Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche
de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne.
Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu
artificio, tão altivos despresos.
Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me,
obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo.
Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de
Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios.
O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia:
pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas
folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga,
pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse
um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de
Saron!
A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado:
a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia
material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada
da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do
monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar
pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que
me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em
bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos
mortos.
Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria
odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre.
Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via
uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação:
os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi
enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes
que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa
das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia
em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um
açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende
a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso
imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples
e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!
Invejava quasi o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de
Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o
Aera e o Moriah, captivos e gementes!
Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?--perguntava a mim mesmo.
--Temos uma patria? Não!--E olhava a torre Antonia, onde os
expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.
--Temos uma religião, uma fé? Não!--E via os sacrificadores vestindo
os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados,
bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto
Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!
--Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!--E olhava
aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra,
e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para
agradar ao Senhor!
Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles
frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que
não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não
habitava Jerusalem!
Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a
popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte,
Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na
escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde
escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me--ou resultados da
noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia,
ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um
dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.
--Ah! Jesus de Nazareth--pensava eu--é o unico homem que nos poderia
salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples,
que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?
Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal,
terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o
homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma
melancholica e transcendente?
O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas
largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a
Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias
a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz,
porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este
movimento popular?
Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede
soccorro.
--Porque não?!--dizia eu--Surprehendi já nos seus olhos uma vontade
dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?
E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me,
como inesperadas consolações.
O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos
porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir
dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados,
contentes.
O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga
escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do
portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza,
cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender
ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e
limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura,
nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado,
dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os
mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos,
tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a
indifferença.
O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado,
suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar
á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus
campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin.
N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção
que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves,
idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da
Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica,
toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.
Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade,
de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a
resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no
ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de
Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado
póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas,
a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude
indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias
sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições
pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma
acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu
ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior
do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a
argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar
o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e
transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce
futuro, terno, purificado, coberto de luz!
E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as
hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de
egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro,
hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem?
Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus,
como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias,
escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um
templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com
amargura para as edificações de Herodes, o grande!
Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do
Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no
meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de
tantas forças civis!
Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus
olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou
um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas
incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava,
infinitamente triste, com um desdem abatido.
Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias:
mas um grande rumor encheu o templo.
Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o
baixo recinto do templo.
Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de
vozes, de gritos penetrantes.
Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus,
couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas,
phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da
lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações.
Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía,
abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros
desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto
levemente aquilino tomado de afflicção.
A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores
de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario:
vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com
fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os
coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.
Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus:
havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e
estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam
avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes
balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça
de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os
pateos.
O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos
seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os
soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada,
abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes
cabellos, com uma semelhança pagã.
Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para
Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:
--Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que
foi achada em adulterio nos porticos do templo.
--Lapidada! lapidada!--prorompeu a multidão.
Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se
os gritos agudos, arrastados, das mulheres.
Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os
soldados riam.
O escriba fallava, com gestos abundantes:
--Rabbi--dizia--a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera
deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas
tu, Rabbi?
Jesus olhou o escriba serenamente.
--O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados--gritou alguem entre
a multidão.
Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:
--Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!
E um phariseu bradou:
--É o Salomão das mulheres perdidas.
Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio
onde anda escripta a lei, e exclamava:
--Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.
O povo cruel dizia n'um clamor:
--Lapidada, que seja lapidada!
Alguns phariseus gritavam:
--E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!
Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia
templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam _posca_;
os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas d'escarlate: os
doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo
os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de
legionarios espreitavam.
Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:
--Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.
Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as
costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas
barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os
phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:
--Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que
despreza a lei.
Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.
Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas
joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura
vinha empurrado, repellido, atirado, um homem.
E vozes alegres bradavam:
--Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae!
O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa
aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.
Era Bar'Abbas.
Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.
E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com
ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a
multidão, gritando:
--Quem dá para o luto?
O povo ria; bradava:
--Lapidae-a, lapidae-a!
Bar'Abbas dizia:
--Lapidae-a, dae-me para o luto!
E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.
Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas
diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.
--Falla, Rabbi, falla!--gritavam-lhe d'entre a multidão.
Mas Jesus olhava sereno, calado.
Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente,
colerica, bradou:
--Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer
o perdão da mulher adultera.
Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a
morte.
Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso,
irritado:
--Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle
manda lapidal-a.
Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua
estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:
--Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se julgar sem peccado,
que lhe atire a primeira pedra!
A sua voz era forte, concava, mysteriosa:--assustava.
A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se:
os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos
choravam: vozes diziam:--É o Messias, é o Messias! Todos se
dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.
Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos
irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da
milicia templaria.
Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava
concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha
educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que
nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial,
a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações
inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.
--Sim, sim--dizia eu--Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e
justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre
a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela
influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez,
a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei
por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo
que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?!
Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem
irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em
mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo
de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de
Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a
Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta
dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: _Shalon_,
que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta
fallaria a Jesus.
Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com
aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo
me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais
prompto de fé.