Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto
eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham
desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o
meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades
ou desdens.
O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores
approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras;
encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das
piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os
pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam
a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos
cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.
Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um
velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas villas
de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem
conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal.
Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho
de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero,
attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado
João, a essencia do Rabbi da Galilea.
Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que
conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado,
mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que
prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição
e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica,
sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os
sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos
pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas;
que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se
associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções,
nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem
auctoridade entre os doutos e entre os ricos.
Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos
phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio
d'Hannan.
Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela
rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um
contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea,
e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era
um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto
e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos
Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das
esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?
Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia
sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente
estrellada de lampadas.
--João--disse eu--dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth?
João olhou-me:
--Vem á festa da Paschoa--disse elle, lento.
--João--insisti--pelo Messias, e pela liberdade do Baptista,
prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?
--Prégar--disse João.
Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original.
--Vae!--lhe disse eu exaltado--dize-lhe que parta, que volte para o
lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com
os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as
portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como
propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre
das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os
prophetas!
João tinha o espanto nos olhos, na voz.
--Eliziel! Eliziel!
--Que volte, que volte para a Galilea!
E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos
interiores d'Hannan.
O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre
largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco,
cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.
V
No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea,
em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes
em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas
peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e
pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.
Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a
todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus.
Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou
mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e
na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth.
Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras
nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se
progressivamente no meu espirito.
Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som
captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da
rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras
profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante,
tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia
com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos,
outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam
pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou,
contando as parabolas, concertava a sua rede.
Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida.
Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.
--Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario--dizia
elle.--Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus
é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos
campos.
--Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não
trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua
gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura.
E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã
seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!
Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições
ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento,
o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que
assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.
--Vendei o que possuís--dizia elle--dae o dinheiro em esmolas!
Realmente de que servem na Galilea as riquezas?
Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul,
mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella
gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco,
para elle resplandecem os regatos.
Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico
é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os
largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de
pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come
escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a
sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a
moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario
do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não
falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um
thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.
O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o
emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana.
O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva.
--Porque, em verdade, vos digo--ensinava o Mestre--que é mais facil
passar um camelo pelo fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no
reino de Deus.
Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos
fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da
vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses,
as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da
miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as
desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e
a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir,
esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da
terra tem alimentado.
A alma tinha emfim um logar, o _seu_ logar, o seu espaço, que era o
_reino de Deus_. O reino de Deus era o reino das creanças, dos simples,
dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano, e até do
pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós não quereis
esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os phariseus, os
saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os principes! vinde
vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados, os enfermos, os
culpados, todos os que elles repellem, todos os que elles amaldiçoam!
Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados, porque tereis fome!
Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lagrimas!
Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias
sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro,
coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora o
Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo,
porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem
amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu
não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto?
Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se
á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano?
Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal
divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado.
--O culpado é infeliz--dizia:--merece por isso mais que o justo o calor
do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso,
porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.
--Havia uma mulher aqui--dizia-me o homem bom de Chorasin, que me
explicava estas coisas immortaes--que era repellida, mal vista,
amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da
synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras
do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a
tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se
inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella
palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue
Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se
sente amante, mais se sente perdoada.
Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada
palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos
seus, confundido com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e
nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada
na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou
montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas;
ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava
ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as
creanças vinham, vinham as mulheres:--«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa
nova: és tu o Messias?»--Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores
fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães
mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos
vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os;
quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho.
Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas
lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas
no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:
--Mestre, tu és bom.
--Bom só é Deus--dizia elle, sorrindo.
--Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo?
--Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!
E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o
mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.
Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela
primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez
o estreito sorriso do velho conteve a esperança!