Nas noites triviaes e desoladas,
Como vos quero, mysticas estrellas!...
Lucidas, antigas camaradas...
Gotas de luz no frio ar nevadas,
Podesse a minha boca inda bebel-as!
Não vos conheço já. Por onde eu ando!...
Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,
Que Christo estaes no Céo crucificando?
Quem triste pelo ar vos foi soltando
Profundos, soluçantes ais de luz!
Oh viagem nas nuvens desmanchadas!
Doces serões do Céo entre as estrellas!
Hoje só ais, ou lagrimas caladas...
Ai! sementes de luz mal semeadas,
Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!
Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,
Quando vos eu dizia soluçando:
--Afastai-vos de mim cardos de luz!--
Podesse eu ter agora os pés bem nus,
Inda por entre vós i-los rasgando!
* * * * *
Hoje estou velho, e só, e corcovado;
Causa-me espanto a sombra d'uma estola;
Enche-me o peito um tedio desolado:
E corro o mundo todo, esfomeado,
Aos abutres do Céo pedindo esmola.
Eu sou Satan o triste, o derrubado!
Mas vós estrellas sois o musgo velho
Das paredes do Céo deshabitado,
E a poeira que se ergue ao ar calado,
Quando eu bato com o pé no Evangelho!
O Céo é Cemiterio trivial:
Vós sois o pó dos deuses sepultados!
Deuses, magros esboços do ideal!
Só com rasgar-se a folha d'um missal,
Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.
Eu sou expulso, roto, escarnecido;
Mas a vós já ninguem vos quer as leis
Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!
Lembrae-vos que sois pó enegrecido
E cedo em negro pó vos tornareis.[37]
Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de
improvisação poetica:
Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz,
o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.
A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.
Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.
Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré
enchente fez-nos fluctuar.
Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se
levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.
Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em
busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo,
continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os
nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle
apenas pagaria um insufficiente repasto.
Que fazer?
--Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,--fazendo o gesto consagrado
de bater na testa.--Tenho uma ideia genial,--accrescentou, erguendo
tremulamente os braços ao Céo:--Sigam-me.
E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse,
com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos
invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios
horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á
calçada que leva de Belem á Ajuda.
Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.
Seriam quasi 5 horas da manhã.
Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa
baixa, de janellas cerradas, e bateu.
Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus
somnos.
O Eça de Queiroz explicou-nos:
--Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um _tiro_. Só elle nos póde
salvar, n'este deserto.
E continuou a bater durante minutos.
Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta
resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho,
e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de
caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.
--Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas
horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de
produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar.
Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello,
com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India
e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,--sequins,
dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...
O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.
--Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,--disse o Eça de
Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.
Voltámos a Belem.
E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma
guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a
caldeirada que encommendáramos, o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do
primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução
seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:
Christo deu-nos o amor,
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos tres pintos:
Qual d'elles deu a verdade?
O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica
dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera
jámais fazer versos,--mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo
penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas
humanas.
Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4
decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a
ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.
Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o
Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz,
eram d'uma graça scintillante.
D'outra vez dois dos nossos amigos,--o capitão João de Sá e o
Zagallo,--convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.
Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego.
Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos,
desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam
comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós
mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Collares,
um dinheirão que não tinhamos na algibeira.
Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves
e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem
vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.
O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á
tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar
com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.
Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno,
rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa
onde dormiramos eram caiadas. Então,--depois de almoçarmos ainda a
credito,--com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes
com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo
e hilariante, mixto, como genero, do _Childe Harold_ e _D. Juan_ de
Byron, do _Mardoche_ e _Namouna_ de Musset, do _Intermezzo_ de Heine, e
da _Fabia_ de Francisco Palha. Este exercicio durou por 4 ou 5 horas.
Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de
versos.
Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do
Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente
de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela
phantasia, pela graça, pelo inesperado.