Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias
que é inutil mencionar frequentava a Redacção da _Gazeta de Portugal_,
no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de S. Carlos.
Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito
magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça
pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto
intenso e amarello desmaiado:
Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta
e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas,
o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa
triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre
olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito
negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca
grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de
marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços,
faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de
copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo XVI
que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II de Hespanha,
ou de Henrique III de França.
Era o Eça de Queiroz.
Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente,
dando a espaços gargalhadas--_ricanements_, como se diria em
francez,--curtas, e sinistras.
O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda,
amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.
Saí n'essa noute do Escriptorio da _Gazeta de Portugal_ com o Eça de
Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por annos,
não nos separámos quasi.
O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade
de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por
tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos,
deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos,
fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo
um Escriptorio em Lisboa.
Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a
ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.
Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do
predio n.ᵒ 26. O seu quarto--pequeno, com uma mesa ao centro e uma
estante para poucos livros,--dava para a rua do Principe. Ahi foram, em
parte, escriptos os _Folhetins_ das _Prosas barbaras_.