Entre os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_ e a _Morte de Jesus_ na
_Revolução de Setembro_, medeiam quasi 3 annos.
Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de
Queiroz continuava.
Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro
esboço, muito desenvolvido,--tão extenso que levou varias noutes a
ler,--d'um romance intitulado _Historia d'um lindo corpo_.
Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra
era, até certo ponto, se bem me recordo, a do _Affaire Clémenceau_
de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte,
devida á influencia dos processos da _Madame Bovary_, e da _Educação
Sentimental_ de Gustavo Flaubert.
Pouco depois,--em 1871,--Eça de Queiroz descrevia n'uma das
_Conferencias democraticas_ do Casino, _o Realismo na arte_, expondo
as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e theoricamente
descriptas, por Proudhon, no livro _Do principio da arte e do seu
destino social_.
O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução
exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente.
A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma
admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso
de sentimento.
Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos
antigos _Contos phantasticos_ da _Gazeta de Portugal_ e lhe reli, se
não me engano, _As memorias d'uma forca_.[40]
Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas
sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto,
o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão
pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo--dizia elle,--na
construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.
Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:
--Tens talvez razão,--está claro, tens razão. Talvez se deva republicar
isso em livro;--mas sob o titulo critico e severo de _Prosas barbaras_.
Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do
desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu
devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas
mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,--e de
todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.
Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:
Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado
o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão
maravilhosamente vivêra.
Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,--por esse
tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não
longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto
fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle:
--«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o
teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no
phantastico,--n'aquelle velho phantastico da _Gazeta de Portugal_,
feito agora com menos _abutres_, e em _prosa_ talvez menos _barbara_
que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa de São Frei
Gil;--e por signal,--dir-to-hei agora aqui, quando justamente nos
achamos sob arvoredos,--que a nossa riquissima lingua portugueza me
parece deficiente em côres com que se pintem selvas;--e tambem te
confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o santo bruxo
n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá».
Cintra, Setembro de 1903.
_Jayme Batalha Reis._