Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do
captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras.
Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga
planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as
montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda
escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph
foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte
Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel,
hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto
da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah:
Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde
pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan.
Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de
seivas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discipulos de
João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de
Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só,
em Jerusalem.
N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde
trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi,
entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam
parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante
d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido,
a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos,
sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas,
delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os
olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a
testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se,
superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra--aos olhos, á
testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles
dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma
tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia
que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno
dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma
gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras
elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte
inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam
um pouco semelhante a Judas Galannite, o poderoso agitador, em quem a
acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.
Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos
galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.
Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas
argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes.
Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara
no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias
da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de
Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:
--Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas.
Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do
sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan.
--Mas Gamaliel--dizia soberbamente o escriba--é um homem alheio a
nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja
demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde
estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei.
--Homem--disse eu--em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo
as lettras gregas?
O escriba riu finamente, como em triumpho:
--Pois não diz o texto:--e a sua voz era compassada e
emphatica--«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres
desagradarás ao Eterno?» Ora--e traçava amplamente a capa, tossindo,
victorioso--ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a
sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.
O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente,
batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se,
risonhos.
Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do
templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as
folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham
comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre
questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo
passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que
annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as
mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores,
espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das
primeiras columnas, batendo em discos de metal.
Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado
de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de
David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era
entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe
o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns
phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um
velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola
prophetica d'Israel.
--É um ignorante--diziam, com desprezo, vastos doutores.
Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas
eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do
Mestre: alguns velhos diziam:--Sim, sim, irmãos, este é um propheta!
--É o Christo! É o Messias!--clamavam grandes vozes.
Muitos iam, correndo, prostrar-se deante da porta da Arca bradando:
--Graças, Senhor, o Messias chegou!
Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo
templo, gritando:
--É o Messias, é o propheta da Galilea!
Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo:
--Que dizeis? Vós não conheceis a lei!
--A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará!
--Calae-vos!--bradavam os escribas--Sois tambem galileos? Não sabeis
que a escriptura diz que o Messias ha-de ser da geração de David? E não
sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e d'uma mulher da
aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazareth?
--É verdade, é verdade--diziam alguns.
--E não sabeis--continuavam--que os textos dizem que o Messias nascerá
em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazareth, bem o sabeis.
Uma voz, receiosa mas irritada, disse:
--Pois elle nasceu em Bethleem!
--Em Nazareth!--bradaram alguns escribas.
--Sim, sim, em Nazareth--disse a gente.
--É, pois, o Christo?! Ide, homens amaldiçoados que andaes afastados da
escriptura!...
Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias
areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no
Tyrepeon.