Foi no tempo de Philippe II, tragico môcho do Catholicismo, que
Shakspeare creou o seu drama épico de Macbeth.
É desde então que aquella figura, que exhala noite e humidade, erra
pelo enorme ceu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e
crescida por um estranho reflexo de saques e de incendios, em quanto
os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em
circulos sobre a sua tragica cabeça esguedelhada.
As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear,
Othello e pisam com pé tragico o sólo augusto da epopeia, todas têm
junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as
angustias tenebrosas, como n'um leito mysterioso, para lhes fazer subir
por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.
Essas fórmas femininas andam impalpavelmente, como radiações de luz,
em redor d'aquellas terriveis cariatides do mal: ellas derramam-se
sobre aquellas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias
de meiguices, d'orvalhos, de claridades, de fecundos descanços,
purificadoras e transfiguradoras.
Assim Ophelia, humida dos beijos da agua, segue o seu dolente e
lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um oleo santo,
sobre a agonia flammejante de Othello: e Cordelia estira os seus
braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça
desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vae seguido na sombra pelos
seus negros vassallos--os incendios, as pestes, os derrubamentos.
Macbeth é o mal-phantasma. Elle não é d'aquelles lobos que andam, pela
noite da historia, dilacerando as liberdades e as patrias. Não.
É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra,
seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece
que as constellações devem seguir aquelle reflexo terrivel, curiosas
de saber que sombria aventura vae elle tentar contra o Homem. Porque
é certo que elle provoca a attenção do infinito, e tem mysteriosas
affinidades na noite.
Elle atravessa todo aquelle drama como um espectro.
Quando as Ondinas saíam fóra da agua a namorar os moços formosos
debaixo dos platanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu
vestido estava sempre ensopada d'agua. Macbeth é assim: debalde se
cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes, e falla de manobras
de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o
somno, para parecer humano: os que se approximam d'elle empallidecem,
porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.
Elle ouve a predicção das soberanias flammejantes da bocca esverdeada
das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima
das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a
noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços,
entrevê o luzir dos punhaes: não póde sentar-se aos banquetes
resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a
lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, d'onde
se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque
passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o
ceu com o fumo--luto dos incendios--não são os exercitos que o vencem:
a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam
dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemiterios, ouviu a alegria
estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres--e destaca então uma
floresta, que vae com ruido tragico esmagar o homem sinistro. N'este
castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometheu
pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade
de marmore dos deuses de nomes sonoros, vem, pallido, ajoelhar junto
d'aquelle rochedo ideal e santo como um altar; e, suffocado, apenas
póde fazer um gesto supplicante ao velho Mar, para que mande as suas
Oceanides consolar o vencido enorme.
Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo,
derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os
Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios
fecundos, matar a patria--corre desvairado, toma uma floresta e vem
esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e
aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça.
Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa--Lady Macbeth. Lady Macbeth
é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara,
tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa
rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.
Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa
no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes
parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação:
as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril.
Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não
tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles
amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude
hirta e rigida do mal.
Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e
de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo
por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos
estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então
lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições,
accende com um olhar as sinistras queimadas pela planicie, e volta
para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a
cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.
E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação
perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella
testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um
negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se
na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente.
Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores
humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do
bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que
cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a
vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se
n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O
coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre
contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e
lastima unicamente Macbeth porque tem para matar--só um Duncan. Suffoca
o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles
braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação
d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e
tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa.
Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema
musical de _Macbeth_.
Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare creações que devem dar
a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida
de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e
silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes
feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de
luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras
como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do
desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou
alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes,
as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia--eu
sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras,
sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm
corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode,
a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas
afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha
enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para
dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que
venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o
lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.
A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem
ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o
comprehender,--a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres,
de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla
muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o
nosso extasi as possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão,
desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em
pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite,
em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades
núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que
cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas
das raizes, que são as estrelas--tudo se balança n'aquella evaporação
de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade
do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza
está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos
pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma
de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos
como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e
se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe
derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e
branca, revelar todas aquellas vibrações celestes.
E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas
musicaes do que as figuras historicas.
São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem
soffrer, que nos transfiguram a alma.
Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette,
e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes
desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça
de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades,
mostramos lá em cima o grande azul constellado.
Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar
fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que
Desdémona diga a _canção do salgueiro_, onde se morre de amor; que
appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos,
desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe
lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas.
No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas
não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os
maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego,
junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o
sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de
cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de
vapores de luz.
Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto,
mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não
pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se
a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.
Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas,
que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.
Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de
nós outros, os portuguezes, é, realmente, o unico compositor italiano
verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti;
Rossini retirou-se da arte.
Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume
santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a
_Biblia_. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa
energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer
que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle
sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma
do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas
regiões das surpresas radiosas.
Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do
momento grave em que se revelou.
N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua
reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede
tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a
erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de
amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto
poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica
apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as
energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na
alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.
No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no
seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas,
apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas
poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares,
que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra,
rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de
Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos
vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do
Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto,
ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero,
couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida,
ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o
espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça.
Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul,
o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos
foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do
Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e
doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade
que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha!
Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que
estamos, que é a vespera das agonias!
Mas, voltando ao _Macbeth_, é certo que Verdi fez d'aquella figura
desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera
anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a
meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas
almas pavorosas saídas da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo
é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece
que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em
voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas
da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth
contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com
effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli
que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de
tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles
atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.
E assim, emquanto aquellas figuras lyricas se adiantam para a orchestra
de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras
e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos
mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar
aquellas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo
as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando
manobras de batalha.
E depois póde a alma voltar, para ouvir aquella confusão de ruidos
coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que
estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta
do corpo e cobrindo-o como uma onda. Emquanto se canta _Macbeth_, a
alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras.