INTRODUCÇÃO.

Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz.

I

Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se

escreveu e se denominou.

Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora

reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do

author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento

esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as

conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,--as circumstancias e

os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do

genio d'Eça de Queiroz.

Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus

_Folhetins_ na _Gazeta de Portugal_, que fôra fundada por Antonio

Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos antes

da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,) pouco

mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,--em rivalidade

com a _Revolução de Setembro_, dirigida por Rodrigues Sampaio,--o

mais brilhante periodico do tempo. A _Gazeta de Portugal_ publicava,

além das do seu fundador, frequentes producções de Antonio Feliciano

de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello da Silva, Camillo

Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz Ribeiro, Zacharias

d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha Rivara,--quasi todos

os consagrados de então. Os _Novos_ que ahi escreviam, ficavam,

por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro appareceram no

_folhetim_, triumphalmente, Matheus de Magalhães, Pinheiro Chagas,

Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio de Freitas.»)

Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros, sem contrastes

nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas acceites e

classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente satisfeito.

Em 1866 a _Gazeta de Portugal_ entrára porém em decadencia; começava

a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o formato. A

14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo,

romancista, historiador, estadista, orador, diplomata,--para muitos,

«o mestre», legitimo successor de Almeida Garrett,--despedira-se da

direcção litteraria que até então, pelo menos nominalmente, exercera.

Os collaboradores litterarios mais assiduos, mais legitimamente

representantes do gosto geral, eram já então, no _folhetim_ da _Gazeta

de Portugal_, Santos Nazareth e Luiz Quirino Chaves. Por essa epoca

Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o seu romance _A Ermida de

Castromino_, seguido, desde os primeiros dias de 1866, por _O Diamante

do Commendador_ do visconde Ponson du Terrail...

Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns

_Folhetins_ assignados «Eça de Queiroz».

Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum

tempo, se suppoz serem um pseudonymo.

Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz foram todavia notados;--mas como

novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde

a Redacção da _Gazeta de Portugal_, até aos centros intellectuaes

reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do

publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então

se chamava «a Escola Coimbran»,--centro litterario e philosophico

dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente

inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente,

as scenas, as imagens, os epithetos d'esses _Folhetins_, lidos

em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias

Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e

politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,--o

Severo dos Anjos,--principal e celebre Noticiarista da _Gazeta de

Portugal_, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava

quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus _Folhetins_,

epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos,

exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia:

--Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra,

que seja inteiramente doido, que haja nos seus _Contos_, sempre, dois

cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em

francez.

Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses _Folhetins_,--em

Dezembro de 1867,--já ninguem pensava no author d'elles.

Que importava ao Café Martinho, ao Gremio _supposto_ litterario, e aos

circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo estylo?

Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que;

os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia seguiam o seu

curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que dormitavam... e

nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas.

Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis. · 第 5 / 87 题