«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas
que me consolem! Só resta morrer.»
E o corpo diz á alma:
«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos
sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te,
filha, como eu velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu
soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás
vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim,
onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e
sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te
voluptuosamente--a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes
morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar
errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar
nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas
rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores
tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos!
E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»
E a alma dizia ao corpo:
«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada,
indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo.
Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas,
que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha
ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir
fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos
para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.
«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a
que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda,
que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em
breve não te lembrarás mais de mim.
«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de
estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem _alma_ como eu--ou se
chamem _aroma_--ou, então, se chamem _som_.
«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia,
encontrares os átomos _d'aquella que eu tanto amei_, não te juntes
com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a flôr
ha-de mirrar-se;--se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de
apagar-se;--se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»