III

João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples,

mas penetradas de fé e de desejo.

Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o,

pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da

Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras

patriarchaes.

Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo,

nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem

sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o

contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle

vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais

profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva.

Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente

adormecidas entre as figueiras e as vinhas!

E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da

Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas!

Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus,

entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as

pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão

bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que

encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e

ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.

Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e

apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles

cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na

fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente.

Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações,

será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta

Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará

espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores

d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach,

de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da

seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras

e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a

sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o

sacrificio.

Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde

as mulheres teem o seio pacifico, os homens a força serena, e até

os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma

resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede

a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades

de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos

Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos

regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas

de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas

estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras

das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras

estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves

gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma

porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as

fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da

fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se

encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!

Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas

synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o

contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer

a verdade aos simples!

O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me

d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de

Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas

suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai! Magdala, Chorazin,

Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco,

pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha

esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua,

onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo,

cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago

cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do

lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das

mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas

verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do

meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó

terra de Nephtali!

Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores;

aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no

seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as

estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no

socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se

ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz,

e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se

a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus.

Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os

lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das

creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas

que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o

centro de todo o amor na verde Galilea: dava a esperança ás almas:

dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.

--O ceu é dos simples--dizia elle.--Os que choram serão consolados; os

miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a

mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no

reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!...

E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes:

as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus

olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os

fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.

Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle

era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo

de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso,

irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o

eternamente sereno, o eternamente justo.

O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade,

a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio.

--Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos

perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam?

Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia,

era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus:

com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos

usos de piedade? Para que hão de os phariseus trazer nas suas tunicas

as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a

esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?

--Quando tu deres a esmola--dizia o Mestre de Nazareth--que a tua mão

esquerda não saiba o que fez a direita.

E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não

era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se

emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas

rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás

vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais

na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.

João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de

Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia

do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha

tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a

essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos

perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril

pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então,

penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de

phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos

os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo

o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação

das moreias em reservatorios, a composição de aromaticos, o estudo

das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi

para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do

Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes

impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para

o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era

maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.

Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica

franjas de Tyro.

Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os

publicanos, todos os peccadores.

Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais

(dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de

Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça

tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um

propheta irritado?

--O Mestre é a propria doçura--dizia-me João.

D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?

--Desde quando é elle assim?--perguntava eu a João.

--Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.

Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis. · 第 60 / 87 题