

PINTORES PORTUENSES

ANTONIO CARNEIRO JUNIOR

Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido j· occasi„o de

apreciar os seus trabalhos em outras exposiÁıes, corri, apressadamente,

incumbido por a redacÁ„o da _Vida Moderna_, a vÍr a nova exposiÁ„o dos

seus ultimos trabalhos, com o grande interesse de conhecer o progresso e

o desenvolvimento artistico d'este bello cultor da arte da pintura.

[Figura: Antonio Carneiro Junior]

E, francamente o confesso, as minhas espectativas confirmaram-se.

Carneiro Junior, que era um dos novos que mais promettia, obteve, com o

seu estudo no estrangeiro, a verdadeira comprehens„o da arte de pintar,

affirmando-o desde j· com os magnificos trabalhos expostos no atrio da

Misericordia.

Pintando em todos os generos, como elle mais se avigora, e mais

demonstra o seu talento È, a meu vÍr, como pintor de figuras.

A paisagem e a marinha n„o s„o o genero que mais o tentam, o que n„o

quer dizer que n„o tenha paisagens adoraveis e marinhas deliciosas.

… preciso porÈm notar-se que, quem escreve estas linhas, È um mero

amador que vem simples e unicamente dar a resenha dos quadros expostos e

a sua impress„o pessoal, dizendo simplesmente gosto ou n„o gosto, sem me

prender nunca em consideraÁıes sabias sobre o modo de pintar de cada um.

N„o citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios

de critico emerito.

E n„o o farei, porque entendo que para se escreverem artigos

substanciosos e chorudos sobre tal assumpto È necessario, antes de mais

nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas e d'essa pintura,

acompanhado isso da leitura de livros da especialidade.

E, vulgarmente, n„o succede assim. Muitos dos nossos criticos conhecem

esses quadros e essas escolas porque algum amigo, vindo l· de fÛra, lhes

trouxe, como recordaÁ„o, catalogos dos muzeus que viu por l·, e È por

ahi que elles fazem, a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como

nunca vi muzeus, nem tenho lido livros sobre pintura, n„o faÁo critica,

faÁo a minha reportagem, deixem-me assim dizer. E posto isto, l· vae a

impress„o pessoal que me ficou d'alguns dos trabalhos de Carneiro

Junior. E elle que me perdÙe se n„o gostar.

Em primeiro logar, se bem que n„o sejam estes os principaes trabalhos,

ponho eu os desenhos a sanguinea---que figuram no catalogo com os

n.^{os} 27 e 28, _Figuras para a fonte do Bem_; 10, _Estudo para o

quadro do Amor_; 6, _Estudo para a figura EsperanÁa_; 25, _Estudo de

creanÁa para a fonte do Bem_.

[Figura: Retrato--ANTONIO CARNEIRO]

Os retratos do _Marcos Guedes_, n.^o 43; do _dr. Alfredo de Magalh„es_,

34; do _Antonio Patricio_ (filho), 32; de _J. Teixeira Lopes_, 36; do

_Claudio_, 40; e os dous retratos de _R. C_., 37 e 38, s„o magnificos.

Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente nos dois

ultimos, em que o artista pıe todo o seu sentimento de amor.

O quadro _Tarde no mar_, n.^o 56, È delicioso; como que se sente, ao

olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande mar sabe cantar

quando suavemente beija a areia fina da praia.

_Campo de trigo_, n.^o 77; em _Auvay_, impress„o de frente, 89;

impress„o, (_Bretanha_), 71; em _LeÁa_, impress„o, 68; o _Tamega_,

(Amarante), 67; o _Sena em Auteil_, 62; _Pinheiros ao cahir da tarde_,

57; ...s„o, para mim, sentidissimas paisagens onde a nossa vista se

perde e o nosso espirito se embrenha como em paginas brilhantes da

_Viagem da minha terra_, de Garrett.

Ha alli tambem um quadro, _Leitura_, de que muito gostei. N'um interior

de casa escura, · luz de um candieiro, tres mulheres, uma das quaes lÍ.

… admiravel n„o sÛ de execuÁ„o, como de composiÁ„o.

O esboÁo do quadro _Fonte do Bem_ È apreciavel e bem desejariamos vÍr o

quadro definitivo.

E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe que o seu

triptyco, È, para o meu fraco entender, um d'estes geniaes poemas que sÛ

os grandes artistas sabem conceber. Emquanto · sua execuÁ„o acho-a

primorosa. _A EsperanÁa_, deliciosa virgem estudada e delineada com toda

a pujanÁa d'um bello espirito;--_O Amor_--assombroso de execuÁ„o; ha

n'aquelle cavalleiro todo em aÁo vestido, a virilidade d'um cavalleiro

andante; _A Chimera_, fundamente abstracta, na sua cÙr doentia e na sua

express„o de verdadeira Fatalidade olha o quer que seja de horrivel,

guiando o fogosissimo cavallo em que monta o cavalleiro;--_Saudade_--na

base d'uma sphinge sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta

doÁura n'aquella express„o de tristeza! Como o pintor soube dar ·quella

delicada mulher a nota melancolica do que È na realidade a saudade! Este

quadro seria bastante, para definir o grande talento do artista e o seu

temperamento subtil de poeta.

Que o artista me perdoe se n„o disse tanto quanto merecia a sua obra e

acceite o parabem sincero de quem sÛ diz o que sente.

MarÁo 1901.

IV

Thadeu Maria d'Almeida Furtado

PALAVRAS DITAS ¡ BEIRA DA CAMPA DO FALLECIDO PROFESSOR

N„o È, o que vou dizer, uma biographia, nem um necrologio; representam

simplesmente estas despretenciosas palavras como que um punhado de

saudades espersas sobre a campa, ainda mal fechada, do illustre morto.

Conhecendo-o desde ha muito, tive sempre por elle uma d'essas veneraÁıes

respeitosas de consideraÁ„o e amisade, que se tem por aquelles que vivem

sempre de cabeÁa levantada e aos quaes n„o podem attingir nunca as

settas envenenadas da m· vontade e da calumnia. E È por isso que hoje

n„o posso deixar de vir dizer aqui algumas palavras a respeito de quem,

sempre se fez querido de todos quantos, uma vez sÛ que fosse, d'elle se

aproximaram.

[Figura: Thadeu Maria d'Almeida Furtado]

Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de desenho do Porto e

dos de mais nomeada; cumpridor dos seus deveres, como poucos, recto nas

suas apreciaÁıes, como ninguem, quantas vezes fez elle rebentar essas

bolhas de balofa vaidade, com que muitos mediocres se julgavam

notabilidades, e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados

elogios; mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades por

mais duras que ellas fossem.

Trabalhador incanÁavel, atÈ ao ultimo dia, em que um desastroso

acontecimento o impossibilitou, foi regularmente occupar o seu logar na

Academia, onde hoje era secretario e onde em outros tempos fÙra

professor sapiente.

E inegavelmente È a este trabalhador indefeso, a este morto illustre,

que se devem os melhoramentos ultimamente feitos n'aquella casa de

ensino artistico.

Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos ao governo,

foram elles lanÁados no rol dos esquecimentos, rol lendario, onde s„o

archivadas todas as cousas uteis do nosso querido Portugal. Mas, Thadeu

Furtado, com a sua vontade de ferro, ao saber no Porto o conselheiro

Elvino de Brito, ent„o Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da

Academia das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe mostrar,

provando de _visu_ a necessidade urgente d'aquelles melhoramentos,

conseguiu o que atÈ ali ninguem tinha conseguido. E È portanto a este

querido morto que se deve o ser hoje a Academia de Bellas Artes, sen„o

um modelo de escolas para o seu genero, pelo menos um estabelecimento

que n„o nos envergonhar· quando mostrado a estrangeiros profissionaes.

E, doa a quem doer esta minha affirmaÁ„o, mas Thadeu Furtado vae fazer

muita falta · nossa Academia.

Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido no seu _mÈtier_, e

a prova d'isso est·, em que, todos os nossos grandes pintores de ha

sessenta annos para c·, foram todos seus discipulos e todos teem

manifestado esta mesma opini„o.

N„o fui seu discipulo, mas fui seu amigo e È unicamente como tal que

venho aqui depÙr tambem a minha eterna saudade, que È t„o grande, como

foi a minha consideraÁ„o e a minha amisade.

E, para terminar esta minha sincera e triste despedida, consenti, meus

senhores, que vos manifeste tambem aqui um grande desejo:--Como todos

bem o deveis comprehender, uma divida tem a Academia a pagar ao seu

respeitavel professor e ao seu incanÁavel secretario; e essa divida sÛ

poder· ser paga perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle.

Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia de Bellas

Artes, reunidos aos professores, lanÁaram m„o da ideia de que seja

collocado o busto de Thadeu Furtado nos claustros da mesma Academia.

E, para realisar tal ideia, n„o ter„o mais do que fazer fundir em bronze

um busto, que a familia do fallecido possue, feito, salvo erro, pelo

brilhante estatuario Teixeira Lopes. E assim, como preito de homenagem

ao professor morto, ficar· ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo

que È inegavelmente a primeira gloria da esculptura portugueza.--Disse.

12 MarÁo 1901.

[Figura: LenÁo em rendas--D. MARIA AUGUSTA BORDALLO PINHEIRO]

V

PINTORES PORTUENSES

ARTHUR LOUREIRO

Arthur Loureiro, esse grande artista que durante tantos annos viveu

longe de nÛs, n'esse bello paiz, a Australia, e que uma vez c·, filho do

Porto, amando o seu ninho com um amor especial de artista, apoz a sua

primeira exposiÁ„o onde nos mostrou que era um delicado pintor de

figura, com os seus retratos, e os seus typos admiravelmente executados,

vae para bem perto do Porto, para Villa do Conde e cheio de vontade e

repleto de _savoir faire_, lanÁa · tela lindos quadros que s„o como

filigranas da arte pintural.

[Figura: Arthur Loureiro no seu atelier]

Antes porÈm de atacar o assumpto que nos obriga a tomar da penna e

rabiscar estas linhas permittam-se-nos algumas phrases ligeiras de

introito.

Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado com uma distincta

simplicidade, tem-se a suave impress„o que o artista que ali trabalha È

um bom e um delicado. Confortavel e amigo, aquelle atelier sem pretenÁ„o

a luxo, todo elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos,

meros cobrejıes de farrapos, em tons escuros, biombos simples de couro

lizo, moveis de linhas correctas desenhados por o proprio artista e

executados sob a sua direcÁ„o, È d'um effeito soberbo! O indifferente,

que ao acaso ali v·, tem com certeza a impress„o de que entrou na casa

d'um amigo.

[Figura: Barra, Foz-Douro--ARTHUR LOUREIRO]

D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se um largo

divan-estante com as costas pintadas a sepia, que nos d· a impress„o de

uma pirogravura.

Mas n„o vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e exclusivamente fazer

uma resenha despretenciosa e sincera dos quadros expostos e do effeito

que nos deu a visita · exposiÁ„o aberta agora ao publico.

Arthur Loureiro n„o È somente um pintor. … mais do que isso, È um

esculptor consummado. O caixilho para espelho, o do quadro

_Convalescente_, e um outro onde se ostenta o seu retrato aguarellado

por Columbano, s„o bellos.

Mas, o que me encanta, o que me fascina, È o frontal para uma arca, onde

se guardar· o enxoval d'um filho querido. Este frontal, desenhado e

executado por Arthur Loureiro, È como que uma symphonia d'amor, sob o

thema sublime do martyrio da maternidade.

[Figura: Frontal d'uma arca (esculptura)--ARTHUR LOUREIRO]

Sem minudencias de descripÁ„o, sempre diremos que a bordadura que cerca

a figura da m„e tendo no regaÁo o filhito querido, È feita com flores de

martyrios em todas as suas evoluÁıes, desde o pequenino bot„o atÈ · flor

completamente aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras

soberbamente executadas.

E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.

N„o somos do _mÈtier_, nem aspiramos a critico de arte; mero amador,

vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro da alma qualquer coisa de

meigo, por uma paisagem triste, e qualquer coisa de vibrante em frente

d'um retalho da natureza, que o sol banha luxuriantemente.

Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado pela impress„o,

que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.

Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam d'um novo, quer

ellas sejam d'um mestre. E por isso a despreoccupaÁ„o do meu modo de

escrever. Pondo em evidencia ·s vezes quadros d'um valor mediocre e

deixando no escuro verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os

artistas essas faltas e vamos · exposiÁ„o de Arthur Loureiro que foi o

que aqui nos trouxe.

Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde, antes porÈm deve

ter especial menÁ„o o largo quadro da nossa barra, pintado n'um pÙr de

sol irisado, cheio de poesia, com tons d'ouro que se reflectem na agua

superiormente. … um quadro este, de si bastante notavel para definir o

artista.

E agora, que puz em evidencia o quadro que para mim se affigura mais

notavel, vou dizer da minha impress„o dos outros quadros expostos.

Um grande ramo de lilaz, que parece espalhar no ambiente o seu perfume

doce e meigo, est· feito com tanta frescura e tal graÁa, que nos tenta a

cortar um pequenino ramo para a nossa botoeira.

As bellas rosas escuras, d'um avelludado meigo e fino, como que tentam

na sua confecÁ„o a uma offerta gentil para a nossa namorada.

[Figura: O Passado--ARTHUR LOUREIRO]

S„o pedaÁos vivos de natureza, lanÁados · tela, com proficiencia e

carinho.

Um c„osito _mops_ com o seu focinho birrento e negro e o seu pello

amarellado d·-nos, a mim pelo menos (que eu sou doido por c„es), vontade

de o ameigar, de o chamar carinhosamente e roubal-o ao artista.

Collocado · entrada, talvez por acaso, È como que um fiel guarda

d'aquelle encanto de atelier. Este quadro est· feito com cuidado, o que

me d· a entender, que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre

que dizia:

--Quanto mais conheÁo os homens, mais amigo sou dos c„es.

Andam os nossos pintores delineando paisagens, por esse paiz em fÛra e

nenhum, que me lembre, tinha ido pintar para Villa do Conde. Talvez

porque julgassem n„o haver alli nada que pintar e Arthur Loureiro, que

ha vinte annos estava fÛra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus

trabalhos escolares foi para essa linda praia descanÁar e que descanÁo o

seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas.

Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porÈm notarei como

primordial--_A Senhora da Guia_--depois, as _Azenhas_ e d'estas n„o sei

se o que resplende de sol, se o outro, feito por uma manh„ triste de

chuva.

[Figura: N„o voltar· mais--ARTHUR LOUREIRO]

A _Igreja matriz_, tambem o noto pelo bello do effeito. Como uma mancha

retumbante, n'aquella suavidade de cÙr, os reposteiros da igreja fazem

resaltar o quadro (ora aqui est· onde eu decerto dou raia, em ter

recebido uma bella impress„o pelo vermelho que destaca do quadro, mas

sou assim e n„o ha nada que me atrapalhe).

A _Paisagem geral de Villa do Conde_, com o seu convento e a sua cazaria

branca È formosa.

_O Passado_, quadro cheio de poesia e de candura. Como um poema, de

amor, de dÙr e de miseria aquella velha sentada · porta da igreja, onde

talvez ella se baptisara, cas·ra e seria enterrado o seu companheiro de

muitos annos, talvez um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola,

na sua miseravel e angustiosa viuvez.

Mas vamos fechar este artigo que vae j· longo de mais. Antes porÈm

notaremos dous quadros, um que se intitula--_N„o voltar· mais_, e que È

outro poema de dÙr. Junto d'uma bella arvore em flor, um redondendro,

uma viuva e uma creanÁa olham o mar.

Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem subjugou para

sempre o ente querido d'essas duas figuras insinuantemente bellas nas

suas _silhouetes_.

_O Convalescente_ È um retrato primoroso do nosso amigo dr. Francisco

Loureiro, irm„o do distincto artista.

… um trabalho feito com muito amor e muito saber. Flagrante de verdade e

correctissimo de desenho. … um bello retrato.

Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar, mas, mais n„o

pÛde dar a minha pena. No entanto ha-de ver o publico que eu n„o quiz

fazer o rÈclame do pintor nem a apologia do homem, fiz unica e

exclusivamente a resenha rapida e sincera do trabalho correcto d'um

poeta lyrico da pintura que entre nÛs vem, se n„o, fazer uma revoluÁ„o

na arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista

portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos de cÙr trazidos

dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com o seu ceu e os seus verdes

n„o pÛde ser pintado com as cores das paisagens bret„s.

E mais nada.

Outubro 1902.

[Figura: Na Eira--LUCILIA ARANHA]

VI

ESCULPTORES PORTUENSES

FERNANDES DE S¡

Uma das manifestaÁıes mais vivas da arte È a esculptura. Esculpir em

marmore ou em bronze a figura de um individuo, È, como que, deixal-o por

toda a vastid„o dos seculos · admiraÁ„o, ao respeito ou · saudade dos

seus concidad„os ou dos seus amigos. … a nota constantemente vibrante de

uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura, È ella que,

arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos

que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta

philantropia, ou a saudosa recordaÁ„o d'um ente querido que a morte nos

roubou.

E n„o È sÛ isso; empolgando o nosso espirito, d· a concepÁ„o perfeita

d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando · dura e informe

pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.

[Figura: Fernandes de S·]

A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso

da patria, nos heroes que faz reviver, atÈ aos santos, que a religi„o

faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas

manifestaÁıes, È uma das mais difficeis, se n„o a mais difficil de todas

as manifestaÁıes artisticas.

E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relaÁ„o aos

pintores.

E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposiÁ„o de

esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de S· abriu no seu

gracioso _atelier_ da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.

Este moÁo esculptor, cujo nome n„o È j· uma esperanÁa, mas sim uma

affirmaÁ„o segura, d·-nos, com a exposiÁ„o dos seus trabalhos feitos

aqui e em Paris, a demonstraÁ„o mais definida e assente, de que È um

d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.

[Figura: Desafio--FERNANDES de S¡]

N„o o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas

pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle È

novo e tem uma vontade de ferro; ora estes dois bellos elementos, a

mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber,

d„o-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira

grandeza, na sublime arte de Milo.

Fernandes de S·, a continuar assim, n„o ha-de ser notavel sÛ entre nÛs,

ha-de sel-o tambem l· fÛra, no estrangeiro. E bom ser· que assim

succeda, para que no mundo civilisado se faÁa a verdadeira justiÁa aos

nossos artistas e se n„o pense que isto aqui È uma terra de selvagens.

Mas, deixemos estas divagaÁıes e entremos no assumpto que me proponho

expÙr: Notar as obras que Fernandes de S· expıe, e isto ao de leve, como

quem quer e n„o pÛde, por falta de elementos, embrenhar-se em

philosophicos problemas d'arte.

Dezoito s„o os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual

o mais bem executado.

[Figura: Camıes (estatua em marmore de Carrara)--FERNANDES de S¡]

Desde o largo trabalho--_Camıes_--atÈ · pequenina cabecita da

galante--_BÈbÈ_--todos elles s„o soberbos e dignos de especial menÁ„o.

_Camıes_, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de

Artilheria de Lisboa. ApÛs o naufragio, o grande epico portuguez salva,

n'um heroico esforÁo, a sua espada e o seu poema--eis o assumpto

representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada

ancia, o corpo fidalgo de Camıes, sobre uma rocha, a m„o direita

crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e

o poema sobre o coraÁ„o, parece escorregar, resvalando na voragem da

onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro ·quella molle

de marmore. Sublime de concepÁ„o. Na figura elegante e adelgaÁada de

Camıes ha linhas d'uma senhoril fidalguia.

Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro

portuguez, o esculptor n„o perdeu uma minudencia, por mais pequena que

fosse. Tudo estudado com perfeita seguranÁa, com verdadeira mestria,

desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o

mar, atÈ ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou

conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepÁıes sobre este

thema, Fernandes de S· realisou--segundo o nosso modo de vÍr--uma obra

genial.

_Rapto de Ganimedes_, È um grupo em gesso, que vÛs j· conheceis de

quando esteve ahi exposto na ExposiÁ„o da Sociedade de Bellas-Artes,

onde mereceu a segunda medalha, tendo j· adquirido a terceira medalha na

exposiÁ„o de Paris de 1900.

_Beijo Materno_, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal.

Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso

_bÈbÈ_, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu

trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista

do Estado. … um encanto.

_Vaga_. Este gesso È d'uma bella idealisaÁ„o. Uma formosa mulher,

completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas

revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao

marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o coraÁ„o um baque e

confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembr·mo-nos d'um,

que nos pareceu a reproducÁ„o em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e

no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal

intencionado, poderia dizer que JosÈ de Brito tinha ido alli beber a sua

inspiraÁ„o e o modelo para o seu quadro _A Vaga_. NÛs n„o nos

abalanÁamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque JosÈ de

Brito È um grande pintor...

[Figura: Beijo materno (grupo em gesso)--FERNANDES de S¡]

_Dois bustos_, em marmore que s„o a reproducÁ„o exacta das pessoas que

representam.

O _retrato do dr. Correia de Barros_, È um trabalho bem feito, cheio de

verdade e de vida.

Ha tambem uma _CabeÁa de velha_, que È primorosa.

No _Pobre_ (bronze dourado) e no _Desafio_ (bronze) ha flagrancias de

express„o, detalhes minuciosos de execuÁ„o, que revelam o cinzel subtil,

consciencioso e correcto de quem os executou.

Ah! Mas, onde se revela o coraÁ„o delicado e a alma poetica do moÁo

esculptor, È no grupo _Irm„s_. Que soberba obra! Com que carinho, com

que amisade n„o foi executado aquelle gesso!

VÍ-se que o artista poz alli toda a sua alma de moÁo e de moÁo

apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o

estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no

com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irm„s. Alli poz elle

toda a sua alma lyrica, como no _Camıes_, poz toda a alma patriotica.

Ha tambem uma _CabeÁa de velha_ (bronze dourado), muito bem feita.

Notavel tambem um _Estudo em barro_, coberto com _patine_ verde que lhe

d· um tom de novidade. O assumpto È uma cabeÁa de mulher do povo, com o

seu lenÁo. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de

languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo

quÍ de pena ou de saudade.

E tudo isto È lindo e tudo isto È bello, n„o esquecendo fallar nas

cabecitas de creanÁas que l· vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo

eu uma predilecÁ„o especial por creanÁas, comprazia-me todo em ser

n'ellas que fallasse por ultimo.

S„o quatro estes trabalhos: _CabeÁa de creanÁa_, _BÈbÈ_, _Beija-flor_,

_Estudo de creanÁa_.

Que encantadores! Com que amor elle n„o esculpiu no frio marmore

aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanÁas, que s„o mesmo um

primor!

Uma vez, n'uma exposiÁ„o que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia

l· um _bÈbÈ_, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli sÛ, n„o

me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.

Pois quando visitei a exposiÁ„o de Fernandes de S·, se l· me visse sÛ,

posso affirmal-o, beijava todas essas creanÁas n'uma infinita alegria,

porque as julgava vivas. S„o realmente uns delicados e subtis bustos,

que me deslumbraram.

E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda

manh„, ao atelier de Fernandes de S·, onde a luz forte do sol, coada

atravez dos brancos transparentes, n'uma doÁura meiga, fazia resaltar os

marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.

E permitta o moÁo esculptor, que t„o gentilmente nos recebeu, e com

tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe

digamos que o seu talento lhe d· direito a mais um pouco de orgulho, e

n„o a querer deixar-se ficar na modestissima sombra dos que pouco valem.

O seu nome e a sua obra, repito, n„o s„o uma esperanÁa, n„o; s„o uma

affirmaÁ„o segura de que elle È um dos primeiros estatuarios

portuguezes.

Outubro 1902.

[Figura: Busto (Antonio Cano)--FERNANDES de S¡]

VII

ExposiÁ„o da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa

CARTA A UM REDACTOR DO "CORREIO DA NOITE"

N„o me conhece, nem isso È necessario, para o que eu lhe quero confiar.

N„o È um segredo e, portanto, se achar interessante o que lhe vou dizer,

conte-o ao publico, a esse publico despreoccupado, que lÍ as gazetas,

n„o para se instruir, mas para ver se o seu nome figura no _Carnet

Mondain_, ou se alguma cousa m· succedeu aos seus conhecidos para ter o

pretexto de os consolar nas suas amarguras e nas suas desditas.

Conte-lhe o que lhe vou dizer e estou convencido, que isso lhe ser·

agradavel, porque eu, com o meu genio desinteressado e independente, dou

abertamente, picadelas em quem as merece, levantando ao ar em apotheoses

de gloria, tambem, aquelles que a ella teem direito, segundo o meu modo

de ver.

[Figura: El-rei]

Notas d'arte · 第 1 / 10 段