A MORTE DE JESUS[41]

_Dies irae, dies illa..._

I

O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho

e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade

sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero

contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha

mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente

ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem

vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde,

a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar

junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e

a velha Sião, cheia de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que

penso--e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba

escura, o andar agil e firme, e a esperança facil.

Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da

cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão

fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.

Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro,

João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e

socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha,

retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade,

andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a

sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus,

Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor?

Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos

esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!

É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e

bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e

comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.

Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço.

A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção

de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se

trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem:

alli se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se

julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei,

se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes

e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições.

Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria

havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos

pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os

romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo,

observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra,

exercitarem-se em luctas.

A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as

portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que

se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos,

ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam

tocados de impureza.

Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse)

que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da

lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham

estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli

vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas

de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo

era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma

feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de

Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.

Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os

escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi

cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho

dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae

cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella

sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem

na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a

sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi

se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma,

de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.

Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho,

entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas

d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica

indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.

Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus,

respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da

lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga,

querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito

sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se

ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola,

contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando,

vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se,

n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão

toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam

pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem

os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres,

os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste:

caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés

nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios

de appetites, como um homem sanguineo!

Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos

sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade:

são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos

nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto

a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as

bellas mulheres da Idumea.

Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o

tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi

por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a

policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por

quem os meus olhos ainda se humedecem.

Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres

ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte

das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a

multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito

que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros

tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com

as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia,

cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa

gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores,

havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha

os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da

Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle

era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha

o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições

inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura

erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia

do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.

Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras,

arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.

--Ide!--disse-lhes elle então--vós fazeis da casa da oração uma caverna

de ladrões!

E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas.

Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação

sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas

que gritavam. Eu olhava, admirado.

--Quem é este?--perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle,

e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.

--Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!

Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis. · 第 58 / 87 题