_Dies irae, dies illa..._
I
O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho
e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade
sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero
contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha
mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente
ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem
vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde,
a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar
junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e
a velha Sião, cheia de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que
penso--e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba
escura, o andar agil e firme, e a esperança facil.
Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da
cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão
fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.
Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro,
João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e
socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha,
retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade,
andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a
sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus,
Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor?
Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos
esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!
É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e
bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e
comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.
Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço.
A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção
de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se
trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem:
alli se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se
julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei,
se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes
e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições.
Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria
havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos
pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os
romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo,
observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra,
exercitarem-se em luctas.
A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as
portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que
se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos,
ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam
tocados de impureza.
Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse)
que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da
lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham
estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli
vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas
de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo
era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma
feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de
Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.
Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os
escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi
cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho
dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae
cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella
sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem
na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a
sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi
se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma,
de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.
Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho,
entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas
d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica
indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.
Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus,
respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da
lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga,
querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito
sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se
ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola,
contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando,
vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se,
n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão
toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam
pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem
os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres,
os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste:
caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés
nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios
de appetites, como um homem sanguineo!
Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos
sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade:
são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos
nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto
a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as
bellas mulheres da Idumea.
Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o
tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi
por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a
policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por
quem os meus olhos ainda se humedecem.
Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres
ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte
das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a
multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito
que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros
tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com
as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia,
cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa
gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores,
havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha
os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da
Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle
era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha
o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições
inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura
erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia
do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.
Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras,
arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.
--Ide!--disse-lhes elle então--vós fazeis da casa da oração uma caverna
de ladrões!
E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas.
Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação
sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas
que gritavam. Eu olhava, admirado.
--Quem é este?--perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle,
e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.
--Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!