Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos,
atravessado o Cedron, subido a Bethania.
Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em
Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta,
arqueada, cheia de cicatrizes, immunda, rindo sempre, em farrapos. Era
uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações:
espancavam-o, elle ria, estendia uma ponta da tunica para aparar
os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados,
gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições,
em todos os supplicios com uma cantara de _posca_, para vender aos
soldados. Tinha todos os desastres da miseria, do vicio, e era servil.
Os soldados expedicionarios espancavam-o, ás vezes prendiam-n'o,
mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado. Tinha uma
voz vibrante, forte para cantar os psalmos e imitava os prophetas,
prégando. Cheirava miseravelmente a alho.
Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite
Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do
templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé.
Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com
orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius.
Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus
atrios.
N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume,
junto da velha de Capharnaum.
Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos:
Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz
aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas,
encrusados no chão, comiam.
Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de
Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava:
tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo.
Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era
negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães.
Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a
ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens
dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas
lampadas resplandeciam. Flôres de Damasco, rosas de Jerichó, jasmins
de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros
de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que
dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em
palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos
relusentes de oleo, giravam apressados.
Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos,
sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em
sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos
deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram
gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera,
adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.
O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma
ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos
negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem
nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido,
devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e
desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns,
decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas
mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.
Alguns, estendidos sobre leitos como animaes que ruminam, tinham as
tunicas soltas, os braços nús. Cabeças energicas, duras, mostravam uma
expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cynicos.
Uns dormiam, outros cantavam. Um velho curvado, frouxo, rouco,
lembrava as mulheres e os phariseus. Entre esta multidão sacerdotal
havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial;
fallava com palavras abundantes, largos gestos. Era pallido, com uma
pequena cabeça energica e voluntaria; era devasso, servil, falso,
luxuoso, e vinha de Caprea. Era alli escutado como um propheta na
antiga Israel; fallava da via Appia, das festas de Roma.
Eu escutava, encostado a uma arvore, na escuridão, concentrado o triste:
--Só em Roma se vive--dizia elle.--Isto é peor que o bairro das
Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo
Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem
aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira
espartana!
--Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!--disse
Nathaul, um escriba, homem invejoso, com labios carnaes.
Mas Publius fallava d'uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia
embarcar com o legado da Syria.
--Quereis saber?--perguntava.
--Dizei, dizei--gritavam curiosamente pela meza.
--O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos pannos
tecidos d'aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor d'agua tepida
penetrava os musculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o
peito, com pedaços de pelle de tigre humedecida d'oleo. Os membros
estavam ageis, faceis para as danças, para as escravas! Do tecto caíam
folhas de rosas humidas!
Todos tinham olhos scintillantes; estendiam-se para escutar; alguns
estavam de pé, junto de Publius.
--O trinchador--dizia elle--o trinchador, meus amigos, era o proprio
Tripherius! Tinhamos lebre, gazella, faisão de Lichtia, cabras da
Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e
tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na propria
concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas
nadando no azeite de Venafre! As taças eram d'ambar. Que dizeis vós?
Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados,
oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho,
tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.
Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo.
Todos admiravam.
O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em
tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e
aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!--E
fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz
branda, curvando-se:
--Que estas mulheres syrias--dizia--teem uns olhos escuros, que valem
centenares de sestercios!
Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam,
desejavam.
--Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e
tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive!
Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado
de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e
parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para
lembrar a morte e o terror de Jehovah!
--Devassas, dignas do fogo--para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas
impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que
ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que
as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que
ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.
Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos;
bradava os nomes das damas romanas:
--Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do
actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que
em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu
na estatua do Pudor!
Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam:
--Contae, contae!
Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa,
com a cabeça appoiada nos braços, esperavam voltados para Publius,
com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma bocca escura,
sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do
thesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz aspera, arrastada. O
circulo de cabeças avidas, duras, curiosas, destacava violentamente
no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a tunica
clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com
largos gestos:
--E Tucia! e Tucia!--gritava--Eu vi-a um dia no theatro, quando o
actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascivias o papel de Leda,
torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos
mortalmente languidos chamar a altas vozes:--Bactylo, Bactylo, vem!
Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:--Bactylo, Bactylo!
Os velhos torciam-se nos seus triclinios, tomados de riso, de
escandalo. Alguns escribas gritavam:--_Viva Roma!_ Os phariseus tinham
olhos terriveis, e uma attenção avida. Um cortava violentamente o pau
do estrado, mordendo os labios!
Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos
escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia:
--Quem conhece Cessenia? Ninguem conhece Cessenia? Cessenia tinha de
dote seis milhões de sestercios. Casou com Sertorius, o pobre, com a
condição de poder escrever deante do marido os bilhetes aos amantes, o
poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado
de um lupanar do Suburra!
Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das
tunicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á
cintura, onde está escripta a lei. Um, ebrio, com os olhos riscados do
sangue, pedia o culto de Baal.
Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclinios, curvados,
enroscados, immoveis. Os phariseus torciam os braços, fallavam de Tyro.
Publius clamava:
--Pois que ha de melhor que vêr uma patricia, de longo penteado e saia
curta, depois de estar cheia d'ostras e lagostas irritantes, beber de
um trago n'uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre
o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego:
_minha alma, minha vida, ai!_
E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a
garganta tumida de suspiros, arquejando!
Os escribas, os phariseus estavam cheios de delirio e de vinho. Riam
animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão:
mordiam as almofadas dos triclinios. Derramavam o vinho sobre os
vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um
jogava a lucta com uma arvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam
em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões
lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados.
Corriam, inflammados, como n'um mysterio sagrado. Alguns gabavam-se de
devassidões occultas. Fallavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres,
de prostituições sagradas no fundo dos bosques!
Publius gritava:
--Não sabeis, phariseus, não sabeis a aventura de Lentullus?
--Não, não!--bradavam alguns penetrados da alegria, do escandalo, de
curiosidades inflammadas!
--Lentullus casa com uma virgem patricia, neta de consules: nove mezes
depois prepara, segundo o costume, para o filho que vae nascer, o berço
de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás
boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Appia rompe em
risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e
tinha, como elle, trez verrugas no queixo.
A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a tunica rôta,
descomposto, gritava:
--Ouvi, ouvi!
Escutavam com um riso inquieto.
E Publius, emphatico:
--Os actores--dizia--os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta,
os truões, são os paes de todas as creanças que nascem na nobreza
romana!
Um velho phariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma
voz terrivel:
--Vivam os truões!
A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão.
Era bestial e immundo.
Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasphemando, jovial.
O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se
como agonisantes, e perdiam os espiritos n'um somno petrificado. Outros
penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva
e da agua. Uns fallavam como n'um delirio grotesco. Dois escribas
argumentavam, freneticos, hostis. Um forte e vasto phariseu, de bruços
sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr.
Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos
deitavam pelles sobre os dormentes. Os lampadarios extinguiam-se. Vinha
um frio humido. Cantavam os gallos.
Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.
Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem
lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das
Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um
chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel.
Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia
um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do
templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher
nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa
de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos
ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente,
apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e
todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão!
Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão.
Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já
manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis;
aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os
cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as
laminas da lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua
clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam,
mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de
rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas.
Simeon, absorto, somnolento, bocejava:
--Vinde--dizia-lhe eu--tendes serviço; vieram uns da policia, com uma
miseravel mulher.
Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava,
arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores,
membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma
lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.
Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em
cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil,
soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio.
Simeon interrogava.
--Vem presa--dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no
silencio;--acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a.
Estava em acto d'adulterio.
--Oh!--disseram todos indignados.
E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos
mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:
--Lapidada, lapidada!--disseram irritados.
Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os
mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher
adultera.
Essen afastou-se, e fallou junto ao ouvido de Simeon.
--Sim, sim--disse Simeon, e voltando-se para os da milicia:--Esta
mulher que seja aqui guardada até á hora sexta.
Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metallico as portas
de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes
dos hortos de Betphagé, da Bethania: os camponezes de Bethel traziam
os saccos de trigo: passavam solemnemente as fileiras de camelos. Um
beduino de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da
torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores
sentados em seus burros: um vidente clamava!