Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos
prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até
Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença
messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram
lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a
esperança, a consolação e o allivio.
O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus
repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e
doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além
de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica.
Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto.
Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações
dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em
Galilea, eu via, comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado,
eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo,
refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um
Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira
patria é em Deus.
Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo
ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os
asperos juizes do rico, os consoladores austeros.
O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado,
consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a
vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a
paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a
exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em
desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e
inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria.
Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja
original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel,
Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça,
viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da
esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos
sabios e justos, e não videntes possuidos de fé.
Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle
a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle;
tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes mysticos, e as
almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor!
Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores;
não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia
que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a
olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas.
No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como
esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz
poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga
e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe
escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa.
N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado
do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se
conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me,
com um riso:
--Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth?
Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos
conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram
fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos:
que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do
samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos
a fallar, insufficientes a pensar; e que _idiotismo galileo_ era um
proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a gente de Galilea me parecia
simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia
de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades
finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios;
e que Isaias tinha dito:--«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali,
caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu
uma grande luz!»
--Ora, Simeon--dizia eu--estas palavras de Isaias indicam que na
Galilea póde nascer um propheta!
Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de
Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave
e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca
serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios
de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios,
para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por
uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia
andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel
era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza,
a tradição--elle era a sciencia; se os outros eram a lei--elle era
a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se
conhecia aquelle homem severo:
--Pelo que sei d'elle--disse Gamaliel--penso que é um justo.
Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave
e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a
Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o cheio
da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava
decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que
tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido,
que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o
povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano,
que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha
Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos.
Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado
d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada
para casa de Hannan.
Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do
templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção,
o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era
velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas,
conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.
N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume
reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia
Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores,
sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma
consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava
algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario
que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das
collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas
latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam nas suas
barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan,
cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus
de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr
uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea.
Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de
Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto
interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto,
habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade.