(AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS)
O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas
da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem
myrthos--recebeu nas ruinas das _Sorveiras_, junto de Nizza, onde elle
trabalhava na sua symphonia de _Harold_, toda cheia do mar, esta carta
vinda de França:
«O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe
o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo,
que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria
conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão
n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de
Dante.
Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella.
O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós
estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas.
O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato
de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos,
de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens:
e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de
Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente:
«Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo
do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um
morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas
debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente
como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos
limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor,
da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz
branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um
morcego...»
É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe
morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua
rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O
dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar
presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que
Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos
caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã
foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de
Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha
lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade mais
dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado,
elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem
estrellas ha.»
Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do
fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o
chiar dos carros.
Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o
pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É
uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com
a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma
mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço
barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura
toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos
vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando:
«Malditos tropeços!»
Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande
voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre
os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra:
«Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de
que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo
pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre:
dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se
passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do
coveiro; vive lá uma má mulher.»
Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que
minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma
camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E
afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de
agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações,
accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!»
Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o
sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos
fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da
vida.
«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um
escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das
eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro.
Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando
sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das
raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas
fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de
camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios
fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros
bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra,
o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que
estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias
passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em
que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos
do namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa
para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as
palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a
dizer _sim_. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos castos
paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem as
fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um corpo
feminino.»
É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella
tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o
languido, o estrellado.
Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada,
murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu
amigo Claudio Loreno.
Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se
arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa
de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle
corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e
meigo--ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte.
Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França:
tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que
pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria.
Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de
Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas.
Sica contou-me toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os
seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e
sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de
fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos,
n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de
Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e
de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava
na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas,
em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere,
olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que
escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.
Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras
via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso,
affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma
carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde
supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um
remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do
antigo Josaphat.»
Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere,
fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre
cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos,
debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as
ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das
carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas
pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os
cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e
inchada!
Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas
fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e
as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás
vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte
tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas;
e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a
eternidade, nos verdes embalos da agua.
Foram terriveis todos aquelles annos de prisão.
O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com
os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados,
pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo,
na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da
Thuringia.
Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de
concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de
duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de
cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo
das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas,
entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.
Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de
Weimar.
Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle
retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o
amor, a indignação, a paternidade, a emoção.
Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas da
face semelhantes aos _f f_ d'uma rabeca, com as mãos transparentes,
cheias de agilidade e de deslocações, com os seus grandes casacos
escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados, os silencios,
as scenas resplandecentes, poderoso e solitario, procurando sempre,
aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores, onde não nascessem
hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas choças, nas pedreiras,
nas estradas, nas costas, ha uma raça que soffre, e que ha beiços
lividos da fome, e que ha febres silenciosas e amores desertos,
e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e uivos d'almas
afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de bellezas.
Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua
attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e
contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em
que se tocava a tua symphonia de _Romeo e Julietta_, e em que elle
veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te
as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:--Sois outro Beethoven!
Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu:
trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas
conversações da noite; aquella doença não o vergou mais; elle tinha já
o silencio--estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez--estoicismo do
corpo.
Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou
guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca
só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para
morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço,
estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão
esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto,
ella, cheia de alma e de legenda!»
No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca
havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam
confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas,
ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma
folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!»
Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás
vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com
um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se
estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma;
elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de
guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.
Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já
me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a
minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro que a tomar nos
braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos
segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim...
Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!»
Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha
lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando
voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha
partido para o sul.
Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do
_Harold_, e recommenda-me ao nosso velho amigo--o Mar.»
* * * * *
Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra
de Berlioz:
«Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas
_Sorveiras_, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem conhecidas
por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma pousada, os
viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas esguedelhadas, os
ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e os nevoeiros. Em
redor estão espalhados os casebres dos pescadores, todos conchegados,
como as ovelhas quando anda temporal no monte; a costa é terrível e,
no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só similhantes ao calmo
olhar d'um idiota.
Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os
balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias
de legenda e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em
baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar
redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida!
Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca,
os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de
forte seio--estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão
desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto
Mileto, Abydos e Corintho.
Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se
ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á
outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia.
Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var
desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul;
reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo
nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco
vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos
ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica.
Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa,
via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As
estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que
vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer,
e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões,
sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem
sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm
de noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe
se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros
fructos--a melancolia, o amor, a sensualidade?
Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao
anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da
costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia
vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e
esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.
E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da
bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres
silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os
deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores,
e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento
desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me,
lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas,
pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias!
Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma
massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca.
--Que luz é aquella, meu velho?--disse eu, da pôpa.
O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram
direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas.
--Aquella luz, senhor, é a casa das _Serenas_. A estas horas está
alli, abandonado, um pobre homem que morreu lá hontem. Tinha chegado
aqui ha pouco, e era mais amarello que a cera do altar; até na costa
diziam os velhos que elle se vendera ao diabo! Deus me perdôe por
fallar assim n'isto, de noite, em cima das aguas! Ah! senhor, diziam
que tocava na sua rabeca maldita que nem no ceu... Chamavam-lhe
Paganini.
E o pescador metteu os remos na agua, cantando n'uma melopeia dolente:
Altra volta gieri biele,
Blanch'e rossa com'un fiore.
Ma ora nò. Non son piu biele
Consumata dal'amore.
E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés,
continuou:
--E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e
enterral-o em terra santa. Se fosse meu parente e tal succedesse, ia
para o fundo do mar. Debaixo da agua anda muito corpo de patrões e
pilotos: elles não morreram, não; andam ainda vivos; e quando um pobre
homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento,
quando o peixe anda arredio, elles costumam afugentar a pescaria com
ramos de coral para as bandas da rede!...
O pescador fallava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das
legendas.
Eu levava os olhos rasos de agua e pensava que nunca tinha ouvido
tocar o triste Paganini: sempre que elle deu os seus concertos, eu
estava longe da França.
Entrei nas _Sorveiras_ com o peito cheio de friezas e de mortalidades.
Quiz trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada materialidade das
cousas.
Tomaram-me uns molles cansaços e fiquei sem pensamentos, sem desejos,
inerte e silencioso como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.
Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam
de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a
noite lenta e mystica.
Ora quando assim estava, ouvi, distante, como vindo das alturas
hieraticas das nuvens e das vias-lacteas, o gemido de uma
rabeca.--Quem é que, áquellas horas, n'uma costa aspera de ventos
furiosos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da
lareira, enrodilhados nos farrapos dos mantéos--tocava assim rabeca
junto do mar?
Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas
transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro
mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam
religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um
soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle
som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa
sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então,
distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca,
acompanhada, surdamente, pelo mar.
Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua
acompanhava com um marulho humido e alegre: e ao mesmo tempo, ao
longe, havia o gemer rythmico do vento.
Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca,
acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes
pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e
sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta
corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes.
Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces
mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca,
delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que
era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e
escarnecedora!
Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como
um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas
palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo
das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de
harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve,
tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia--as
variações do _Carnaval de Veneza_.
Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que
deixou o seu corpo na natureza solitaria das _Serenas_, e veiu dizer o
adeus da musica ao seu velho amigo.
Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui
estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes
do Mediterraneo.
Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro
e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de
saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.»
O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor
como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias,
das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os
contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como
uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde
trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde
vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a
um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce,
delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas:
o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava,
pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis
desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas
imaginações--azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar
um pé branco, corôações de caridades.
Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre
pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce
rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem;
escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio
Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a
chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas, aos
montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a
orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e
inerte.
A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da
Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela
belleza sagrada e espiritual da morte.
* * * * *
Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna,
e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos
pobres.