que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
domestica.
A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
_virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
publica da sua virtude.
Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.
Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.
Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
viveu.
Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
passado no mundo.
O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.
* * * * *
Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
_Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
periodicos portuguezes são--anonymos.
* * * * *
Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
este:--não assignar.
Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
as antipathias que tenha podido suscitar.
Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.
* * * * *
A primeira razão por que se não assigna é esta:
A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
dignidade e da razão.
Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
_responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
catastrophe para a justiça.
Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
quanto mais se lê peor se escreve.
Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.
Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
jornal rouba-o o jornal á educação do povo.
Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
_galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
salchicheiro.
Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
magnezia.
* * * * *
Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
representativo nacional.
Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
abalisam uma época, enquadram um seculo.
Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:
«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»
* * * * *
O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
varões extraordinarios!
No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!
Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
nunca!»
Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
geographia--e á canalha!
Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
perra vil!
E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
ôlho de perdiz!
Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
peninsulas!
* * * * *
Agora--Barros.
Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.
Como o explica, como o justifica elle?
Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!
* * * * *
Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:
«Elle tem alguma coisa na cabeça!»
Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
parisiense de Champfleury!
Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!
Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
o povo--e o passarinho!
Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!
Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...
Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
amplidões do azul em phantasticos arabescos....
E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!
Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!
* * * * *
Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.
Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!
O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:
Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
visitas n'um só bote!
E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.
* * * * *
Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!
Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
maiores!
O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.
* * * * *
No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.
Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
novos ceus, novas floras e novas faunas.
Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.
Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
pessoas.
Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
com a Russia européa.
Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!
Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
gelados nove mezes por anno.
Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
Strelitz.
Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
caravanas do chá....
E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
subditos do grande Filho do Ceu.
E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!
E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
barril immundo para um fino cristal facetado!
* * * * *
A camara dos srs. deputados....
Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
que palpita, ao longe!
E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....
A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:
Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
barril, uma pipa ou um tonel!
E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:
«Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
vasilhas.»
Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
da Europa a este milagre:
_Engarrafar vasilhas_.
* * * * *
E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
camoeza!
Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!
Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
um capitalista ou um sabio.
Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.
Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.