Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:
Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos
logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco
frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.
Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O
Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado
de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz
comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira
chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa
continuar a beber café, ás vezes até madrugada.
N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos
_Contos_ agora reunidos em volume.
Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do
Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto.
No meu quarto de estudante[2] havia um grande armario cheio de livros,
cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se
escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por
Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a
Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi
sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos
Calafates[3] em frente a predios baixos que, por isso, não impediam
o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma
impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios
moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando
activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes,
para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam,
pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o
_Eterno feminino_.
Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com
um rolo de papel na mão, dizendo:
--Sou eu, sim, amigo.
E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia,
phantasticamente appareciam nos seus _Contos_, accrescentava:
--Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres!
Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:
Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle
proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41
da rua larga de S. Roque.
Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por
isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já
este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso,
antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel.
Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a
janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava,
murmurando em voz cava:
--É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!
A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de
modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre
o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o _abat-jour_, com longas
tiras de papel.
Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa
para ir, cuidadosamente,--interrompendo a composição, mas recitando em
voz alta as phrases que tinha escripto,--lavar as pontas dos dedos.
Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o
papel que olhava muito de perto.
E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não
attendia a cousa alguma,--embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou
fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas
altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando
ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente
as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde
ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.
Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco:
As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente,
e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a
desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma,
acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe
occorria.
Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus _Contos_, a figura e
a voz completavam-lhe as phantasticas creações:
Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica,
livido,--na penumbra das projecções do candieiro,--os olhos esburacados
por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o
pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado,
os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e
espanto, a voz lugubre, sentimental,--emphaticamente pathetica, ou
gargalhando sinistramente,--declamava.
Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos
havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,--ou
estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé
e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia
phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então,
n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.
--Ás casas sem luz,--escreveu Eça de Queiroz,[4]--teem o aspecto calmo
e sinistro dos rostos idiotas.
D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura,
divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens
agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos
ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos
se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras...
Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de
sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis...
Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram
varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de
se dispersarem pela cidade.
Nas noutes mais serenas,--nas noutes de luar,--saíamos da cidade e
íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo,
conversando, improvisando, até nascer o Sol.
De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás
nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha
casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a
roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma
mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo,
respectivamente, e dispondo as botas á porta,--para que o meu
creado as limpasse, sem nos acordar,--tambem, pelo mesmo methodo,
ordenadamente emparelhadas.
E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos
supersticiosos, murmurava persignando-se:
--É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas:
Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos
acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.
Na epoca em que se publicaram os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_,
eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assiduo
era, por esse tempo,--além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga
que, quando apparecia, se occupava toda a noute em explicar-nos,
simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos
com desperdicios de lan, o livro do Propheta Isaias, e os Historiadores
das origens do Christianismo.
De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:
--Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar.
Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto
humano,--inverosimil, se fôr possivel tanto,--a aventura, a lenda em
acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,--o
João de Sá Nogueira,--d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.
E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar,
que á ceia nos contava,--durante o bacalhau com batatas, o meio biffe,
e o Collares,--as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.