Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa,
quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito
curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços
grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por
cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz
aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo
uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes
louros, bigode lourissimo pendente.
Acordámos.
--Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.
--Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.
Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,[38] o João de Souza
Chavarro.[39]
--Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de
Rezende.
N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,--um Restaurante
celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela
quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de
assumptos inintelligiveis.
N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do _Romantismo_,
descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o _Realismo_ na arte, fez-se
a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade,
da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no
estylo, na toilette,--a apotheose de todas as correcções. Terminámos,
depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,--o
inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante
annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e
continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.
Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de
Rezende:--_Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le
chevalier de Queiroz_,--diziam jornaes do Cairo. Assistiram á
inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina.
Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,--o Anthero de Quental e
eu,--na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcantara, quando
entrou o Eça de Queiroz que chegára, havia pouco, do Oriente, e ainda
não viramos:
Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo, um
_plastron_ que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um collarinho
altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os botões
uniam pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande parte das
mãos mettidas em luvas amarellas muito claras. Vestia calças claras,
arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas pintas
amarellas e sapatos muito compridos, inglezes, de polimento. Tinha na
cabeça um chapeu alto, de pello de seda brilhantissimo. E olhava-nos
com um monoculo que lhe estava sempre a cahir e que elle por isso,
abrindo a boca em esgares sarcasticos, a miudo reentalava no canto do
olho direito.
Abraçámol-o com enthusiasmo--e cobrimol-o de epigramas.
Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos typos, scenas nos
bazares do Cairo, no deserto egypcio,--os guias, os cheiks, e á noute,
em volta das fogueiras, os camellos, «de expressão humoristica,
sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador,
por sobre os hombros dos beduinos attentos, graves e encruzados.
Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o
uso do _Haschich_, e as visões phantasticas que nos preparava,--por
que elle e o conde de Rezende haviam trazido _Haschich_ em geleia, em
bolos, e em pastilhas que se fumavam n'uns cachimbos especiaes.
Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de
uma morbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um
grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava
a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o
monoculo e exclamar em voz desmaiada:
--Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu deliquio! o meu
_apoplêté_! Meninos, depressa, os meus saes... onde estão os meus
saes?!...
E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de saes que
aspirava soffregamente.
Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de
Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando
elle conversava, quando elle contava, quando elle representava algum
personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com
o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de
graça, o representante d'uma raça especial fallando em Portugal uma
lingua nova.
Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,--não o podiamos
largar.
As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo,
profundamente modificado.
Citava especialmente a _Salammbó_ e a _Tentação de Santo Antão_ de
Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma, com a
realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a _Vida de
Jesus_, o _São Paulo_, de Ernesto Renan, e as _Memorias de Judas_, de
Petrucelli della Gattina.
Foi sob estas influencias que,--com as impressões locaes da sua recente
viagem á Palestina,--começou em Lisboa, a escrever a _Morte de Jesus_,
publicada em folhetins, na _Revolução de Setembro_, de 13 de Abril a 8
de Julho de 1870.
Mas havia escripto, além do que se publicou,--uns capitulos que elle me
leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam.