Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade

que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e

covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e

respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de

salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada

de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da

contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das

bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é

que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra

domestica.

A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que

fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de

_virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão

publica da sua virtude.

Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a

reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como

a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!

As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que

ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da

paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de

ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.

Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos

dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.

Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e

marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme

eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,

pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações

do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os

interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,

inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que

viveu.

Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter

passado no mundo.

O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades

venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

* * * * *

Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á

luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a

_Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos

periodicos portuguezes são--anonymos.

* * * * *

Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por

que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa

alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que

escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico

que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é

este:--não assignar.

Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é

assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da

Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas

declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a

responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os

effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas

as antipathias que tenha podido suscitar.

Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores

portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem

mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um

tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

* * * * *

A primeira razão por que se não assigna é esta:

A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,

convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios

de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua

machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como

lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se

eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das

muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.

N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da

dignidade e da razão.

Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,

perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a

firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por

transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as

necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é

_responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor

resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na

imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma

opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma

catastrophe para a justiça.

Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo

apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde

sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da

entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se

naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes

dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia

que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:

quanto mais se lê peor se escreve.

Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para

assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa

immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da

publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.

Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê

durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias

que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus

dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do

jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso

que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra

apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber

quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas

que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que

me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de

_galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_

foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,

salchicheiro.

Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas

respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito

socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de

que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle

receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de

magnezia.

* * * * *

Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.

Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema

representativo nacional.

Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,

abalisam uma época, enquadram um seculo.

Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram

sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes

determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua

respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu

para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os

principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma

geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na

frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não

isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de

nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick

e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem

mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se

detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»

* * * * *

O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,

teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação

historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A

posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de

fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de

Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos

contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as

guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o

historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo

actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois

varões extraordinarios!

No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que

vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos

pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha

scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros

ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o

estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o

barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a

nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião

publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os

espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram

as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando

se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos

destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que

esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma

correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas

suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas

ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de

nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do

solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que

Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!

nunca!»

Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á

geographia--e á canalha!

Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo

cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas

unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a

Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos

isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de

pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha

tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó

perra vil!

E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,

os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que

devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na

benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as

peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos

congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,

a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com

cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais

tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita

de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada

botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de

ôlho de perdiz!

Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o

extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das

peninsulas!

* * * * *

Agora--Barros.

Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o

Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos

consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica

o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido

phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

Como o explica, como o justifica elle?

Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera

occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!

* * * * *

Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com

attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,

sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,

magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por

dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

«Elle tem alguma coisa na cabeça!»

Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais

excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o

celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria

parisiense de Champfleury!

Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter

um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio

é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos

trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no

intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando

simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades

o povo--e o passarinho!

Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle

conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas

civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe

arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do

pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de

Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a

que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,

como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e

sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...

Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no

bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de

lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao

toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro

portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos

laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com

suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o

tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do

corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas

amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a

questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as

amplidões do azul em phantasticos arabescos....

E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do

magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso

que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a

andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que

evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um

carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do

que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou

paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e

Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão

Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

* * * * *

Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande

homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance

profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento

e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a

manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se

comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo

recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da

saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres

visitas n'um só bote!

E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um

discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

* * * * *

Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo

menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos

homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão

portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!

Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o

Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e

simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a

extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que

elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir

pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço

para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por

elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus

maiores!

O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este

heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó

ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se

parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

* * * * *

No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um

caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme

fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de

um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um

charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos

algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais

extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,

novos ceus, novas floras e novas faunas.

Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de

oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil

pessoas.

Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se

nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e

com a Russia européa.

Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos

felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar

deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o

thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão

gelados nove mezes por anno.

Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os

Strelitz.

Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em

Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as

caravanas do chá....

E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,

comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara

como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se

soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785

letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e

litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos

no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais

subditos do grande Filho do Ceu.

E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no

espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma

caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem

expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,

fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle

galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por

baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos

Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como

atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um

barril immundo para um fino cristal facetado!

* * * * *

A camara dos srs. deputados....

Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.

deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso

encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que

se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos

como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro

cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o

freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza

apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e

permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr

desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle

aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco

que palpita, ao longe!

E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,

abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do

estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....

A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a

civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de

leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha

realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar

um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um

barril, uma pipa ou um tonel!

E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este

problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a

camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e

revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na

qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

«Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo

antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer

vasilhas.»

Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que

a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face

da Europa a este milagre:

_Engarrafar vasilhas_.

* * * * *

E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena

parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como

uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da

vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples

das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,

aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus

bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente

perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã

camoeza!

Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre

coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma

d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se

seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,

um capitalista ou um sabio.

Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01/02) · 第 3 / 4 段